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12 dezembro, 2007

As estações


Se a literatura pode ser uma mentira, como Iser refere, ela também é um modo operacional que abre caminhos para diferentes versões da nossa própria casa, do nosso próprio mundo. Nesta abertura de caminhos tem um papel preponderante, segundo a teoria da estética da recepção, o observador, que no processo de leitura analisa a interacção texto/leitor, não como acontecimento produzido apenas pela imaginação do leitor, mas pela intersecção de normas históricas, sociais e linguísticas. O autor e o leitor perdem assim a subjectividade. O autor abandona toda a intenção e o leitor torna-se dotado de competência semiótica e intertextual.Assim, a indeterminação ou os espaços em branco (Eco, 1971:36) proposta pelos textos, não são uma fraqueza do sistema literário, mas uma qualidade essencial que permite o compromisso criativo. Na obra da escritora italiana Iela Mari “L’Albero” publicada em castelhano pela kalandraka com o nome “As Estacións” é dada ao leitor quase todo o poder para fazer as significações desejadas consubstanciando-se no que Eco chama de obra aberta que tende “ (…) a promover no interprete (actos de liberdade consciente), a pô-lo como centro activo de uma rede de relações inesgotáveis (…)”. Desta forma a ficção torna-se um acto de ultrapassar fronteiras – reais e ficcionadas. Por virtude da celebração da plasticidade da literatura e num discurso pictórico em que as cores vão revelando as vozes enunciadoras da problemática em causa porque “ (…) A arte, enquanto estruturação de formas, tem modos próprios de falar sobre o mundo e sobre o homem” (Eco, 1971:36), poderá acontecer que ao falarmos da passagem das estações por esta árvore, o L‘Albero, o leitor vá recordando a necessidade da protecção da floresta, tema tão contemporâneo, a par das inferências possíveis ao tema da preservação da nossa casa comum, a terra, num quadro de uma visão não cartesiana da natureza onde todas as criaturas vivas têm direito ao seu espaço vivencial. Esta obra poderá também recepcionar-se pelo sentimento da paisagem, sentimento intelectual e afectivo que se consubstancia pela necessidade de construção de habitats ecologicamente seguros. O esquilo, que tem que mudar de casa consoante as estações, responde a variáveis antropológicas das valências do lugar, indiciando diferentes formas de viver num espaço – tempo – movimento, mas sempre pugnando por encontrar nele um lugar reconhecível, como lugar destinado aos seres humanos e aos animais. Mais uma vez, a literatura tornou-se um modelo operatório que abriu caminho para diferentes versões do mundo que se consubstanciam em diferentes identidades intimamente ligadas à relação entre texto e leitor pois, implicaram uma troca contínua de pedidos e ofertas entre ambos, onde o objecto literário ganhou uma carga simbólica pela importância da mente do leitor na atribuição do sentido do mesmo. (Fish, 1984:50)

10 dezembro, 2007

João Sardento e o Espírito da Televisão


Autor: José Jorge Letria
Ilustrador: Eunice Rosado
Ano: 2007
Editora: Âmbar
ISBN: 978-972-43-1218-7


João Sardento, personagem actuante nesta narrativa, corporiza o ideário infantil na busca e satisfação do impulso interior que o conduz aos universos do imaginário. Actualizado no espaço cénico da modernidade, adapta-se às mudanças do nome, facto que é aceite pela personagem e por um narrador interveniente que assume a Palavra como realidade que reflecte a osmose que se opera permanentemente entre o mundo empírico e o da aquisição da identidade, inscrito no mundo da interioridade.
O espaço da construção narrativa identifica algumas problemáticas dos tempos modernos e a acção desenrola-se sob o domínio de uma avó “contadora de histórias” (Letria, 2007:11), remetendo-nos para aspectos tradicionalmente correlacionados com certo estatuto dos mais velhos. No entanto, demarcam-se elementos desviantes das matrizes encontradas nas narrativas tradicionais através do pincelar satírico ao comportamento desse membro da família que, embora zele “pela ocupação do neto” (Letria, 2007:12), vê telenovelas com “enredos de fazer chorar” (Letria, 2007:12), interagindo activamente com os seus pares e evidenciando uma forma mais liberta de estar no mundo.
A história assume o seu auge na focalização do fantástico reencontro com um objecto mágico, abandonado, mas detentor de grande sabedoria – um aparelho de televisão. É através de “uma voz estranha vinda de dentro do aparelho” (Letria, 2007:18) que a atenção do leitor é captada para que se processe a informação essencial sobre o surgimento deste meio de comunicação. Então o sótão passa a ser o laboratório onde João Sardento assiste à viagem libertadora do “Espírito da Televisão” (Letria, 2007:20), “criatura serpenteante, que não tinha boca visível e mostrava apenas dois olhinhos brilhantes” (Letria, 2007:24), podendo-se conectar perfeitamente com a ideia preconizada por Bachelard (2001:25) de que “memória e imaginação não se deixam dissociar”. Assim, o tempo do sono é o instante de aprofundamento mútuo destas duas variáveis onde a intencionalidade narrativa articula de forma hábil, engenhosa e lúdica aspectos que visam promover o alargamento dos saberes acerca do conhecimento da evolução do meio de comunicação que revolucionou o mundo, adequando a informação ao destinatário preferencial, denotando uma preocupação que procura contrariar a rotinização na transmissão de certos conhecimentos aos jovens leitores. Assim, o recurso à espectacularidade do estranho, a evocação das “ palavras mágicas” (Letria, 2007:20) e a negociação que se efectiva entre o João Sardento e o velho televisor falante mais não são do que formas de processar informações relevantes, mobilizando quadros de referência intertextuais, revalorizando nas temáticas do incompreensível os desafios à assimilação das grandes transmutações operadas pelo surgimento da Televisão.

Teresa Macedo
Bibliografia
Bachelard, Gaston (2oo3-6ªEd). A Poética do Espaço. São Paulo. Martins Fontes.

Direitos das Crianças

lTítulo: Direitos da Criança, 2006
Autora: Maria João Carvalho
Ilustração: Carla Nazareth
Colecção Montanha Encantada
Everest Editora
ISBN 972-750-739-5


Todos diferentes, mas iguais!


Direitos da Criança aborda o tema dos direitos da criança, com base nos princípios da Declaração Universal dos Direitos das Crianças, aprovada em 1959 pela Assembleia Geral das Nações Unidas.
A ilustração da capa diz tudo: ainda antes de ler o livro relacionamos de imediato essa imagem com os princípios mais elementares a que todos temos direito, nomeadamente o direito a uma educação e à convivência com os outros, seja qual for a cor da pele ou o aspecto.
As imagens interiores levam-nos igualmente a reflectir acerca do direito à igualdade e à convivência entre todos. As ilustrações das páginas 4 e 5, por exemplo, sugerem que podemos, com imaginação, deixar as diferenças para trás e encontrar meios de comunicação. Mas é a cor que mais predomina enquanto meio para explicitar que a diferença entre as pessoas – de raça, meio cultural ou geográfico – é uma riqueza e não um problema, através da riqueza da própria cor, usada em grandes massas nas ilustrações. Texto e iconografia encontram assim uma simbiose perfeita, e de forma subtil ligam o mundo do imaginário à realidade dos direitos das crianças, recorrendo frequentemente também a elementos da Natureza – o mar, o deserto, a selva, o céu – e até mesmo a elementos do meio familiar, para mostrar como cada dimensão do mundo, da vida e do interesse da criança é muito diferente de outra qualquer, mas igualmente bela. O livro está repleto de elementos simbólicos como, por exemplo, a ponte e o sol, remetendo-nos para o maravilhoso: “passagem secreta para o reino da harmonia e do bem-estar” (Carvalho, 2006: 13), “unem-se numa ponte feita de harmonia” (Carvalho, 2006: 12).
Direitos da Criança é uma referência para as crianças, mas poderá sê-lo também para os adultos, principalmente pela forma como o texto é usado: um mundo da imaginação para as crianças, mas que vai apresentando em letras mais pequenas e em locais da página menos destacados os direitos, tal como constam da Declaração. Direitos da Criança é pois um texto muito actual e explica de uma forma muito simples aquilo que se defende na Declaração Universal do Direitos da Criança. É um livro que deveria ser lido por todos, pois a envolvência do texto e da imagem poderá sensibilizar-nos ainda mais para a importância e actualidade da Declaração.

08 dezembro, 2007

André no Reino das Palavras Falantes - Os Caçadores de Gramatífagos



Este é o primeiro livro da Colecção: Os Caçadores de Gramatífagos, lançado no
Fórum Cultural de Alcochete no dia 24 de Novembro de 2007, da autoria de Natália Augusto e Fernanda Azevedo e que irá constar do PNL a partir de 2008.

Este é um convite especial dirigido a todos aqueles que não gostam nem se identificam com as aulas de Língua Portuguesa, e muito menos com aquele livro intitulado de Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa ou outros títulos que tais.



Texto: Natália Augusto
Ilustração: Fernanda Azevedo
Designer: Niels Fischer
Edição de Autor
ISBN: 978-989-95455-0-2


Em 1989, Álvaro Magalhães surpreendeu-nos com o livro Maldita matemática! cuja dedicatória revela a simplicidade do propósito de um livro desta natureza: «Este texto (…) é dedicado a todas as pessoas que têm problemas, ou seja, a todas as pessoas» (Magalhães, 2ª ed. Asa Edições, 2000). Atenta a todos, Natália Augusto também me sensibilizou pela sua ousadia na medida em que se interessou em construir, com amor e dedicação, uma narrativa especial que contasse, desta vez, uma outra grande história: a história das palavras.
A aventura chega-nos pela mão do André, um menino como tantos outros meninos, que vê no estudo da gramática algo de terrivelmente aborrecido, desagradável e complicado. A curiosidade e reflexão da autora sobre a rejeição desse bicho-papão que, repousa tranquilamente em várias das prateleiras de meninos como o André, marcam a forma isotópica da obra. O desvendar da funcionalidade da língua portuguesa, bem como a consequente compreensão dos meandros gramaticais e linguísticos que a compõem, e, sobretudo, o convite ao estudo pela curiosidade e descoberta são a pedra basilar desta história das palavras.
Claro, que não esteve nos propósitos autorais referir o resultado final de uma análise relativa a conteúdos gramaticais, mas efectivar uma outra perspectiva relativa ao estudo da gramática, tão repudiada pelos mais novos. Assim, a perspectiva que, em André no Reino das Palavras Falantes, a associa a noções reais de convivência, aventura e partilha deixa-nos perceber o elevado grau de complexidade que se estabelece entre a personagem principal, a sua gramática e todos os seus habitantes, como o Sr. Verbo ou o dedicadíssimo Sr. 86, por exemplo.
Uma das particularidades desta história define-se na vontade de mesclar a aventura de André e, por sua vez, a das palavras com um sentido pedagógico-didáctico prático bem ao gosto da autora. Surgem-nos como núcleos organizativos da obra: a temática abordada, o discurso simples e o imaginário humorístico, pincelado de um agradável nonsense, que fazem da história de André uma história de convite à leitura e à própria reflexão. Atentos às investidas empreendedoras do Sr. Verbo, em educar André no gosto pelo estudo das palavras, sentimos uma vontade crescente de, a cada página virada, permanecer presentes em todo o processo de crescimento da personagem.
Natália Augusto sugere, assim, novos caminhos inferenciais e oferece a todos os curiosos uma outra noção – a divulgar por todos os educadores e mediadores da leitura deste país – sobre a importância do estudo da língua portuguesa. Bruno Bettelheim diz assertivamente que o conto de fadas tem um efeito terapêutico e que assegura à criança uma solução para as suas dúvidas e conflitos internos, pois neles se encontra a riqueza simbólica. Em André no Reino das Palavras Falantes tudo acontece como se de um conto de fadas se tratasse, onde a certeza da tomada de consciência fica bem situada entre o histórico e empírico-factual, e a imaginação.
Saibamos, pois, reler na história do André e das suas palavras falantes ou mágicas os episódios do nosso dia a dia, onde pais, professores e alunos se debatem com a preocupação do estudo da gramática que a Sôtora de Língua Portuguesa mandou consultar.

Gisela Silva, in André no Reino das Palavras Falantes

Eis-nos presenteados com alguns excertos e ilustrações da obra. Parabéns pelo excelente trabalho!


«[O André] preparava-se para regressar ao computador quando ouviu uma vozinha: — André! André! Anda cá! Nem me deste uma oportunidade para te ajudar.
O André no momento em que ouviu a voz ficou imóvel, no centro da divisão, sem conseguir perceber de onde vinha aquela voz abafada. A voz continuou.
— Deixa-me explicar-te quem eu sou. Pega novamente em mim e abre-me na página oitenta e seis.
O André dando-se conta que era a sua gramática que assim falava, voltou a sentar-se e observou o livro. Não compreendia lá muito bem como é que este podia falar como uma pessoa.
— Não devias ter desistido tão facilmente... — recriminou-o a voz.
— Podes explicar-me primeiro como é que falas ou estarei a sonhar, meu?
— Não, não estás, André. Agora abre-me depressa que me sinto sufocar.
O André, entre o incrédulo e o fascinado, abriu o livro novamente na página oitenta e seis e, para sua grande surpresa, todas as palavras dessa página tinham desaparecido, excepto uma. E não era a gramática que assim falava, era aquela palavrinha de cinco letras que o fazia. Como podia ser?
— Então és tu que falas? Para onde foram as outras palavras? Que lhes aconteceu? Como te chamas?
— Uma pergunta de cada vez senão deixas-me confuso — disse a palavrinha. — Vamos por etapas. Eu falo como as pessoas e, para te dizer a verdade, todas as palavras falam ainda que de forma silenciosa, mas a maioria dos seres humanos não é capaz de as ouvir, nem lhe presta atenção. Quanto às outras palavras, mandei-as descansar por estarem exaustas de serem lidas sem serem compreendidas.»
In André no Reino das Palavras Falantes


«Naquele momento, ouviram-se uns passos e uma manchinha negra apareceu. Era o senhor 86 do cantinho inferior direito, da página da gramática do André. Era um número simpático, redondinho, amoroso e muito afável. Trazia vestido um lindo fato engomado, de um bonito cetim preto, camisa aos quadradinhos cujo drapeado era deslumbrante, lacinho “à papillon” de bolinhas pretas, calças de um xadrez sumptuoso. A sua toilette era de um primor inexplicável, que rematava num lindo sapatinho preto do estilo carocha. Avançava num ritmo bamboleante e os seus passinhos curtos tornavam-no inimitável. Esta estranha e inusitada personagem usava na cabeça um lindo chapéu preto, onde trazia dois copos de leite, de um branco extraordinariamente branco, como o lugar que os rodeava, e um prato com bolachas.
— Perdoem-me a interrupção — disse o senhor 86. — No relógio da página anterior, bateram as cinco horas e eu tomei a liberdade de vos trazer o lanche.»
In André no Reino das Palavras Falantes
Nota: para mais informações ver site: Caixa Vermelha - Artes e Letras em http://caixavermelha.com/

29 novembro, 2007

Viagem à Flor de um Mês


Autor: José Jorge Letria
Ilustrador: André Letria
Editora: Campo das Letras
Ano: 2002
ISBN: 972-610-539-0



Nesta obra poética encontramos o dialogismo entre Pai e Filho na exuberância de um afecto com indicadores de predestinação, onde o recurso à memória como repositorium de lembranças é pilar de sustentação e de perpetuação temporal.
É no espaço de registos do real materializado na “última folha do álbum/como se ali tivesse acabado um tempo/para começar outro (Letria, 2002:5) que uma voz infantil em aprendizagem, vai insistindo nas questões que permitem o deambular pelos instantes de metamorfose do indivíduo detentor de maior experiência do mundo, representante de um olhar atento e crítico, circunscrito na complexidade metafórica.
O discurso poético, embrenhado de imagens que formam uma teia simbólica regida pelo predomínio dos afectos como energia imprescindível à prossecução da complexa “viagem à flor de um mês”, demarca o fio do tempo, enquanto continuum de acções, observações e intuições, onde o recurso a aspectos disfóricos encontra a justificação para a mudança: “um tempo de toalhas/ no bafio das arcas, um tempo/ de andar pé ante pé/ no silêncio dos quartos/ sem portas nem janelas (Letria, 2002:6).
Emerge desta construção poética a expectativa da espera apontada a patamares de compreensão que extravasam o sensorial: “Filho, tu vinhas a caminho/ por uma estrada feita de luz e de espuma/ (…) e eu não sabia se eras pássaro, se eras onda/ se eras riso, se eras dança” (Letria, 2002:6). No entanto, o efémero temporal regista-se com intensidade na exaltação de cada momento partilhado por esses dois seres, que se enlaçam numa interacção quase transcendental, onde o tempo é mensurável na dimensão psicológica dos afectos e do primeiro sentido da liberdade. “Filho, ficou-me pouco tempo/para te ver crescer” (Letria, 2002:14); “Pai, eu tenho a idade desse mês/ a pressa que esse mês/ tem de dar fruto” (Letria, 2002:33).
De facto, esta poesia aparentemente destinada ao público infanto-juvenil reclama outros olhares que cruzem ou desconstruam a complexidade que a tece, entre a intimidade familiar onde a sabedoria se eleva e a emergência de perpetuar o simbolismo de um “mês/ chamado Abril/ que tem perfume de onda, /de alfazema e erva doce/ e a claridade dos sonhos” (Letria, 2002:43) se destaca.


Teresa Macedo
macedo.mariateresa@gmail.com

O Piano de Cauda

Título: O Piano de Cauda.
Texto: Eugénio Roda
Ilustrações: Gémeo Luís
Editora: Edições éterogémeas

Um conto cinestésico para os mais atrevidos sonhadores

Influenciada e inspirada nos criadores deste conto (Eugénio Rodas e Gémeo Luís), diria que esta história é uma fantasia musical onde nos é permitido sonhar. Esta fantasia é composta por vários andamentos. Aqui, as ilustrações não representam meras notas de rodapé, mas acrescentam novas ideias ao texto. Assim o conto resulta de uma profunda simbiose entre a musicalidade da poesia e das ilustrações sublimes.
É bom poder imaginar onde ficará o lugar mais harmonioso de todos, no qual vive este felizardo piano de cauda, que até via do miradoiro o dia a nascer, e… dó, ré, mi, fá… o sol aparecia. Da orquestra harmoniosa também faziam parte o rio, as ervas e os pássaros. Mas naquele dia o piano ia tocar a solo. Pois a chuva tinha metido água no ensaio geral, estavam todos ensopados, roucos, desafinados. Com muita sorte, o piano de cauda livrou-se da constipação porque ficou preso nas giestas do caminho para o ensaio. De qualquer maneira, não há mal que dure, e não tardaria muito para o dia-pasão chegar e a orquestra afinar. Pois naquele lugar não há dia sem música.
Este é o fabuloso panorama do primeiro quadro descrito pelo autor Eugénio Rodas. Efectivamente, cada página é guarnecida de uma prosa musicalmente bem dotada, acompanhada de uma ilustração incrivelmente inspiradora da autoria de Gémeo Luís. Daí que vejo este conto como uma exposição de quadros.
Este conto tem quanto a mim, tudo para ser um poderoso instrumento pedagógico e didáctico entre as crianças. Agora exige um mediador minimamente conhecedor da educação e cultura musical devido à forte presença de jogos de imagens, metáforas e trocadilhos que caracterizam e enriquecem enormemente esta história. Para além disso, predominam termos e vocabulário musical, sem esquecer a musicalidade das próprias palavras e frases com que nos brinda Eugénio Rodas, que não só podem como devem ser trabalhados e discutidos com as crianças. As expressões abundam e a meu ver deliciam a nossa leitura:
Cuidado… ele pode morder!, gritaram, apontando a grande dentadura. (…)
Ao sentir as mãos do rapaz, o piano gemeu, desafinado. (…)
O rapaz demorou-se a acariciar o piano sem cauda: parecia surdo-mudo-cego, que é como quem diz, tinha os ouvidos, a boca e os olhos na ponta dos dedos. (…)
Deste modo, a cada página virada, corresponde um quadro mágico inventado (= texto + ilustração). Esta foi realmente a sensação que tive no decorrer da minha leitura. E ficamos cada vez mais curiosos à medida que vamos desvendando o conto, presos às ilustrações e aos jogos de palavras que nos despertam para uma variedade infinita de significados e de mensagens, quanto mais vezes o vermos, lermos e ouvirmos; quanto mais vezes mudarmos as lentes para o interpretar na sua globalidade.
Na minha perspectiva, este conto transmite uma mensagem tão profunda como simples: o prazer inegável que a música nos dá, quer seja ouvindo-a ou interpretando-a ao longo das nossas vidas. O piano de cauda que vive no lugar mais harmonioso do mundo, vem-nos lembrar no fundo, o quanto ela está intimamente ligada à condição e natureza humana.
Se quisermos ir mais além, acho que por detrás desta mensagem, podemos encontrar eventualmente outros significados, assim deixo uma humilde sugestão, entre tantas outras que eu acredito existirem.
Será que, à semelhança deste instrumento, não haverá também pessoas que tenham passado pela mesma situação, sentindo-se enfraquecidas? Passo a explanar a minha visão, ou viagem pelo meio da interpretação – assumindo que estou à vontade para libertar a minha imaginação.
Tal como aconteceu com o piano de cauda, há pessoas que são retiradas do seu lugar harmonioso, (da sua casa, do seu meio, do sítio onde se sentem felizes), porque existem também outras pessoas à procura de coisas raras, (pessoas exageradamente obstinadas e ambiciosas que não olham a meios para alcançar os seus objectivos e atingir os seus fins). Esquecem-se estas últimas, que o sucesso, a diferenciação que procuravam para se demarcarem dos outros indivíduos, torna-se supérflua e sem sentido. Pois assim como os objectos têm valor dentro de um contexto, o comportamento das pessoas optimiza-se no meio que lhes é favorável a diferentes níveis. Desenquadradas do seu meio, da sua razão de ser, a sua essência esvanece-se. Assim também o piano de cauda deixou de ter significado, perdeu o seu valor quando o homem à procura de coisas raras lhe roubou a inspiração ao enclausurá-lo num lugar que não era o seu.
Em suma este conto tem o poder de nos transportar para todos os lugares mais harmoniosos e para nenhum. Tudo depende da nossa predisposição para viajar… E creio que as crianças devem ler este livro porque ele é sem dúvida alguma, um poderoso instrumento de estímulo à imaginação e criatividade.

Contar Historias

SANTOS, Margarida Fonseca (2006). Histórias de Cantar.
Lisboa: Juventude Musical Portuguesa, 72 págs.
ISBN 972-99892-2-2

Histórias de Cantar é um livro de canções para crianças – constituído por “um leque de canções já ‘testadas’, ou seja, ensinadas e corrigidas, quando foi o caso, [e] cantadas por vários grupos de crianças, sabendo-se de antemão que a reacção é favorável” (p. 56) – da autoria de Margarida Fonseca Santos – diplomada com o Curso Superior de Piano, foi professora na Escola Superior de Música de Lisboa (ESML); tem vários livros publicados. As canções são ilustradas por Carla Nazareth – licenciada em Design e Comunicação pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa – e publicadas através da partitura para voz e piano, cuja orquestração é de Francisco Cardoso – licenciado em Formação Musical pela ESML; pós-graduado em Psychology for Musicians na Universidade de Sheffield; lecciona na Escola de Música do Conservatório Nacional e na ESML. O livro traz um CD, com duas versões para cada canção: uma cantada e outra sem voz. Contém ainda um texto pedagógico e três relatos de experiências pedagógicas nas quais a autora participou.
O objectivo de Margarida Fonseca Santos “será sempre o de conseguir que todas as artes possam ser interligadas num mesmo projecto […], porque será por projectos multidisciplinares e abrangentes que vamos conquistar as crianças, seja para a música, para o teatro, para a dança, para a escrita, para as expressões plásticas” (p. 58-59). Na opinião da autora, “quanto mais se interligarem as artes, mais a aprendizagem e o crescimento emocional e artístico serão sólidos” (p. 5). Não admira então que, através deste livro (e não só!), nos incentive a desenvolver “projectos multidisciplinares e abrangentes, […] encarando sempre a passibilidade de alterar [os] caminhos e partir para novas experiências.” (p. 59).
É um livro destinado a um vasto público, pois tem diversos motivos de interesse. Poderá ser muito útil aos professores, aos educadores e até aos encarregados de educação, pois compreende “material passível de ser usado por qualquer pessoa, independentemente do seu conhecimento da escrita musical” (p. 5). Através das canções e do desenvolvimento de projectos, conforme sugerido, é possível trabalhar imensos conteúdos artísticos (musicais, literários, teatrais, …). Porém, as crianças são o seu principal destinatário. As palavras da autora são elucidativas, quando diz que “gostaria de contribuir para que as aulas de música dos mais pequenos (porque á dessa faixa etária que estamos a falar, embora esta afirmação seja verdadeira para todas) sejam cada vez mais preenchidas com música” (p. 56). Como cada escola, cada turma, cada criança é diferente das outras – e deve ter-se em conta a individualidade de cada uma – torna-se difícil dizer até que idade é sensato ensinar estas canções. Porém, a minha experiência lectiva diz-me que crianças até aos 11/12 anos de idade as cantam com bastante agrado.
Tive a sorte de ter sido aluno da Profª Margarida, na disciplina de Pedagogia da Formação Musical I, quando frequentei a ESML. Na minha opinião, a Profª Margarida, além de outras qualidades, sabe analisar e compreender as necessidades dos alunos. Estas canções foram fruto do seu prazer em ser professora e da sua dedicação aos alunos. Por outro lado, tendo uma vasta e rica experiência lectiva, particularmente no ensino artístico, soube avaliar o seu trabalho como docente e tirar conclusões. Talvez seja por isso que tem uma forte convicção e um objectivo – atrás explicado – que tem vindo a divulgar, transmitindo ideias organizadas e claras. Histórias de Cantar é mais um exemplo dessa divulgação.
Na introdução, a autora conta que “este é um livro de canções escritas para meninos especiais, os meninos com quem fui trabalhando ao longo dos anos e que me inspiraram a ‘brincar’ às composições” (p. 5). Demonstrou-lhes, assim, todo o seu carinho e dedicação. De imediato lança um desafio, ao exprimir que “gostaria muito que os professores, pais e educadores o encarassem como o contar da história de alguns caminhos que experimentei e que, espero!, experimentem também” (idem). As canções são anunciadas por uma ilustração e pela letra, nas duas páginas anteriores. Segue-se, então, a partitura para canto e piano, com os acordes para acompanhamento à guitarra. O CD tem uma faixa sem canto, “para que qualquer profissional, não especializado em música, possa utilizar [este] material de uma forma satisfatória. Ficam assim de lado os problemas da dificuldade de leitura da escrita musical ou do acompanhamento harmónico das canções” (p. 55). Porém, Margarida Fonseca Santos não se limita a disponibilizar estas canções. Aborda as estratégias “que [lhe] parecem mais importantes para o desenvolvimento musical da criança” (p. 57), dá “algumas pistas para fugir da rotina” (p.56) e exprime a sua opinião – fruto da sua experiência e reflexão. Reafirma e fundamenta a sua convicção e o seu objectivo, afirmando pensar “que é da interligação entre as artes que se chegará à verdadeira educação artística. Projectos que englobem a música, a dança, a escrita, o teatro, as artes plásticas são muito ricos em aprendizagens e permitem que cada criança envolvida dê o seu contributo numa ou mais áreas, não deixando de se envolver em todo o processo” (idem). Não se cansa de aconselhar, visando ajudar os professores e educadores a obter resultados mais consistentes. Por exemplo, “podemos – e devemos! –, sempre que possível, variar as harmonizações ou mesmo construir novas harmonizações com a ajuda das crianças” (p. 57). A interligação das artes que Margarida Fonseca Santos defende é muito coerente com a sua vida de professora, na qual, a dado momento, “a música e a escrita começam a coexistir” (p. 58). Assim, estimulou a integração de todas as artes num só projecto, “trazendo as mais-valias de cada uma para o resultado final” (p.58-59). Seguem-se as descrições de experiências “bem sucedidas!” (p. 59). No âmbito do Projecto MUS-E Portugal, a ideia foi “construir com os alunos as canções de Natal” (idem). Em termos musicais, partiu-se “do vocabulário e do conhecimento prático daquelas crianças (baseados no trabalho sensorial e nunca teórico) […], em termos de construção de texto, já tinham ouvido, lido e experimentado muitas formas de o construir.” (p.59-60). Na turma A, começou-se pelo texto, na turma B pela música. “O resultado? Uma sucessão de aulas extraordinariamente divertidas!” (p. 60). Relativamente ao Projecto sobre O descobrimento do Brasil, “a proposta era falar sobre o acontecimento. Parti assim para a escrita de uma peça de teatro […]” (p. 63). Após ter reunido com a turma para que sugerissem mudanças, passou-se à fase seguinte – as canções. Depois dos ensaios, o espectáculo foi apresentado. “E calculo que nenhum deles se tenha esquecido de como foi a chegada dos portugueses ao Brasil…” (p. 63-64). Quanto ao Atelier de Escrita Criativa integrado na aula, pretendeu-se “construir um conto musicado, ou seja, construir uma trama que seria narrada ao mesmo tempo que a orquestra fazia a ilustração musical” (p. 64). A autora descreve as várias etapas até à apresentação em palco. “Pena foi só se ter feito uma única apresentação… Isso sim” (p. 68).
Trata-se de um livro de uma professora com uma boa formação humana, musical e humanística, experiente e entusiasta, que também se tem dedicado a orientar acções de formação, cujo principal objectivo é ajudar a melhorar o desempenho dos professores. Na minha opinião, este é um livro que fazia falta. Em Portugal não há muitos livros e/ou CD’s para crianças com tão boa qualidade como este (qualidade das canções – melodia, letra, harmonização, orquestração, interpretação; cuidado tido na apresentação do livro – ilustrações, tipo de letra, tipo de papel, …), notando-se, até nos pormenores, um grande respeito pelo público mais jovem. Deve salientar-se igualmente as propostas pedagógicas que a autora sugere, que são sustentadas pelos relatos de algumas das suas experiências lectivas. Um livro de canções para crianças é, ou deveria ser, também um livro para os adultos. As propostas pedagógicas e os relatos presentes neste livro reforçam essa tese. Este é, portanto, um livro adequado a pessoas de todas as faixas etárias.
Identifico-me com as concepções pedagógicas narradas, pois é também minha opinião de que, regra geral, a vivência dos fenómenos facilita a sua apreensão – particularmente nas crianças. Por outras palavras, a vivência sensorial deve preceder o conhecimento consciente. E, após ter lido e reflectido sobre este livro, fiquei ainda mais convencido… Não pude, no entanto, deixar de reparar que todas as canções são tonais e estão no modo maior. Além disso, em quase todas elas a divisão do tempo é binária. Fazem falta, creio, canções tonais em modo menor – e até canções modais, ou escritas noutra organização sonora – e mais canções com divisão ternária do tempo – e até, porque não, com outro tipo de escrita rítmica. Além disso, pese embora a boa qualidade do piano electrónico, penso que seria preferível o uso de um piano acústico. Porém, creio que estes factos – que não tiram qualquer mérito a esta publicação –, não foram deliberadamente planeados pela autora. Foram, possivelmente, apenas fruto das circunstâncias.
Aconselho todos os professores – mesmo de outras disciplinas –, educadores e até encarregados de educação, a lerem e a reflectirem no conteúdo escrito de Histórias de Cantar. Penso que este é um livro essencial, nesta época em que tanto se fala de interdisciplinaridade e de articulação entre disciplinas, pois contém uma proposta pedagógica testada com sucesso, logo, na minha opinião, muito oportuna. Assim, pela qualidade das canções, das interpretações e da gravação – além, claro está, da proposta pedagógica –, recomendo esta obra a todos os que pretender presentear as crianças (ou os adultos!).

VIII Encontro de Literatura Infantil

LER+ DESDE O BERÇO
Auditório Municipal de Vila Nova de Gaia
5 de Dezembro de 2007
Programa e inscrições em:

27 novembro, 2007

Histórias com "identidade europeia"?


No livro Wie schemekt der Mond, traduzida para português com o título A que sabe a lua? de Michael Grejniec todos os animais queriam averiguar a que sabia a lua: ”Era doce ou salgada? Só queriam provar um pedacito. À noite, olhavam ansiosos o céu. Esticavam-se e estendiam os pescoços, as pernas e os braços, tentando atingi-la.
A tartaruga resolveu escalar a montanha mais elevada mas não podia tocá-la. Então chamou o elefante e depois a girafa, e depois a zebra e depois o leão e depois o raposo e depois o macaco e por fim o rato que arrancou um pedaço. “ Saboreou-o satisfeito, e depois foi dando migalhas ao macaco, ao raposo, ao leão, à zebra, à girafa, ao elefante e à tartaruga.”
E a lua soube-lhes exactamente àquilo que cada um deles mais gostava.”, porque a indeterminância ( Iser, 1977:33) textual aponta, por um lado, para uma fuga tendencial ao sentido, que impede que se fixe ao texto uma verdade última. O texto constrange positivamente ao jogo intertextual em que se dá a leitura, remetendo, deste modo, o leitor para a textualidade característica de toda a experiência.
A que é que a lua sabe, a um leitor, será certamente diferente do que sabe a lua a outro leitor, porque a recepção do texto verbal e icónico é conseguida pelo duplo princípio da diversidade e da divergência. Contudo, algumas vezes, pode-se convergir para um mesmo objectivo e a consciência dessa necessidade é apontada pelos animais desta história.
A convergência do real (mundo empírico - histórico - factual) e do virtual/ficcional proposto pela literatura, neste caso de recepção infantil e juvenil, pode romper fronteiras que separam um país de outro, mas também podem quebrar as fronteiras que separam pessoas de objectos: a lua estava longe mas o engenho e a arte dos animais determinaram o alcance dos objectivos que era tão simplesmente saber a que sabia a lua.
Também a convergência do local com o global europeu poderá estar na essência da construção de uma nova identidade sem perda da identidade primordial, porque o leão continuará a ser leão, o elefante continuará a ser elefante, a girafa continuará a ser girafa e assim sucessivamente...

IMAGINÁRIO, IDENTIDADES E MARGENS

Está já disponível para aquisição, nas livrarias de referência, a obra IMAGINÁRIO, IDENTIDADES E MARGENS. Estudos em torno da Literatura Infanto-Juvenil, uma publicação da Editora Gailivro, que reúne as conferências e as comunicações do II Congresso Internacional Criança, Língua, Imaginário e Texto Literário (CLT 2006), que teve lugar na Universidade do Minho, entre 8 e 10 de Fevereiro de 2006.


Organizadores: Fernando Azevedo, Joaquim Machado de Araújo, Cláudia Sousa Pereira e Alberto Filipe Araújo
Editorial: Gailivro

Parte I – Infância, Literatura e Imaginário

Imaginários da criança: natureza e criatividade Jean-Jacques Wunenburger Da Criança Simbólica às Imagens Míticas da Infância
Alberto Filipe Araújo e Joaquim Machado de Araújo

Freedom in marginality: the constraints of writing for children, resulting from its marginal position
Zohar Shavit

Viaje del margen al centro. La narrativa de migración e identidades híbridas adolescentes
Celia Vázquez García

O affaire da Literatura Infantil e Juvenil
Cláudia Sousa Pereira

Los problemas de las adaptaciones en Literatura Infantil y Juvenil. Un ejemplo El Patito Feo de Andersen
Pedro C. Cerrillo

Bichos e bichanos, homens e rapazes: da presença de animais na literatura para a infância a Todos os rapazes são gatos de Álvaro Magalhães
José António Gomes

La ficción fantástica: de la marginalidad al centro de la literatura infantil y juvenil
Eloy Martos Núnez

Para uma poética da leitura infantil
Armindo Mesquita

Literatura infantil no Brasil, imaginário e escola
Iduina Mont´Alverne Braun Chaves

Sociedade e Natureza: Que contribuições para uma identidade?
Natividade Pires


Parte II – Estudos de Literatura Infanto-Juvenil

Imaginário e Mítico-Simbólico

Mitos na literatura. Leituras de mundo: a arte no imaginário infantil
Ana Maria da Costa Santos Menin

Dickens’ Hard Times: a version of a modern cave
Herzl Baruch

Viagem pelos labirintos do eu… Uma leitura de Hansel e Gretel dos irmãos Grimm e de Uma casa muito doce de Ana Saldanha
Susana Campos e Fernando Azevedo

Um jovem em Camelot: considerações sobre a lenda arturiana no contexto do imaginário juvenil
Ana Margarida Chora

O herói e o dragão na cultura portuguesa: de Hércules à Coca de Monção
Lina Soares

Um livro de cavalarias Ad Usum Delphini: O Conto De Amadiz De Portugal Para Os Rapazes Portugueses de Afonso Lopes Vieira
Paulo Alexandre Pereira

A terra, o ar, a água e o fogo na mediação das metamorfoses nos contos infantis
Maria Teresa Macedo Martins e Fernando Azevedo

A Literatura Infanto-juvenil Contemporânea: J. K. Rowling, Isabel Allende e Christopher Paolini numa reaproximação mítico-simbólica
Gisela Silva

Imagens de Identidade e Alteridade

A representação do negro na literatura para crianças e jovens: negação ou construção de uma identidade?
Eliane Santana Dias Debus

Elementos da cultura indígena na literatura infanto-juvenil brasileira
Alessandra C. D. Affonso

As diferenças de cor de pele e a construção da identidade da criança através da literatura: os recados de As mãos dos pretos e As cores de Mateus
Ana Rodrigues

A problematização do gênero na literatura infantil: um estudo de caso no contexto brasileiro
Rosa Maria Silveira e Cláudia Amaral dos Santos

Beyond good and evil: Terry Pratchett, Harry Potter, and 9/11
Naomi Wood

Imagen de la identidad en los primeros productos de narrativa infantil y juvenil de ficción científica gallega y portuguesa
Isabel Mociño González

Canónico e Periferias

Literatura em crescimento. O lugar problemático da literatura juvenil no sistema literário
Maria Madalena M. C. Teixeira da Silva

Literatura para crianças: contributos para uma (re)definição
Teresa Mergulhão

From margin to centre in children´s literature. Crossing borders: translating children´s literature
Isabel Pascua Febles

Nonsense e literatura infantil: os Limericks de Edward Lear
Conceição Pereira

Ilse Losa e as histórias que vêm de longe
Ana Isabel Marques

Quando Emília, de Monteiro Lobato, encontra Dom Quixote, de Miguel de Cervantes
Socorro Acioli

Histórias Tradicionais Portuguesas Contadas De Novo por António Torrado: os processos de reescrita e os cânones
Teresa Peres

Russian classics in the world of children’s literature
Alexander Dolin

O Capuchinho Cinzento de Matilde Maria do Sameiro Pedro

O Capuchinho Vermelho revisitado: leituras de História do Capuchinho Vermelho Contada a Crianças e nem por isso, de Manuel António Pina
Sara Reis da Silva

The art of music: an analysis of representations and interpretations of music in selected picture books for children
Sujin Huggins

Estereótipos e imaginários: ogres encantados ou príncipes desencantados?
Anabela Branco de Oliveira

Artextos: los álbumes infantiles
María Jesús Agra Pardiñas e Blanca-Ana Roig Rechou

Danças e contradanças da palavra e da imagem
Leonor Riscado

Leitor, Competência Literária e Práticas Pedagógicas

Didactisme ou engagement littéraire ? La critique sociale dans la littérature enfantine en Afrique
Kodjo Attikpoe

Comandante Hussi ou mundos (im)possíveis
Elsa Sousa Faria e Fernando Azevedo

“Era uma vez…” da literatura infantil à educação para a cidadania
Ângela Coelho de Paiva Balça

A construção da consciencialização histórica através da estética literária infanto-juvenil em Mouschi, O Gato de Anne Frank de José Jorge Letria
Thereza Ferreira

Literatura infanto-juvenil: contornos de uma estética do porvir
Fátima Albuquerque

“Quando os nossos olhos se tocam...”: o momento mágico da “compreensão”
Maria Cecília Basílio

Às voltas com as histórias nas histórias. O exercício da metatextualidade na literatura de potencial recepção leitora infantil
Rita Simões e Fernando Azevedo

“O Inventão de Manuel António Pina – uma aprendizagem da leitura/literatura”
Rita Basílio

Literatura infantil y juvenil, lector y competencia literaria en la prensa compostelana del rexurdimento
Marta Neira Rodríguez

From Oz To Narnia: opening the doors of fantasy in teaching children’s literature
Eduardo Encabo

Discursos sobre o lugar do literário no desenvolvimento das crianças
Luísa Álvares Pereira

Promoção da ecoliteracia – Virtualidades e limitações em textos para a infância
Rui Ramos

A literatura para a infância na prática pedagógica dos educadores
Ana Luísa Brito

Adquisición de la competencia literaria a través de la poesía infantil
César Sánchez Ortiz

Despertar para a poesia: um projecto em contexto de sala de aula ~
Paula Quadros Flores

A iniciação precoce do francês através da abordagem de uma história infantil
Manuela Marques Perestrelo e António Ferreira Moreira

Do prazer afetivo ao desprazer pela obrigação
Regina Helena de Almeida Durigan e Murilo de Almeida Durigan

Contar histórias: um legado da tradição oral incorporado nas práticas pedagógicas
Adilson Aparecido Moreno

A literatura tradicional e oral na formação da personalidade da criança
Natália Maria Lopes Nunes da Graça

Leitura, leitores e apropriações do livro didático de língua portuguesa
Eliana Parise Lemos Tessone

Leitura literária, a filha bastarda da prática pedagógica
Rui Marques Veloso

Programa de leitura: a literatura a serviço da formação de leitores
Renata Junqueira de Souza



A leitura e a literatura infantil em destaque

Práticas de promoção do livro e da literatura infantil

14 de Dezembro - 14h - Livraria Almedina (campus de Gualtar, Braga): Sonhos & Segredos

19 de Dezembro - 15h - Pediatria do Hospital de S. Marcos (Braga): A Magia da Leitura

21 de Dezembro - 14h - Livraria Almedina (campus de Gualtar, Braga): Histórias de Encantar

18 de Janeiro / 2008 - 14h30 - Livraria Centésima Página (Braga) : Segredos Voadores

A entrada é livre!

11 novembro, 2007

Esta Língua Portuguesa



Título: Esta Língua Portuguesa
Autor: José Jorge Letria
Ilustrador: Susana Lemos
Editora: Ambar
Ano: 2007
ISBN: 978-972-43-1241-5

Recomendado: A todos os que façam da Língua Portuguesa o seu objecto de estudo e a todas as crianças.

Percorrer as páginas deste livro é fazer uma viagem em torno do sentido e dos sentidos da Língua Portuguesa, simbolicamente representada por “uma árvore de sons/que tem nos ramos as letras/nas folhas os acentos/ e nos frutos o sentido (Letria, 2007:8). E bastar-nos-ia esta imagem para estarmos perante uma multiplicidade de combinações onde a Língua Portuguesa surge como elo mediador, verticalidade, comunicação entre o concreto e o abstracto.
Nunca esquecendo o destinatário e os valores emergentes que importa destacar, o sujeito poético executa o seu percurso pedagógico explorando as escalas onde a Língua Portuguesa encorpa o dinamismo de um povo que, numa demanda contínua, se demarcou nos registos da historicidade, exprimindo com “grinaldas de metáforas/ (…) a sede de ser eterno” (Letria, 2007:18).
Dando-se a conhecer nas suas componentes internas (“Ama o jogo, o trocadilho/ o enfeite, o ornamento/ e vem daí o seu estilo/ (…) entre a gíria e o murmúrio” (Letria, 2007:23), a “árvore desta língua” apresenta-se como um centro de onde irradia a adequação à mundivivência dos falantes, exibindo a sua riqueza lexical como um “velho tesouro” (Letria, 2007:31) a preservar, pois constitui um património carregado de “indicadores ideologémicos (…) que nos revelam ou nos permitem detectar a carga mítico-simbólica” (Araújo, 2004:134) presentes na empatia, intuição, inteligência, compreensão e graça que percorrem toda esta poesia. Assim, guardando “(…) o segredo/ dos mistérios mais antigos/ (Letria, 2007:18), a Língua Portuguesa é lugar de fantasia, onde assistimos à convivência dos seres do universo do Imaginário (…feiticeiros/ duendes e magos (Letria, 2007:31)) com os processos de formação das palavras (…sufixos, prefixos (Letria, 2007:31)), apresentando de uma forma lúdica as multifaces da Língua enquanto objecto de estudo.
O livro aqui apresentado revela, ainda, “ um poeta que certamente crê que o discurso poético tem pelo menos mais um sentido do que o literal, que esse sentido é codificável e que o jogo da descodificação faz parte integrante do prazer da leitura e representa uma das finalidades principais da actividade poética” (Eco, 1989:248).


Bibliografia:
Araújo, Alberto Filipe (2004). Educação e Imaginário-Da Criança Mítica às Imagens da Infância. Maia. Publismai.
Eco, Umberto (1989). Sobre os Espelhos e outros ensaios. Lisboa. Difel.


Teresa Macedo
macedo.mariateresa@gmail.com

06 novembro, 2007

O Homem de Papelão




Título: O Homem de Papelão
Autor: Nuno Castelo
Ilustrador: Nuno Castelo
Editora: Atelier, Produção Editorial
ISBN: 978-972-8957-36-0



A história, aparentemente breve, narrada neste livro conduz os pequenos leitores à problemática social dos desamparados da sorte, dos desprotegidos, dos excluídos, dos que deambulam pela errância da noite: os sem-abrigo. Num discurso que se articula, em muitos momentos, com a convivência gráfica, em que o tamanho das palavras vai revelando as vozes enunciadoras da problemática em causa, conjugando-se com a desfiguração semiótica doada pelo registo pictórico, o leitor vai tomando conhecimento desta realidade onde o desapego ao material se destaca como sobrevivência final.

Teresa Macedo

macedo.mariateresa@gmail.com

04 novembro, 2007

A literatura de tradição oral e popular em destaque

Está já disponível uma excelente página web sobre esta temática, e que merece a pena ser consultada:

http://www.trasosmontes.com/alexandreparafita/

Em todas as conversas sobre a problemática da leitura, sempre alguém se queixa de que cada vez se lê menos. Se é verdade que ainda estamos aquém dos índices desejados, comparativamente com alguns países da união europeia e que isso se reflecte nos índices de literacia dos portugueses, também pensamos que haverá algum exagero nesta afirmação.

O problema é que, muitas vezes, quando dizemos que se lê pouco estamos a pensar na leitura de autores consagrados como Fernando Pessoa, Saramago, Eugénio de Andrade... e muitos mais! Mas a maioria dos leitores escolhem antes para leitura, as novelas dos Templários, os mistérios das múmias Egípcias, as sagas das mulheres Muçulmanas ou as atrocidades de Hitler.

No que à literatura infantil diz respeito lêem, por exemplo, J. K. Rowling, para arrepio de muitos bons professores de Língua Portuguesa!

Enfim, o que estes leitores fazem é ler por prazer, em lugar de ler para qualquer outra coisa! Lêem sem terem uma ideia penitencial da literatura, sem se importarem de se insurgir contra os cânones estabelecidos. A ideia de que se lê para tirar prazer da leitura ainda assusta, porque a leitura tem que constituir-se como um esforço desmedido, um trabalho interminável ou uma mortificação que melhora o espírito.

Contudo, a leitura, seja ela qual for, é sempre uma expressão de um prazer superior, no que a Stuart Mill (1871) diz respeito, pois só os seres humanos conseguem apreciá-la e deleitar-se com ela.
Por isso venham os Paulos Coelhos, os Nicholas Sparks e os Dan Browns!

22 outubro, 2007

Apresentação de livros em Braga






15 outubro, 2007

Os Livros das Nossas Vidas…

Ler, partilhar leituras e conversar acerca de textos que nos são gratos são os objectivos do clube de leitura, que, dinamizado pelos alunos da Licenciatura em Educação Básica, com o apoio do Departamento de Ciências Integradas e Língua Materna do Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho, em colaboração com o Centro de Investigação em Promoção da Literacia e Bem-Estar da Criança, se reunirá, com regularidade, às 2as feiras, a partir das 17h45, na Livraria Almedina, situada no campus de Gualtar.

Falaremos, num ambiente informal, sobre textos literários que nos interessam, que nos agradam ou que, de algum modo, consideramos relevantes, independentemente de pertencerem ou não ao cânone, de serem ou não clássicos, best-sellers ou se incluírem mais no âmbito de uma literatura comercial.

A entrada é livre e estão todos convidados!

Autores para o dia 12 de Novembro: Paulo Coelho, Rosa Lobato de Faria e Nicholas Sparks

Autores para o dia 19 de Novembro: Luís Sepúlveda

Autores para o dia 26 de Novembro: Dan Brown e Susana Tamaro

Educar para a Literacia

Muito antes de saber ler a criança já compreende uma sequência narrativa contada pelos pais ou pelos avós. Mesmo muito pequena pode perceber que as imagens são uma representação do mundo empirico-histórico factual e que essas imagens estão em locais a que se podem voltar vezes sem conta, basta ir buscar o livro à estante. Mais tarde, começará a associar essas imagens às palavras que as acompanham e assim começar a construir o espólio de recursos essenciais para a prendizagem da leitura.
A Literacia da leitura nasce, portanto, desde o berço, e como o PISA 2000 tão bem nos mostra verifica-se " haver diferença entre os perfis das famílias dos alunos com alto nível de literacia e os das famílias dos alunos com baixo nível de literacia. Os melhores resultados do PISA tendem a identificar-se com os alunos provenientes de famílias "em que os recursos educacionais bem como os bens culturais em casa são elevados e em que é maior a frequência com que os pais interagem com os filhos, em actividades tais como a discussão de temas sociais, de livros e filmes ou, simplesmente, falando com eles."
Morrow, ( 1997) diz-nos que as experiências precoces ricas em literacia têm consequências na apropriação infantil de conceitos relacionados com a codificação da escrita, nomeadamente em relação aos sons, às letras e às palavras e por isso é tão importante que todas as crianças possam usufruir dos bens culturais que são, por exemplo, os livros. Para isso é necessário que todas as famílias os tenham, ou que pelo menos saibam que os podem aceder através das Bibliotecas, de forma a que os caminhos da ciência e da fantasia sejam possíveis para todos.
A promoção de hábitos de leitura e a aquisição de competências ao nível da literacia dos mais pequenos, através dos livros de literatura infantil, é uma proposta que nós acarinhamos e defendemos porque " Descobri que neles estava tudo. Não apenas fadas, gnomos, princesas e bruxas malvadas. Também lá estávamos tu e eu com todas as nossas alegrias, as nossas preocupações, os nossos desejos, as nossas tristezas; o bem e o mal, a verdade e a falsidade, a natureza, o universo. Tudo isso cabe nos livros. Abre um livro! Ele partilhará contigo todos os seus segredos."(Éva Janikovszky, 2003)

12 outubro, 2007

Importante recurso na web: adrian&pandora

Para todos os que já são leitores e para os que trabalham como mediadores da leitura com adolescentes e jovens adultos em bibliotecas públicas, não deixem de visitar o interessante blogue adrian&pandora e as suas numerosas e relevantes ligações!

11 outubro, 2007

"CENSURA E INTER/DITO" - IX Colóquio de Outono

22, 23 e 24 de Novembro 2007


O IX Colóquio de Outono organizado pelo Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho realizar-se-á a 22, 23 e 24 de Novembro próximo e será subordinado ao seguinte tema: Censura e Inter/Dito . À semelhança dos Colóquios anteriores, a estrutura deste Colóquio compreenderá conferências plenárias a cargo de conferencistas convidados e sessões temáticas, entre as quais
- "As Literaturas Pós-coloniais: Marginalização e/ou Subalternidade?";
- Teatro, Tradução e Censura;
- A Censura e o Inter/Dito na Literatura Contemporânea;
- Linguagem , Cultura e Inter/Dito
- Os Estudos Galegos em Portugal.


Para mais informações contactar (alice@ilch.uminho.pt ou ceh@ilch.uminho.pt).

O programa será divulgado brevemente.

Comissão
Direcção do CEHUM:
Professora Ana Gabriela Macedo
Professora Maria Eduarda Keating