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29 dezembro, 2006

Sonhos made in China


DACOSTA, Luísa (2004) Sonhos na Palma da Mão. Porto: ASA Editores. Ilustrações de Cristina Valadas
ISBN 972-41-3654-X

Sonhos na Palma da Mão constitui uma obra literária destinada a crianças a partir dos 9 anos

Luísa Dacosta (pseudónimo de Maria Luísa Saraiva Pinto dos Santos), nascida a 16 de Fevereiro de 1927 e formada na Faculdade de Letras de Lisboa em Histórico-Filosóficas, conta em Sonhos na Palma da Mão a história de uma menina “atenta e curiosa” (Dacosta, 2004: 7) que costuma visitar a avó. Um dia, inteirou-se da existência de um pequeno passarinho vermelho “espetado no raminho seco da estante de livros do quarto da avó” (Dacosta, 2004: 7), cuja origem era chinesa. Este passarinho suscitou de imediato o seu interesse e parecia ter muito para contar, passando “a chocar os sonhos da menina” (Dacosta, 2004: 11). E sempre que dormia na casa da avó, pedia: “- Passarinho, querido passarinho, pousa um sonho na palma da minha mão” (Dacosta, 2004: 13). Assim fez o passarinho, e, da abertura do seu coração e da sua leve imaginação, se soltam, então, três sonhos encenados na China, sonhos que se abriam e fechavam “como o abrir e o fechar de um leque” (Dacosta, 2004: 38). Este pequeno passarinho vermelho passou a oferecer a liberdade da fantasia, dando asas à imaginação da menina e permitindo-lhe viajar numa “China de sonho” (Dacosta, 2004: 30).
Estes Sonhos na Palma da Mão, como esclarece, em nota prévia, a autora, “pagam, de certa maneira, o encanto que [lhe] deram «A Rapariga dos Fósforos», a «Sereiazinha», «O Patinho Feio», «O Rouxinol».” Isto porque “Longe, na infância. Com as suas sombras e claridades – Andersen nunca mentiu a vida e soube sempre aliar beleza e sofrimento – rolavam sobre mim, como berlindes mágicos, percorriam-me os cinco cantinhos da alma, abriam portas secretas, permitiam-me respirações, outras, que nem sabia. Uma dimensão, cujo bafo tento, aqui, passar a corações com olhinhos interiores” (Dacosta, 2004: 5).
Evidencia-se, portanto, uma relação de natureza intertextual com as obras de Hans Christian Andersen, especialmente com o «Rouxinol» que trata da história de um rouxinol, o mais estranho pássaro cantor da China que suscitou o interesse do Imperador, tornando-se um êxito na corte real. As semelhanças entre o passarinho vermelho que pousa sonhos na palma da mão e o rouxinol são muitas, parecendo o primeiro ter surgido devido a uma patenteada influência deste conto.
Luísa Dacosta não perde o sentido ou a magia da liberdade e do sonho, que podemos descobrir em muitos dos seus textos escritos para a infância, como O Príncipe que Guardava Ovelhas, O Elefante Cor-de-rosa e A Rapariga e o Sonho.
Recebeu em 1992 o Prémio Máxima de Literatura, pelo seu livro Na Água do Tempo – Diário e em 2002 o Prémio Uma vida, Uma Obra, instituído pela Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, com o apoio da Delegação Regional de Cultura do Norte.
Os seus livros situam-se num registo em que um sabor autobiográfico se mistura à crónica e ao conto.
A narrativa de Sonhos na Palma da Mão é acompanhada de belíssimas ilustrações de Cristina Valadas que se assumem criativamente como uma forma de produzir ou de concretizar a recriação da quimera que Luísa Dacosta nos oferece. Os meios como as formas, as cores e as diferenças territoriais parecem ser, no espaço da página, estrategicamente exploradas conferem uma magia aprazível e um encanto que nos suscita um interesse imediato.
Assim, da fusão da escrita de Luísa Dacosta com as ilustrações de Cristina Valadas resulta um universo especial em que, de forma muito singular e delicada, somos convidados a libertar a emoção e a acordar a imaginação, que, rapidamente, passa a andar de mãos dadas com o sonho.

Ana Grave

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