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05 janeiro, 2008

A que sabe a Lua

Quando, no livro de Eric Carle (2006) “Papa, please get the moon for me”, traduzida para castelhano por “Papa achega-me a lua”, da editora Kalandraka, a menina pede ao pai que lhe chegue a lua, pois ela, ao vê-la ali tão perto e tão bonita, apetece-lhe colhê-la. Porém a tarefa não é fácil e o pai necessita de uma escada muito comprida para conseguir satisfazer os desejos da filha.O texto verbal e icónico, aqui apresentado, poderá referir um sistema de equivalências de sentidos infinitesimais que podem ser estabelecidos no processo de leitura porque “ (…) meaning is imagistic” diz Iser (1997:2) e “ (…) os níveis de realidade que a escrita suscita, a sucessão de véus e de escudos talvez se afaste até ao infinito, talvez apareça sobre o nada.”, acrescenta Calvino. (1995:391) Se o significado de um texto é imaginável e pode aparecer sobre o nada, então, poderemos imaginar também que alguns pequenos e jovens leitores, depois de estudarem o processo que levou à constituição da União Europeia, considerariam que a lua, desta história, poderia transformar-se na bandeira da união europeia. Aliás o céu azul e as estrelas amarelas das ilustrações levan-nos directamente para esse quadro. Por outro lado, a escada interminável, utilizada pela personagem pai na história, poderá representar os cinquenta anos que mediaram desde a assinatura do primeiro Tratado, no longínquo ano de 1957, até à aprovação do Tratado Reformador assinado no passado mês de Outubro, em Lisboa."Criando desordens significativas, ou inúmeras possibilidades interpretativas este texto assumiu-se assim, na sua relação com o leitor e restituiu-lhe o seu papel preponderante na continuidade do fenómeno literário"dizia Eco. (2004:177)
Esta preponderância do leitor contribuiu para a identidade desse mesmo texto, que neste caso foi conseguida pela atribuição de um quadro de referências do mundo empírico-histórico factual, não só relacionada com a problemática da integração europeia mas também (…) “from lexical meanings to the constellation of characters.” (ISER,1997:34). Ou seja, dos significados lexicais proporcionados pelos objectos reais, em cena, como sejam, a escada e a lua, à constelação de personagens, do pai e da menina, que poderiam, por outro lado, ser eles próprios objecto de análises poderosas.

12 dezembro, 2007

As estações


Se a literatura pode ser uma mentira, como Iser refere, ela também é um modo operacional que abre caminhos para diferentes versões da nossa própria casa, do nosso próprio mundo. Nesta abertura de caminhos tem um papel preponderante, segundo a teoria da estética da recepção, o observador, que no processo de leitura analisa a interacção texto/leitor, não como acontecimento produzido apenas pela imaginação do leitor, mas pela intersecção de normas históricas, sociais e linguísticas. O autor e o leitor perdem assim a subjectividade. O autor abandona toda a intenção e o leitor torna-se dotado de competência semiótica e intertextual.Assim, a indeterminação ou os espaços em branco (Eco, 1971:36) proposta pelos textos, não são uma fraqueza do sistema literário, mas uma qualidade essencial que permite o compromisso criativo. Na obra da escritora italiana Iela Mari “L’Albero” publicada em castelhano pela kalandraka com o nome “As Estacións” é dada ao leitor quase todo o poder para fazer as significações desejadas consubstanciando-se no que Eco chama de obra aberta que tende “ (…) a promover no interprete (actos de liberdade consciente), a pô-lo como centro activo de uma rede de relações inesgotáveis (…)”. Desta forma a ficção torna-se um acto de ultrapassar fronteiras – reais e ficcionadas. Por virtude da celebração da plasticidade da literatura e num discurso pictórico em que as cores vão revelando as vozes enunciadoras da problemática em causa porque “ (…) A arte, enquanto estruturação de formas, tem modos próprios de falar sobre o mundo e sobre o homem” (Eco, 1971:36), poderá acontecer que ao falarmos da passagem das estações por esta árvore, o L‘Albero, o leitor vá recordando a necessidade da protecção da floresta, tema tão contemporâneo, a par das inferências possíveis ao tema da preservação da nossa casa comum, a terra, num quadro de uma visão não cartesiana da natureza onde todas as criaturas vivas têm direito ao seu espaço vivencial. Esta obra poderá também recepcionar-se pelo sentimento da paisagem, sentimento intelectual e afectivo que se consubstancia pela necessidade de construção de habitats ecologicamente seguros. O esquilo, que tem que mudar de casa consoante as estações, responde a variáveis antropológicas das valências do lugar, indiciando diferentes formas de viver num espaço – tempo – movimento, mas sempre pugnando por encontrar nele um lugar reconhecível, como lugar destinado aos seres humanos e aos animais. Mais uma vez, a literatura tornou-se um modelo operatório que abriu caminho para diferentes versões do mundo que se consubstanciam em diferentes identidades intimamente ligadas à relação entre texto e leitor pois, implicaram uma troca contínua de pedidos e ofertas entre ambos, onde o objecto literário ganhou uma carga simbólica pela importância da mente do leitor na atribuição do sentido do mesmo. (Fish, 1984:50)