Ocorreu um erro neste dispositivo

Translate

Follow by Email

29 dezembro, 2006

A Transformação


MAGALHÃES, Álvaro (2001) Hipopóptimos – Uma História de Amor, Porto: Asa Editores (ilustrações de Danuta Wojciechowska).
ISBN 972-41-2641-2
Idade Recomendada: a partir dos 8 anos

«A quem, como tu, está a crescer, tudo ou quase tudo pode acontecer.» (Magalhães, 2001: 16)
Álvaro Magalhães nasceu no Porto em 1951. Em 1982 publicou o seu primeiro livro para crianças, Historias com Muitas Letras. A sua escrita adopta particular importância no domínio da literatura juvenil, as suas obras apelam permanentemente à imaginação e ao sonho. Em 2002, o seu livro Hipopótimos – Uma história de amor recebeu o Grande Premio Calouste Gulbekian de Literatura para Crianças e Jovens. Possuidor de uma originalidade e inimitável irreverência, este autor já adquiriu vários prémios da Associação Portuguesa de Escritores e do Ministério da Cultura. A série "Triângulo Jota", narrativas de mistério e acção, é uma das colecções que tem vindo a alcançar um enorme sucesso junto dos jovens.
O conto Hipopóptimos – Uma História de Amor, aparece-nos como sendo um bom exemplo para um leitor jovem contactar com um conjunto de valores considerados essenciais. São eles, entre outros, os da amizade, da bondade, da solidariedade, do cumprimento da palavra dada, do respeito pela natureza, do amor a vida.
Como podemos reparar no primeiro capítulo, a evocação, a descoberta, a revelação, a aprendizagem e a reflexão sobre a existência são características muito próprias deste conto, que pode ser visionado como “veículo” para o conhecimento da complexidade do ser humano. O pensamento e as condições da existência desenvolvem-se através de um conjunto de acontecimentos que envolvem o rapaz ao longo do conto.
A adolescência e o profundo conhecimento do seu universo são narradas por um jovem, «rapaz franzino que escreve versos e histórias» (Magalhães, 2001: 9).
A sua preocupação acrescida com uma borbulha que nasceu durante a noite no seu nariz, a discussão matinal com a mãe sobre a presença do homem no Mundo e a sua condição trágica no Mundo, são partes que nos mostram que se trata de um rapaz adolescente na fase complicada, a da adaptação. Devido à sua incapacidade de adaptação ao real, eleva o seu espírito buscando o que para ele seria ideal através do sonho, atenuando assim o sofrimento, acerca da rapariga «Era um belo sonho, mas era apenas um sonho ou mais uma imaginação das minhas.» (Magalhães, 2001: 10). É certo que esse rapaz nasceu com uma erva no coração e tem um destino especial, mas nem ele imagina o que o espera. Algures entre a realidade e o sonho há um lugar poético. É aí que decorre esta insólita história de amor, que opera uma delicada união entre o humano e o mundo natural. Se um rapaz ou uma rapariga estão a crescer, tudo lhes pode acontecer. Até se transformarem em hipopótimos!
A questão social presente transmite-nos a imagem do homem esmagado pela cidade no quotidiano e como isso pode influenciar o comportamento e até a própria personalidade das pessoas: «As pessoas, quando vão dentro dos seus automóveis, tratam-se por tu como se tivessem tomado banho na mesma banheira quando eram pequenos. É como se se conhecessem desde sempre e, sobretudo, como se sempre se tivessem odiado.» (Magalhães, 2001: 21).
Este livro é ilustrado por Danuta Wojciechowska, que nasceu no Québec (Canadá), em 1960. Licenciada em Design de Comunicação (Zurique), com pós-graduação em Educação obtida em Inglaterra, vive e trabalha em Lisboa desde 1984. Em 1992 fundou o atelier Lupa Design, onde se dedica ao design, ilustração e cenografia. Dedica-se às áreas da educação, social, ambiente e cultura, mas sobretudo à ilustração infantil.
Recebeu diversas Menções Honrosas no "Prémio Nacional de Ilustração": em 1999, pelas ilustrações do livro Fala Bicho, de Violeta Figueiredo; no ano de 2000 foi distinguida pelo livro O Limpa-Palavras e outros poemas, de Álvaro Magalhães; em 2001 com livro O Gato e o Escuro, de Mia Couto, e em 2002 pelas suas ilustrações na obra Mouschi, o Gato de Anne Frank, de José Jorge Letria.
Dos vários livros que ilustrou, além dos mencionados, destacamos ainda À Procura do Ó-Ó Perdido, de Pascal Sanvic; Fiz das Pernas Coração, Contos Tradicionais Portugueses, de J.A. Gomes; Hipopótimos - Uma História de Amor, de Álvaro Magalhães e Em Branco, de Teresa Guedes.
Neste livro cartonado, que tem como imagem principal um hipopótamo, as suas ilustrações, transmitem-nos cor e personalidade. As imagens dão identidade e expressões próprias às ideias do texto, são de tal forma transformadas que parecem ser capazes de falar. São ilustrações que, em muito, contribuem para expandir a pluri-isotopia do texto, possuindo a palavra e a imagem uma relação de complementaridade. Transmitem-nos uma festa de cores harmoniosamente combinadas.
Esta é uma história para miúdos e graúdos se deliciarem.

Deolinda Gomes

Sem comentários: