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29 dezembro, 2006

Leitores Gigantes


MARMELO, Manuel Jorge e MARMELO, Maria Miguel (2003) A Menina Gigante. Porto: Campo das Letras (ilustrações de Simona Traina)· I
SBN – 972-610-741-5
Idade recomendada – 7 aos 10 anos

A publicação de A Menina Gigante é mais um bom exemplo da vivacidade e da importância que a literatura infantil portuguesa tem conhecido ultimamente.
Reconhecendo um conjunto cada vez mais alargado de autores que se têm debruçado numa escrita infanto-juvenil, chega a vez de Manuel Jorge Marmelo, conhecido jornalista e escritor de obras como Português Guapo y Matador ou As mulheres deviam vir com livro de Instruções (1997 e 1999, Campo das Letras), que recebeu o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco 2004 com o livro Silêncio de um homem só. Porém, nesta obra reparte a autoria com a sua filha Maria Miguel Marmelo.
A intriga gira em torno de uma criança que intitula o conto – Ana Grande, a menina gigante – e dos seus complexos e dificuldades de adaptações ao meio, causados por um traço físico invulgar, a altura excessiva. Assim, a obra retrata uma situação de desequilíbrio/conflito por si vivida e em relação aos que a rodeiam. Desta forma, a história revela grande pertinência ao tocar na problemática da diferença do outro e da sua aceitação. É um conto que “começa mal, mas acaba bem”, que, de uma forma simples, acessível e com o testemunho desta menina, se estabelece uma relação de proximidade com o destinatário preferencial do texto “ (…) ser ainda uma menina como tu. Percebes? (…)”.
Para esta proximidade com o receptor contribui igualmente a idade da protagonista e a possibilidade do destinatário se poder identificar com os seus comportamentos “Ana grande era uma menina como tu que talvez tivesse a tua idade. Que ia à escola com tu (…)” e desenvolver sentimentos de solidariedade.
É de notar que o narrador apresenta a situação e o “problema” de uma forma cómica através de exemplos concretos “(…) como de costume dormiu com os pés de fora da cama (…)” e de analogias.
A resolução do seu problema surge no desenlace, “(…) quando sentiu que alguém lhe tocava no ombro… era uma senhora que lhe sorria e que, de repente, lhe pareceu muito alta” , oferecendo-lhe uma perspectiva positiva da sua diferença na qual Ana jamais tinha pensado e abrindo-lhe caminho à prática de um desporto onde é valorizada – o basquetebol.
Outro factor que nos leva à adesão da obra são as coloridas e pormenorizadas ilustrações de Simona Traina, que promovem a identificação das crianças leitoras com o universo da protagonista e representações visuais do seu estado de espírito através do traço fino e bem definido, tal como a justificação gráfica da metáfora intitulada A menina Gigante, que ocupa a capa e a contracapa.
Assim sendo, após a leitura deste livro conclui-se que é possível tornar factos verosímeis num corpus literário que nos faça reflectir sobre o universo que nos circunda, mas que, muitas vezes, nos passa ao lado. A necessidade que todos têm de ser aceites e de se integrarem parece estar aqui explícito num discurso pedagógico conduzindo-nos a uma visão optimista e positiva da vida onde os defeitos podem-se tornar em virtudes.
A história de Ana Grande torna-nos leitores gigantes e solidários num mundo sempre em mudança.

Joana Lima

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