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22 dezembro, 2006

Um novo mundo


DACOSTA, Luísa (2005). O Elefante cor-de-rosa. Colec. “Obras completas de Luísa Dacosta”.Ilustrações de Armando Alves. Porto: Edições ASA
ISBN: 972-41-4184-5

Este livro é da autoria de Luísa Dacosta, pseudónimo de Maria Luísa Saraiva Pinto Dos Santos, que nasceu em 1927, em Vila Real de Trás-os-Montes. Formou-se em Lisboa em Histórico-Filosófico na Faculdade de Letras. Foi professora do ciclo preparatório e em 1997 reformou-se por limite de idade. O ilustrador foi Armando Alves, que nasceu em 1935, em Estremoz. Fez o curso de Preparação às Belas Artes na Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa. Completou o curso de Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto e, entre 1962 e 1973, foi Professor Assistente nessa escola. A sua obra tem sido exposta no país e no estrangeiro.
Esta é uma história que se desenrola em torno de um pequeno elefante cor-de-rosa, referindo-se ser esta a cor dos sonhos das crianças. Este livro pode ser dividido em dois momentos. O primeiro refere-se à vivência feliz, alegre e serena do elefante cor-de-rosa com os seus companheiros. O segundo momento é assinalado pela morte inesperada desse mundo, vendo-se assim o elefante obrigado a partir e terminando por ir viver para a imaginação de uma criança.
Este livro não começa de forma tradicional com a expressão hipercodificada “era uma vez”, mas sim “no sonho a liberdade...”. Contrariando certas regras ortográficas, nomedamente o início por letras minúsculas, permite, ao leitor, deduzir que, no sonho, tudo é permitido até mesmo não obedecer a algumas regras. O texto contém uma forte carga emotiva e um elevado jogo de contrastes: planeta do “elefante cor-de-rosa”/planeta terra; vida/morte; amizade/solidão. A história vai crescendo em torno de um conflito que possui tudo de humano, mas que é protagonizado por esse elefante especial e pelos seus amigos, seres marcados por uma forte componente maravilhosa. Num primeiro momento estes desconhecem o sofrimento e o conhecimento deles é a ausência do conhecimento. O narrador procura envolver e criar uma proximidade com o leitor. A ilustração acompanha o texto e o tamanho dos caracteres.
Trata-se, enfim, de uma história de sonho e de fantasia que aborda valores tão importantes como a amizade, a solidariedade e a entreajuda. Aparentemente simples, na forma e no conteúdo, este pequeno conto revela-se, afinal, fortemente cativante, seduzindo tanto pela riqueza das emoções que desperta como pelos simbolismos que encerra.

Bibliografia:
http://www.terranova.pt/site/paginas.asp?tp=&acr=ra&idpag=733
http://www.asa.pt/produtos/produto.php?id_produto=852078

Dias agitados na vida de uma rena

Título: O Pai Natal preguiçoso e a Rena Rodolfa
Autor:Ana Saldanha
Ilustrador:Alain Corbail
Editora:editorial caminho, 1ªedição: novembro 2004
ISBN:972-21-1653-3
O Pai Natal Preguiçoso e a Rena Rodolfa foi escrito por Ana Saldanha. Esta nasceu no Porto onde se licenciou em Línguas e Literaturas Modernas (Português e Inglês). Doutorou-se na Universidade Glasgow com uma tese sobre Rudyard Kipling e a sua obra literária. Ganhou o Prémio Literário Cidade de Almada com o seu romance Círculo Imperfeito e tem-se dedicado à tradução. É sobretudo conhecida como uma das melhores escritoras portuguesas para jovens. A ilustração ficou a cargo de Alain Corbail, que nasceu na Bretanha (França), em 1965 e reside, desde há alguns anos, em Portugal. Este livro faz parte do Plano Nacional de Leitura e foi considerado o melhor Álbum de Ilustração Infantil dos prémios nacionais de Banda Desenhada 2005, atribuídos pelo 16º Festival Internacional de BD da Amadora.
É Dezembro. Na Lapónia, andam todos muito atarefados. O carteiro entrega as cartas, a secretária do Pai Natal, a rena Rodolfa, lê-as e procura as prendas pedidas nas prateleiras, as outras renas preparam-se para a grande corrida de Dezembro. Só o Pai Natal parece não ter pressas. Mas, quando estão já de partida, descobre-se que o provérbio de que o Pai Natal tanto gosta — «Devagar, que tenho pressa» — está mesmo certo. Do que é que a rena Rodolfa se foi esquecer?!
Esta história tem início a 24 dias do Natal e termina quando faltam 4 minutos e 25 segundos para as renas partirem com as prendas. Durante este período acompanhamos os dias agitados da rena Rodolfa e ficamos a conhecer o outro lado do Pai Natal: um lado descontraído e preguiçoso. Esta troca da figura do Pai Natal, que habitualmente é representado como uma pessoa preocupada por satisfazer os pedidos da criança e como um ser generoso, é corroborada pela actualização e pela humanização do Pai Natal. Este retrato do Pai Natal é feito de uma forma cómica.
Trata-se de uma história com um registo visual muito expressivo e um discurso vivo e bem humorado.


Bibliografia:
http://www.terranova.pt/site/paginas.asp?tp=&acr=ra&idpag=713
http://www.editorial-caminho.pt/

Atenção ao bebé




O bebé que … não gostava de televisão
Rui Zink (texto) / Manuel João Ramos (Ilustrações)
1ª Edição. Publicações Dom Quixote, 2002
ISBN: 972-20-2352-7





Com a dupla assinatura de Rui Zink, como autor e de Manuel João Ramos, como ilustrador,
O bebé que…não gosta de televisão é considerado um álbum narrativo e associa-se a outro título O bebé…que não sabia quem era constituindo uma colecção apadrinhada pelas publicações Dom Quixote.
Esta narrativa, indicada para a primeira infância (2-8 anos), inicia-se com a fórmula tradicional da literatura infantil “Era uma vez…” e mostra, desde logo, tanto no texto verbal como no texto icónico, um bebé expressivo que gostava muito do pai e da mãe. O bebé gostava sempre do que fazia com os pais, excepto de um momento que habitualmente provocava uma reacção diferente. Sempre que os pais ligavam a televisão, o bebé corria para a desligar. Seus pais, preocupados com tal, levaram-no a diferentes e variados sítios. Foram a um médico, a um padre, a uma bruxa, mas de nada serviu pois ninguém conseguia entender porque não gostava o bebé de televisão. Após todas as tentativas, os pais deste bebé, que parecia ser tão diferente, sentaram-se no sofá frente à dita, desanimados, sem sequer a acenderem…Surpreendentemente, o bebé agarrou na mão do pai e na mão da mãe e apontou para o ecrã desligado, e sorriu como se ali estivesse tudo o que ele sempre quis… Só assim os pais conseguiram entender que o que o bebé gostava era de ver o seu reflexo, junto dos pais, no écrã da televisão desligada. Com isto a família ficou muito feliz porque os pais entenderam que o seu bebé não tinha qualquer problema e este conseguiu ver na televisão aquilo de que gostava mais: a sua família. Assim tudo terminou bem, como demonstra a fórmula de encerramento da narrativa: “E viveram felizes para sempre”.
É de referenciar a preocupação que o autor imprime nesta colecção de aproximar o seu texto aos seus potenciais leitores, evidenciado, por exemplo, no uso de vocábulos de registo familiar (exemplo: “papar”), do facto de valorizar a ilustração, caracterizada por cores fortes e de tamanho considerável, de forma a que esta concretize o texto verbal, mas também amplie e desenvolva a capacidade imaginativa, conferindo-lhe um carácter humorístico.
Através deste álbum narrativo, o autor, em parceria com o ilustrador, promove o tratamento de episódios do quotidiano das crianças, como as suas emoções, medos, teimosias, etc, salientando a importância da família para uma criança e os modos como esta pode indicar determinadas necessidades, às quais é conveniente os pais prestarem atenção, de forma a facilmente lhe darem resposta. Numa perspectiva social, a intencionalidade da mensagem prende-se com o facto de a televisão ser vista como uma ameaça ao ambiente familiar e à união de todos os elementos, sendo que é uma criança que demonstra a necessidade de partilha e proximidade no seio da mesma. A obra de Rui Zink e Manuel João Ramos introduz uma mudança positiva no que diz respeito à produção e existência de álbuns narrativos na literatura infantil portuguesa.

Susana Faria

A magia de um livro






João e a floresta de betão
Pedro Reisinho (texto) / José Manuel Gonçalves (ilustrações)
2ª Edição, Edições Gailivro, 2004
ISBN: 987-557-115-1





Pedro Reisinho escreveu e José Manuel Gonçalves ilustrou João e a floresta de betão, um livro da Gailivro no qual se apresenta uma cidade onde não existiam flores, um menino que tinha um sonho e a história de um menino que fez uma cidade mais bonita.
João era um menino que vivia numa cidade onde tudo era cinzento, tão cinzento que, para ele, até o céu era cimento. Mas, dentro do seu quarto, no seu pequeno mundo tudo tinha cor e tudo era radiante, pois as paredes do seu quarto eram verdes e tinham flores coloridas… mas o João nunca tinha visto flores e não sabia o que eram aquelas coisas cheias de cor e de vida. João perguntou à mãe que coisas eram aquelas e, nesse momento, a mãe percebeu que o seu pequeno João nunca tinha saído da cidade e não conhecia a beleza do campo. Assim, a mãe levou o filho a passear e quando chegaram ao campo ele ficou parado, bloqueado de tanta admiração. No entanto logo lhe passou e João “saltou, pulou e brincou, fez tudo aquilo que sempre quis” e ficou tão feliz que, na hora de ir embora, chorou, pois não queria voltar. Foi nesta altura que lhe apareceu um velho senhor que lhe deu umas sementes mágicas, umas sementes que faziam crescer flores em qualquer lugar e disse à criança para, à noite, ao chegar a casa, as atirar da sua janela, pois, na manhã seguinte, iria ter uma cidade muito mais florida e colorida. João, ainda com dúvidas se a magia ia funcionar ou não, lançou as sementes e foi dormir. Quando acordou, a cidade parecia um jardim e todas as pessoas, sabendo que tinha sido João o responsável por tão bela transformação, agradeceram-lhe muito, prometendo cuidar para sempre daquele tão belo jardim na sua cidade.
Ao longo de todo este texto, registado com uma caligrafia da criança que se inicia na escrita, existem ilustrações de tal forma estimulantes que não só evidenciam o que está escrito, como promovem a passagem para o mundo da fantasia e da beleza sem fim, proporcionando um complemento do texto verbal. A leitura deste livro torna-se ainda mais clara e suave pela sua forma poética.
O autor e o ilustrador, através da fusão de um texto simples e de uma ilustração rica, demonstram a necessidade inocente que uma criança tem de viver num local bonito e com vida. Esta obra testemunha ainda a magia que existe no mundo de uma criança e tudo o que ela faz através do sonho e do maravilhoso. João, após ter visto a beleza do campo, não conseguia mais viver no cinzento da cidade, e através da magia transformou não só a cidade, mas também as pessoas que nela viviam.
Assim, este livro permite observar a capacidade de mudança que as pessoas possuem e que, muitas vezes, não praticam, em muito influenciados pelo peso de uma sociedade comodista.
De foram a concluir, através desta obra, são enaltecidos valores ambientais, sociais e pessoais que promovem, numa perspectiva educacional, a cidadania nas crianças e jovens.


Susana Faria

21 dezembro, 2006

Boas Festas


Toda a equipa que produz e contribui para este blog deseja aos estimados leitores os votos de Boas Festas e de um Novo Ano repleto de inúmeras e estimulantes leituras.

Temas problemáticos abordados em "Primavera Interrompida"




FERREIRA, Daniel Marques (1ª Edição – Setembro de 1998; 2ª Edição – Janeiro de 2000), Primavera Interrompida. Ilustrações de Bayard Christ. Porto: Editora AMBAR.
ISBN: 972-43-0314-4

"No mínimo, a esperança veste sorrisos. E foi isso que
Simão deixou no ar antes de sair"

Daniel Marques Ferreira nasceu em Macinhata do Vouga, em Águeda. É formado em pintura pela Escola de Artes Decorativas, especializa-se na área de design gráfico, mas cedo demonstrou preferência pela escrita. Aos dezassete anos, escreve para o suplemento "Juvenil" do Diário de Lisboa.
De forma coloquial e despretensiosa, o autor, nesta história infanto-juvenil, de solidariedade e afectos, escrita numa linguagem de todo atraente para os mais jovens, aborda temas de grande importância como a toxicodependência e a SIDA.
Este romance relata a história de uma grande amizade entre dois rapazes, Joca e Simão. Porém, a família de Simão não vê com bons olhos esta amizade, na medida em que Joca entra para o mundo da droga.
Mesmo assim, os pais de Simão aceitam que Joca vá com eles de férias para uma aldeia distante, pensando que conseguem, através de bons conselhos, tirá-lo da droga. Tal não acontece. Mesmo para a aldeia, Joca leva droga. No regresso dessas férias, Joca fica doente, por isso vai fazer uns exames e descobre que tem SIDA.
A história termina com a personagem a relembrar o passado e a lamentar não ter ouvido os conselhos das pessoas que o amam. Embora sinta uma grande tristeza, está também aliviado por nunca ter influenciado o amigo a apanhar o seu vício.
Esta é uma história que permite que crianças e jovens reflictam sobre a importância da amizade nas suas vidas. Enquanto leitora, este romance emocionou-me bastante, na medida em que, infelizmente, hoje em dia, estes casos parecem ser cada vez mais frequentes.

Ajudar os outros




CASTRIM, Mário (1ª Edição – Novembro de 2001; 2ª Edição – Junho de 2003) Gira Gira e o incêndio. Ilustrações de Elsa Navarro. Porto: Editora CAMPO DAS LETRAS.
ISBN: 972-610-434-3
Idade recomendada: 2-4 anos




Mário Castrim, pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca, que nasceu a 31 de Julho de 1920 e faleceu em 15 de Outubro de 2002, foi um jornalista, escritor e crítico de televisão português. Trabalhou no Diário de Lisboa e no semanário Tal & Qual. Era casado com a também escritora e jornalista Alice Vieira.
A colecção “Aventuras da Girafa Gira Gira”, assinada por Mário Castrim e com apelativas ilustrações de Elsa Navarro, diverte e ensina, indo, assim, ao encontro dos gostos literários dos leitores mais novos. Nesta colecção de pequenos álbuns são contadas as peripécias vividas por uma simpática e curiosa girafa, a heroína da colecção.
Esta pequena história tem início com a rádio a relatar que a Rua Antiga estava a arder. Esta situação tinha outro problema que se prende com o facto de os carros dos bombeiros não entrarem nessa rua devido a ser muito estreita. Apesar de Gira Gira ter medo ao fogo, ela sacrificou-se para salvar uma criança que estava presa numa casa, uma vez que até o helicóptero nada podia fazer pois tivera que recuar dado ao excesso de fumo.
Esta é uma história marcada por uma coloração maravilhosa, muito ao sabor da escrita dedicada a um público infantil, faceta para a qual contribuem, também, as divertidas ilustrações de Elsa Navarro. Como não podia deixar de ser, este álbum tem um final positivo, muito do agrado, aliás, dos pequenos leitores.
De referir também que, na nossa opinião, o pequeno livro de Castrim deixa escapar, ainda que subtilmente, uma valiosa mensagem – devemos sempre fazer os possíveis e os impossíveis para ajudar outras pessoas, mesmo que para isso tenhamos que ultrapassar os nossos medos.

Coitadinho do Pai Natal...!




Ana Saldanha (texto)
Joana Quental (ilustrações)
Campo de Letras, 2002
ISBN: 972-8146-85-X
Obra incluída no Plano Nacional de Leitura




A autora de Ninguém de Ninguém dá prendas ao Pai Natal, Ana Saldanha, nasceu no Porto e actualmente vive na Irlanda do Norte, onde se dedica à tradução e ficção, depois de se ter doutorado com uma tese sobre Rudyard Kipling e a sua obra para crianças. É autora de diversos livros para crianças e jovens entre os quais Uma questão de cor, Doçura Amarga, Gorro Vermelho, entre outras. A ilustradora Joana Quental nasceu em 1969. Designer, ilustradora e docente, dedica-se ao desenho animado, multimédia, ilustração de livros entre outras actividades. Em 1997 recebeu uma Menção Honrosa no Concurso Nacional de Ilustração Infantil promovido pelo IPBL e IBBY.
Em Ninguém dá prendas ao Pai Natal, narrativa breve marcada pelo humor subtil, é apresentado um Pai Natal como uma figura emocionalmente fragilizada porque ninguém se lembra dele. O desenrolar da acção surge com a entrada em cena de diversas personagens dos nossos contos literários mais conhecidos. Capuchinho Vermelho, Gata Borralheira, João Ratão, Bruxa da Casinha de Chocolate, Raposa e Lobo Mau surgem nesta história a conviverem em plena harmonia e a trazerem cada um, uma prenda ao Pai Natal. As ilustrações retratam cada passo da história, e, ao virar da página, o leitor depara-se com o complemento texto icónico/texto verbal.
O desenlace desta breve narrativa termina com um “happy end”, onde todos acabam em companhia da amizade e da alegria. Um excelente livro para esta época natalícia.

Ninguém dá prendas ao Pai Natal é recomendado pelo Plano de Leitura para o ano lectivo de 2006/2007 (para projectos relacionados com 3º e 6º ano).

20 dezembro, 2006

Um verdadeiro galaró!



Mota, M. (2002). O galo da velha Luciana. Vila Nova de Gaia: Gailivro.

Autor: António Mota
Ilustrador: Elsa Navarro
ISBN – 972-8723-65-2




António Mota nasceu em Vilarelho, Ovil, concelho de Baião, distrito do Porto, em 1957. É professor do Ensino Básico e é actualmente um dos mais produtivos autores portugueses de literatura infanto-juvenil.
Através das suas histórias, o autor descreve as vivências, as crises de crescimento e as lutas pela mudança de vida de uma infância e adolescência rurais, situadas num mundo em vias de extinção, mas ainda existente um pouco por todo o território português: o mundo das pequenas aldeias onde o tempo corre segundo o ciclo das estações e o ritmo das histórias contadas pelos mais velhos e a ligação à terra e aos ofícios tradicionais.
O seu primeiro livro é A Aldeia das Flores (1979). Em 1983, com a obra O rapaz de Louredo ganhou um prémio da Associação Portuguesa de Escritores. Em 1990, com o romance Pedro Alecrim, recebeu o Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças. Em 1996, com a obra A casa das Bengalas, ganhou o Prémio António Botto. Em 2004 recebeu o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para crianças e jovens, na modalidade livro ilustrado, com a obra Se eu fosse muito magrinho.
Desde 1980 é solicitado a visitar escolas do Ensino Básico e Secundário e também bibliotecas públicas em diversas localidades do País, onde tem, desta forma, contribuído para o fomento do gosto pela leitura entre crianças e jovens.
Este livro é ilustrado por Elsa Navarro, muito conhecida pelas participações em várias edições, dentre elas a colecção “Aventuras da girafa Gira Gira” de Mário Castrim. Além de ilustradora também é autora dos livros Anedotas ilustradas, O grilo Verde, Anedotas de animais - ilustradas e Anedotas de Futebol Ilustradas.
Uma das mensagens que esta obra nos proporciona constitui uma verdadeira lição de vida: aquilo que, por vezes, nos parece um infortúnio pode transformar-se na razão da nossa felicidade.

Cristina Silva e Sílvia Leite

Uma abada de histórias e sonhos a descobrir



Mota, A. (2002). Abada de Histórias. Vila Nova de Gaia: Gaialivro.
António Mota (texto)
José Saraiva (ilustração)
Gailivro Editores, 2002
ISBN – 972-8723-66-0


António Mota é professor do 1º ciclo desde os 18 anos idade. A sua carreira literária começou aos 19 anos de idade. O seu primeiro livro publicado em 1979 intitula-se A Aldeia das Flores e desde então não mais parou. Nas suas obras há um forte desejo de entreter o leitor, de fomentar a imaginação e de enfatizar o prazer da leitura. Passados 27 anos a contar histórias, continua a descrever esta sua actividade como uma paixão. São diversos os prémios que enobrecem o trabalho deste autor dos quais se destacam o prémio da Associação Portuguesa de Escritores em 1983, com a obra O rapaz de Louredo, em 1990 o prémio Gulbenkian de literatura para crianças pelo romance Pedro Alecrim e o Prémio António Botto em 1996 com A Casa das Bengalas.
José Saraiva é autor de diversas ilustrações das quais se destacam as presentes na obra Um dragão na banheira, merecedoras de menção especial pelo júri do Prémio Nacional de Ilustrações 2004.
Abada de histórias é um livro magnífico que compila diversas breves histórias para crianças de António Mota, referenciado no Plano Nacional de Leitura para o 1º ciclo. As narrativas referem-se a diversas temáticas e tratam aspectos do quotidiano, bem como aspectos já esquecidos no tempo como «O Amolador» e «O exame do Zé Pinto». Excelente obra para ser trabalhada em contexto de sala de aula, com uma panóplia de motes susceptíveis de enriquecer o programa curricular, bem como permitindo trabalhar e estimular o universo fantasioso tão presente nos alunos de hoje.
Esta obra magnífica estimula os leitores a deixarem a sua imaginação voar ao longo de histórias de leitura acessível, passíveis de serem enriquecidas pela fantasia e individualidade de quem as lê.
Um aspecto relevante nesta obra são as belas e fidedignas ilustrações, impregnadas de simbolismo e de cores fortemente apelativas.
Uma espectacular obra de um autor de renome que seduz o leitor da primeira à ultima página.

Cristina Silva e Sílvia Leite

O Menino Escritor no mundo das palavras


Rosário Alçada Araújo (texto)
Catarina França (Ilustração)
Gailivro Editores, 2005
A partir dos 6 anos.

Com o seu último livro, Rosário Araújo sensibilizou-me, não pela forma como constrói as suas histórias, mas pelo uso de uma subtileza encantadora que se estende ao longo das páginas de O menino Escritor (2006).
Construir com amor e dedicação está, de facto, nos princípios autorais de Rosário Araújo. Contudo, há neste pequeno livro algo de precioso que nos faz sentir a grandeza do texto e das maravilhosas ilustrações de Catarina França (que não me canso de elogiar) que integram um projecto amadurecido de conhecimento e contacto com os leitores mais novos. Aqui, é contada uma história que desvenda uma outra grande história: a história das palavras, presas no filamento do «Livro de Encantar», oferecido pela tia Lili (2006, 7).
A aventura chega-nos pela mão do João, um menino como tantos outros meninos, que vê no primeiro contacto com o livro algo de surpreendente e agradável. A forma como nos são apresentados o «Livro de Encantar», bem como a «Terra dos Encantos» remetem-nos para a forma isotópica da obra e, como se de um enamoramento se tratasse, percebemos que a funcionalidade do sonho e da imaginação são a pedra basilar desta história das palavras e dos sonhos.
Uma das principais particularidades desta história define-se na vontade de mesclar a aventura de João e, por sua vez, a dos outros meninos “João”que compreendem o benefício de pertencer à «Terra dos Encantos». Atentos às investidas empreendedoras da «Fada Tagarela» em educar o João no gosto pela leitura e pela escrita, sentimos uma vontade crescente em, a cada página virada, permanecer presentes em todo o processo de maturação da personagem que não quer ser escritor (2006: 18). Surgem-nos como núcleos organizativos da obra: a temática abordada, o discurso simples e o imaginário humorístico, pincelado de um agradável nonsense, que fazem da história de João uma história de convite à leitura e à própria reflexão.
Bruno Bettelheim diz assertivamente que o conto de fadas tem um efeito terapêutico que assegura à criança uma solução para as suas dúvidas e conflitos internos, pois neles se encontra a riqueza simbólica. Em O Menino Escritor tudo acontece como se de um conto de fadas se tratasse e a certeza de uma tomada de consciência fica bem situada entre o real quotidiano e a imaginação daqueles que fazem um uso acertivo do texto na sua globalidade, procurando os verdadeiros momentos de fruição. Vamos, pois, calçar «as botas especiais (…), com muito algodão na sola» para que não tenhamos os pés assentes na terra, pois «Aquele que tem ambos os pés bem assente na terra está parado» (2006: 22), e partir à descoberta da melhor história para contar.
Gisela Silva

“Uma Viagem no Tempo”


BACELAR, Manuela (2004). Sebastião. Ilustração de Manuela Bacelar. Edições Afrontamento.
ISBN: 972-36-0732-8
Idades recomendadas: 3-7 anos
Obra incluída no Plano Nacional de Leitura


Ilustradora de renome, Manuela Bacelar, lança um álbum dedicado aos mais novos, numa linha já habitual na sua produção literária, aquilo que representa uma brilhante «capacidade de narrar pela imagem».
Manuela Bacelar é, por muitos, considerada como a primeira grande referência da ilustração para a infância em Portugal, com formação na Ex-Checoslováquia, nos anos 60/70 (período em que o álbum conheceu um “boom” decisivo em alguns países europeus e nos Estados Unidos).
Para os mais novos, o álbum constituiu, a par do conto oral, uma preciosa iniciação à arte da narrativa. Os livros sem palavras, nomeadamente os álbuns, são obras em que a narrativa, a existir, resulta de uma sucessão de imagens articuladas entre si.
Estamos num domínio em que se torna possível descobrir obras verdadeiramente cativantes, as quais surpreendem pela sua ousadia expressiva e concorrem, de forma decisiva, para o desenvolvimento da competência literária, do gosto estético e dos hábitos de leitura dos mais pequenos.
A obra O Sebastião é composta por duas histórias em paginação convergente. Numa primeira história, o Sebastião, um peixe ainda bebé, percorre, através de um copo de água, uma viagem pelo fascinante mundo dos mares. Guiado por um peixe extremamente colorido, Sebastião explora o mundo oceânico onde pode brincar com seres marinhos e “bebés-sereias”. As ilustrações nesta primeira história cativam pela sua originalidade artística, por cores extremamente fortes e expandidas por páginas duplas realçando também a riqueza figurativa e a luminosidade policromática do texto icónico.
Numa segunda história, Sebastião, já mais crescido, viaja novamente pelo mundo oceânico e fica completamente espantado pela invasão que fizeram ao fundo do mar, pois encontra aí uma variedade de objectos depositados. Todos os seres marinhos tinham desaparecido e todo o encanto das cores do mar já não existia, até o cheiro encantador dos corais tinha sido coberto por um odor extremamente desagradável. Sebastião logo quis abandonar a sua viagem. Nesta história as ilustrações aparecem com um carácter mais pálido e escuro, tentando, desta forma, mostrar ao leitor o quanto o mar tinha perdido a sua vivacidade anterior.
Importa salientar o papel determinante da componente pictórica que facilita a aproximação do leitor infantil à mensagem narrativa que o livro esconde e/ou vai progressivamente desvendando.
O tópico de viagem existente na obra O Sebastião é um elemento cuja simbologia remete para a ideia de liberdade.
Parece-nos, assim, que esta obra, abordando, de forma divertida, o tema da poluição e do esgotamento dos recursos da vida, pode precocemente sensibilizar as novas gerações para esta causa.

Abrir o livro O Sebastião significa viajar até a um mundo envolvente, profundamente terno e repleto de emoções.


Bibliografia:

GOMES, José António (2003) “ O conto em forma(to) de álbum: Primeiras aproximações”, in Revista Malasartes – Cadernos de Literatura para a Infância e a Juventude, nº12, Porto: Campo das Letras, pp. 3-6.

Marta Gonçalves

“Um Apresentador Especial”



MAGALHÃES, Ana Maria; ALÇADA, Isabel (2005). O Camaleão Mágico. Ilustração de Danuta Wojciechowska. Sintra. Editora Câmara Municipal de Sintra
ISBN: 972-8875-14-2
Idades recomendadas: 6-9 anos

Nascido de um projecto da Câmara Municipal de Sintra, este conto pertence a uma brilhante colecção que se dá pelo nome de “Museus para contar e encantar”. Esta colecção surge com a colaboração de vários escritores e ilustradores conceituados no mundo actual da literatura infanto-juvenil, criando cada escritor um conto sobre cada um dos museus de Sintra.
Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada foram as autoras que ingressaram neste projecto através da elaboração deste conto. Professoras de profissão e interessadas em estimular nas crianças o gosto pela leitura, já publicaram, até ao momento, mais de 70 histórias, e só a colecção «Uma Aventura» vendeu mais de 5 milhões de exemplares. Os seus livros, que marcaram uma viragem na história da literatura infantil portuguesa, reflectem a longa e rica experiência educativa, que são eco de uma infância e juventude particularmente felizes e traduzem o seu enorme talento para comunicar com os mais novos.
A ilustração ficou à responsabilidade de Danuta Wojciechowska, que se tem dedicado especialmente às áreas da educação, do social, do ambiente e da cultura. Distinguida com várias Menções Especiais do Prémio Nacional de Ilustração, Danuta transpõe para a ilustração, não só aquilo que é dito no texto mas também as sensações que este disperta. As suas ilustrações, marcadamente inovadoras e criativas, mostram-se sempre disponíveis para despertar nos leitores mais novos o amor pelos livros e pela literatura. A ilustração procura transportar a tridimensionalidade da imagem original dos recantos do museu, para a lisura uniforme da folha. As cores fortes instituem, de uma certa forma, o mundo mágico e maravilhoso, que são presença habitual nas suas ilustrações, fazendo despertar a magia do camaleão, junto dos mais novos.
Neste conto, em que o palco é o Museu de Arte Moderna de Sintra, a personagem em destaque é um camaleão mágico que, camuflado de mil cores, parece desaparecer entre os quadros e as paredes coloridas do museu. Esta magia acontece quando Afonso, o protagonista da história, visita o museu, ficando fascinado ao ver aquele “bicho” extraordinário que, de repente, lhe desaparece de “entre os olhos” como se fosse magia, decidindo voltar para tentar perceber a magia do animal. Segundo Afonso, o camaleão era um “bicho que ninguém via e que ainda por cima parecia fazer-lhe sinais... e ia mudando de cor”. Na nova visita ao museu, Afonso encontra um pintor que se aproxima dele e lhe desvenda a magia dizendo que só as pessoas que têm “espírito de cristal” é que conseguem avistar o camaleão, que está constantemente em mudança de cor, tal como as pinturas nas paredes do museu.
O camaleão é, assim, a personagem “especial”: “Não sabemos de onde veio, nem por que motivo nos quis encontrar. Mas logo se tornou evidente que seria o apresentador ideal. Esperamos que cumpra a sua missão, ajudando os visitantes a decifrarem as mensagens da arte contemporânea, tantas vezes escondidas em códigos quase secretos” (Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada).
“O destino é esse, é o do encantamento.”
Esta colecção procura gerar novos interesses junto dos mais novos, numa perspectiva de “educar pela arte”, de modo a cativar alunos e professores a visitar esses espaços, incentivados pela leitura de um conto acerca de cada um deles.

Bibliografia:

MAIA, Gil (2003) “O Visível, O Legível e O Invisível”, in Revista Malasartes – Cadernos de Literatura para a Infância e a Juventude, nº10, Porto: Campo das Letras, pp. 3-8.


http://www.terranova.pt/site/paginas.asp?tp=&acr=ra&idpag=161
(Retirado no dia 17 de Novembro de 2006)


Marta Gonçalves

19 dezembro, 2006

No mundo do imaginário


ARAÚJO, Rosário Alçada (2006) O Menino Escritor
Ilustrações de Catarina França.
Lugar de publicação: Matosinhos. Edições QuidNovi.
ISBN: 972-8998-12-0
ISBN: 978-972-8998-12-7


No dia do seu décimo aniversário, João recebeu uma prenda muito especial. “Parecia um livro como tantos outros. Mas não era. Não que os livro sejam todos iguais, cada um é um mundo diferente”. João gostou logo do Livro de Encantar, não só pela magia que este lhe transmitia, mas também por ter sido oferecido pela sua Tia Lili. Este livro era mágico e transportaria João para um mundo imaginário sempre que quisesse, acompanhado pela Fada Tagarela.
Rosário Alçada Araújo, nascida em Lisboa, no ano de 1973, licenciou-se em Direito e realizou um mestrado em Sociologia da Comunicação, onde se aproximou do mundo da Literatura Infantil, estando presentemente a preparar o seu doutoramento nesta área. Juntamente com a ilustradora, Catarina França, editou obras infantis como A Rosinha, o mar e os sonhos e A história da pequena estrela. Licenciada em Design Gráfico pela Faculdade de Belas-Artes, Catarina França colaborou com várias revistas e editoras, tendo, em 2003, frequentado um curso de ilustrações de livros para crianças.
Do ponto de vista literário, este livro é bastante rico, com vários pontos importantes que merecem uma atenção especial.
Nesta obra a relação entre o texto icónico e o texto verbal parece ser bastante forte. O Menino Escritor não é composto por palavras; para uma interpretação mais adequada temos que prestar atenção igualmente a
o texto icónico ou gráfico. É o seu conjunto que vai permitir uma leitura textualmente feliz, uma vez que o texto icónico expande o texto verbal.
Ao longo de toda a obra está bem patente a metatextualidade: João vai aprendendo e comunicando ao leitor como se escreve um livro. A Fada Tagarela até nos diz uma das características necessárias para se poder ser escritor: “Quem escreve não pode ter os pés assentes na terra”!
A história de João passa-se num mundo à parte, onde só alguns (os escritores) podem lá ir. Parece assim existir uma relação de intertextualidade com a obra A Ilha das Palavras.
Com personagens imaginárias, um mundo mágico em que a chuva são letras e palavras, e com um livro muito especial, esta obra apela imenso à nossa imaginação. Juntamente com todos os temas e métodos que utiliza, é sem dúvida uma obra literária que recomendo vivamente. Ao mesmo tempo que possibilita expandir a competência literária do leitor, entretém-no de forma lúdica e divertida.

"No sonho, a liberdade..."


DACOSTA, Luísa (2005). O Elefante cor-de-rosa. Colec. “Obras completas de Luísa Dacosta”. Ilustrações de Armando Alves. Porto: Edições ASA
ISBN: 972-41-4184-5

Num planeta diferente, “fora da nossa galáxia, num mundo pequenino, forjado no bafo de outras estrelas e aquecido por outro sol”, viviam elefantes cor-de-rosa, num mundo perfeito. Este mundo vai-se desmoronando, ficando um pequeno elefante cor-de-rosa sozinho. Com a ajuda de um pequeno cometa, vai aterrar na imaginação de uma criança, onde nunca mais sentirá solidão.
Esta é a obra reeditada de 1974, de Luísa Dacosta e com ilustrações de Armando Alves. Responsável por esta magnífica obra, Luísa Dacosta nasceu em Vila Real, no ano de 1927, tendo-se formado na Faculdade de Letras de Lisboa, em Histórico-Filosóficas, dedicando-se às obras infantis a partir de 1972. Recebeu dois prémios (1992 e 2002) e é escritora de obras para a infância bastante conceituadas, como História com Recadinho, sendo que O Elefante cor-de-rosa faz parte do Plano Nacional de Leitura, para alunos do 4º Ano. No entanto, este livro é recomendado para crianças a partir dos 6 anos.
Armando Alves nasceu em Estremoz, em 1935, formou-se na ESBAP com vinte valores e aqui foi professor entre 1962 e 1973. Foi o ilustrador de livros infantis como A Menina do Mar.
Neste álbum, que proporciona uma aventura hermenêutica (não fosse a personagem principal um elefante cor-de-rosa e que flutua), são focados temas eternos como a amizade, a entreajuda, o companheirismo e a solidão. Desde logo nos chama a atenção a cor deste pequeno elefante, pois é a cor dos sonhos das crianças, que coincide com o mundo em que ambos vivem: um mundo cheio de alegria e de imaginação; um mundo perfeito. Este mundo vai ser abalado, e o elefantezinho iria ficar numa solidão e tristeza profundas, não fosse um pequeno cometa passar por lá. De passagem ao nosso planeta, o “berlinde azul”, o nosso elefante vai aterrar na imaginação de uma criança, onde não será julgado pela sua cor nem nunca mais se sentirá só. “No sonho, a liberdade…”.
Esta edição, do meu ponto de vista, poderia ser mais rica a nível do texto icónico, uma vez que este nem sempre acompanha nem expande o texto verbal. Ao longo de todo o livro, só encontramos ilustrações de um elefante cor-de-rosa que parece caminhar para fora da história e duas outras ilustrações que ocupam uma página cada, mas que não parecem acrescentar muito ao texto verbal, apenas o acompanham.
A escolha desta obra deveu-se ao facto de eu ter gostado bastante da forma como Luísa Dacosta expôs certos temas, de forma tão subtil. É um livro que recomendo, não só às crianças, pois tem uma grande capacidade de despertar o imaginário, com uso criativo e lúdico, contribuindo para desenvolver a competência literária do receptor.

12 dezembro, 2006

Inês Botelho: uma voz portuguesa na ficção do maravilhoso fantástico



Texto: Inês Botelho
Ilustração: Pedro Pires
Gailivro Editores, 2003-2005
A partir dos 12 anos.

A trilogia O Ceptro de Aerzis compõe-se de elfos, duendes, fadas, gnomos, sacerdotisas e outras criaturas do mundo mágico que se harmonizam no dever da partilha de ensinamentos e aprendizagens sobre a amizade, o amor, o culto do belo, o reencontro com as origens e a dedicação à Terra-Mater. A importância dos laços de consanguinidade entre três mulheres: Ailura, Galaduinne e Iruvienne, ao longo das diferentes gerações, bem como o respeito da autora pela cultura celta ─ que se faz sentir ao longo das três obras ─ provocam no leitor um sólido compromisso com toda a obra.
É de facto verdade, e como afirma o filósofo/escritor Paulo Loução no prefácio do terceiro volume, que Inês Botelho usa de um dom inato para criar. Contudo, a autora não nega influências de Marion Zimmler Bradley e de outras leituras que lhe permitiram enriquecer a sua competência enciclopédico-literária. O apego a um passado rico em símbolos, cuja essência se prende a uma exploratória síntese do mundo, provoca em O Ceptro de Aerzis o tão desejado “diálogo” entre a voz autoral e os jovens leitores, criando-se verdadeiros momentos de literariedade e poeticidade.
Trata-se sem qualquer dúvida de revalorizar o mítico-simbólico e não apenas de responder à questão que se baliza no desejo ainda pouco definido preso à noção de diferença ou à vontade da descoberta por parte dos mais jovens. O certo, é pois constatarmos, como já o referi num outro texto a propósito do sucesso incontestável da série Harry Potter de J. K. Rowling, que os nossos jovens querem e sabem ler e não devemos afastá-los, por ignorância nossa, de leituras que consideramos marginais só porque nelas figuram elementos do fantástico, do maravilhoso ou temáticas ligadas ao imaginário. Mal de nós se acreditássemos que o texto literário é uma cópia do mundo real, pois o princípio da pluri-isotopia ou da polissemia não poderia efectuar-se. Necessário é pois saber distinguir a qualidade dos textos e compreender a sua natureza estética para que o momento da fruição seja total.
Responsabilizar e consciencializar o leitor mais jovem é, também, uma tarefa que requer paciência e sapiência, pois o leitor-literário não se faz de um dia para o outro. Este deve, antes de tudo, ser um sujeito usuário de um vasto conjunto de narrativas, ouvidas ou lidas, que lhe permitirão abolir a imagem do texto enquanto uma unidade estanque e hermética. Desta forma, o texto será compreendido como um espaço de transgressão para que aconteçam verdadeiros momentos de literariedade, na realização do policódigo literário. Refiro assim uma visão singular, onde os momentos de estranhamento obrigam à reflexão e, consequentemente, à interacção.
Parece-me, pois, ser da competência da crítica literária, e mais uma vez referencio Paulo Loução, apadrinhar O Ceptro de Aerzis de Inês Botelho como uma obra literária que permite leituras plurais e convida à participação de um leitor enquanto sujeito cognoscente. É muito interessante constatar a patente evolução estética da autora, de livro para livro, o que é, por si só, uma referência de qualidade para a trilogia.
Acrescentarei, ainda, que a obra finalizada em 2005 e com a qual fomos presenteados encerra o reencontro com matrizes de referência comuns e intertextuais às quais podemos acrescentar, enquanto leitores cooperantes, novas vozes, permitindo assim uma verdadeira leitura de promoção estética na divulgação do trajecto antropológico e hermenêutico-simbólico do imaginário bem presente naqueles que refutam esquecer as antigas histórias de fadas que adormeceram, tranquilas, crianças do mundo inteiro.
Gisela Silva



10 dezembro, 2006

Call for Papers: Congreso Lectura 2007


Ciudad de La Habana, Cuba, del 23 al 27 de octubre de 2007
ACTIVIDADES CIENTÍFICAS
Conferencias magistrales y paneles centrales
1- Tema: Leer o no leer ¿ese es el problema?
2- Tema: El libro ¿hecho cultural o mercancía?
3- Tema: Alfabetización por medio de la literatura.

Mesas redondas
• La obra de José Martí y el mejoramiento humano.
• Aciertos, desaciertos y desconciertos de la Literatura para niños y jóvenes

Seminarios
1- Tema: Múltiples lecturas: múltiples saberes.
2- Tema: Lectura, educación, poder mediático y sociedad de la información
3- Tema: Lectura y salud: una relación impostergable.

Talleres
• II Taller Internacional IBBY: Para los niños trabajamos
(Actividad precongreso. Duración: 20 horas cada uno)
1- Escribir para niños y jóvenes.
2- Ilustrar para niños y jóvenes.

Salón
• Salón de Autores La Edad de Oro
ACTIVIDADES COLATERALES
• Festival Papirola
• Visitas a escuelas y centros culturales

PARTICIPACIÓN
Podrán participar: escritores, ilustradores, diseñadores, editores, críticos, investigadores, educadores, bibliotecarios, libreros, revisteros, informáticos, sociólogos, psicólogos, traductores, promotores de lectura; profesionales de la salud, de los medios de difusión masiva, del marketing y la publicidad, y estudiantes, entre otros.

IDIOMAS OFICIALES
• Español
• Inglés (Solamente contarán con traducción simultánea las conferencias magistrales, así como los actos de apertura y clausura.)

SEDE DEL EVENTO
• Hotel Habana Libre Tryp Sol Meliá

CUOTA DE INSCRIPCIÓN
Delegados (Ponentes y participantes) 325. 00 CUCTalleristas (Participantes del II TallerInternacional IBBY)
100. 00 CUC Estudiantes (Delegados al Congreso) 275. 00 CUC (Acreditados en curso regular universitario y menores de 25 años.
Cuota limitada por países.)
Acompañantes 225. 00 CUC

Fecha límite para realizar la inscripción como ponente de Lectura 2007 o participante en el II Taller Internacional IBBY: 30 de abril de 2007

Para mayor y más detallada y precisa información académica, por favor, dirigirse a:
Dra. Emilia Gallego Alfonso(e-mail: emyga@cubarte.cult.cu)Lic. Aimée Vega Belmonte(e-mail: aimee@icaic.cu )
Para organizar su viaje a Cuba coordine con nuestro Receptivo Oficial: Agencia de Viajes Especializados Universitur-CUJAESra. Hilda Maceira García Teléfonos: (537) 261 4939 / 267 2012 Fax: (537) 267 1574Mail: lectura@universitur.cujae.edu.cu
Informação:
Agradecimento ao fórum da Revista Babar pela disponibilização desta informação.

05 dezembro, 2006

Novo portal para a promoção do livro e da leitura


Está disponível online um novo portal, em língua castelhana, sobre produtos culturais na web:
http://www.amanocultura.com/

Informação recebida via ANILIJ

04 dezembro, 2006

Paródia e Desconstrução na Literatura Infantil Contemporânea

Rita Elisabete Mendes Lima apresenta no dia 18 de Dezembro, pelas 11h30, no Instituto de Estudos da Criança, em provas públicas, a sua dissertação de Mestrado em Estudos da Criança - Análise Textual e Literatura Infantil intitulada A Desconstrução da Figura da Bruxa na Literatura Infantil Contemporânea.
O júri é composto pelos seguintes elementos: Prof. Doutor Fernando Azevedo (Universidade do Minho), Prof. Doutor José Cândido Martins (Universidade Católica Portuguesa) e Prof.ª Doutora Maria de Lurdes Magalhães (Escola Superior de Educação de Viana do Castelo)

01 dezembro, 2006

A Rosinha, o Mar e os Sonhos: uma história para quem ousa sonhar


Rosário Alçada Araújo (texto)
Catarina França (Ilustração)
Gailivro Editores, 2005
A partir dos 6 anos.



No reencontro com Rosário Araújo, o leitor não pode deixar de se comprometer com o estilo singelo e mágico próprio da autora em contar aqueles momentos que nos abeiram diariamente, mas que tantas vezes relegamos para segundo plano.
«A Rosinha nunca compreendera porque é que o mar parava junto à praia, e recuava, voltando de novo para o aconchego das suas águas» (Araújo, 2005: 9). Assim, começa esta nova história, construída, não no jogo do acaso, mas no exercício prático do sonho.
Remetendo para uma outra página as leis da física, que explicariam o contínuo movimento das ondas, é-nos ditada uma resposta clara e directa, bem ao alcance de todos: o mar tem um movimento longo e monótono porque em cada onda ele traz um sonho para a Humanidade. Depois de o entregar, ele volta, sereno, buscar um outro, pois há sempre mais e mais sonhos para trazer e é lá, no alto-mar, que «vivem os sonhos bonitos de todo o Universo, os sonhos que vale a pena sonhar» (2005: 27).. Cabe-me, aqui, fazer uma reverência à espectaculosidade do momento. Quantas crianças não ficarão maravilhadas com esta resposta tão simples e, ao mesmo tempo, tão enigmática? O diálogo, no momento da leitura, surgirá deste apego ao texto para fluir, levado nas asas do sonho, para outras paragens, bem mais filosóficas. Haja vontade de criar momentos de entrega e de partilha.
A «Chave do Grande Tesouro», trazida ao sabor das ondas, a pedido da sereia que «tinha cabelos cor de prata e um fato de escamas cor de cobre (…)», tem para Rosinha uma missão de alto porte que a obrigará a um investimento pessoal, alicerçado na meditação e no empreendimento. Com apenas dez anos, Rosinha vê-se, assim, a braços com a difícil tarefa de saber «como podem as pessoas cuidar dos sonhos» (2005: 28), pois a humanidade não cuida dos sonhos que o mar traz.
Rosinha é, sem dúvida, a protagonista desta belíssima história de encantar que investe no leitor infantil, pelo seu entusiasmo e determinação, o desejo da conquista e o gosto pelo desafio. É, pois por ter prestado atenção no difícil e contínuo exercício levado a cabo por uma simples formiga, com quem trava conhecimento, que Rosinha vai compreender a verdadeira essência da sua missão. Rosinha tem a responsabilidade de mostrar a todos e a si mesma que é o impossível não tem lugar quando tomamos as nossas decisões, mesmo se estas nos parecem homéricas, pois o que vale é «pôr-se a caminho» (2005: 36).
O cunho educativo-pedagógico que se entrevê na escrita de Rosário Araújo nada tem de comprometedor ou impeditivo à fruição estético-literária, ele apenas serve para que a interacção do sujeito com o texto seja um momento de aprendizagem, onde se fomentem os valores essenciais à sua compreensão.
É, com certeza, pelo desafio interpretativo do seu contar e do contar das ilustrações, que presenteiam com pinceladas de sonho a história do princípio ao fim, que esta jovem escritora quer dar a palavra a todos. Mais uma vez o seu texto sugere muito mais do que simplesmente diz; apela muito mais do que simplesmente convida; retém, muito mais do que simplesmente cativa.

Gisela Silva