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03 janeiro, 2007

O Capuchinho diferente


Referência Bibliográfica:
Araújo, Matilde Rosa (2005): O Capuchinho Cinzento. Prior Velho: Paulinas Editora (ilustrações de André Letria)

O Capuchinho Cinzento é uma obra da autoria de Matilde Araújo, autora de livros de contos e poesia para o mundo dos adultos e de livros de contos e de poesia para as crianças e é ilustrado por André Letria. André Letria confere ao livro ilustrações por vezes irreais mas repletas de criatividade, proporcionando um resultado absolutamente hilariante e ideal para o mundo das crianças em idade pré-escolar. Sublinha linhas de sentido e coloca desafios interpretativos, sendo importante no jogo que qualquer leitor é chamado a fazer no balanço entre a versão clássica da história (“Capuchinho Vermelho”) e o seu desenvolvimento.
O Capuchinho Cinzento é uma obra que nos proporciona uma comovente experiência de criação e de leitura e reencontramo-nos com alguns dos sentidos e dos elementos simbólicos recorrentes na escrita desta autora maior da literatura potencial recepção infantil. A prosa poética de Matilde Araújo em O Capuchinho Cinzento é uma estratégia de construção literária relativamente e rara na escrita destinada aos mais novos.
Este livro relata a história de uma velha de capuchinho cinzento que de noite se levanta repentinamente, abandona as roupas dos netos que estava a remendar e, com o dedal, dirige-se a cantar pelo bosque em direcção a uma fonte, a qual não alcança, pois senta-se numa pedra a descansar sendo seguida pelo Lobo que acaba por com ela se encontrar.
O próprio título institui diferença em relação á história tradicional do Capuchinho Vermelho, pela substituição da cor vermelha pela cinzenta, tonalidade esta que indicia um certa melancolia e como simbolicamente a própria cinza não só nos remete para o luto mas também para a esperança de uma nova vida. As contínuas evocações intratextuais da história do Capuchinho Vermelho acordam o leitor desta renovada narrativa que é agora da velha do Capuchinho Cinzento, esse conto incontornável da nossa enciclopédia literária, bem como do espaço da infância guardado na memória pessoal de muitos adultos.
É de salientar, que nesta história em relação á tradicional do Capuchinho vermelho não está presente o confronto agressivo entre o Lobo e o Capuchinho pois o que é realçado nesta narrativa é reconciliação entre ambos.
Matilde Araújo, nesta narrativa clássica, desvende assim um vida interior, metaforizando a temática da velhice e dos diferentes medos que esta encerra.
Em suma, esta obra pauta-se pelo tom apelativo de carácter intimista, pelo esquema dialógico, pelo forte sensorialismo, que faz sobressair a visão e audição, e pela estruturação reiterativa , situa o leitor num espaço passado e o presente, a infância e a velhice, a serenidade ingénua e a angústia consciente face á certeza de que, como imparável água que corre da fonte e que não adianta “prender na cantarinho de barro”, também a vida não tem retorno, uma temática cadente na escrita da autora.

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