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06 janeiro, 2007

Um mundo onde reina a paz!


Soares, Luísa Ducla.O Soldado João. Estúdios Cor.

Ilustrações: Zé Manel



O Soldado João

Considerada uma das mais importante escritoras portuguesas na área da Literatura Infantil, Luísa Ducla Soares nasceu em Lisboa a 20 de Julho de 1939 e estreou-se em 1970 com o volume de poesia Contrato. É de salientar que em 1973 recusou, por razões políticas, o Grande Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, atribuído ao seu primeiro livro para crianças, A História da Papoila (1972). Saliente-se ainda a participação da autora no suplemento infantil do Diário Popular (1972-1976), período onde surgiram diversos contos seus, tendo vários outros sido completamente cortados pela Censura. Foi este o caso de O soldado João, no qual a autora abordava o problema da guerra colonial; o conto seria editado mais tarde, em volume autónomo. Luísa Ducla Soares participou, também, na revista didáctica Rua Sésamo (1990-1995).
Autora muito apreciada pelo público e pela crítica, Luísa Ducla Soares viu, em 1986, o seu livro 6 histórias de encantar receber o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças pelo Melhor Texto do Biénio 1984-1985. Dez anos mais tarde foi-lhe atribuído o Prémio Calouste Gulbenkian pelo conjunto da sua multifacetada obra. Em 2004 foi nomeada para o Prémio Hans Christian Andersen da IBBY (International Board on Books for Young People), geralmente considerado o Prémio Nobel da Literatura para a Infância.

José Manuel Domingues Alves Mendes, conhecido por Zé Manel, começou a revelar a sua aptidão para o desenho aos seis anos de idade, e apenas com dezassete anos estreava-se, profissionalmente, como ilustrador de cartoons em Parada da Paródia. É um artista de traço elegante e cores de arco-íris, com uma longa carreira a deslumbrar gerações.

A obra O Soldado João foi publicada pela primeira vez em 1973 numa época histórica portuguesa da Guerra Colonial, sendo este um aspecto de uma ousadia invulgar nesta altura. Apesar disto, o livro mantém aspectos actuais. De facto, se se tiver em conta o que se tem evidenciado no mundo ultimamente com os conflitos de guerra, a configuração ideotemática e o enquadramento ético-moral que, facilmente se identificam nesta obra, representam, obviamente, um factor determinante para a importância da divulgação desta narrativa, nomeadamente aos mais pequenos.
Esta obra, O Soldado João, gira em torno de uma personagem, um soldado, uma figura-tipo construída a partir da subversão de um conjunto de aspectos delineares que pertencem a uma situação de conflito, de guerra, como se pode verificar a partir da seguinte secção textual: "Pelos campos fora, o soldado João era a vergonha dos batalhões. Trazia uma flor ao peito, punha as mãos nas algibeiras, coçava o nariz, não acertava o passo." (Soares: 3).
Este texto, para além de se desenrolar em volta de um conflito, demonstra, ainda, uma estrutura baseada num antagonismo de forte tonalidade antitética, pois o narrador recorda o sítio de origem do herói, opondo-o "à terra da guerra" (Soares: 7) em que se vê obrigado a deslocar-se, mas sem nunca esquecer a terra de origem: "O soldado João continuava a marchar, feliz e desengonçado como se fosse à feira comprar gado ou ao mercado vender feijão" (Soares: 5).
É também importante referir o papel da autora, já que consegue abordar de modo original e simples, o que habitualmente se apelida como tema difícil da literatura para crianças e jovens, a guerra. De facto, trata-se de uma obra muito acessível e de linguagem clara, permitindo, assim, abordar uma temática complicada sem chocar os leitores mais novos. Considerámos, igualmente, que a obra guarda uma mensagem muito importante, terminando a sua narração de forma feliz, já que João, o soldado, depois de receber uma condecoração "com duas luzentes medalhas de ouro" e de assistir à comemoração da paz, regressa feliz à sua terra de origem "onde de novo sacha milho, rega cravos, semeia couves e manjericos" (Soares: 9), atribuíndo, deste modo uma importância aos trabalhos do campo. Desta forma, é de nosso entender que este livro é um clássico da literatura de recepção infantil, um livro de exemplo para dar aos pequenos leitores para quando se quiser abordar esta temática tão complicada com as crianças (e não só), mas que felizmente acaba em bem.
Susana Boaventura e Sílvia Salgueiro

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