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04 novembro, 2007


Em todas as conversas sobre a problemática da leitura, sempre alguém se queixa de que cada vez se lê menos. Se é verdade que ainda estamos aquém dos índices desejados, comparativamente com alguns países da união europeia e que isso se reflecte nos índices de literacia dos portugueses, também pensamos que haverá algum exagero nesta afirmação.

O problema é que, muitas vezes, quando dizemos que se lê pouco estamos a pensar na leitura de autores consagrados como Fernando Pessoa, Saramago, Eugénio de Andrade... e muitos mais! Mas a maioria dos leitores escolhem antes para leitura, as novelas dos Templários, os mistérios das múmias Egípcias, as sagas das mulheres Muçulmanas ou as atrocidades de Hitler.

No que à literatura infantil diz respeito lêem, por exemplo, J. K. Rowling, para arrepio de muitos bons professores de Língua Portuguesa!

Enfim, o que estes leitores fazem é ler por prazer, em lugar de ler para qualquer outra coisa! Lêem sem terem uma ideia penitencial da literatura, sem se importarem de se insurgir contra os cânones estabelecidos. A ideia de que se lê para tirar prazer da leitura ainda assusta, porque a leitura tem que constituir-se como um esforço desmedido, um trabalho interminável ou uma mortificação que melhora o espírito.

Contudo, a leitura, seja ela qual for, é sempre uma expressão de um prazer superior, no que a Stuart Mill (1871) diz respeito, pois só os seres humanos conseguem apreciá-la e deleitar-se com ela.
Por isso venham os Paulos Coelhos, os Nicholas Sparks e os Dan Browns!

22 outubro, 2007

Apresentação de livros em Braga






15 outubro, 2007

Os Livros das Nossas Vidas…

Ler, partilhar leituras e conversar acerca de textos que nos são gratos são os objectivos do clube de leitura, que, dinamizado pelos alunos da Licenciatura em Educação Básica, com o apoio do Departamento de Ciências Integradas e Língua Materna do Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho, em colaboração com o Centro de Investigação em Promoção da Literacia e Bem-Estar da Criança, se reunirá, com regularidade, às 2as feiras, a partir das 17h45, na Livraria Almedina, situada no campus de Gualtar.

Falaremos, num ambiente informal, sobre textos literários que nos interessam, que nos agradam ou que, de algum modo, consideramos relevantes, independentemente de pertencerem ou não ao cânone, de serem ou não clássicos, best-sellers ou se incluírem mais no âmbito de uma literatura comercial.

A entrada é livre e estão todos convidados!

Autores para o dia 12 de Novembro: Paulo Coelho, Rosa Lobato de Faria e Nicholas Sparks

Autores para o dia 19 de Novembro: Luís Sepúlveda

Autores para o dia 26 de Novembro: Dan Brown e Susana Tamaro

Educar para a Literacia

Muito antes de saber ler a criança já compreende uma sequência narrativa contada pelos pais ou pelos avós. Mesmo muito pequena pode perceber que as imagens são uma representação do mundo empirico-histórico factual e que essas imagens estão em locais a que se podem voltar vezes sem conta, basta ir buscar o livro à estante. Mais tarde, começará a associar essas imagens às palavras que as acompanham e assim começar a construir o espólio de recursos essenciais para a prendizagem da leitura.
A Literacia da leitura nasce, portanto, desde o berço, e como o PISA 2000 tão bem nos mostra verifica-se " haver diferença entre os perfis das famílias dos alunos com alto nível de literacia e os das famílias dos alunos com baixo nível de literacia. Os melhores resultados do PISA tendem a identificar-se com os alunos provenientes de famílias "em que os recursos educacionais bem como os bens culturais em casa são elevados e em que é maior a frequência com que os pais interagem com os filhos, em actividades tais como a discussão de temas sociais, de livros e filmes ou, simplesmente, falando com eles."
Morrow, ( 1997) diz-nos que as experiências precoces ricas em literacia têm consequências na apropriação infantil de conceitos relacionados com a codificação da escrita, nomeadamente em relação aos sons, às letras e às palavras e por isso é tão importante que todas as crianças possam usufruir dos bens culturais que são, por exemplo, os livros. Para isso é necessário que todas as famílias os tenham, ou que pelo menos saibam que os podem aceder através das Bibliotecas, de forma a que os caminhos da ciência e da fantasia sejam possíveis para todos.
A promoção de hábitos de leitura e a aquisição de competências ao nível da literacia dos mais pequenos, através dos livros de literatura infantil, é uma proposta que nós acarinhamos e defendemos porque " Descobri que neles estava tudo. Não apenas fadas, gnomos, princesas e bruxas malvadas. Também lá estávamos tu e eu com todas as nossas alegrias, as nossas preocupações, os nossos desejos, as nossas tristezas; o bem e o mal, a verdade e a falsidade, a natureza, o universo. Tudo isso cabe nos livros. Abre um livro! Ele partilhará contigo todos os seus segredos."(Éva Janikovszky, 2003)

12 outubro, 2007

Importante recurso na web: adrian&pandora

Para todos os que já são leitores e para os que trabalham como mediadores da leitura com adolescentes e jovens adultos em bibliotecas públicas, não deixem de visitar o interessante blogue adrian&pandora e as suas numerosas e relevantes ligações!

11 outubro, 2007

"CENSURA E INTER/DITO" - IX Colóquio de Outono

22, 23 e 24 de Novembro 2007


O IX Colóquio de Outono organizado pelo Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho realizar-se-á a 22, 23 e 24 de Novembro próximo e será subordinado ao seguinte tema: Censura e Inter/Dito . À semelhança dos Colóquios anteriores, a estrutura deste Colóquio compreenderá conferências plenárias a cargo de conferencistas convidados e sessões temáticas, entre as quais
- "As Literaturas Pós-coloniais: Marginalização e/ou Subalternidade?";
- Teatro, Tradução e Censura;
- A Censura e o Inter/Dito na Literatura Contemporânea;
- Linguagem , Cultura e Inter/Dito
- Os Estudos Galegos em Portugal.


Para mais informações contactar (alice@ilch.uminho.pt ou ceh@ilch.uminho.pt).

O programa será divulgado brevemente.

Comissão
Direcção do CEHUM:
Professora Ana Gabriela Macedo
Professora Maria Eduarda Keating

10 outubro, 2007

I CONFERÊNCIA PNL - A leitura em Portugal: desenvolvimento e avaliação

22 e 23 OUTUBRO 2007
Fundação Calouste Gulbenkian

22 de Outubro

08.30 Recepção dos participantes – entrega de pastas

09.00 Sessão de abertura
Maria de Lurdes Rodrigues, Ministra da Educação
Jorge Pedreira, Secretário de Estado Adjunto e da Educação
Eduardo Marçal-Grilo, Administrador Fundação Calouste Gulbenkian
Isabel Alçada, Comissária do PNL
João Mata, Director GEPE

09.30 Conferência A aprendizagem da leitura: componentes, perfis de evolução e respectivas avaliações
José Junca da Morais, Universidade Livre de Bruxelas
Presidência: Roberto Carneiro, Universidade Católica de Lisboa

10.30 Debate

10.45 Pausa

11.15 - Apresentação do estudo - "Estudos e instrumentos de análise de níveis de leitura"
Inês Sim-Sim, Escola Superior de Educação de Lisboa
Fernanda Leopoldina Viana, Instituto de Estudos da Criança – Universidade do Minho

Presidência: David Justino, Universidade Nova de Lisboa
Comentários: Maria Helena Mira Mateus, Conselho Científico do PNL
Carlos Pinto Ferreira, Director-Geral do GAVE

12.15 Debate

12.30 Almoço

14.30 Conferência
Hábitos de leitura. Diferentes casos em contexto internacional Wendy Griswold, Northwestern University - EUA
Presidência: Maria Idalina Salgueiro, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento

15.30 Debate

16.00 - Apresentação do estudo - "A promoção da leitura nos países da OCDE"
Maria de Lurdes Lima dos Santos
José Soares Neves Santos, Observatório das Actividades

Presidência: Carlos Reis – Universidade Aberta
Comentários: Maria de Lurdes Dionísio, Conselho Científico do PNL
Isabel Margarida Duarte, Conselho Científico do PNL

17.00 Debate

17.30 Encerramento


23 de Outubro

09.00 Sessão de abertura
Mário Vieira de Carvalho, Secretário de Estado da Cultura
Manuel Carmelo Rosa, Director da Fundação Calouste Gulbenkian
Nazim Ahmad, Rede Aga Kahn para o Desenvolvimento
Teresa Calçada, PNL- Rede de Bibliotecas Escolares
Paula Morão, PNL- Direcção Geral do Livro e da Biblioteca

09.30 Conferência Avaliação da leitura em contexto internacional
Helena Bomeny, Escola de Ciências Sociais-CPDOC Fundação Getúlio Vargas – Brasil

Presidência: Paula Morão – PNL/DGLB

10.30 Debate

11.00 Pausa

11.30 - Apresentação dos estudos - "Hábitos de leitura da população portuguesa”
Maria de Lurdes Lima dos Santos José Soares Neves Santos, Observatório das Actividades Culturais
Hábitos de leitura da população escolar"
Mário Lages, Carlos Liz, João António Universidade Católica de Lisboa

Presidência: Teresa Calçada – PNL/RBE
Comentários: Alexandre Castro Caldas, Conselho Científico do PNL
Maria Armanda Costa, Conselho Científico do PNL

12.30 Debate

12.45 Almoço

14.30 Conferência
Leitura, educação e desenvolvimento: perspectivas comparadas
Scott Murray, Universidade de New Brunswick (Canadá)

Presidência: Júlio Pedrosa, Conselho Nacional de Educação

15.30 Debate

16.00- Apresentação do estudo - "Avaliação externa do Plano Nacional de Leitura"
António Firmino da Costa CIES/ISCTE

Presidência: António Nóvoa, Universidade de Lisboa
Comentários: Pedro Magalhães, Conselho Científico do PNL
Manuel Villaverde Cabral, Instituto de Ciências Sociais

17.00 Debate

17.15 Sessão de encerramento
Augusto Santos Silva, Ministro do Assuntos Parlamentares
Manuel Carmelo Rosa, Fundação Calouste Gulbenkian
Isabel Alçada, Comissária do PNL
João Mata, Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação

Informações:
Plano Nacional de Leitura
Travessa das Terras de Sant' Ana, 15
1250-269 Lisboa
Tel.: 213 895 203, Fax.: 213 895 148
URL: www.planonacionaldeleitura.gov.pt

07 outubro, 2007

Aristides de Sousa Mendes - homem de coragem



Aristides de Sousa Mendes – homem de coragem



Autor: José Jorge Letria
Ilustração: Nuno Fonseca
Ano: 2004
Editora: Terramar
ISBN: 972-710-367-7



A recriação ficcional desta personagem, assente numa descrição factual e documental durante o processo narrativo, é muitas vezes intersectada por vozes infantis que questionam ou lamentam, fazendo-se presença como participantes de uma realidade inóspita e cruel, que importa dar a conhecer aos destinatários preferenciais, implícitos na obra.
Todo o percurso narrativo confronta-se com a relativização do tempo face às vivências negativas com as quais Aristides se debate. “Foram dias e noites de grande aflição. Já passaram muitos anos, mas parece que tudo aconteceu ontem ainda. A memória dessas horas trágicas permanece viva” (Letria, 2004:9). Então, Aristides “descobre a matéria moral de que são feitos os verdadeiros heróis” (Letria, 2004:18) e a sua trajectória de vida assume o exercício de uma competência desviante do que devia ser a norma, fazendo-o ostentar uma raridade fundada na protecção da vida humana em detrimento de todas as condicionantes legais e profissionais a que deve obedecer.
Orientado pela “voz da sua consciência” (Letria, 2004:14), o homem embaixador, corria para salvar o maior número possível de refugiados, envolvendo todos os que o rodeavam. “Os que podiam usar os carimbos e o selo branco faziam-no com prontidão e competência. Os outros cozinhavam, cosiam, davam medicamentos e água a quem deles precisava” (Letria, 2004:27).
O narrador, “sujeito transindividual (…) manifesta novos ou ignorados aspectos (…) através de um específico labor da produção textual” (Silva, 1986:252-253), fazendo emergir a cada instante da narração a necessidade de modelar a consciencialização do leitor com o seu mundo circundante, estabelecendo uma permanente articulação entre um passado, hiperbolizado pelo sofrimento, e o presente onde importa revitalizar a imagem deste herói que “não favorece os aristocratas nem qualquer outra pessoa importante” (Letria, 2004:31), exercendo a Igualdade e o Altruísmo, manifestações da sua genuína Humanidade.
A estratégia biográfica apresentada por esta narrativa, longe de ser circunstancial, enforma, apela e reivindica um lugar de destaque para a personagem, que estando inscrita numa historicidade marcada nos mapas e nas memórias do holocausto, faz articulação com outras intertextualidades, onde a problemática da guerra se patenteia e a demanda da paz urge. No final, embora pareça ter havido mudança de um cenário onde se instalam um “menino perguntador” e um “escritor/aviador”, “que desenhava principezinhos no caderno, e também rosas, planetas e ovelhas” (Letria, 2004:47), verifica-se que a memória de Aristides emerge com a perenidade simbólica presente na “árvore que no Museu Yad Vashem, em Jerusalém, recorda a coragem e o heroísmo de um diplomata português que salvou milhares de vidas, por ser justo e por ser livre” (Letria, 2004, 50).

Teresa Macedo
macedo.mariateresa@gmail.com


Referência Bibliográfica:
Silva, Vítor Manuel de Aguiar e (1986). Teoria da Literatura. Coimbra. Almedina.

20 setembro, 2007

Zeca Afonso - O Andarilho da Voz de Ouro



Título: Zeca Afonso - O andarilho da voz de ouro


Autor: José Jorge Letria
Ilustrador: Evelina Oliveira
Editora: Campo das Letras - Editores, S.A., 2007
ISBN:978-989-625-154-3
José Jorge Letria regista neste percurso narrativo a memória biográfica de uma um homem que, tendo pertencido ao mundo empírico e histórico-factual, se transmuta num ideário ostentador dos valores emergentes, pertença de um tempo e de uma historicidade que urge preservar na nossa identidade colectiva.
O humano Zeca surge-nos, logo no início do livro, com particularidades que indiciam marcas de estranhamento que justificarão, mais tarde, uma demanda em torno da reflexão, da expressão e da divulgação de princípios axiológicos fundamentais ao reconhecimento da Alteridade, da Liberdade, da Igualdade como alicerces imprescindíveis ao constructo humano. Zeca “era distraído e (…) andava sempre com a cabeça no ar, nesse mesmo ar que dava asas à melodia que nunca lhe deixou seguir os passos e os sonhos” (2007:7); (…) tinha tempo de pensar em muita coisa, para ler livros e para sonhar” (2007:8); “(…) era diferente dos outros meninos, por passar muito tempo à volta das suas inquietações, brincadeiras, saudades e medos” (2007:8). Estes indícios, associados a dicotomias presentes na narrativa, tais como dúvida/certeza, inquietação/tranquilidade, guerra/paz, liberdade/opressão, riqueza/pobreza, bem como o dialogismo que estabelece com o Menino do Bairro Negro, símbolo de todos os que não são detentores de uma voz própria e livre, transpõem esta narrativa para patamares que se conotam com o mundo mítico e mágico, entre a corporeidade e o constructo da emergência espiritual e ideológica, um mundo simbólico. Neste, então poderemos cruzar-nos com a “sofreguidão dos vampiros, que atacavam pela noite calada (2007:30)” ou com o “Papão, que (…) mantinha o país encarcerado entre as grades do medo que mandava erguer por todo o lado” (2007:22). Assim, num tecido verbal reflectido, assistimos à força da Palavra inserida numa mimesis musical, encorpando a Liberdade na mediação e regeneração da força heróica que fará a metamorfose do caos em ordem, inscritos num espaço que oscila entre as marcas do registo factual e os demarcados percursos existenciais fantástico-maravilhosos, que assentam nas miragens do transcendental.
É por isso que, no final da narrativa, Zeca reconhece a Morte, não com o olhar temeroso dos que agonizam, mas como a Liberdade necessária, “perseguindo um sonho que só se acabará quando o último ser humano desaparecer deste planeta” (2007:39).
Esta narrativa, interagindo com o discurso semiótico doado pela excelente ilustração de Evelina Oliveira, reflecte a mundivivência de um escritor que, através da recriação biográfica desta personagem, destaca a memória como um processo afectivo-representativo complexo no qual as imagens-lembrança evocam a necessidade de assegurar a continuidade de um conjunto de valores que emergem nesta figuração da esperança essencial.


Teresa Macedo
macedo.mariateresa@gmail.com

10 setembro, 2007

Universidade do Minho: parceiro estratégico no Programa Nacional de Ensino do Português

O Instituto de Estudos da Criança constitui, ao longo do ano lectivo de 2007/2008, um parceiro estratégico no desenvolvimento do PNEP - Programa Nacional de Ensino do Português (1º Ciclo).
O programa tem como finalidade última a melhoria das aprendizagens dos alunos do 1º ciclo na área da Língua Portuguesa, contemplando três dimensões fundamentais:
1. A formação nas escolas/agrupamentos, dinamizada pelos formadores residentes.
2. O acompanhamento e aprofundamento da formação dos formadores residentes em exercício, da responsabilidade da Universidade do Minho.
3. A formação de novos formadores residentes na Universidade do Minho.


Pretende-se com os conteúdos desta formação actualizar e aprofundar os conhecimentos científicos e metodológicos dos formandos, no que respeita ao ensino da Língua materna no 1º ciclo, à luz dos resultados da investigação sobre o desenvolvimento linguístico da criança e sobre as aprendizagens da Língua materna neste ciclo escolar. Os princípios orientadores da formação ancoram no Currículo Nacional do Ensino Básico, particularmente no desenvolvimento das competências específicas aí enunciadas.


O objectivo final desta acção é a actualização científica e metodológica dos formandos, futuros formadores nas escolas básicas. A formação assenta em três grandes pilares: (i) sessões presenciais conjuntas, (ii) experimentação de materiais pedagógicos e de avaliação nas escolas onde os formandos leccionem e (iii) trabalho autónomo de reflexão e aprofundamento profissional nos domínios visados.

O Programa é objecto de monitorização e de acompanhamento por parte de uma Comissão Nacional de Coordenação e Acompanhamento, estando prevista a sua avaliação externa.
Para acesso ao blogue do Núcleo Regional do PNEP/Universidade do Minho, carregue aqui.
Para acesso à Plataforma Digital da Universidade do Minho, em que funciona o programa, carregue aqui.

06 setembro, 2007

O Sonhador: uma leitura de apelo à Imaginação




Texto: Ian McEwan
Ilustração: Anthony Browne
Editora: Gradiva – Publicações, Lda (2007 [1ª Ed. 1995)]
ISBN: 978-972-662-408-0
Aconselhado: A todos os que sabem observar, reflectir e abrir os braços ao sonho!


Este é um livro que me chegou pela mão querida de quem sabe o que significa ler o Imaginário na sua essência mais pura. O Sonhador (2007 [1ª ed. 1995]) é uma narrativa do já reconhecido escritor Ian McEwan, prestigiado por vários e importantes prémios literários britânicos e que se estreia, assim, de forma espectacular na literatura de potencial recepção leitora juvenil.

Abre-se o livro e a epígrafe reclama, de imediato, a nossa atenção para a noção da metamorfose que, de forma mais ou menos evidente, ou mais ou menos consciente nos faz seres sociais. E certo é que a intenção autoral que se lê por detrás das palavras do poeta Ovídio: «“O meu objectivo é falar de corpos que se transformam em formas de outro tipo”, Metamorfoses, Livro I» in O Sonhador, se dá a ler de forma absolutamente completa. McEwan parece propor um livro de contos feito de um conto só: o da metáfora da vida enquanto espaço cosmogónico do Ser em crescimento e da aprendizagem, mas, essencialmente, da curiosidade e experiência premeditadas.

Ousaria afirmar que O Sonhador reclama, no avançar da leitura, a consciência do sujeito-leitor para as diferentes formas do querer existir num estado de co-existencia diária obrigatória. Ousaria ainda dizer que esta narrativa, onde a metamorfose poderia adjectivar-se de psicológica, física, metafísica, familiar, e de outras tantas, se transforma numa macro-metamorfose: a do indivíduo social, responsável (na sua essência vivencial) pela força da imagem da identidade do Eu, que por si só nos reporta para a temática da mutação, quer pela dupla corporalização dos seres, quer pela antropomorfização dos objectos.

Pela voz de um narrador hábil no trato com as personagens, Peter é-nos apresentado logo no primeiro capítulo como uma «criança difícil» mas que nunca reconheceu ou entendeu tal caracterização. Afinal «não despejava Ketchup por cima da cabeça a fingir que era sangue, nem sequer dava com a espada nos tornozelos da avó (…), comia tudo» e não era nem mais nem menos do que os meninos da sua idade. O que haveria então em Peter que o tornava assim tão difícil? Peter, segundo os adultos, «era difícil por ser tão calado, e gostar de estar sozinho» (2007: 9)!

Como invejo (não se compreenda aqui a carga negativa da expressão) a sabedoria desse menino de dez anos que, por querer, sabia viver à margem de determinadas condicionantes sócio-familiares às quais nos subjugamos usando, quantas vezes, de um mau estar que nos torna tão iguais a todos aqueles que ousamos criticar. É pois esta falta de resignação de Peter Fortune, que gostava de estar sozinho para «poder pensar à vontade», que me cativa. Sereno, tranquilo e alheio à forma estupidamente rotineira dos adultos, a personagem do conto representa o Ser Simbólico, que pela evasão cria o seu próprio real empírico.

O quotidiano de Peter é narrado num equilíbrio que nada revela de precário, como se da consciência individual da personagem se tratasse, onde realidade e fantasia se cruzam, deixando que o leitor possa aceder a uma das mais espectaculares situações de literariedade: a do verosímil vs inverosímil enquanto marco preponderante no rompimento com ideologias pré-estabelecidas.

É pois o acto de saber compactuar com o autor que gostaria de destacar nesta obra absolutamente literária, e remeter para a poeticidade do Imaginário que dela emerge. Apelando sistematicamente à participação do leitor, que pode experimentar de um todo a partir das várias aventuras levadas a cabo pela personagem principal, somos levados por este “sonhador” convicto, à primeira grande metamorfose do Ser consciente, o que nos permite conhecer Peter (num dos episódios da obra) enquanto o sujeito activo da participação. Assim, este é induzido pelo seu próprio gato William a participar no jogo da permuta, o que o leva a ousar trocar de identidade com este.

O episódio relatado é de uma intensidade descritiva tal que não nos é sequer possível questionar o estado ficcional retratado, e a mimésis estética torna-se efectivamente completa: gato-rapaz e rapaz-gato transformam-se num só ser identitário. A morte de William fecha o capítulo com chave de ouro, sentindo-se na imagem da morte a imagem da própria cumplicidade estabelecida entre este narrador particularmente consciente, o Eu, e o objecto da sua identificação versus alteridade.

O leitor não se deixa contudo ficar e entra de rompante na mais inverosímil das histórias: a do «Creme de desaparecer». O mini-conto inicia-se com uma observação absolutamente trivial, que nos remete para a imagem do lar. Os Fortune, como qualquer outra família, têm também aquela típica «gaveta da cozinha», que, quando indicada, se distingue de todas as outras gavetas.

As considerações tecidas pelo narrador, sobre a respectiva gaveta, levar-nos-iam para outras tantas considerações sobre a noção de pertença, contudo, o que mais importa é a noção de descoberta realizada pela presença de um «pequeno frasco azul-escuro com uma tampa preta» (2007: 51) que contem o creme de desaparecer, e que Peter irá usar intencionalmente para apagar toda a sua família. Descuidado, o leitor poderia deixar-se pensar que o narrador quis transformar a personagem principal num psicopata assassino, capaz de matar a própria família, usando de um método eficaz e limpo. Bem, não me parece que o nosso leitor se deixe enganar por uma preguiça qualquer. Dado que este se mantém em diálogo literário com o escritor, o leitor sabe que a intenção autoral foi apenas a de suscitar reflexões plurais sobre as noções de identidade / alteridade que em cada um de nós marcam a diferença ou a similitude com o outro, e que são, hoje mais do que nunca, tema de debate para muitos dos mais jovens.

O Sonhador faz-se, assim, de sete pequenos contos, onde se deixam ler as mais diversas experiências de vida que se balizam entre os momentos do sonho, os da realidade empírica e os da realidade sonhada. Caso assim não fosse, este magnífico ensaio sobre a vida de todos os dias não terminaria com o reforço das imagens da liberdade e do sonho, que parecem estar ao alcance de cada um de nós quando nos convidam a olhar o mar e a participar da descoberta de um tesouro: «– Descobrimos um tesouro, Peter! – Vou já – respondeu Peter. – Vou já! – E começou a correr em direcção `a beira-mar. Sentiu-se ágil e leve ao deslizar sobre a areia. «Vou descolar», pensou. Estaria a sonhar ou a voar?» (2007: 115). Eu já vou indo. E vocês? Venham. Voar é saber ir para além do sonho!


Gisela Silva

05 setembro, 2007

Educação e Imaginário na Universidade do Minho

A Universidade do Minho acolhe no próximo dia 24 de Novembro, no Auditório do Centro Multimédia (Instituto de Estudos da Criança), o Colóquio Internacional Educação e Imaginário: Literatura e Romance de Formação.


Programa
9h00 - Recepção dos Participantes
9h30 - Abertura
10h00 - Conceitos e Realização de Bildung e de Bildungsroman
Horst Bergmeier (Investigador – Cied do Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho)
10h30 - El Doppelgänger y la novela de formación. En el cielo con diamantes
Maria Ángelez Rodríguez Fontela – Prof. Titular da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha)
11h00 - Bildung et Imagination dans l’Éducation : la formation de l’homme intégral
Julien Lamy – Investigador da Université Jean Moulin – Lyon 3 (França)
11h30 - Debate
12h00 - Apresentação pelos coordenadores da obra Imaginário, Identidades e Margens
12h30 - Almoço livre
14h30 - Novalis e o Bildungsroman do Romantismo: Heinrich von Ofterdingen
Gabriela Fragoso – Prof. Aux. da Universidade Nova de Lisboa (Fac. de Ciências Sociais e Humanas)
15h00 - A Desmistificação do Desejo em Coração, Cabeça e Estômago de Camilo Castelo Branco
Sérgio Paulo Guimarães de Sousa – Prof. Aux. da Univ. do Minho (Instituto de Letras e Ciências Humanas)
15h30 - Reflexão sobre a Formação: na Idade da Ansiedade
Jaime Becerra da Costa – Prof. Aux. da Universidade do Minho (Instituto de Letras e Ciências Humanas)
16h00 - Debate
16h30 - Pausa
17h00 - O Bildungsroman na tradição literária italiana: fortuna e adaptação de uma forma simbólica
Elena Brugioni – Leitora de Língua Italiana da Universidade do Minho (Instituto de Letras e Ciências Humanas)
17h30 - Encerramento


A entrada é livre, mas está sujeita a inscrição prévia.

Organização:
IEP - Departamento de Pedagogia
IEC - Departamento de Ciências Integradas e Língua Materna
Centro de Investigação em Educação
Centro de Investigação em Promoção da Literacia e Bem-Estar da Criança


Contactos:
afaraujo@iep.uminho.pt
fraga@iec.uminho.pt

19 agosto, 2007

Concepções e Práticas dos Professores em Análise

Ana Paula Rua da Silva Malheiro Pereira dos Reis defende dia 20 de Agosto, pelas 10h30, a sua dissertação de Mestrado em Estudos da Criança - Análise Textual e Literatura Infantil subordinada ao tema Concepções e Práticas: Lugares e Gestos da Literatura Infantil no 1º Ciclo do Ensino Básico.

O júri é composto pelos seguintes elementos:
Prof. Doutor Fernando Azevedo (Universidade do Minho)
Prof.ª Doutora Maria de Lurdes Magalhães (Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Viana do Castelo)
Prof.ª Doutora Judite Maria Zamith Cruz (Universidade do Minho)

Local: Sala de Actos do DCILM / IEC - CP2 - Campus de Gualtar

A entrada é livre.

Formação de Leitores por meio de contos

Ana Paula Vieira Pinto de Oliveira defende dia 20 de Agosto, pelas 12h, a sua dissertação de Mestrado em Estudos da Criança - Análise Textual e Literatura Infantil subordinada ao tema Alguns Gestos e Olhares do Conto A Gata Borralheira na Formação do Leitor Competente.

O júri é composto pelos seguintes elementos:
Prof. Doutor Fernando Azevedo (Universidade do Minho)
Prof.ª Doutora Maria de Lurdes Magalhães (Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Viana do Castelo)
Prof.ª Doutora Judite Maria Zamith Cruz (Universidade do Minho)
Local: Sala de Actos do DCILM / IEC - CP2 - Campus de Gualtar

A entrada é livre.

17 julho, 2007

Género, Nação e Cidadania na Literatura Infanto-Juvenil

Thereza Christina Vianna Ferreira defende dia 19 de Julho, pelas 10h30, a sua dissertação de Mestrado em Estudos da Criança - Análise Textual e Literatura Infantil subordinada ao tema Rupturas e Continuidades na Representação de Género, Nação e Cidadania: Exemplos da Literatura Infanto-Juvenil Portuguesa.

O júri é composto pelos seguintes elementos:
Prof. Doutor Fernando Azevedo (Universidade do Minho)
Prof.ª Doutora Joana Passos (Universidade do Minho)
Prof. Doutor José António Gomes (Escola Superior de Educação do Porto)
Local: Sala de Actos do Conselho Académico - CP2 - Campus de Gualtar
A entrada é livre.

Literaturas Pós-Coloniais para a Infância em destaque

Elsa Sousa Faria defendeu hoje, em provas públicas, a sua dissertação de Mestrado em Estudos da Criança - Análise Textual e Literatura Infantil subordinada ao tema A Fonte e a Foz. Percursos Pós-Coloniais das Literaturas Africanas em Língua Portuguesa para Crianças e Jovens.

O júri foi composto pelos seguintes elementos:
Prof. Doutor Fernando Azevedo (Universidade do Minho)
Prof.ª Doutora Maria de Fátima Albuquerque (Universidade de Aveiro)
Prof.ª Doutora Cláudia Sousa Pereira (Universidade de Évora)

Promoção Cultural e Mediação em Bibliotecas

Maria Helena Coelho e Silva defendeu ontem, em provas públicas, a sua dissertação de Mestrado em Estudos da Criança - Análise Textual e Literatura Infantil subordinada ao tema Práticas de Promoção Cultural e de Animação. Uma Experiência de Mediação em Contexto de Biblioteca Itinerante.
O júri foi composto pelos seguintes elementos:
Prof. Doutor Fernando Azevedo (Universidade do Minho)
Prof.ª Doutora Judite Zamith-Cruz (Universidade do Minho)
Prof.ª Doutora Otília da Costa e Sousa (Escola Superior de Educação de Lisboa)

14 julho, 2007

Ensinar a ler com histórias infantis

Tal como aos navegadores do século dezasseis lhes era pedido que soubessem ler as estrelas, aos navegadores de hoje, que se debatem imersos no manancial de informação que os rodeia, lhes é pedido que não só saibam descodificar as mensagens mas que, sobretudo, saibam perceber significados por detrás dos enunciados orais, escritos, visuais, etc...
Nesta ordem de ideias ler é compreender; ler é traduzir em pensamentos os sons das letras e palavras; ler é construir sentimentos e perceber emoções, enfim ler é sobretudo interpretar a vida ao sabor das letras...
Mas se ler é tudo isto, o que fazem as nossas crianças quando começam a aprender a ler?
Nesta altura, de fim de ano lectivo, podemos passear pelos livros de iniciação à leitura do 1º ciclo do ensino básico e parar para pensar! É isto mesmo que eu quero ensinar?! É desta forma que eu quero que os meus alunos tenham contacto com a linguagem escrita?
As alternativas são possíveis e esta nós vos propomos: "As Letras falam" de Rafael Cruz-Contarini e ilustrado por Maribel Suarez da Everest Editora.
Estas letras que falam, dizem-nos:
Sou o F de festa e de fonte
e eu o A de água e de abrir
este é o C de céu e cereja
aquele o V de vaca e Vladimir.

09 julho, 2007

A escrita de Mário Castrim para a Infância e Juventude

Maria de Fátima Campos defende na 3ª feira, dia 10 de Julho, pelas 10h, a sua dissertação de Mestrado em Estudos da Criança - Análise Textual e Literatura Infantil, subordinada ao tema: Encantar para Ler. A Escrita de Mário Mário Castrim para a Infância e Juventude.

Local: Sala de Actos do Conselho Académico - CP2 - Universidade do Minho (campus de Gualtar, Braga)
Júri:
Prof. Doutor Fernando Azevedo (Universidade do Minho)
Prof. Doutor Carlos Cunha (Universidade do Minho)
Prof. Doutor José Cândido Martins (Universidade Católica Portuguesa)
A entrada é livre.

O Último Grimm: descoberta, participação e fruição do objecto literário





Texto: Álvaro Magalhães
Ilustração: Pedro Pires
Editor: Edições Asa
Colecção: Romance Jovem
ISBN-13: 9789724150789
Ano de Edição: 2007
Aconselhado: a todos os que querem um verdadeiro momento de fruição e de partilha de emoções.



Corria o ano 1951, quando um belo dia, envolto nos braços carinhosos da mãe, um menino, nascido no Porto, via pela primeira vez o mundo. Deram-lhe o nome de Álvaro. Ainda pequeno e já às voltas com as letras, achou que lá mais para frente poderia ser escritor e, um dia, depois de muitos anos de trabalho, apelidou-se de “Brincador”, recusando tudo o que o afastasse da magia da palavra trabalhada.
No início dos anos 80, o homem que já sabia brincar no enredo das palavras, estreou-se como um escritor assumido, e em 1982 lançou o seu primeiro livro para crianças Histórias com muitas letras. As letras foram-se juntando numa tecedura árdua e diária, o que lhe permitiu um lugar no pódio literário e ter hoje uma obra referencial para o leitor infantil e juvenil, onde o apelo à imaginação, ao sonho e ao ser são uma constante.
Álvaro Magalhães é portanto o autor da genuína militância no cumprimento da hegemonia literária, o que torna os seus princípios autorais intensamente fortes quer ao nível da intertextualidade, quer ao nível das leituras plurissignificativas que, segundo Wolfgang Iser (Cf. 1997) provocam momentos de verdadeiros desafios interpretativos e de fruição no leitor que se propõe descobrir, alicerçando uma adequada preparação para momentos do seu crescimento intelectual e psicológico.
Todos sabemos o quanto já é significativo o património literário deste escritor bem português, que conhece como poucos os desejos e anseios dos mais jovens – relembre-se a obra dramática Todos os Rapazes são Gatos (2005, 1ª Ed. Asa) ou ainda Hipopóptimos uma história de amor (2001, 1ª Ed. Asa), vencedora em 2002 do Grande Prémio Gulbenkian de Literatura Infantil para o melhor texto literário publicado no biénio 2000 e 2001, para não comentar os textos poéticos, que são de uma solenidade e entrega únicas onde se lêem a nostalgia da infância e a essência do ser –.
Sabemos, pois, que as consubstanciadas linhas ideotemáticas que advêm da obra narrativo-poética do autor elegem o indivíduo enquanto ser em descoberta – de si mesmo e do outro – que num processo de adaptação ou inadaptação social, procura a resposta mais adequada às suas solicitações.
As imagens do crescimento do indivíduo, enquanto sujeito em iniciação, na defesa da sua própria demanda individual e/ou colectiva; a detecção do pueril (no seu estado de magnificência absoluta); a obtenção da felicidade/infelicidade; a fruição da essência do belo; do efémero, e da própria essência da vida constam da preocupação autoral e constituem um permanente registo da sensibilidade literária de Álvaro Magalhães.
Devo salientar o carinho especial com o qual li e “namorei” O Último Grimm, e o quanto me foi gratificante sentir a majestade da escrita deste autor que nos dá a ler, mais uma vez, o verdadeiro sentido da sensibilidade, da reminiscência, da lembrança que nos ficou de outras leituras. Claro que o apego afectivo que tenho pela Ilha do Chifre de Ouro – a primeira do autor pertencente à «Colecção Jovem Romance», lançada pelas Edições ASA em 2004, cuja 1ª edição é da Dom Quixote e data de 1998 – é notório para quem conhece as linhas orientadoras do meu trabalho, pois considero-a uma narrativa de uma elevadíssima qualidade literária, o que a destaca ao nível das narrativas referentes ao acervo literário da literatura Infanto-Juvenil em Portugal para jovens leitores.
O Último Grimm, a segunda obra do autor para esta colecção, revela-se como uma obra estético-literária de fruição e, por isso mesmo, como uma nova obra onde o desafio interpretativo se regista, logo de imediato desde a excelente ilustração de Pedro Pires e do título da capa. Desde logo, parece ser necessário considerar o maravilhoso e o fantástico como os principais tópicos desta narrativa e antever a história de um herói: William Zimmer, que a partida é da descendência dos irmãos Grimm.
A participação do herói obriga-nos a entender a missão a cumprir não deste lado, onde vivem também duendes e fadas, mas do outro lado, na terra do «Povo das Histórias» (Cf. Magalhães, 2007: 209-331). Ora, assim sendo, tempo e espaço vão balizar-se entre as noções do transformável – pelo acesso ao outro lado – e as ideias do empírico-factual, postas de parte. Assim, rejeitadas a homogeneidade e isomorfia do espaço, bem como a ideia matemática que o reduz a uma massa convencional e limitativa, e tomadas em consideração as diferentes investidas do herói num tempo entendido como uma medida física absolutamente relativa, é possível participar na aventura de William e contar partes da sua história.
A beleza emergente da terra do «Povo das Histórias», por onde William vai andar, revela-se na plenitude de uma tela verbalmente criada a partir de certeiras pinceladas coloridas, cujos significados simbólicos delineiam os traços representativos do ad infinitum que, por sua vez, reclama a fórmula hipercodificada do “Era uma vez” como entidade fictícia, ou não, do intemporal.
Em O Último Grimm, o mundo tido como empiricamente “normal” e o mundo do irreal e do contrafactual, que é o das personagens dos contos maravilhosos e fantásticos: bruxas, fadas, duendes, ogres, dragões alados, e mais concretamente, do Gato das Botas, do Peter Pan, do Joanica-Puff, da Rainha de Copas, entre outras criadas pelo imaginário autoral, não obriga ao aparecimento de uma linha divisória restrita e confinada ao medível e irrefutável para a compreensão da história. Basta querermos considerar a nossa realidade e considerar simultaneamente uma outra realidade que é mágica.
Se também nesta obra, Álvaro Magalhães destravou o ferrolho da porta que impedia um entendimento entre essas duas realidades e permitiu que ambas as realidades temporais e espaciais fossem das nossas percepções, deixemos que o sonho e o imaginário instiguem em simultâneo fantasia e realidade e que o leitor se deixe conduzir, desfrutando da aventura do herói.
Para que a aparição dessa realidade do para-além e do contrafactual se tornasse harmoniosa, a experiência do espaço e do tempo fez-se, desde o início da narrativa, no traçado de uma linha paralela. Relembre-se, aqui a surpresa de William quando se deparou com os dois duendes que «brincavam animadamente enquanto bebiam água» (2007: 17) no jardim da quinta. Pensemos ainda no espanto da personagem quando, já na terra das histórias, compreendeu que o tempo é efectivamente uma velocidade relativa capaz de baralhar os ponteiros do um relógio “normal” e confundir a própria noção estereotipada que temos do tempo e que se no nosso lado vale uma hora, na terra do «Povo das Histórias», isto é, no «outro lado» vale o dobro ou o triplo (Cf., 2007: 212; 327).
Numa mão sonhos, e na outra um convite para a aventura da leitura pluri-isotópica, o autor entregou o fruto da sua imaginação criadora a um público-leitor que procura, nas várias prateleiras, obras onde a supremacia de uma enunciação discursivo-imagética possa surpreendê-lo.
Só nos cabe, enquanto leitores atentos, jovens ou menos jovens, tecer um elogio ao autor por permitir que fantasia, maravilhoso e imaginário sejam os ícones do simples e do belo, integrando-os nos assuntos de mesa.
Ousemos, então, um BEM-HAJA a este grande escritor que sabe ter a responsabilidade de encantar e motivar e não se coíbe em fazê-lo; um aplauso a todos os jovens leitores que sabem reflectir sobre as suas múltiplas responsabilidades e que, levantando os olhos, olham em frente, tal como as muitas personagens que povoam o Último Grimm, sobretudo William e Peter Zimmer; e um agradecimento aos educadores e pais que, pela partilha, irão participar das aventuras de heróis já esquecidos. Este é, sem dúvida, um livro recheado de emoções, onde as noções do belo, da responsabilização e consequentes tomadas de consciência, nos mostram o quanto os nossos meninos e adolescentes procuram valores de definição nas suas tarefas.



Referências bibliográficas:


ISER, Wolfgang (1997). L’acte de lecture. Théorie de l’effet esthétique. Belgique: Pierre Mardaga éditeur [Ed. Original : West Germany: Wilhelm Fink Verlag, 1976].


Gisela Silva.