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05 janeiro, 2007

Coisas de "Humanos"




CUSTÓDIO, Lourdes (2001): As Férias do Pai Natal, Ilustração de José Cardoso Marques, Porto: Campo das Letras – Editores.
ISBN: 972-610-464-5


Em 2001, veio a lume pela primeira vez, pela Campo de Letras, As Férias do Pai Natal, de Lourdes Custódio, com ilustração de José Cardoso Marques.
O facto de a história nos relatar as férias que o Pai Natal passa numa ilha tropical suscita a curiosidade, estimulando o desejo de ler, porque se torna estranho e difícil de imaginar o Pai Natal, vestido com um «grosso fato vermelho, gorro e botas, numa ilha tropical» (Custódio, 2001:7).
Dedicada a crianças entre os 4 e os 7 anos de idade, As Férias do Pai Natal, pode servir de contraponto à realidade destas, levando-as a soltar a imaginação, como defende Manuela Ramalho Eanes, no prefácio da obra. Esta história faz assim com que o pequeno leitor descubra o prazer de viajar até um conjunto de acontecimentos e personagens maravilhosos, tendo como ponto de partida uma situação insólita: a apresentação de uma figura lendária e com a qual as crianças se sentem, de certa forma, familiarizadas, o Pai Natal, num contexto real e provavelmente conhecido do destinatário extratextual desta narrativa.
Se por um lado ao Pai Natal associamos a oficina dos brinquedos, as renas, os duendes, sapatinhos e pedidos de presentes, por outro lado, o protagonista da narrativa é sujeitado a um processo de aproximação ao mundo experimental, empírico, pelo seu comportamento “humano”, através da referência às sua corridas em marcha lenta, à beira-mar, o uso do computador portátil bem como do telemóvel, ida à pesca, leitura de livros e até, a colocação do protector solar ou a prática de surf.
O livro encerra com a letra de uma canção natalícia, segundo o narrador, bem conhecida.
Em suma, As Féria do Pai Natal oferece uma história de leitura acessível e divertida, cuja recepção pode ser muito proveitosa pois a fantasia e o sonho são fundamentais para o crescimento e desenvolvimento da personalidade da criança, de uma forma equilibrada.
Lourdes Custódio, a autora do livro em análise, nasceu na cidade de Luanda, em 1960. É Educadora de Infância formada pela Escola Normal de Educadores de Infância de Coimbra e tem o curso de Estudos Superiores Especializados em Administração Escolar.
É autora de alguns livros de histórias para crianças e de outros dirigidos a crianças e educadores.
José Cardoso Marques, o ilustrador, é professor de História Contemporânea da Universidade de Jaume I (Castellón). Especializado no Estudo dos Movimentos Sócias, publicou diversas obras sobre a história da classe trabalhadora.

“Grande Barrigada”






TORRÃO, Marta (2004): Come a sopa, Marta!, Lisboa: O Bichinho de Conto
ISBN: 972-95593-7-6



Editado recentemente (Março 2004), pela editora “O Bichinho de Conto”, este álbum, Come a sopa, Marta, é apresentado pela ilustradora Marta Torrão, que surge também como autora do texto verbal.
Em Come a sopa, Marta é possível que muitos dos leitores infantis se revejam na história. Esta conta que Marta, a protagonista da história, não gosta de sopa e que, diariamente «ficava a olhar para toda aquela papa verde, a tentar descobrir a melhor maneira de comer sem que o cheiro lhe chegasse ao nariz» (Torrão, 2004:4).
Atravessando, ao longo da história, algumas situações como a de um sonho, por exemplo, de onde saem ovelhas, mosquinhas, cada uma respectivamente com uma ervilha na boca e bocadinhos de cenoura do prato, Marta é surpreendida com um prato diferente. A mãe tinha encontrado uma forma de deixar Marta curiosa a fim de esta comer a sopa toda. É então que entra a personagem mistério, “o Chico”, o qual Marta só conheceria se comesse tudo. Ainda com esperanças que alguém lhe pudesse dizer quem era, sem fazer o sacrifício de comer tudo, perguntou à irmã, ao gato, ao pai, sem obter resposta. «E foi assim que, sem conseguir controlar a sua curiosidade, engoliu de uma só vez toda aquela papa verde (…). Quando abriu os olhos encontrou (…) o Chico» (Torrão, 2004:36, 37, 38). No entanto, logo reflectiu que agora que já conhecia o Chico, como seria para comer a sopa no dia seguinte. O livro termina, assim, com duas páginas ilustradas com pratos, todos com fundos diferentes.
Se o título e a temática prenunciados parecem cativar, logo de imediato, a criança, a articulação das ilustrações e das palavras reforçam essa ligação, que facilmente se criará entre este livro e a criança.
Podemos ainda referenciar que o seu carácter lacónico e a ligação ao mundo empírico, das experiências, a par da expressividade icónica fazem sobressair e prendem o destinatário extratextual. A verdade é que na narrativa protagonizada por Marta, ou no texto escrito por Marta Torrão, tal como no mundo das crianças, o real e o imaginário, aliados à criatividade, andam de mãos dadas.
Assim, o livro Come a sopa, Marta!, representando uma situação quotidiana e deixando em aberto uma história comum a muitas crianças, será, decerto, do agrado do pequeno leitor. É “um álbum de ficção vocacionado para as primeiras idades muito capaz de estimular a leitura, de promover competências lecto-literárias e de fomentar o gosto estético.” (Sara Silva)
Marta Torrão, recorde-se, nasceu em Lisboa, em 1974. Estudou ilustração e desenho no ar.co (2000). O seu trabalho é visível na imprensa e no mundo editorial, através das suas ilustrações para os livros infantis, O sol quentinho e Uma família de chapéus (Evereste, 2000, 2001). A sua participação em mostras colectivas de ilustrações foi visível na ilustração portuguesa (2001 e 2002), no Festival Internacional de Banda Desenhada, ilustração infantil, na feira do livro infantil de Bolonha, onde esteve integrada nas exposições «Nouve Figure per Pinochio» e «O meu Monstro» (2003).
Actualmente, Marta Torrão orienta cursos de ilustração para crianças organizados pela editora “O Bichinho de Conto”, em parceria com o Centro de Experimentação Artística, Lugar Comum.

A origem da música de Beethoven



Luisinho e as andorinhas é um livro infantil da autoria de Papiniano Carlos, com ilustrações de Elsa Navarro.
Papiano Carlos ou Carlos Papiano é um escritor português nascido em Moçambique, que escreveu várias obras literárias, geralmente de cariz poético, juvenil, como A menina Gotinha de Água ou Luisinho e as andorinhas.
Contar histórias é misturar a realidade com a ficção, o concreto com o imaginário. É, por vezes, confundir o passado com o presente. Pode ser ainda, a partir do presente, prefigurar o futuro. É o que podemos encontrar neste livro, sempre com as ilustrações de Elsa Navarro em conformidade com o texto verbal.
Esta história leva-nos para o campo da imaginação e do sonho por vezes. É a história de um menino que, através da natureza, descobriu que a partir daí poderiam surgir muitas e novas coisas, como a música. Este menino, que se chamou Beethoven, e que na altura tocava flauta, transfigurou os fios telégrafos ou telefónicos em pautas musicais, sendo que as andorinhas seriam as notas musicais. Um menino que, mesmo depois de ficar sem audição, conseguiu manter a capacidade de sentir a música e sonhar com ela. Deparamo-nos com um menino capaz de recriar e metamorfosear a realidade com o poder da imaginação.
Não é demais acrescentar que, ao longo de cada folhear de páginas, encontramos total concordância das ilustrações com o texto verbal. À medida que vão surgindo novos elementos na história, as ilustrações acompanham-na devidamente. Através da escrita de Papiniano está aqui presente uma referência a um grande músico (Beethoven) pelo corpo de uma criança.

Liberdade para Sonhar


A rapariga e o Sonho é um livro para a infância, da autoria de Luísa Dacosta, com ilustrações de Cristina Valadas. Dacosta foi professora do antigo Ciclo Preparatório, cumpriu um mandato no Conselho de Imprensa, recebeu em 1992 o Prémio Máxima de Literatura, pelo seu livro Na Água do Tempo – Diário. Em 2002, recebeu o prémio Uma vida, Uma Obra, instituído pela Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto.
Cristina Valadas, a ilustradora, é igualmente reconhecida na sua área, contando já no seu curriculum com 18 exposições individuais e várias colectivas. Neste livro, Cristina Valadas faz as ilustrações em aguarela sobre papel, ilustrações que acompanham o texto verbal.
Com este livro de Luísa Dacosta, vemo-nos envolvidos no universo do sonho, da liberdade, da magia. Através de um discurso metafórico, este livro mostra-nos a capacidade desta criança se abstrair do real para poder sonhar, com elementos simbólicos que participam na história e que se encontram em consonância com as magníficas ilustrações de Cristina Valadas. Esta é a história de uma menina que consegue ter a liberdade de fazer amigos imaginários, com os quais brinca, vive, chora e ri. Uma menina que se sentia em harmonia com vários elementos naturais, como a terra, as flores, as folhas, ao sol, lua e estrelas… Todos estes elementos permitiam-lhe libertar-se, faziam-na sonhar. Seres que mais ninguém identificava a não ser ela, e por isso, contava-lhes segredos.
Este é, portanto, um livro que nos remete à natureza do próprio crescimento humano, à capacidade de sonhar e à ligação humana com a natureza.


DACOSTA, Luísa (2001) A Rapariga e o Sonho. Colecção «Obras Completas de Luísa Dacosta». Porto: Edições Asa

04 janeiro, 2007

“Tio Julião”


Isidro, Júlio (2004) É tudo primos e primas. Porto: Edições Asa.
Ilustrações e concepção gráfica de Inês do Carmo
ISBN – 972-41-4081-4
Segundo a editora, recomendado a crianças com mais de 6 anos.

Júlio Isidro é um locutor de rádio e entertainer português. Frequentou o curso superior de Engenharia Mecânica que não concluiu. Estudou realização e produção televisiva na Universidade da Califórnia em Los Angeles (EUA). Unanimemente reconhecido como um dos mais bem sucedidos profissionais da televisão portuguesa, Júlio Isidro estreou-se nos écrãs por volta de 1960. Muitos dos programas em que participou, como autor, apresentador, realizador ou produtor, marcaram a televisão portuguesa. Apresentou ainda eventos especiais, como a Gala dos 50 anos da ONU, o espectáculo do 30º Aniversário da RTP1, a inauguração da RTP África e RTP Internacional e a Gala FIFA (1997). A sua actividade estendeu-se também à imprensa escrita, à publicidade, à música e à literatura infantil. Júlio Isidro conta já com dois títulos publicados e assegura uma colaboração regular no jornal 24 Horas, onde publica semanalmente histórias infantis – fonte, aliás, onde foi beber este seu novo livro, intitulado É Tudo Primos e Primas, com chancela de Edições ASA.
Nesta obra o autor reúne algumas dessas histórias – as suas preferidas – e, através da selecção que nos oferece, permite-nos conhecer uma família muito especial, onde reina a solidariedade, a amizade e a brincadeira. Os primos e primas são a Mariana, a Francisca, o Lourenço, o Max e o Xavier, heróis de histórias comuns a todas as crianças e à maioria das famílias. Apesar das diferenças de idade e da personalidade de cada um, estes primos são, sobretudo, companheiros e amigos que, através das peripécias do dia-a-dia, vão crescendo e estreitando cada vez mais os laços que os unem. Assim, na companhia de um tio “fixe” – o Tio Julião –, os acontecimentos mais banais ganham outro significado e uma simples visita ao Oceanário ou à Serra da Estrela transformam-se em verdadeiras aventuras.
O tio Julião cumpre, em algumas alturas, o papel do avô orientador, marcado pela experiência dos anos já vividos, e que vai conduzindo as operações (“Os cinco primos nunca tinham ido à neve, mas o tio Julião decidiu fazer-lhes uma surpresa de um fim-de-semana diferente.”, pág. 51); noutras situações, ele é personagem activa dos acontecimentos. Em súmula, o espírito de entreajuda do grupo é, por várias vezes, valorizado e preconizado. A curiosidade está sempre presente no espírito dos primos e é ela que muitas vezes permite que se evolua na acção, no próprio imaginário: “– Eu gostava de saber o que é uma bióloga!? – perguntou a Mariana” (pág. 29). Sabemos que só perguntando se sabe, ninguém nasce ensinado e, neste livro, existe sempre quem questione, existe sempre quem possa responder.
O texto icónico serve, nesta obra, fundamentalmente uma função representativa. Entre objectos representados, encontram-se páginas inteiras com verdadeiros cenários relativos às histórias imaginadas pelo grupo de primos e tio. Por vezes, como é o exemplo das págs. 10 e 11, os elementos encontram-se de alguma forma desordenados, respeitando uma ideia de surgimento livre e inesperado de novos acontecimentos e ideias, tal como acontece na história. Noutras situações, o cenário é absolutamente representativo de uma determinada acção; é o exemplo do tio bisbilhoteiro (pág. 14).
De notar neste livro é que, nas várias histórias dialogadas, se parte de um princípio bastante real para depois se entrar num mundo ficcional; como que entrando dentro de tantos outros mundos mágicos. A literatura infantil, entre outras, parece ser farta neste movimento. A Alice, no País das Maravilhas, é uma criança que, vivendo num mundo real, vê-se posteriormente a cair num túnel/abismo que vai dar a um mundo maravilhoso de elementos personificados.
As várias histórias deste livro servem-se de palcos da vida real muito comuns na nossa actualidade. Ajuda assim a despertar o interesse do leitor, por ele próprio se poder sentir nesses cenários. Assim, as histórias vão-se iniciando, ora seja no Jardim Zoológico, ora seja na Serra da Estrela ou ainda no Oceanário de Lisboa.

“Abraça me...preciso de ti”


Letria, José Jorge (2005) A árvore dos abraços. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições.
1.ª edição – Agosto de 2005
Ilustrações de Joana Quental
ISBN – 989-552-119-7

O livro pertence à Biblioteca “Tempo dos mais novos”, distribuído pelo diário nacional Jornal de Notícias

A Árvore dos abraços tem como público leitores de uma faixa etária desde os 4 anos. Como evidencia mensagens ecológicas e de interrelacionamento até bastante complexos pode ser lido na idade adulta também.
José Jorge Letria nasceu em Cascais em 1951. Estudou Direito e História. Jornalista desde 1970, foi redactor e editor de vários jornais diários. Na àrea infato-juvenil três dezenas de títulos, tendo obtido diversos prémios: Prémio Gulbenkian 90-92 de melhor livro; Prémio Ferreira de Castro (3 vezes); Prémio Nacional “O Ambiente na Literatura Infantil” (3 vezes); Seleccionado para a lista de honra de IBBY (1992-95). Autor de peças de teatro, várias vezes distinguido com prémios.

A história introduz-nos no imaginário de uma árvore que se via enriquecida por vários privilégios: uma mãe e um filho, que se sentando sob a sua copa, podia ouvir imensas histórias de aventuras e com os pássaros que poisavam nos seus ramos, podia conhecer coisas de terras longínquas. Um dia, apareceu o filho a chorar, pela mãe que morrera, e a árvore abraça-o tentando substituir a mãe. As pessoas ficaram sensibilizadas e também elas procuraram o seu aconchego. Algum tempo depois, um projecto de urbanização ameaça a própria árvore, levando as pessoas a insurgirem-se e a protegerem-na, abraçando-a. Conseguiram salvá-la e esta pôde viver por muitos mais anos.
O maior valor retratado nesta obra é o da protecção, pois está presente em toda a história, seja pela árvore que protege fisicamente os pássaros, seja pela árvore que protege emocionalmente a criança, seja pela árvore que protege emocionalmente todos aqueles que precisavam do seu abraço. Outro valor é a protecção da natureza pois, com a modernização, esta é esquecida, passando-se por cima dela para atingir os seus objectivos. Assim, o texto, de certa forma, proporciona-nos uma lição de moral relativamente a este aspecto.
A própria história conta-nos o testemunho de outras árvores, com essa mesma riqueza vivencial, como por exemplo, as árvores que presenciaram a Segunda Guerra Mundial onde “a árvore não salvou vidas, mas também não ajudou a tirá-las. Limitou-se a ser testemunha muda de todo o horror que acontecera à sua volta ” (Letria, 2005).
Quanto ao texto, este apresenta vários tamanhos e cores, mediante a importância ou intensidade sentimental do que é dito. “O menino vinha sozinho” (após a mãe ter falecido): a cor é a cinzenta, melancólica como a situação; “A árvore quis chorar”: a expressão “quis chorar” encontra-se a cor azul, cor da água. De outra forma, em “ela deixava-os construírem os ninhos entre os seus ramos”, as palavras, estando sobre a imagem da árvore, assentam nos seus ramos, estando como que em harmonia entre esta e com o que é dito. Finalmente, quanto às próprias imagens, e não nos referindo ao tipo de traço, mas mais ao que elas podem transmitir, descobrimos uma série de elementos que vincam os sentimentos a dado momento da narrativa: assim, quando a criança chora junto da árvore, as cores que envolvem o respectivo ícone são pálidas (escuras, com poucos contrastes), representando um pouco a tristeza da situação – a dor de uma criança que chora a perda da mãe; por outro lado, quando a criança, já adulta, volta para junto da árvore acompanhada pelos seus filhos, as cores que abundam nesta situação são vivas (tons de verde forte e azul), com corações como que desenhados no chão envolvente, representando a alegria, o amor e a felicidade.

A Desmistificação do Nascimento


Cole, B. (2002). A Mamã pôs um Ovo! 4ª Ed. Lisboa: Terramar. (ilustrações: Babette Cole)
ISBN: 972-710-177-1


A Mamã pôs um Ovo é uma obra da autoria da escritora inglesa que, aos sete anos, já havia escrito o seu primeiro livro, Babette Cole. Além de escrever, Babette também se dedicou à arte de ilustrar. Unindo as duas habilidades, tornou-se um talento reconhecido mundialmente, que pode ser comprovado nas mais de 70 obras publicadas, voltadas principalmente às crianças. Revelada pela Terramar, em Portugal, Babette Cole é um dos actuais grandes nomes da literatura e da ilustração para crianças. Senhora de um humor corrosivo, tipicamente britânico, consegue seduzir não só os pequenos leitores como também os próprios adultos.
A mamã pôs um ovo é um livro surpreendente que aborda, de uma forma singular, a questão da educação sexual. Carregado de humor e ironia, recheado de ilustrações, dá-nos a possibilidade de explorá-lo em qualquer uma das etapas do 1º Ciclo. É nesta fase que a criança começa a descobrir o mundo real.
O presente álbum poderá ser, tendo em conta as preocupações que continuam a existir com a introdução deste tema nas escolas, um excelente veículo para responder às dúvidas que vão surgindo, e que são ainda maiores quando as respostas que as crianças obtêm são ambíguas e até contraditórias.
Tratando-se de um álbum, as ilustrações destacam-se pela sua originalidade, pela forma coerente como acompanham o texto, que, por sua vez, contém uma linguagem simples, do quotidiano das crianças, permitindo que estas compreendam a mensagem. O uso recorrente ao nonsense é outro dos aspectos que enriquecem toda a narrativa, contribuindo para o aumento do suspense relativamente ao seu desfecho, que, por sua vez, é inesperado e surpreendente.

Glória Magalhães e Rui Maciel

A Origem do Nome

Alice Vieira. (2001). Trisavó de Pistola à Cinta e Outras Histórias. Lisboa: Editorial Caminho.
ISBN: 972-21-1422-0

Trisavó de Pistola à Cinta é um texto de género infanto-juvenil de Alice Vieira, inserido na colectânea Trisavó de Pistola à Cinta e Outras Histórias.
Alice Vieira nasceu em 1943 em Lisboa. É licenciada em Germânicas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Recebeu em 1979, o Prémio de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança, em 1983, o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil e em 1994 o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra. É hoje uma das mais importantes escritoras portuguesas para jovens, tendo ganho grande projecção nacional e internacional. Recentemente foi indicada pela Secção Portuguesa do IBBY (International Board on Books for Young People) como candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen. Trata-se do mais importante prémio internacional no campo da literatura para crianças e jovens, atribuído a um autor vivo pelo conjunto da sua obra.
Trisavó de Pistola à Cinta é uma narrativa que conta a história de uma série de gerações de mulheres com o mesmo nome, “Benedita”. Tal facto deve-se a um suposto acto heróico, base de todo o enredo, executado por uma antepassada da narradora (a trisavó) no século XVI, aquando a ocupação do território português pelos espanhóis.
A obra destaca-se pela sua vertente humorística e pelo mistério que envolve a protagonista, captando a atenção e espicaçando a curiosidade do leitor relativamente ao seu desfecho. A sequência das peripécias encaminha-nos para um clímax inesperado devido a uma descoberta acerca desta “super trisavó”, que resulta no término da geração das “Beneditas”.
Glória Magalhães e Rui Maciel

" A terrível papa verde"

Come a sopa, Marta!
Texto: Marta Torrão
Ilustração: Marta Torrão
Editora: O Bichinho de Conto
Ano de publicação: 2004
ISBN: 972-95593-7-6


Come a sopa, Marta! é um álbum com ilustração de Marta Torrão, que se estreia aqui como autora do texto verbal. Esta obra foi editada no ano de 2004 pela editora “O Bichinho de Conto”, e no ano seguinte a autora recebeu o Prémio Nacional de Ilustração com este livro.
Come a sopa, Marta! conta-nos a história de uma menina chamada Marta, que, como tantos outros meninos, não gostava de comer sopa e que todas as noites ficava a «olhar para toda aquela papa verde», tentando encontrar uma forma de a comer sem ter que a cheirar. A personagem, ao longo de toda a história, vai-se deparando com várias situações caricatas, como, por exemplo, numa altura em adormece tentando comer a sopa, e sonha que lhe saem de lá ovelhas com ervilhas na boca, seguidas de moscas com bocadinhos de cenoura, as quais ela tenta afastar com a colher. Depois um certo dia, Marta é surpreendida com um prato novo, que foi a forma que a mãe encontrou de a deixar muito curiosa, para assim ela comer a sopa toda. A mãe disse-lhe que se comesse tudo conheceria o “Chico”. Curiosa que ficou, Marta foi falar com quem achava que lhe podia dizer quem era o Chico, assim foi perguntar à irmã, ao gato, ao pai, mas ninguém lhe soube dizer. Foi então, devido à sua enorme curiosidade para saber quem era o Chico, que a Marta «engoliu de uma vez toda aquela papa verde (…). Quando abriu os olhos encontrou no fundo do prato… o Chico» (Torrão, 2004:36, 37, 38). Logo de seguida, ela pensou como é que iria comer a sopa no dia seguinte «Agora que já conheço o Chico» (Torrão, 2004:39). Desta forma acaba a história, com duas páginas finais de imagens de fundos de pratos, todos diferentes.
Assim, e em jeito de síntese, podemos dizer que o livro Come a sopa, Marta! reflecte uma situação do dia-a-dia das crianças, e com a qual os pequenos leitores se identificarão e reverão.
Esta obra é um álbum adequado a crianças nas primeiras idades, com a capacidade de estimular o gosto pela leitura nos mais pequenos, desenvolver as suas competências lecto-literárias, bem como o gosto estético.
Para terminar, podemos referenciar que as ilustrações são bastante sugestivas e, de certa forma, despertam elas também a curiosidade sentida pela personagem em conhecer o “Chico”.

"Maldição molhada"

A Princesa da Chuva
Texto: Luísa Ducla Soares
Ilustração: Fátima Afonso
Editora: Livraria Civilização
Local de publicação: Porto
Ano de publicação: 2005
ISBN: 972-26-2260-9

A Princesa da Chuva é um dos últimos livros da conhecida autora Luísa Ducla Soares, que já nos habituou a histórias divertidas e ricas em mensagens e ensinamentos.
Fazendo um breve resumo, o livro fala-nos da história de uma princesa que, aquando do seu nascimento sua mãe, a rainha, querendo manter as tradições, manda chamar três fadas através de um anúncio de jornal, com o objectivo destas fadarem a pequena menina. Isto começa desde já a mostrar-nos, de certa forma, a perda de magia dos contos de fadas na nossa sociedade, que por sua vez está mais calculista. Desta forma as fadas aparecem, mas reclamam ser pagas com realeza, pois «se há tempo para fadar; há tempo para pagar», que, mais uma vez, é uma verdadeira referência ao mundo materialista em que vivemos e ao qual as crianças se encontram sujeitas. Ao fadar a pequena princesa, uma das fadas atribui-lhe um dom muito peculiar, que é o de chover onde quer que a menina se encontre, consequência de ter feito «chichi» no vestido da sua fada madrinha, daí vem o título do livro A Princesa da Chuva. A princesinha cresce então solitária na torre mais alta do seu castelo, pois a sua presença “pluviosa” incomodava toda o reino. Certo dia, decide ir embora num bote, poupando todos da sua presença “desagradável” e levando-a para onde fazia mais falta, como nos desertos, conseguindo assim transformar a sua maldição numa bênção, no reino onde a sua condição fizesse falta.
Em termos estruturais, Luísa Ducla Soares apresenta uma narrativa que, por vários momentos, toca o mundo maravilhoso e mágico, onde aparecem figuras – tipo (reis, rainhas e princesas) e personagens do imaginário (fadas). A abundante ilustração e o discurso narrativo indicam ao leitor que não deve levar a sério as fadas, pois aqui, como acontece em outras histórias da autora, o maravilhoso é parodiado e algumas das situações mostradas acham semelhança no mundo real, despertando assim o sentido crítico do leitor. Esta narrativa utiliza um discurso apelativo, onde encontramos vários recursos estilísticos, tais como, metáforas e jogos de palavras e sons, aliterações (sobretudo do “r”) e repetições (por exemplo, a do três: “três fadas”, “três pratos de ouro”;a chuva que “caía, caía, caía”, “três anos a princesa…”, etc.).
Quanto à ilustração, que está a cargo de Fátima Afonso, este livro mostra-se bem ilustrado com imagens sugestivas, com grande variedade de cores e tamanho, pois em várias situações encontramos a própria ilustração a “sair” da página. A capa e contracapa têm um fundo cor-de-rosa que, de certa forma, poderá simbolizar o sonho, simbolismo também, por vezes, associado a esta cor. As guardas, por sua vez, são de cor esverdeada, o que poderá representar a prosperidade, a generosidade e o equilíbrio, entre outros dons desejados pela mãe da princesa, após ser fadada pelas suas madrinhas fadas.
Para terminar posso referir também que cada página de texto tem a acompanhar uma página inteira de ilustração, o que permite ao leitor uma mais adequada compreensão da história.

" Uma missão especial"

Araújo, Rosário Alçada (2004), A História da Pequena Estrela. Ilustração de Catarina França. Vila Nova de Gaia: Edições Gailivro. ISBN: 989-557-132-1

A partir dos 6 anos
(obra distinguida pelo Prémio Branquinho da Fonseca – Expresso/Gulbenkian -Setembro de 2003)

Este livro conta-nos a história da Pequena Estrela que vive triste no céu por se sentir sozinha e desenquadrada no meio de tanta beleza.
Um dia, resolve descer à Terra e, no “Lugar dos Grandes Corações” e conhece a Árvore da Sabedoria que a encarrega de procurar a sua missão pessoal, encaminhando-a para lugares fantásticos como o Lago do Peixe Rei ou a Ilha escondida.
No fim das suas aventuras, a Pequena Estrela ganha confiança em si própria e decide voltar ao céu para ocupar o seu lugar.
História mágica e cheia de emoção acompanhada pelas ilustrações de Catarina França, mergulha-nos no mundo de auto-descoberta e crescimento da Pequena Estrela e está recheado de lemas de vida importantes.
Este texto, apesar de camuflado sobre uma capa de aparente simplicidade e ficcionalidade (introduzida desde logo pela fórmula hiper codificadora “ Era Uma vez”) esconde um material rico e privilegiado para uma aprendizagem da vida e dos valores fundamentais.
O leitor mais jovem pode identificar-se com a Pequena Estrela, tímida e desenquadrada que inicia um processo de descoberta de si e da vida, apercebendo-se que todos temos um lugar importante a ocupar.
De realçar o episódio passado na Ilha Escondida, onde se alerta para a necessidade das pessoas pararem para usufruir o presente, olhando à sua volta pois “ Há mais mundos que este”
Por outro lado, a Árvore da Sabedoria, vai dando dicas mas nem sempre é explícita nos seus concelhos, pelo que a criança acaba por reflectir sobre as temáticas abordadas, e tirar outras ilações para além do texto, alargando deste modo o seu campo cognitivo.
Aconselhado pelo plano nacional de leitura para o 4º ano de escolaridade como leitura com apoio dos professores ou dos pais é também uma das obras aconselhadas no folheto “Um livro…Uma história…” da ACIME (Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas) para dispositivo pedagógico da educação intercultural.
Rosário Alçada Araújo, nasceu em Lisboa, no ano de 1973, licenciou-se em Direito e realizou um mestrado em Sociologia da Comunicação.
Editora Infanto-Juvenil na editora “Oficina do Livro”, a autora tem vindo a colaborar com diversas revistas como assistente editorial e tradutora e, juntamente com a ilustradora Catarina França, editou obras infantis como “A Rosinha, o mar e os sonhos” e “A história da Pequena Estrela”.
Sónia Gomes

“Não há Bela sem Senão”

Soares, Luísa Ducla (2005). A Princesa da Chuva. Ilustração de Fátima Afonso. Porto: Editora Civilização. ISBN: 972-26-2260-9

A partir dos 7 anos

O que pode acontecer de errado, quando 3 fadas são convidadas para fadar uma princesa?
No reino dos Reinetas nasce a princesa Princelinda e logo sua mãe, insistindo em seguir a tradição, manda chamar as fadas, para que a filha seja fadada.
Normalmente o habitual é aparecer uma bruxa que maldosamente lança uma maldição sobre o reino e a princesa em questão.
Acontece que esta história acrescenta um elemento “sui generis” – estas fadas são diferentes! Para além de se apresentarem por anúncio, cobram os seus serviços e, num insólito ataque de mau humor, a 3ª fada lança à princesa o malfadado destino de fazer chover por onde passe.
A partir deste dia chove dia e noite no reino, os habitantes desesperam e os reis discutem entre si.
A princesa, que “ crescera em beleza e bondade”, decide então partir e inicia uma missão muito especial que há-de transformar a sua maldição em dádiva.
Esta é uma história de fadas em contexto moderno, onde as personagens e a estruturação se mantêm, mas onde predomina uma desconstrução paródica das personagens e onde são introduzidos valores, atitudes, comportamentos e matizes sociais muito actuais.
Todo o discurso é marcado por jogos fonéticos, repetições, metáforas e diálogos muito vivos, cativando e envolvendo o leitor na trama.
As profusas ilustrações de Fátima Afonso acompanham o texto na perfeição e parecem andar de mãos dadas com o fino humor de Luísa Ducla Soares, rodeando, acompanhando e por vezes até se confundindo com aquele.
Ao longo do conto vamos também encontrando, nas imagens, referências intertextuais aos contos tradicionais como a cor vermelha da capa de chuva e do chapéu que a princesa usa quando parte, as 3 fadas, a imagem dos 3 pratos em que as fadas comem, o coche do rei, que remetem o leitor para histórias como o Capuchinho Vermelho, a Bela Adormecida e muitos outros.
Obra recomendada pelo Plano Nacional de Leitura, A Princesa da Chuva é uma narrativa que proporciona momentos muito agradáveis de contacto com a literatura, um texto bem disposto, que permite saborear, desde muito cedo, o gosto das palavras literárias.
A autora, Luísa Ducla Soares, nascida em Lisboa a 20 de Julho de 1939, licenciou-se em Filologia Germânica, e tem-se dedicado como estudiosa e autora à literatura infanto-juvenil, tendo já publicado 45 obras infanto-juvenis.
Recebeu o "Prémio Calouste Gulbenkian para o melhor livro de literatura infantil no biénio 1984-1985" e o "Grande Prémio Calouste Gulbenkian" pelo conjunto da sua obra em 1996. Colaborou também na página infantil do Diário Popular e na revista Rua Sésamo.
As suas obras encontram-se traduzidas em diversos línguas, nomeadamente francês, catalão, basco e galego.

Sónia Gomes
Os meus, os teus, os nossos amigos…




Torrado, A. (2002) Os meus amigos. Lisboa: Asa Editores
António Torrado – Texto
Júlio Vanzeler - Ilustração






A obra Os meus amigos de António Torrado é composta por quatro breves e interessantes histórias acerca de alguns dos seus amigos. Estas são capazes de fazer o leitor viajar para mundos nunca antes conhecidos e viver com o narrador as histórias contadas e vividas pelos seus amigos.
A fantasia, a imaginação e a criatividade do autor fazem-nos sonhar e esboçar um sorriso, ao mesmo tempo que a nossa mente imagina e cria todo o cenário criado pelas palavras lidas.
A omnipresença do narrador e o facto de interpelar, várias vezes, o leitor faz com que este sinta que o autor está ao seu lado a contar-lhe directamente as histórias.
O amigo patinador – personagem da primeira história – é uma personagem que adora andar de patins, uma vez que, na sua terra, todos os habitantes se deslocam em patins. O mais difícil para ele é não andar de patins, coisa que se transferirmos para a nossa realidade está ao contrário. Assim, ler esta história é abrir as portas ao fantástico e deixar a magia actuar, entrar num mundo, num espaço diferente, no qual exploramos o maravilhoso.
Na segunda história conhecemos o amigo pescador do narrador. Tal e qual como acontece na história anterior não somos capazes de não deixar escapar um sorriso ou de soltar uma leve gargalhada, já prevista pelo autor que nos comenta: “As pessoas crescidas, que isto lêem, riem. Ah! Ah! Ah! Quer dizer que estão a achar graça à história”. E com estes comentários mais graça achamos à história e mais vontade temos de devorar este belo livro.
A minha prima Elisa – terceira história do livro – é uma personagem encantadora que nos cativa por se rir quando não é para rir e por ficar envergonhada por se ter rido. A nossa prima Elisa toca-nos por ser uma personagem afectuosa e humana, capaz de resolver o conflito presente na história com um acto de generosidade, compaixão e amor.
O livro termina com a quarta história acerca do amigo Almiro e do seu elefante. Esta é uma deliciosa história que nos deixa apaixonados pela capacidade da personagem gostar de um elefante que, apesar de ser seu, porque o tio Roberto lho ofereceu, nunca o teve.
Lidas as quatro histórias, conhecidos os amigos do narrador e criados laços afectivos com estes, sentimos que foi uma obra de leitura fugaz que nos deixa um sentimento de saudade e vontade de viver novas aventuras.
Alexandra Sofia Costa & Maria João Teles
Recensão sobre o conto tradicional A Galinha Medrosa,
de António Mota

A Galinha Medrosa, recontada por António Mota e ilustrada por Martinho Dias, é um conto tradicional infantil que conta a história de uma galinha tão medrosa, mas tão medrosa, que até da própria sombra tinha medo! Um dia, quando saiu do galinheiro para apanhar uma minhoca, um bocadinho de cal caiu-lhe na cabeça e foi a partir daí que toda a história se desenrolou.
Todas as peripécias e desventuras deste conto tradicional empregam à sua leitura um dinamismo cómico e ridicularizado pela situação que uma simples galinha cria em torno da suposta pacatez de todos os outros animais.
De leitura rápida e acessível, A Galinha Medrosa é uma obra divertida e de fácil compreensão que nos leva a uma viagem literária repleta de movimento e confusão.
As ilustrações são um forte apoio para a consecução do já referido dinamismo que se sente ao ler o texto. As fortes tonalidades e a noção de movimento conferem às imagens uma maior energia e transparecem o tal “cómico da situação”, facilitando, ainda, uma maior integração no âmago da acção.
Ler A Galinha Medrosa é experimentar sensações: de surpresa perante as fontes gráficas atractivas, de alegria face ao ridículo da situação, de curiosidade pelo desenrolar da história e até de interesse pelo fundamento da sua acção.
Num mundo de fantasia e de ficcionalidade em que o caricato e a confusão se destacam, a acção deste conto tradicional não se perde no tempo, no espaço, nem na tradição. Mais do que uma história recontada, A Galinha Medrosa é uma narrativa que apela à boa disposição e a momentos literários de descontracção daqueles que se deixam deliciar pela sua essência.
O fim, esse não o revelo. Resta saber se a Galinha descobre a causa de tanto medo!...

Alexandra Sofia Costa & Maria João Teles


MOTA, António (2000). A Galinha Medrosa. Vila Nova de Gaia: Gailivro.

Surpresa ao fim de uma semana…


CLARKE, Jane (2006) Já não faço xixi na cama, Porto: Gailivro (ilustrações de Mary McQuillan) (1ª edição)

ISBN 989-557-256-5



A partir dos 3 anos


Esta história fala de um pequeno dinossauro, Dino, que foi convidado para ir dormir, na sexta-feira, a casa do seu amigo Picos. Ele estava ansioso pois sempre que os dois estavam juntos divertiam-se muito. Mas havia um pequeno problema pois todas as noites quando estava a dormir, ele fazia xixi na cama. Até lá Dino tinha de se corrigir, mas chegou à altura e ele não tinha conseguido. Mesmo assim foi dormir a casa do seu amigo e a surpresa foi grande pois Picos também fazia xixi na cama. Mas no fim, regressado a casa, houve muita alegria pois a cama estava sequinha…
A ilustradora Mary Mcquillan é uma artista britânica, muito conhecida no Reino Unido e tornou-se muito conceituada por todo mundo pelas suas ilustrações para livros de crianças. Mary participou no primeiro dicionário de rimas de John Foster, tem sido a ilustradora de vários contos infantis de autores como Penny Little e Richard Waring. Ilustrou também alguns livros de Kes Gray e de Jane Clarke.
A Editora Gailivro é vocacionada para o público jovem, abarcando também a esfera infantil. Além da promoção de jovens talentos, a editora aposta em trabalhos de alta qualidade criativa sendo também frequentes as realizações de concursos literários. A editora dedica-se também à venda de material pedagógico adequado às práticas de ensino.
Já não faço xixi na cama é um álbum de capa dura bastante simples, mas muito apelativo e de fácil compreensão, ideal para promover, entre os mais novos, o convívio com literatura de qualidade.
Nas páginas de rosto deste livro podemos ver pequenos dinossauros que vão estar presentes ao longo da história, dentro deste está também presente uma dedicatória tanto da autora como da ilustradora para os seus filhos.
Esta obra tem ilustrações muito coloridas, engraçadas e maiores do que na maioria dos livros, ocupando duas páginas. As ilustrações da obra acompanham o texto verbal e a partir delas percebemos a ideia da história. Verifica-se ainda que a caligrafia é irregular com formas curvas e ondulantes, variando de tamanho.
É importante referir que, ao longo de todo o texto, encontramos diálogos frequentes e frases curtas. Todas estas características dão uma certa animação à história e atraem a atenção do leitor, tanto das crianças como dos seus pais.
O que me motivou para a leitura deste livro foi, em primeiro lugar, o facto de ter um título, elemento paratextual, atractivo, que retrata uma situação quotidiana comum a muitas crianças, e depois todo o aspecto físico do livro: texto icónico e texto verbal.
Esta história ternurenta e reconfortante representa uma possibilidade de, através da literatura, desmistificar o problema de fazer xixi na cama, uma situação muito frequente na vida dos mais pequenos, permitindo à criança-leitora identificar-se com o Dino, o herói infantil desta narrativa, e ver, portanto, com outros olhos esta questão, ver que não é preciso ter complexos devido a isso. É um bom livro para crianças e para os pais lerem aos filhos.


Cândida Duarte

A Caixinha Mágica


LÉ, Elsa (2005) Um milhão de Beijinhos, Colecção “lua de papel”, Porto: Âmbar (Texto e ilustração de Elsa Lé) (1ª edição)

ISBN 972-43-0869-3


A partir dos 4 anos
Este álbum é composto a uma só mão, a da autora e ilustradora Elsa Lé.
Elsa Lé nasceu em 1968, em Ovar. Licenciou-se em Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto. É professora de Educação Visual e Expressão Plástica, do 3º ciclo do Ensino Básico. Lecciona no Porto e já participou em várias exposições individuais e colectivas. É autora e ilustradora dos livros infantis Um milhão de beijinhos, editado pela Ambar, em 2005, e Risco, o peixe-aranha, editado pela Ambar, em 2006.
A actividade editorial da Ambar conhece um tempo de renovação com mais projectos e uma outra estratégia, no sentido de reforçar a dinâmica do livro dentro e fora do País, dando uma atenção especial à cultura e aos autores portugueses, com uma aposta nos diferentes géneros de escrita e em particular na ficção e ensaio. Temas da actualidade e de intervenção sócio-cultural inscrevem-se, também, nos projectos da editora.
Esta obra retrata a vivência de uma menina, Maria, que vive num mundo doce e colorido, onde há lugar para o sonho e o amor. Mas, um dia, algo de muito triste acontece no seu mundo e no coração dos adultos. Maria terá de arranjar uma solução fantástica, para que a ternura regresse ao coração de alguém que ela muito ama, o pai. E assim ofereceu-lhe uma caixinha de fósforos vazia, embrulhada num papel prateado muito bonito. O pai, quando recebeu a prenda, ralhou com ela porque não se devia oferecer algo sem ter nada dentro. Maria ficou tristíssima e disse-lhe que tinha soprado lá para dentro um milhão de beijinhos. Abraçaram-se e ficaram unidos para sempre.
Este álbum tem um conjunto restrito de personagens, apenas a Maria e seu pai, e um registo bastante simples, composto por um vocabulário muito acessível, o que promove uma intimidade texto-leitor.
Para essa espécie de intimidade texto-leitor contribui, ainda, o facto de, em geral, as ilustrações, sempre de dimensão/extensão superior à mancha vocabular, não só precederem, mas também alargarem, de modo evidente, o sentido do texto verbal. Para esse alargamento as cores têm aqui um papel muito importante pois estas adequam-se ao sentimento do texto escrito, se o texto trata de uma parte mais triste as cores são mais sombrias, se trata de uma parte feliz as cores são fortes e vivas.
A riqueza figurativa e a luminosidade policromática do texto icónico constatadas em Um milhão de beijinhos prendem o pequeno leitor que acaba por seguir, com entusiasmo, o desenrolar da história.
Este livro tem um espaço literário pautado pelo maravilhoso, um espaço no qual o leitor é convidado a “despegar os pés da terra” e a soltar a imaginação, é levado a idealizar o belo mundo onde Maria vive, a sua colorida casa, o seu quarto repleto de brinquedos, etc.
Após a leitura desta obra percebemos que o que importa aqui são, de facto, os laços afectivos que unem as pessoas. É um livro repleto de sentimento, de amor e carinho óptimo para crianças, mas também para os adultos pois contém duas mensagens para eles. Uma, é que as crianças são diferentes dos adultos, pensam de maneira diferente, têm imensa imaginação, por isso os adultos devem em primeiro ouvir e compreender os mais pequenos e não os censurar logo. A outra é que, através das crianças, se leva mais amor ao coração dos adultos para se conseguir um mundo melhor, sem guerras.
Cândida Duarte

Da infância para a adolescência pelo mundo dos sonhos

“A Rapariga e o Sonho”

DACOSTA, Luísa (2001) A Rapariga e o Sonho. Colec. «Obras Completas de Luísa Dacosta». Porto: Edições Asa (Ilustrações de Cristina Valadas)

O título do próprio livro A Rapariga e o Sonho desperta em qualquer leitor uma enorme vontade de percorrer todas as suas páginas e descobrir qual a ligação que existe entre a Rapariga e o Sonho.
Devido ao carácter enigmático, e até um pouco abstracto, que domina a obra, isto porque exige a activação de determinados conhecimentos ou competências cognitivas do leitor para a descodificação de determinados sentidos implícitos no texto, podem surgir múltiplas leituras sobres as temáticas do texto e a sua, consequente, concretização.
A polissemia ou plurissignificação inerente a qualquer texto literário nunca permitirá uma leitura unívoca desta obra, pelo contrário, suscitará várias linhas ideológico-temáticas, entre as quais o processo de crescimento e desenvolvimento interior de uma rapariga; o jogo simbólico, o faz-de-conta presente na infância; a capacidade de sonhar inerente às crianças e, também, a todos os seres humanos; o confronto do mundo do sonho e da fantasia com o mundo real, quase que imposto, através do crescimento exterior e interior de cada ser humano e, por fim, a mudança do mundo dos sonhos da infância para o mundo dos sonhos na adolescência.
Toda a obra nos conduz a uma reflexão interior acerca dos nossos próprios sonhos, fazendo-nos acreditar que os sonhos podem mudar a realidade.
A obra demonstra, contudo, que apesar das realidades, ou das expectativas dos seres humanos em relação a elas, mudarem, os sonhos continuam a acompanhar a existência de cada ser humano e que, muitas vezes, são eles os responsáveis por determinadas mudanças na própria realidade.
Tendo presente que as obras de literatura com potencial leitor infantil devem possibilitar ao leitor o preenchimento de “espaços em branco”, esta obra é o exemplo perfeito pois começa logo por não atribuir um nome próprio à personagem, o que pode, exactamente, servir para que cada leitor se possa identificar com a história ou não, reportando-a para as suas próprias vivências.
A riqueza semântica, acompanhada pelas ilustrações de Cristina Valadas, transporta-nos para o mundo do sonho, da aventura e da fantasia, conduzindo-nos à leitura e releitura de toda a obra para a descoberta e análise de todos os seus elementos simbólicos.

Natália Ferreira e Sandra Soares

Ninguém dá prendas ao Pai Natal

SALDANHA, Ana (2002): Ninguém dá prendas ao Pai Natal, Porto: Campo das Letras (2ª ed. / 1ª ed.-1996) (Ilustrações de Joana Quental)

O Pai Natal, um velho e bondoso senhor que, na noite de Natal, distribui, alegremente, muitos presentes para todas as crianças do mundo. Um senhor de barbas brancas, que veste um fato vermelho e que sempre nos presenteia com um grande e lindo sorriso.
No entanto, Ana Saldanha, em Ninguém dá prendas ao Pai Natal, confere a esta figura um carácter um pouco mais inovador e diferente de tudo aquilo que já havíamos imaginado. A autora em questão apresenta a figura do Pai Natal através de uma nova perspectiva, a de um senhor triste e choroso porque ninguém lhe dá prendas.
Este cenário vai, contudo, sendo alterado pelo surgimento de outras figuras, de outras personagens vindas dos contos tradicionais e do maravilhoso, que se juntam num só espaço – a casa do Pai Natal no Pólo Norte. Sequencialmente, chegam a Capuchinho Vermelho, a Gata Borralheira, o João Ratão, a Bruxa da Casinha de Chocolate, a Raposa e o Lobo Mau e todos vêm com um grande objectivo: dar uma prenda ao Pai Natal. E é deste modo surpreendente e neste universo intertextual que toda a acção da obra se desenrola, uma estratégia e um cenário inovadores capazes de despertar e motivar o leitor para o fantástico mundo do maravilhoso e do imaginário e para as personagens que lá se movimentam.
Sem dúvida, uma narrativa notável, marcada por um humor subtil e por um final feliz, tal como acontece nos contos maravilhosos: “- Que prendas maravilhosas, digo eu. Todas elas. E principalmente, a prenda da vossa companhia, meus amigos.”
Ninguém dá prendas ao Pai Natal, um excelente presente não só para o Natal, mas para todo o ano, um presente para quem gosta de ler, para quem vê na leitura um bom caminho para o sonho, para o mundo do imaginário e para a partilha de valores como a amizade e a compreensão.

Natália Ferreira e Sandra Soares

03 janeiro, 2007

Poemas Para a Infância


Gomes, José António (coordenação) (2000).
Conto estrelas em ti. Ilustrações de João Caetano. Porto: Campo das Letras.
ISBN 972-610-337-1

Conto estrelas em ti é uma antologia, coordenada por José António Gomes com ilustrações de João Caetano, na qual 17 poetas escrevem para a infância. Este livro pertence à colecção “Palmo e Meio” da editora Campo de Letras.

José António Gomes, autor de várias antologias para a infância e juventude, é professor do Ensino Superior e é membro da Associação Portuguesa de Críticos Literários, fundou e dirige a revista Malasartes – Cadernos de Literatura para a Infância e a Juventude.

João Caetano nasceu em 1962 em Moçambique, tem o curso de Pintura da Escola Superior de Belas Artes do Porto, iniciou a sua actividade ligado à Banda Desenhada e ilustrou vários títulos na área do livro infanto-juvenil em Portugal e Espanha. Foi distinguido com Menções Especiais do Premio Nacional de Ilustração em 1998 com Os mais belos contos tradicionais de Margarida Müller, inclusive com Conto estrelas em ti em 2000, recebeu ainda uma Menção Especial do Concurso “Scarpett d’oro” em Itália e em 2001 com A maior flor do mundo de José Saramago ganhou o Prémio Nacional de Ilustração.

Os autores, Albano Martins, Álvaro Magalhães, Ana Saldanha, António Mota, António Torrado, Fernando Miguel Bernardes, Francisco Duarte Mangas, João Pedro Mésseder, Luísa Dacosta, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Meneres, Mário Castrim, Papiniano Carlos, Raul Malaquias Marques, Teresa Guedes, Vergílio Alberto Viera e Violeta Figueiredo, escrevem, cada um, um número variável de poemas, cada qual com o seu estilo, tal como se pode ler na contracapa numa breve observação “Conto estrelas em ti, dezassete vozes, dezassete modos de escrever poesia para crianças e jovens”

Esta obra, embora esteja incluída no Plano Nacional de Leitura de 2006 como livro recomendado ao 2º ano de escolaridade para leitura em voz alta orientada em sala de aula, destina-se não só a crianças mas também a jovens, como se constata na pequena mensagem, escrita por José António Gomes, dirigida ao leitor: “uma colectânea de poemas para a infância e a juventude”.

Os vários poemas incidem não só em temas relacionados com o mundo animal e a natureza, muito presentes na imaginação das crianças, mas também em temas onde a fantasia e o sonho estão manifestamente mais evidentes, como no caso dos poemas: Sereia (Mário Castrim); Guarda-roupa de nuvens (António Torrado); Mariana diz que tem…(Luísa Ducla Soares), e ainda temas que apontam para uma certa reflexão acerca da linguagem, entre outros evidenciam-se O limpa – palavras (Álvaro Magalhães); Diálogo (Albano Martins).

Esta colectânea permite às crianças o contacto com um modelo literário não tão habitual nesta faixa etária, a poesia.

As ilustrações de João Caetano não são meras representações do texto verbal, mas antes um complemento a este, que permite ao leitor interagir activa e criticamente, sugerindo novas histórias e leituras, reflectir sobre a própria estética do texto, tendo assim a oportunidade de imaginar e recriar para além do texto verbal.

O texto verbal oferece uma certa resistência ao leitor, o que o faz pensar e interpretar, tendo que ir em busca dos sentidos do texto, deixando de ser apenas contemplador para passar a ser mais activo. Os estímulos sonoros e jogos de palavras presentes nos variados poemas cedem ao receptor a possibilidade de desenvolver um lado criativo que lhe permite sonhar em volta de toda esta liberdade.

Conto estrelas em ti “fala à nossa sensibilidade, apela aos nossos sentidos e faz-nos admirar a beleza e maleabilidade da língua portuguesa, em que os seus versos são escritos.” (José António Gomes).


Um pulo à infância, uma viagem ao meu imaginário infantil

DACOSTA, Luísa (2002) A Menina Coração de Pássaro. Colec. «Obras Completas de Luísa Dacosta». Porto. Edições Asa. Ilustração: Jorge Pinheiro. ISBN: 972-41-3181-5.
Luísa Dacosta conta-nos a história de uma menina “sonhadora e solitária, que falava com as flores e sabia o coração das coisas”. Certo dia encontrou um antigo enfeite da sua árvore de Natal, um pássaro «branco lunar, prateado e vidrento», no entanto este pássaro não tinha rabo, e então que ela decide procurar um rabo para o pássaro. Quando a menina lhe colocou o rabo o pássaro transformou-se magicamente. E com ele que ela começou a voar. Nesses voos “Não havia limites: tudo era amplo, liberto, sem fim”. A menina aventurou-se cada vez mais até que chegou à beira de um grupo de estrelas, e logo reparou que ao lado desse grupo estava uma estrelinha sozinha. Mantiveram uma longa conversa, até que se tornaram amigas. Durante a conversa a estrelinha confessou não ser feliz, no entanto a menina disse “…só sei que invejo a tua sorte…daqui vês a terra…não há nada mais belo…”. A estrelinha rapidamente a contrariou “estou aqui há milhares de anos e posso dizer-te que mais vasto que o oceano é o sofrimento dos homens…” a estrelinha explica que a entristece o egoísmo dos homens, com o sofrimento que causam uns aos outros, ao passo que a menina tenta entender “como poderão os homens reencontrar o caminho da felicidade”. E ao fim do diálogo a menina levanta voo. No entanto sem que passa-se muito tempo sentiu saudades da sua amiga e voltou a voar até ela. Quando lá chegou conversaram mais uma vez…mas esta foi uma conversa diferente da primeira, nesta conversa a estrelinha falou-lhe no “…fogo da ternura e da amizade…” e é este fogo que as vai tornar ainda mais amigas…alias a primeira amiga de cada uma. Depois disto a menina voltou para o seu quarto, mas agora não trazia consigo a tristeza, e sim o calor da amizade e um horizonte carregado de sonhos e pensamentos.
A narrativa desta história é em muito semelhante à de “O Principezinho”, há um cerne muito emotivo entre as conversas que a menina estabelece com a sua amiga estrelinha. Também a forma como se inicia a história, com um tom de desencanto, que contrasta com o seu desfecho em que está presente uma mensagem de reconforto.
Ao ler esta obra senti-me envolvida num Mundo de sonhos e de afectos uma vez que nela estão presentes sentimentos nobres como a amizade, a bondade e uma enorme vontade de deixar o Mundo um pouco melhor do que o encontramos. A verdade é que, por momentos, me senti criança novamente.
A linguagem é de fácil compreensão, com vocabulário simples e acessível. O leitor tem a possibilidade de preencher os inúmeros espaços em branco deixados pela pouca ilustração. Por tudo isto penso que esta obra pode ser lida por crianças a partir dos 6 anos, mas que deverá ser lida ás crianças com menos de 6 anos, visto que contém uma moral muito importante para o desenvolvimento da personalidade do receptor. Os elementos paratextuais como o título e a ilustração da capa, na minha opinião de leitora, são extremamente apelativos e que podem criar curiosidade ao leitor para pegar no livro e o ler.
A nível estilístico esta obra está polvilhada de metáforas, extraordinariamente bem usadas que fazem o leitor sonhar ainda mais, imaginar, e viajar para além do mundo das palavras e do mundo que o rodeia.
Vanessa Gonçalves