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29 dezembro, 2006

Porque as histórias não terminam no instante em que as acabamos de ler…


Saramago, José (2001). A maior flor do mundo. Ilustrações de João Caetano. Lisboa: Caminho.
ISBN 972–21–1437–9
Idade recomendada: 8/9 anos

José Saramago publicou o seu primeiro livro, o romance Terra do Pecado, em 1947 e desde esse primórdio ganho, até aos dias de hoje, é vasto o espólio de livros que comprazem o público leitor. O seu livro Memorial do Convento confiou-lhe o Prémio Nobel da Literatura em 1998, facto que nos pode levar a reportar para as suas obras uma legitimidade “quase” óbvia. Por conseguinte, atrevo-me a falar dos seus livros como obras que, de utópico ou ignoto parecem não ter “muito”, navegando sim rumo ao soberbo.
Envolvidos nesta atmosfera encontramos obras como: Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira
A Maior Flor do Mundo foi o primeiro “passo” de José Saramago num mundo que parece não deixar antever a ideia de quimera, um passo num mundo que é das crianças e no qual me parece que devemos caminhar para percebermos, como ele, que essa utopia pode ser uma realidade colorida e cheia de histórias como esta.
As ilustrações da obra couberam a João Caetano, ilustrador que recebeu Menções Honrosas do Prémio Nacional de Ilustração pelas ilustrações dos livros Os Mais Belos Contos Tradicionais - Ed. Civilização, em 1998, e Conto Estrelas em Ti - Ed. Campo das Letras, em 2000. No ano de 2001, o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e a Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil atribuem o prémio de ilustração a João Caetano pelas ilustrações do livro A maior flor do mundo.
Neste livro as ilustrações contribuem para confirmar a pluri-isotopia do texto e dão-nos a sensação de que estão ali a enriquecer o pitoresco das palavras.
Vemos que a realidade e a ficção continuam a caminhar lado a lado, tanto no texto verbal como no texto icónico. O narrador continua a abrir parêntesis para falar da realidade escrita e na ilustração vemos a realidade do autor que escreve a história e a ficção, que é a própria história. Somos da opinião de que, à luz das comunidades interpretativas, este binómio ficção/realidade apresenta um cariz metatextual que está presente na obra.
O livro inicia-se com uma reflexão do autor textual, que se pronuncia acerca da dificuldade que “tem” em escrever livros para crianças, mas que chegou a imaginar que, se tivesse as qualidades necessárias para colocar a ideia no papel, ela resultaria verdadeiramente extraordinária: "seria a mais linda de todas as que se escreveram desde o tempo dos contos de fadas e princesas encantadas..." (Saramago, 2001: 41).
E assim, mergulhado num cosmo metatextual, acerca das técnicas da escrita literária para crianças, o leitor conhece a história que “queria ser contada”, uma história em que o herói menino, uma criança que, no seio da natureza, vive inúmeras “aventuras aprazadas”, alcança a fronteira entre a Terra e Marte e salva uma flor que permanecia caída e murcha. Para tal, atravessou o mundo todo, foi “vinte vezes cá e lá” e fez “cem mil viagens à lua” (Saramago, 2001: 17). Depois deste acto de coragem o menino é levado para casa “rodeado de todo o respeito, como obra de milagre” (Saramago, 2001: 22).
“Este era o conto que eu queria contar. (…) Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?...” (Saramago, 2001: 26). E assim se dá o desfecho da história que parece deixar antever a ideia de ter ficado em aberto um ou vários caminhos. Caminhos que podem ser propícios àquela “velha ideia” de darmos “asas à nossa imaginação”, à ideia de pormos as “cordinhas do nosso relógio a trabalhar” para podermos continuar as histórias que os “nossos” escritores nos oferecem…

Vânia Dias

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