Ocorreu um erro neste dispositivo

Translate

Follow by Email

05 janeiro, 2007

O ELEFANTE COR DE ROSA



A obra em análise pertence ao Plano Nacional de Leitura, sendo direccionada para o 4º ano do Ensino Básico do 1º ciclo. Trata-se de um texto de Luísa Dacosta, que iniciou a sua vida literária em 1955, participando em numerosos periódicos e dedicando-se igualmente à tradução. O trabalho com crianças, enquanto professora do ciclo preparatório, desperta-a, dezassete anos mais tarde, para a literatura infantil, referindo que deve aos seus alunos o ficar ao lado do sonho, característica profundamente marcante nesta obra. As ilustrações, nesta segunda edição do livro, devem a sua originalidade e apelabilidade a Francisco Santarém, que cria uma envolvência icónica que em muito enriquece a história.
Os aspectos que, na nossa óptica, ressaltam, com maior evidência e significatividade, na obra, e que portanto serão objecto da presente recensão, dizem respeito à sua componente gráfica e icónica, às estratégias de aproximação texto-leitor que utiliza, à forte presença do maravilhoso que evidencia, ao universo de contrastes que apresenta, e, por fim, aos valores que vincula.
Podemos desde já incluir a componente gráfica e icónica no seio das estratégias de aproximação texto-leitor, um elemento paratextual de crucial relevância na obra captando a atenção do narratário bem como estimulando continuamente a sua curiosidade, em cada página que este esfolha. Este feito não é apenas conseguido através da originalidade e apelabilidade das ilustrações que, para além de acompanharem fidedignamente o texto, lhe atribuem uma maior expressividade, mas ainda pelo próprio grafismo do texto escrito, marcado por uma alternância do tamanho dos caracteres. Todas estas “situações” paratextuais lançam pistas ao leitor, onde este se poderá ancorar para uma melhor e mais fácil interpretação e compreensão dos sentidos implícitos inerentes ao texto. Repare-se que no decorrer do livro, a alternância de cores e de caracteres que se evidencia parece dar a entender diferentes e contraditórios “estados de coisas”. O livro inicia com a frase "no sonho, a liberdade...", o que conduz imediatamente o leitor para um mundo imaginário onde tudo é possível, situação que é alimentada pelas páginas seguintes: "Era uma vez um elefante cor de rosa…" De repente vira-se mais uma página e desconstrói-se imediatamente esta alusão ao sonho, mudam-se as cores, muda-se o cenário, quebra-se o encanto, “aterram-se os pés no chão” num mundo real onde "…não existem elefantes cor de rosa!! À distância de uma página o leitor reencontra a fantasia, na qual foi embebido numa fase inicial, volta-se a alimentar do sonho, da imaginação. Esta abordagem, alicerçada não só pelo texto escrito como por todos os elementos paratextuais, na nossa perspectiva, intrigam o leitor, envolvendo-o num estranhamento que o prende e leva, continuamente, a virar de página para se aperceber do desafio que o autor lhe impõe em cada segmento do texto. O próprio título do texto contribui para o apelo ao sonho, para o estímulo à imaginação do leitor, à curiosidade, constituindo, desde já, um convite à leitura da obra. O próprio discurso verbal utilizado é marcado por um forte carácter simbólico e sinestésico, recorrendo a expressões sensoriais e metafóricas que lhe atribuem uma expressividade que alicia à leitura, e ainda que transporta o leitor para o próprio imaginário que é evidenciado na história, onde este quase que pode experienciar na primeira pessoa tudo o que ali é retratado e vivido: "todos os dias, em águas límpidas os elefantezinhos bebiam o arco-íris e as estrelas, quando vinham banhar-se e matar a sede".
O recurso ao maravilhoso, desde já reflectido na citação anterior, está aqui profundamente demarcado não só na descrição das personagens, entre as quais o nosso elefantezinho, mas dos próprios mundos, onde emerge uma nítida contraposição entre o do protagonista da história e o planeta terra. No entanto outros contrastes se apresentam, nomeadamente entre a vida/morte; amizade, companheirismo/solidão. A história desenvolve-se portanto à volta destes sentimentos contrastantes, visto que o elefantezinho vai, progressivamente, descobrindo a oposição aos sentimentos “bons” que experienciara até ao momento, a partir da morte de uma simples, e ao mesmo tempo tão essencial, flor. Este percurso fará com que descubra o que é o sofrimento: "o elefantezinho deu pela primeira vez conta de que tinha coração e que nele havia um espinho". E aqui se dá o ponto de viragem da história, o conflito, o início da trajectória.
A história encontra igualmente o seu valor didáctico ao nível dos valores que promete, onde, envoltos no sonho e na imaginação, a entreajuda e a solidariedade prevalecem. Repare-se na essencialidade destes valores na actualidade, onde muitas vezes se vive e sobrevive num ambiente de frieza de sentimentos, onde a dureza da realidade não permite às pessoas sonharem e deixarem-se conduzir pela imaginação. E é muitas vezes nesse universo alternativo, de que fala o texto, que residem os melhores e mais sinceros sentimentos.

Patrícia Almeida & Daniela Silva

Sem comentários: