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03 janeiro, 2007

Olhar pueril sobre valores humanos

MARMELO, Manuel Jorge & MARMELO, Maria Miguel (2003): A menina gigante, in Colecção Palmo e Meio, nº28. Ilustração de Simona Traina. Porto: Campo das Letras.
ISBN: 972-610-741-5.


A história A Menina Gigante tem como principal protagonista uma menina - Ana Grande que, por ter uma altura superior à normal na sua idade, vive cheia de complexos e com uma constante sensação de desconforto emocional e social.

O narrador não se limita a dar-nos só conta da sua extraordinária altura, quando esta é alvo das maldades e da crueldade dos colegas, fazendo com que se isole do grupo, conduzindo-a à reflexão sobre a razão da sua diferença e, inclusivamente, à questionação da sua própria identidade, mas é aqui que o autor também nos dá a conhecer que Ana Grande é adoptada, o que a perturba ainda mais, sofrendo mais uma vez conflitos interiores e decidindo fugir de casa.

No dia seguinte, a menina conhece uma senhora, que também tinha passado pelo mesmo problema quando era criança, que a ajuda não só a aceitar-se tal como é, mas também a aprender a valorizar-se e a tirar partido dos seus defeitos, abrindo-lhe caminho à prática de um desporto (basquetebol). Esta leva-a conhecer meninos e meninas como ela e aí sente-se valorizada e útil.

Nesta perspectiva, o conto revela uma grande pertinência ao tocar, de forma simples e acessível, na problemática da diferença do outro e da sua aceitação, valorizando de forma positiva, no desenlace, pela restauração do equilíbrio e alteridade. Ana é, por isso, uma personagem modelada e dotada de densidade psicológica, capaz de evoluir ao longo da história.

O autor ao longo da obra dirige-se directamente ao receptor como se de alguém conhecido ou familiar se tratasse. Pelo facto de o tratar, informalmente, por “tu”, informando que a Ana Grande constitui alguém “que talvez esteja sentada ao vosso lado” é, também, um contributo para aumentar o interesse e a atenção pela leitura.

A protagonista, ao longo da história, é caracterizada como alguém trapalhona, desengonçada, desmiolada, tudo por causa da sua altura. A sua singular característica física provoca não só o desconforto nos movimentos, mas também estranheza nos outros, pais e amigos. Embora Ana tenha uma altura de uma pessoa grande, ela só quer ser compreendida como uma criança igual às outras, visto que seu rosto e seus modos são exactamente iguais aos dos meninos e meninas da sua idade.

Mormente, esta obra toca acima de tudo em temas como a exclusão e alteridade. Por isso, tenta transmitir valores como a aceitação das diferenças e perceber que também estas se podem tornar em virtudes; transmite ainda a importância do amor, da amizade, da bondade, da solidariedade, da determinação, do reconhecimento e do conceito de cidadania. Enfim, “pede” aos receptores que desenvolvam a capacidade de descobrir o “lado solar” de um momento escuro e a possibilidade de ler o mundo de uma forma não ingénua, mas sim de uma forma mais consciente e livre, num claro apanágio da teoria da recepção.

Na medida em que o contacto com a literatura molda a mente e o coração da criança, há que admitir que influi nela pedagogicamente. Como tal, a saudável convivência com a diferença, e o transmitir os demais valores humanos, é algo que deve ser fomentado nas mentes mais jovens e este livro cumpre essa nobre missão.

O autor Manuel Jorge Marmelo nasceu no Porto em 1971 e é jornalista desde 1989. Estreou-se nas letras em 1996 com o livro O homem que julgou morrer de amor/O casal virtual. Em Novembro de 2003, o autor publicou o seu primeiro livro infantil, A Menina Gigante, escrito em parceria com a sua filha, Maria Miguel Marmelo, e ilustrado por Simona Traina.

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