Ocorreu um erro neste dispositivo

Translate

Follow by Email

03 janeiro, 2007

O farol de todos nós


CHICO (2004): Um farol só meu. Ilustração do próprio autor. Porto: Âmbar.
ISBN: 972-430-789-1
Idade recomendada: a partir dos 6 anos

O livro Um farol só meu é o primeiro livro ilustrado da autoria de Francisco Cunha, que tem Chico como seu pseudónimo. Nasceu em Vila do Conde, em 20 de Julho de 1970. Desde cedo sentiu grande paixão por banda desenhada, o que o levou mais tarde, em 1999, a viajar para a Bélgica para frequentar o Instituto de Belas Artes Saint Luc, em Liège. Foi aí que descobriu o mundo mágico do livro infantil.

Um farol só meu (livro já traduzido em Inglês – My Very Own Lighthouse) é uma história contada na 1ª pessoa, num ambiente marítimo, usando um discurso muito próximo do pequeno leitor. Dirigida a crianças com idade superior a 6 anos, fala-nos de uma menina que vive angustiada e com medo de perder o pai sempre que este parte para a pesca. Um dia, num acto de grande coragem e na tentativa de acabar ou minimizar esta dor, a menina arma uma estratégia para ajudar o papá a encontrar o caminho de volta para casa: construindo um farol!

Verificamos que nesta obra existe uma peculiar concatenação e complementaridade entre o texto verbal e icónico para estabelecer o significado da história, de tal maneira que para contá-la temos que recorrer tanto ao que dizem as palavras como ao que dizem as ilustrações. No fundo as imagens e a sua organização gráfica não estão apenas a confirmar e ilustrar o que diz o texto. Dão-nos informações, que, não sendo fundamentais para a compreensão da história, nos desafiam a jogar com os seus significados num leque mais vasto de possibilidades de interpretação. Os elementos paratextuais imbuem na mente do pequeno leitor um ondular de emoções, provocando nele uma participação activa na transposição do conto para a similitude de situações singulares na sua vida: nomeadamente, ocasiões em que se veja privado da companhia dos seus progenitores.

Também verificamos que toda a informação apresentada no livro, desde os paratextos ao texto verbal e icónico, tem sempre algo relevante que o completa e ajuda o leitor a encontrar os vários sentidos, significados, interpretações que o texto promete, possibilitando uma experiência interpretativa mais completa. Por exemplo, na contracapa está presente a opinião do autor sobre o contributo que a obra pode dar; a dedicatória do livro “Para o meu filho Noé”; a homenagem “…às crianças que vivem ao meu lado, no bairro de Caxinas” (Chico, 2003) e finalmente os diários íntimos do autor, na penúltima página – “A separação é sempre difícil, ainda mais quando acompanhada pelo medo. É esse medo que se senta ao nosso lado durante esses momentos à noite em que nos encontramos sós, os momentos de pesadelo. (…) E assim adormecemos num bairro de pescadores, perto da minha casa, onde há crianças que vivem a separação vezes sem conta”

Estes elementos possibilitam ao leitor uma experiência de leitura mais produtiva e mais imediata, pois nestes encontram-se particularidades que nos ajudam a contextualizar e desbravar a teleologia subjacente à obra casuisticamente apreciada.

Amplamente ilustrado, esta obra constitui um texto narrativo no qual, desde o início, se promove uma proximidade notória entre o narrador e o receptor, quer pelo facto de aquele se dirigir directamente a este, quer pelo uso de um registo de língua familiar, pautado, por vezes, até, por um certo tom confessional, quer, ainda, pela recriação de um cenário de intimidade e de familiaridade.

As ilustrações permitem ao receptor não só caracterizar a personagem como também emocionar-se, tal é evidente quando é ilustrado um sonho da menina. A imagem mostra uma menina a dormir e por trás está o “sonho mau”, onde se vê uma espécie de ondas feitas por notícias de jornais todas referentes ao mar e muito desorganizadas, retratando o movimento das ondas onde o seu pai se vê envolvido. Para tentar minimizar este medo a menina decide ver livros de faróis pois estes “ajudam os pescadores”. Vêem-se, então, vários livros abertos, todos com imagens de faróis, não se dando muito destaque à protagonista mas sim aos livros que escolheu. Interessante é reparar que estes livros não falam sobre faróis… mas sim alguns dos direitos das crianças, visto que, a menina sente-se como o direito de estar com o pai, direito à segurança simbólica, de estar com a família, ou seja, com aqueles que lhe dão carinho e amor.

O livro Um farol só meu é especial, porque neste vimos reunidas palavras e imagens que nasceram de uma só mão, de uma sensibilidade no singular, da arte de Chico. É uma obra que fascina, que cativa, que prende o leitor com imagens vibrantes e arrojadas e transmite uma história comovedora de superação de ansiedade e medo causado pela separação.

O farol ocupa, como se depreende pelo título, lugar angular de toda a história. Este elemento de grande riqueza simbólica traduz a necessidade de estar com o pai, numa relação de amor, afecto e respeito pelo outro. Extrapolando-se a sua significação, vê-se no farol a luz ou tudo aquilo que de positivo nós devemos transmitir para possibilitar uma aproximação a quem nos rodeia.

O grande ensinamento deste conto é que a distância física ou emocional (simbolizada no livro pelas viagens no mar alto) pode ser anulada no abraço do amor.


1 comentário:

Leitor UM disse...

Cara Andreia,
Parabéns pela leitura que efectua deste maravilhoso livro e também pela sua escolha!
Cumprimentos