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05 janeiro, 2007

A Menina do Mar

A MENINA DO MAR

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu a 6 de Novembro de 1919 no Porto, e sempre viveu “envolvida pela literatura”, mesmo antes de aprender a ler, o avô ensinou-a a recitar Camões e Antero de Quental. A maternidade motivou-a a enveredar pela literatura infantil e assim surgiram para além da obra citada (1958): “O Rapaz de Bronze” (1956), “A Fada Oriana” (1958), “Noite de Natal” (1960), “O Cavaleiro da Dinamarca” (1964), “A Floresta” (1968) e “Árvore” (1985). Foi distinguida com vários prémios, entre os quais, em 1994, o Prémio Vida Literária, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores; no ano de 1999, o Prémio Camões, considerado hoje o reconhecimento maior e mais nobre que um escritor de língua portuguesa pode receber na sua área linguística, e mais recentemente com o Prémio Max Jacob.
Nos seus textos e particularmente no citado, evidencia-se um forte apelo às sensações visuais, tácteis e auditivas, através das quais se estabelece relação com a realidade criada pelas palavras. Percorrendo a sua obra, quer poética quer ficcional, encontramos sempre presentes os quatro elementos primordiais do Universo: a Terra (jardim, flor e árvore), a Água (rio, fonte, mar), o Ar (vento e brisa) e o Fogo (factor de transformação).
O mar, a imensidão do mar, o “mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim”, assume uma presença genesíaca e purificadora no presente texto, e, de um modo geral, em toda a obra de Sophia. Além do mar há a praia, a casa e os jardins que suportam e fazem a estrutura da sua procura de perfeição, pureza e harmonia (Elvira Moreira, 2002) e da difusão dos seus valores, sonhos, mistério, justiça.
O ilustrador do livro em análise, Luís Noronha da Costa, realizou uma manipulação sábia do texto icónico e demonstrou estar ciente das características da autora, optando pelas parcas ilustrações, o que dá à criança uma muito maior liberdade de imaginar e criar as personagens e os espaços, o que é suscitado fortemente pelo texto escrito, pela expressividade que a autora lhe imprime (forte apelo às sensações).
A obra em análise emerge da “paixão” pela natureza, particularmente, marítima da autora sendo muitos dos seus temas literários marcados por esta característica, como já foi mencionado: metade da minha alma é feita de maresia. Trata-se de uma narrativa que gira em torno da amizade que se cria entre o rapaz e a Menina do Mar e de todo o percurso que realizam até ficarem juntos para sempre. Os valores que imediatamente ressaltam desta obra são os da amizade, do amor, da pureza dos sentimentos, que se efectivam particularmente entre as duas personagens principais da narrativa (o menina e a menina do mar) e os seus amigos e protectores (caranguejo, peixe e polvo). E é a interiorização da importância desses valores que, na nossa perspectiva, a autora pretende difundir através da leitura da obra, para a vivência com o Outro em harmonia, contribuindo para o restabelecer do equilíbrio (valores tão enfatizado pela autora).
Trata-se de uma narrativa curta, pautada pela acção e aventura, pela contínua descoberta, pelo envolvimento puro das personagens principais, e pela atracção das descrições, que são feitas recorrendo-se essencialmente a substantivos, embora Sophia use também a adjectivação, que pode ser simples ou múltipla. Quer os substantivos quer os adjectivos possuem sempre significação simples, clara, quase sem transposição metafórica, e estão organizados de tal forma que nos parece estar a vivenciar a realidade por eles retratada, em que, para além de vermos, sentimos, tacteamos, cheiramos. Há nesta narrativa um apelo fortíssimo a todas as nossas sensações: “A praia estava coberta de espumas deixadas pelas ondas da tempestade. Eram fileiras e fileiras de espuma que tremiam à menor aragem. Pareciam castelos fantásticos, brancos mas cheios de reflexos de mil cores. O rapaz quis tocar-lhes, mas mal punha neles as suas mãos os castelos trémulos desfaziam-se.” A autora emprega portanto uma linguagem, ao mesmo tempo que envolvente e expressiva, clara e compreensível para as crianças, o que as cativa, estimulando-as continuamente para a leitura da obra. No entanto, Sophia retira ainda partido de outros “dispositivos” para cativar a atenção da criança, e são eles a constante referência àquilo que esta prefere e lhe dá prazer: os animais, os alimentos, os enfeites, as brincadeiras, que estimulam continuamente o seu imaginário. Animais que são humanizados pelas suas “funções” domésticas, familiares para com a menina: o polvo maternal que lhe pega ao colo, embala e alimenta e lhe “faz a cama com algas muito verdes e macias”; o caranguejo que é o seu fantástico ourives; o peixe o seu melhor amigo, enfim a menina é rodeada pela protecção e amizade de um conjunto de animais que são quase como sua família. Também, o recurso ao maravilhoso, que está sempre presente ao longo da história mas, mais claramente, nas figuras da menina e da Grande Raia, que “É enorme, tão grande que é capaz de engolir um barco com dez homens lá dentro”. E ainda, a narração, que embora seja feita muitas vezes na terceira pessoa, é também apresentada na primeira, quando cada personagem assume o discurso narrativo o que, na nossa perspectiva, acaba por, igualmente, constituir-se numa estratégia de aproximação do leitor. Repare-se que é nestes momentos de diálogo e narração na primeira pessoa que se percebe, com maior profundidade, as relações entre as personagens. Sobressai ainda o facto de as personagens não possuírem nomes próprios, como é o caso do rapaz: esta situação leva-nos a considerar que a autora faz destas personagens, personagens-tipo, relacionando-as com a infância. Esta realidade funciona, a nosso ver, igualmente como um apelo à imaginação da criança, visto que esta se pode perspectivar no papel das personagens. É ainda de salientar que este conto constitui uma narrativa aberta, susceptível de ser continuada pelas crianças, não só o seu final como cada um dos seus capítulos, pelo apelo sensorial que faz à sua imaginação, levando o leitor a recriar continuamente a história.
Por tudo o que foi apresentado, na nossa óptica, a autora, com a visão literária que difunde, desperta o leitor para a riqueza do texto literário, para a “magia” da palavra, sendo uma obra de incontornável preponderância, particularmente, no 1º ciclo do Ensino Básico.


Patrícia Almeida & Daniela Silva

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