Translate

Follow by Email

16 março, 2008

O pardal de Espinosa


Autor: José Jorge Letria
Ilustrador: Daniel Silvestre da Silva
Ano: 2007
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-71896-9



Este texto, obedecendo ao princípio da ficcionalidade, executa a construção biográfica de Espinosa, filósofo de “muitas ideias” (Letria, 2007:5) e polidor de lentes, potenciando a compreensão de um conjunto de valores que, subtilmente, emergem através dos matizes semióticos que vão elaborando uma “grande vida”, levando as crianças a ter oportunidade de contactar com um dos grandes vultos da modelização da humanidade.
Atendendo aos destinatários preferenciais, o enfoque projectado no pardal enunciado no título da obra atende aos ambientes cognitivos dos seus leitores, preparando-os para a observação atenta que este mediador gnoseológico delineará. Com efeito, encontramo-lo no decurso de toda a narrativa, tomando a seu cargo o desenho do perfil de Bento Espinosa, dando conta da sua trajectória existencial e das rotinas simples que compõem o quotidiano deste pensador. O dialogismo que se efectua entre estes dois seres, em muitos momentos, demarca a compatibilidade entre os representantes de universos diferentes que se entrecruzam, complementam, solidarizam na necessidade introspectiva e comunhão ideológica que preenche as diversas situações de solidão e de rejeição vividas pela personagem principal. “Espinosa não gostava da rigidez e da intolerância dos chefes espirituais daquela comunidade e nunca o escondeu” (Letria, 2007:18); o pardal era “livre, rebelde e incapaz de ter dono” (Letria, 2007:8).
O carácter lúdico associado à construção ficcional desta biografia importa substancialmente, pois permite que as crianças possam alicerçar o gosto pela cultura e pela filosofia reflexiva, fundamentando um saber inscrito na observação crítica da realidade onde o lugar para exercitar as questões que circunscrevem o entendimento do mundo se faz com graciosidade. Os vectores ideológicos deste herói que nunca “parava de pensar em Deus, na Natureza e no Homem” (Letria, 2007:24) e que entendia que “a compreensão do mundo é um problema de geometria” (Letria, 2007:28) são traçados nesta interlocução harmoniosa.
O espírito abnegado, a vida misteriosa e intuitiva constroem o herói que por meio de severas austeridades e meditação atinge a sabedoria que o faz receber “a visita de figuras ilustres do seu tempo, desde filósofos de outros países” (Letria, 2007:30) e pressentir que a hora da “fama e da imortalidade iria chegar, embora ele já não estivesse vivo para a desfrutar” (Letria, 2007:30).
Se houve pessoas que temeram “os ventos de liberdade e de mudança” (Letria, 2007:37) preconizados na obra filosófica de Espinosa, creio que a construção ficcional desta biografia destinada aos mais novos é a garantia de que essa “nova forma de pensar o mundo, a religião e a vida” (Letria, 2007:37) se perpetuará.

Teresa Macedo

15 março, 2008

Sonhos na Palma da Mão ou o Sonho do Poeta?


Eis um tempo de férias para os mais pequenos e mais jovens também. Aqui deixo uma sugestão de leitura feita do apelo ao sonho, à serenidade, à reflexão. Usem e abusem deste Sonhos na Palma da Mão, pois sonhar é um alimento vital e a nossa mão, quantas vezes apenas oca, não sabe o quanto é possível agarrar um sonho!
Texto: Luísa DaCosta
Ilustração: Cristina Valadas
(2007; 2ª ed. Asa Editores)
ISBN: 978-972-41-3654-7




A propósito da narrativa Sonhos na Palma da Mão (1ª Ed. 1990 pela Porto Editora; reeditada pela Asa Editores em 2004, 1ª Ed., e em 2007, 2ª Ed.), e por este ser um dos factos que a torna uma das minhas predilectas, direi que neste conto de polifonias várias o que nos encanta é, sobretudo, e tomando emprestadas as palavras de Cláudia Sousa Pereira o poder respirar «o tempo antigo da tradição» (2002: 24), cunhado na sensibilidade estética de um convite à leitura quieta mas cheia de murmúrios de onde se desprende um Imaginário profundo em sensações.
As palavras introdutórias assumidas em forma de prólogo justificam a temática poético-simbólica escolhida, bem como um título que em tudo lembra a noção do aconchego e do trato delicado. Tratar-se-á de uma dádiva talvez, ou apenas de um agradecimento sincero àqueles que, tal como Andersen, usando da palavra sábia e cristalina, nos deixaram um registo literário vasto na arte de encantar que, ainda hoje, povoa as muitas bibliotecas particulares e públicas dos vários continentes.
A abertura espontânea da narrativa convida o leitor a entrar numa atmosfera de frescura e delicadeza, onde parece ouvir-se o chilrear de um rouxinol vindo do outro lado do mundo, lá dos lados do Oriente. A sinestesia da cor, que irrompe do apelo ao sentido da visão, povoa, por inteiro, a página que nos fala da China e do seu rio Amarelo. Importa apenas aqui perceber o momento da absoluta resolução poético-literária, que é entregue à narradora enquanto momento de criação ao qual todo o leitor deve aspirar. O rio Amarelo é comparado a «um guache espesso de sol derretido, a correr entre as montanhas azuis (…)» adornadas por um verde bambu (2007). E de repente, surge-nos, trazida pela memória de uma menina, uma das mais belas histórias de Christian Andersen, onde a simplicidade se retrata na beleza do canto de um desbotado rouxinol que era bem superior a todas as outras incontestáveis belezas do maravilhoso palácio do imperador.
Era capaz de jurar que todo o conto de Andersen se encontra espraiado nesta narrativa na sua mais pura essência, adoptando, pela voz de uma narradora sensível, a postura de um conto buliçoso, irrequieto, e promotor na arte de se (re)criar num conto contínuo de reconto. E surgem, assim, as demais versões da menina que, confiante na bondade do rouxinol – poder-se-ia quase afirmar, ali, conotativamente reproduzido à luz do rouxinol de Andersen – imóvel, pousado no arranjo floral da avó que mais parecia feito por mãos sábias e delicadas no uso das agulhas e dos fios também eles mágicos, colocava no seu ninho árido e sem vida sonhos para ela sonhar, na promessa de os ver chocar (Cf. 2007).
Sonhos na palma da mão é mais uma narrativa da imaginação, lugar esse de entrega para a criança e de excelência para o inexistente, para a fuga, ou para o sonho perpetuado até ao infinito. O apelo quase diário ao sonho, dirigido mudamente ao pássaro calado, e encantado, sempre que a narradora dormia em casa da avó e naquele quarto: «– Passarinho, querido passarinho, pousa um sonho na minha mão!» (Cf, 2007) retrata, sem dúvida, o apelo multiplicado pelas várias vozes de meninos e meninas que querem ter o privilegio de sonhar e de saber fazer, tal como esta menina, crescer várias histórias a partir de uma valiosa outra história já ouvida.
A dicotomia entre conceitos é imensa e retrata a pequenez que também se dá a ler sem qualquer constrangimento, o que provoca na menina a resposta típica de um ouvinte atento e curioso, pois se a China é espantosamente enorme como pode dar pássaros tão pequeninos? Queira ler-se, por favor, a grandiosidade simbólica de um pássaro que não era maior que a falange do dedo polegar comparativamente a um país de tão grande dimensão. Seria normal que algo tão grande pudesse produzir seres tão pequenos? A questão é legítima, mas a narradora é perspicaz e, pela sua constante insistência na demanda do sonho, cria histórias, que vai pondo a chocar não sem antes preparar a cena no palco da representação da narração.
Apelando à reflexão do leitor, Luísa DaCosta manifesta-se, nesta obra de sonhos ao alcance de qualquer mão, sobre a importância de um imaginário feito à medida dos contos de fadas, onde o maravilhoso-feérico permite a ascensão da metafísica e do predomínio do “Era um vez”. Surgem, então, as histórias do crescimento, da metamorfose e da identidade, como as daquelas mulheres retratadas nas três histórias que o rouxinol ajudou a tecer na mente daquela fazedora de histórias, sempre que esta ia dormir na casa da sua avó.
Perguntam-me se é essencialmente uma obra de potencial recepção infanto-juvenil? A resposta parece óbvia. Para mim, contudo, ela afigura-se absolutamente dúbia pois, a escrita desta narrativa concretiza-se, não na indicação de uma faixa etária pré-estabelecida, mas, a meu ver, na compreensão do que é a verdadeira riqueza do pluri-isotópico configurado numa leitura individual ou partilhada.



Referências bibliográficas:

PEREIRA, Cláudia (2002). «Dar palavras, trazer memórias, soltar sonhos» – Os livros que Luísa DaCosta escreveu para a infância. In malasartes [cadernos de literatura para a infância e a juventude], pp.13-26.

Gisela Silva

19 fevereiro, 2008

Grandes Clássicos contados às crianças


Do teatro ao cinema e à banda desenhada os grandes clássicos da literatura têm sido profusamente adaptados, recriados e traduzidos. Figuras nascidas nas letras, como Dom Quixote, Vasco da Gama, Bewolf e Gulliver, entre outros, encontram-se hoje nas prateleiras de qualquer livraria e ganham novos rostos reinventadas por cartonistas, cineastas, ilustradores e escritores. Enquanto que, a maioria das vezes, tendemos a considerar as adaptações cinematográficas e de banda desenhada como novas produções estéticas, porque implicam uma nova linguagem utilizada (o filme e o desenho) já com as adaptações que utilizam o mesmo suporte (a escrita) somos mais comedidos nas apreciações, mais convencionais e tendemos a considerá-las, à priori, de menor qualidade.
A possibilidade de recriar textos numa tentativa de os tornar mais agradáveis sem que eles percam a sua essência é portanto o grande dilema das adaptações. Ninguém, hoje em dia, fora dos círculos académicos lê por exemplo, o “Bewolf”, escrito em inglês medieval com incidências germânicas nem o “ Paraíso Perdido “ de Milton com os seu versos brancos muito complicados sintacticamente, diz Sophii Gee, crítica literária do New Tork Times.
Sendo assim, será preferível encontrar novos formas de difusão, novos suportes, novas formas de ver, olhar ou mesmo escutar os clássicos da literatura?
Na nossa modesta opinião, as reescritas, criando um produto completo, não precisam ser um caminho para se chegar ao original que as inspirou, elas podem valer por si próprias. Tudo depende da qualidade de quem escreve a história, de quem ilustra a história, de quem dirige o filme ou de quem cria a banda desenhada. A arte é sempre apreciada por si própria e ela também é, ela própria, fruto de influências, intertextualidades, reescritas, memórias, ligações que se foram entrecruzando através dos tempos…
No caso das adaptações de grandes clássicos para Literatura Infantil e Juvenil as premissas são as mesmas no que respeita às perdas e ganhos. Perde-se agora o contacto com o autor original mas ganha-se o contacto com a essência da história. Esta, se foi bem recriada, proporcionará uma nova experiência estética através dos paratextos, estrutura, pontos de vista e personagens que, por sua vez, encaminhará o leitor para novos efeitos perlocutivos, para novas respostas pessoais e colectivas perante esta nova leitura.
A memória dos antigos é assim tirada dos alfarrabistas e é mantida viva, pois a reconstrução das suas histórias baseou-se certamente numa lealdade para com o novo leitor, mas também, sem dúvida, para com eles próprios.

18 fevereiro, 2008


Se identidade implica, um processo de diálogo com vista à recriação e reconstrução, através do texto, também poderá ser entendida como um processo de manutenção de determinados traços culturais e das relações que eles estabelecem com outras características culturais diferentes.Em “Making Sense” de Nadia Marks, escritora de origem cipriota criada em Londres, retrata-se a vida de uma adolescente que como ela teve que viver num país diferente: “Up until I moved to England, just three months ago, I knew exactly who I was, Julia Lemonides, fourteen years old, confident, popular, artistic, lively (…).” Em Chipre, Júlia tinha tudo: amigos, confiança, gloriosos dias de sol… agora em Londres teve que começar tudo de novo, sentindo-se uma outsider. O seu carácter fortemente determinado e o sentido de humor fizeram-na, aos poucos, recriar a sua identidade e adaptar-se ao novo clima e cultura, daquele país tão diferente e que ela tinha que abraçar por força das circunstâncias. Desta forma, podemos pensar o ensino da arte/literatura como um poderoso instrumento para revitalizar e resgatar a identidade, a diversidade e as singularidades culturais, na medida em que através destes percursos narrativos, se podem ultrapassar e romper barreiras ao mesmo tempo que se reflecte em torno dos princípios axiológicos fundamentais ao reconhecimento da alteridade, imprescindíveis ao constructo humano.Se a literatura como dizem Austin (1962), Searl (1983) e Iser (1978) se assemelha ao modo do acto ilocutório, “ (…) It takes on an illocutionary force, and the potential effectiveness of this not only arouses attention but also guides the reader’s approach to the text and elicits responses to it.” então, poderemos dizer que, a literatura infantil e juvenil tem uma ponderosa força perlocutória, impelindo à acção, apesar da manutenção do seu carácter ficcional. Assim, a leitura faz-nos reexaminar, por vezes, as convenções sociais e individuais perspectivando novas formas de estar e de sentir o mundo.

04 fevereiro, 2008

A Criatura Medonha – Novos Contos da Mata dos Medos, uma leitura de reverência e de reconciliação

Texto: Álvaro Magalhães
Ilustração: Cristina Valadas
(2007; 1ª ed. Texto Editores)
ISBN: 978-972-47-3686-0

ACONSELHADO a todos os que querem participar da verdadeira literatura para crianças e jovens

A propósito do 1º Congresso Internacional em Estudos daCriança: Infâncias Possíveis, Mundos Reais, que termina hoje, surgiu-me, e a propósito de uma simpática colega, que seria importante divulgar também no nosso blogue um texto que já foi publicado no jornal O Primeiro de Janeiro, no dossier "Das Artes, Das Letras. Afinal, é nossa obrigação divulgar sempre e cada vez mais o que de tão bom se faz para as crianças e jovens. E adultos também!
A Criatura Medonha – Novos Contos da Mata dos Medos (2007, Texto Editores) é mais uma belíssima narrativa «simples (sem ser pobre) que trata de uma recuperação da beleza do insignificante e do banal», como o afirmou recentemente o autor numa entrevista ao Jornal de Notícias, conduzida por Agostinho Santos.
De braço dado com o singelo, somos levados por uma espécie de torpor, em tudo semelhante a um estado de enleio que nos sugere, o que Gilbert Bosetti (Cf., 1987) refere como um retorno à infância do indivíduo e, por conseguinte, da própria Humanidade. O arquétipo da infância pura, contemplado nos vários diálogos levados a cabo pelo Ouriço, que não abdica de «ouriçar de barriga para o ar», mas desta vez a rimar porque é uma coisa que acontece em «dias extraordinários»; pelo Coelho que continua a recear o dia em que o mar poderá engolir a Mata dos Medos pois, e como ele bem afirma: «– Isto já não é como outrora» (Magalhães, 2007:8); pela Toupeira, desta vez menos preocupada em cavar túneis devido à queda de uma pinha que lhe acertou prontamente na cabeça e lhe apagou parte das memórias, inclusive, o significado de palavras como «outrora»; pelo Chapim, companheiro titular das preocupações e da vontade de trabalhar; pelo Caracol que continua a querer viajar seja «para Onde for» «seja lá onde for» (2007:17) mesmo depois de ter visto o mar, remete o leitor para um diálogo universal cuja transversalidade é assumida por todos os seres.
Talvez por isso o desejo de satisfação e bem-estar que sentimos ao entrarmos, de novo, no recanto daquele pedaço de terra nos permita, sem qualquer esforço, aceder à própria temática da união cósmica através da apreensão da imagem da reconciliação universal entre o Eu individual e pessoal, o Eu colectivo e social, e o mundo ao qual pertencem. Imbuída numa teia de significados alheios ao que de mais belo possa haver, esta é uma das imagens que se vê, quantas vezes, contraída nas malhas apertadas de uma consciencialização forçada, logo, ausente do verdadeiro sentido da metamorfose reflectida e da reconciliação desejada entre o mundo animal, humano e até vegetal.
O amor pelo belo, e o culto pelo rigor estilístico-formal de palavras sabiamente alinhadas num contínuo reajustamento do exercício literário, onde a ambiguidade semântica permite uma polifonia constante, levam-me à redundância no que diz respeito à obra de Álvaro Magalhães. Vejo-me, pois, e de forma aprazível (entenda-se), obrigada a tecer novos elogios ao autor que sempre soube indicar-nos o caminho «para a Ilha do Tesouro (…) seja ela onde for» (Magalhães, 2005. 21), fazendo da sua arte uma nova arte na arte de encantar. A tónica dominante, à qual o autor já nos habituou, espraia-se, mais uma vez, em todas as páginas desta deliciosa narrativa e deparamo-nos – não direi surpreendidos, mas antes agradecidos – com a capacidade de deslumbramento que A. M. causa no uso da palavra registada com dedicação. Ousarei, contudo, reconhecer nesta obra relativamente à obra inaugural Contos da Mata dos Medos (2003; Assírio & Alvim), um tom ainda mais afeito ao pueril e ao plácido. E, o namoro com esta obra (de continuidade, se assim lhe podemos chamar), igualmente ilustrada pelas mãos cuidadosas de Cristina Valadas, está, deste modo, assegurado, prevendo-se uma relação duradoura entre os leitores da descoberta (como gosto de os apelidar) e a obra em si.
Ora, parece-me ser este o momento para afirmar que, depois de alargadas as malhas, elevavam-se vozes de união, num apelo claro, ao sentido crítico do dever cívico, da responsabilização e da esperança. Ausente de quaisquer pretensões demagógicas, A Criatura Medonha – Novos Contos da Mata dos Medos, tal como a sua antecessora, propõe, num tom absolutamente onírico, uma recriação do mundo, construída à luz da imagem de um espaço geograficamente mítico – relembre-se, a propósito, a geografia mítica e o espaço de Centro de Mircea Eliade que sustentam a imagem arquetípica da criação perfeita (Eliade, 200:24-37) –, onde o dia a dia destes animais, puros na alma, engenhosos na permuta e fortes nas decisões, se faz através de uma aposta certeira no verdadeiro sentido da Vida: o da interiorização e resolução dos conflitos na demanda de um sentido colectivo, portador de valores como o da liberdade, da identidade e da alteridade. Então, certo será também afirmar que, mais uma vez, reconhecemos em A.M. a preocupação sentida em abordar as atitudes sociais de carácter colectivo, como as do desrespeito, do descomprometimento, e da desmistificação do Homem face à pureza fascinante do ser animal.
Se, e como já o referi num texto a propósito de Contos da Mata dos Medos, em A Criatura Medonha – Novos Contos da Mata dos Medos as personagens, criadas à moda dos contos tradicionais para crianças, continuam a primar por «uma constante busca identitária, onde os valores que defendem (…) têm um reflexo absolutamente positivo sobre o seu habitat natural» (Silva:2007), o convívio consciencioso, solidamente alicerçado nos sentidos da partilha, dos deveres/direitos, é a força axiológica desta narrativa. A reivindicação ao sonho e à posse do belo surge-nos impulsionada pela imagem do livre arbítrio, objecto da constante demanda do Homem que não se quer desintegrar de um espaço cosmogónico como, por exemplo, o da Mata dos Medos, onde a ideia da desumanização e da desintegração não pode coabitar com as pretensões dos animais da mata que usam de um contínuo relacionamento simbiótico com os seus semelhante e o espaço que integram.
A nota valorativa desta segunda obra, em consonância com a anterior, acresce, por um lado, de um sentido ainda mais aprofundado ao nível de uma leitura epicurista, onde até a presença dos conflitos é solucionada de uma forma colectiva e pensada para a reposição da ordem cósmica; por outro, de um inconfundível trabalho sobre a linguagem poética, marcada pelos típicos e autorais neologismos e brincadeiras sonoras que surgem na musicalidade das frases ditas para rimar quando o dia é «um dia extraordinário.» É, ainda, junto ao «Pinheiro das Ideias Brilhantes» que se imortaliza a recriação da própria harmonia do grupo na luta contra as adversidades vindas do exterior caótico.
Facilmente comparável à imagem mítica do Jardim e/ou da Ilha, como espaços edificados na pretensão do estado puro das coisas, a Mata dos Medos, especialmente o «Largo do Pinheiro Alto», onde cresceu o «Pinheiro das Ideias Brilhantes», efectiva as ideias da ordem e do «Cosmos Perfeito» (Eliade, 2001:43). As imagens da ancestralidade do homem mítico e da «Árvore Cósmica», referidas por Eliade (1999:55), reforçam a simbólica do espaço sagrado ao qual se conectam outras imagens arquetípicas, tais como as do nascimento ou (re)nascimento e da reconciliação com a própria natureza. Ora, o «Pinheiro das Ideias Brilhantes», deixa perceber o estado de maturação próprio ao acto de nascer e/ou renascer que se constrói pelo desejo mimético do Homem perante a imagem da união, que é a imagem ideal com a qual ele se quer identificar. Tal desejo de aproximação identitária permite entrever, aqui, o narcisismo cósmico de que fala Bachelard (1998:190), através do qual é realçada a dialéctica da imensidão e da profundidade, engrandecida pelo momento da contemplação que coloca o indivíduo em harmonia com o seu circundante, afastando-o do seu narcisismo individual de eremita, quantas vezes, dissocial.
Muitas são as ideias que constroem o fundamento desta segunda obra, criada à medida do essencial, e muito mais haveria a contar sobre estas personagens absolutamente admiráveis porque insubordináveis. Contudo, e para terminar, chamo à presença a última parte da narrativa que, por si só, dispensa qualquer tipo de asserção. Oiçam, pois
«– Hoje é um dia extraordinário para o Largo do Pinheiro Alto – repetiu o Coelho ainda mais alto. E continuou (…). Enquanto o Coelho discursava, os seus ouvintes foram fechando os olhos, um a um. Estava um calorzinho muito agradável e eles deixaram de ouvir o discurso e começaram a pensar em coisas cheias de calor.
Num instante, adormeceram. (…) O próprio Coelho adormeceu a meio do discurso, sem dar por nada, e ficou a ressonar encostado à primeira pedra que também era a última do muro que também era um dique e uma barricada. E uma calma extraordinária caiu sobre o Largo do Pinheiro Alto, algures no coração da Mata dos Medos» (Magalhães, 2007:63).


Referência bibliográfica:
BACHELARD, Gaston (1998). La poétique de l´espace. Paris: PUF. [1ª Edição: 1957];
BOSETTI, Gilbert (1987). Le Mythe de l’Enfance. Grenoble: Editons Littéraires et Linguistiques de l'Université de Grenoble;
ELIADE, Mircea (1999). La nostalgie des origines. Paris: Gallimard. [1ª Edição : 1971];
(2001). Le mythe de l´éternel retour. Paris: Gallimard. [1ª Edição: 1949];
MAGALHÃES, Álvaro (2005). O Brincador. Porto: Edições ASA;
SANTOS, Agostinho dos (2007). «Palavras que erguem mundos». [em linha], [consultado em 8 Out. 2007], disponível em http://jn.sapo.pt/2007/10/08/cultura/palavras_erguem_mundos.html;
SILVA, Gisela. «Contos da Mata dos Medos ou a Essência do Pueril». In Dossier Cultura. Braga: Diário do Minho, p. VII, 11 de Julho de 07.

30 janeiro, 2008


Durante a leitura da obra, The Most Magnificent Mosque, de Ann Jungmann, o leitor competente e crítico estabelecerá certamente, total ou parcialmente, uma ligação com o tema da diversidade religiosa e cultural e da convivência multicultural.No início do século oitavo os árabes conquistaram o sul de Espanha e a bonita cidade de Córdoba onde construíram uma mesquita que se tornou na segunda maior do mundo islâmico. Nela três rapazes brincaram nos seus magníficos jardins: Rashid, muçulmano, Samuel, judeu e Miguel que era cristão. Quando da reconquista cristã, em 1236, pôs-se seriamente o problema da sua demolição para se construir, em seu lugar uma igreja católica. Os três rapazes, agora adultos, foram ter com o Rei Fernando implorando pela bela Mesquita:
“I am here to plead for our mosque on behalf of all the Christians of Córdoba, cried Miguel.I am here on behalf of all the Jews of Córdoba, said Samuel.And Sire, I speak for the Muslim citizens. Spare our mosque! Cried rashid.”

No entender de Ralf Darendorf (1996:17), a heterogeneidade constitui o verdadeiro teste à consistência da identidade europeia. Ele acrescenta que “Common respect for basic entitlements among people who are different in origin, culture and creed prove that combination of identity and variety which lies at the heart of civill and civilized societies.”Através de Rashid, Samuel e Miguel podemos referir, como Castells (2003:3), que toda e qualquer identidade é construída e baseada no conhecimento do território vivencial. Contudo, apesar de ser construída a identidade tem uma característica estática e não é imutável pois:“São resultados sempre transitórios e fugazes de processos de identificação. (…) Escondem negociações de sentido, jogos de polissemia, choque de temporalidades em constante processo de transformação, responsáveis em última instância pela sucessão de configurações hermenêuticas que de época para época dão corpo e vida a tais identidades."(Santos, 2002:119)

A identidade é assim compreendida numa dialéctica de igualdade e diferença, proporcionada pela transacção entre texto e leitor que conduz à recriação da identidade do segundo e ao mesmo tempo remete para a textualidade de todas as relações humanas. Como diz Hartman (1980: 271):“We read to understand, but to understand what? Is it the book, is it the object revealed by the book, is it ourselves? (…) yet what we gain is the undoing of a previous understanding. (…) Reading itself becomes the project: we read to understand what is involved in reading as a form of life (…). "

Advanced (Master) Course in Children’s Literature

Department of Literature and History of Ideas
Stockholm University


Fall semester 2008


Advanced (Master) Course in Children’s Literature, 7,5 credits


Designed and taught by Professor Maria Nikolajeva



This international English-language course offers an in-depth study of children’s and juvenile literature in the context of contemporary literary criticism. It focuses on the specific features of children’s literature and the particular theoretical issues necessary to explore these features.
The course is intended for students with at least the equivalent of a Bachelor’s degree (180 European credits), of which at least 90 credits in literature, including a research paper with a literary focus.
The course presupposes the student’s general orientation in contemporary literary theory and criticism. The student is also expected to have ample knowledge about the history of children’s literature and its most important classic and modern text. Proficiency in English is a prerequisite.

Instruction is fully web-based. No tuition fees.


Application deadline April 15, 2008. Apply at http://sisu.it.su.se/info/index/LV9800/en


For further information about the course please contact maria.nikolajeva@littvet.su.se

23 janeiro, 2008

“Galiza nos Contextos Globais: Perspectivas para o Século XXI”

IX Congreso da Asociación Internacional de Estudos Galegos (AIEG)
Santiago de Compostela, Vigo e A Coruña, 13–17 de xullo do 2009:

“Galiza nos Contextos Globais:
Perspectivas para o Século XXI”


Practicamente todos os eidos dos estudos galegos viviron nos últimos anos unha abertura cara a perspectivas transversais e interdisciplinarias, en estreita relación coa dinámica globalizadora da economía, da tecnoloxía, da política e da cultura. Chegou o momento de tentarmos facer un balance do estado dos estudos académicos internacionais sobre temáticas relacionadas con Galicia. Así, o noso primeiro obxectivo é presentar sobre todo aquelas perspectivas e investigacións que veñen sendo elaboradas por especialistas de fóra do país para polos en diálogo coas investigadoras e os investigadores que traballan en Galicia. O segundo obxectivo é crear unha serie de diálogos tematicamente transversais e interdisciplinarios. O IX Congreso desexa ofrecer unha panorámica dos estudos galegos no século XXI en xeral, como tamén dalgunhas das súas evolucións en contextos globais específicos.


A AIEG solicita propostas de paneis e de relatorios para o IX Congreso Internacional que terá lugar en Santiago de Compostela, cunha actividade en Vigo e A Coruña, do 13 ao 17 de xullo do 2009.

Os paneis serán conxuntos de 4 relatorios, propostos e organizados por un/ha coordinador/a específico/a sobre unha temática concreta (cf. infra). As propostas para os paneis deben ir acompañadas por unha breve descrición (400 palabras máximo) que estableza as liñas de reflexión xerais do conxunto de potenciais relatorios, un breve curriculum vitae e, se for posíbel, propostas de potenciais participantes.

O prazo de entrega para propostas de paneis é o 31 de maio do 2008.

As propostas para relatorios deben ter un máximo de 300 palabras e estar relacionadas con algún dos ámbitos temáticos específicos (cf. infra).

O prazo de entrega para propostas de relatorios é o 31 de decembro do 2008.

As linguas do congreso serán o galego, o inglés, o portugués e o castelán. A organización do congreso estaría moi agradecida se os resumos de paneis e relatorios viñesen acompañados dunha tradución ao inglés (ou ao galego se o texto orixinal for en lingua inglesa).

O tema do congreso é “Galiza nos Contextos Globais: Perspectivas para o Século XXI” e as liñas de estudo xerais serán:
· “Estudos Galegos nas Américas”,
· “Estudos Galegos no Contexto Europeo”,
· “Estudos Galegos no Contexto Ibérico”
· “Estudos Galegos no Contexto Global”.

Os ámbitos temáticos específicos, tanto para as propostas de paneis como para as propostas de relatorios, son os seguintes (aínda que poidan diverxer lixeiramente):

1) Dereito, Economía e Política;
2) Filosofía, Psico-pedagoxía e Socioloxía;
3) Arquitectura, Historia e Xeografía;
4) Artes plásticas, escénico-visuais e audiovisuais, Música, Historia da arte;
5) Antropoloxía, Etnografía, Estudos Culturais, Estudos de Tradución;
6) Ciencias da Comunicación, Lingua;
7) Ciencias, Tecnoloxías da información;
8) Literatura galega, Teoría e crítica da literatura, Literatura comparada.

Un comité científico composto por especialistas de todas as áreas de coñecemento implicadas avaliará as propostas de paneis e relatorios para asegurar un máximo de calidade. As respostas ás propostas de paneis enviaranse a partir do 31 de xullo de 2008, mentres que as respostas relativas ás propostas de relatorios serán enviadas a partir de mediados de febreiro do 2009.

Todas as contribucións aceptadas e presentadas no congreso serán colgadas posteriormente como actas da páxina web da AIEG. Unha selección das mellores contribucións, feita polo comité científico xunto coa organización do congreso, publicarase nun ou en varios libros independentes (editados por coordinadoras/es de paneis ou pola organización do congreso) ou na futura Revista Internacional de Estudos Galegos en www.estudosgalegos.org.

O congreso ofrecerá un amplo programa de actividades extraacadémicas: concertos, presentacións de libros, recepcións por institucións galegas. Convídase a todas as socias e a todos os socios a participar na elaboración deste programa.

Os prezos de inscrición serán 25€ para estudantes oíntes, 40€ para oíntes non estudantes (que desexan certificado de asistencia), 80€ para relatoras/es e 100€ para coordinadoras/es de paneis. Estas matrículas inclúen a cota de socia/socio da AIEG para o ano 2010 (e resto do 2009 en caso de que a/o participante aínda non fora socia/socio; xunto coa inscrición haberá que asinar unha solicitude de asociación).

Visiten a páxina web do congreso en www.estudosgalegos.org para obter máis informacións e actualizacións continuas.


IX Conference of the International Association of Galician Studies (AIEG)

Santiago de Compostela, Vigo and A Coruña – July, 2009

“Galicia in Global Contexts: Perspectives for the 21st Century”


In recent years virtually all areas of Galician Studies have undergone an expansion in their cross- and interdisciplinary perspectives, a phenomenon closely related with the globalising dynamic of economy, technology, politics and culture. It is now expedient for a re-addressing of international academic study to take place concerning issues relating to Galicia. Our first objective is therefore and principally to allow those outlooks and research trends currently being developed by specialists outside the country to interact with researchers working within Galicia. The second objective is to create a series of thematically cross- and interdisciplinary dialogues. This IX Conference therefore seeks to present a general panorama of Galician Studies in the twenty-first century, as well as some of its developments within specific global contexts.

The AIEG invites proposals for panels and papers for the 2009 International Association of Galician Studies to be held in Santiago de Compostela, Vigo and A Coruña (Galicia, Spain), 13th - 17th July 2009.

Panels are groups of 4 papers proposed and organised by a specific coordinator around a particular theme (interdisciplinary themes are welcome). Proposals should take the form of one or two paragraphs (max. 400 words) which establish the rationale for a panel, a succinct statement of the aims of the panel, a brief curriculum vitae, and a list of specific issues that intending contributors might address.

The deadline for panel proposals is 31 May 2008.

The deadline for paper proposals is 31 December 2008.

The official languages of the conference are Galician, English, Portuguese and Castilian. The AIEG would be grateful if translations into English (or into Galician should the original text be in English) could be provided for panel and paper proposals.

The theme of the conference is: “Galicia in Global Contexts: Perspectives for the 21st century”. This embraces such general topics as:
Galician Studies in the Americas
Galician Studies in the European Context
Galician Studies in the Iberian Context
Galician Studies in the Global Context

Specific thematic areas for panel proposals as well as for paper proposals include, but are not limited to, the following (inter- and cross-disciplinary themes are welcome):

1) Law, Economy and Politics
2) Anthropology, Educational Psychology and Sociology
3) Architecture, History and Geography
4) Visual and Dramatic Arts, Music, Art History
5) Cultural Studies, Literary and Translation Studies, Ethnography
6) Language, Linguistics and Media Studies
7) Media and Technology Studies

A selection committee consisting of specialists from these fields will assess all proposals in order to ensure the highest academic rigour and standards at and after conference. Confirmation of acceptance of panel proposals will be sent after 31 July 2008, and of paper proposals after mid-February 2009.

All contributions accepted by and delivered at the conference will be posted as proceedings on the AIEG website. A selection of the best contributions made by the selection committee and the AIEG executive body will be published in one or more independent volumes, to be edited by panel co-ordinators and/or by the conference organisers, or in the forthcoming Revista Internacional de Estudos Galegos at www.estudosgalegos.org.

A wide programme of additional activities will be available at conference, such as concerts, book presentations and receptions held by Galician institutions, and everybody is welcome to participate in these.

Registration fees will be 25€ for students, 40€ for non-students (who require an attendance certificate), 80€ for speakers and 100€ for panel co-ordinators. These costs include AIEG membership fees for 2010 (and for the remainder of 2009 should the participant still not be a member, in which case a membership form should be completed together with the relevant registration forms).

Please consult the regularly-updated conference website at www.estudosgalegos.org for more information.

22 janeiro, 2008

Mestre Da Vinci



Autor: José Jorge Letria
Ilustrador: Sarah Pirson
Ano: 2006
Editora: Ambar



A construção deste texto literário socorre-se da poesia, género detentor das possibilidades de abertura ao mundo do (im)possível, para delinear biograficamente o essencial sobre a personagem Leonardo, menino cuja força motriz subjacente à sua predestinada ascensão a génio é o “milagre do assombro e da luz” (Letria, 2006:6) observável em tudo o que o Futuro lhe permitiu confirmar. E enquanto jovem, ainda, possui um conjunto de particularidades que lhe conferem marcas de estranheza em torno de uma sabedoria inata que, logo à partida, lhe faculta a possibilidade de ser “mestre de quem o quer ensinar” (Letria, 2006:6).
No decurso do poema verifica-se que as potencialidades de que Leonardo é portador exigem o cumprimento de uma demanda existencial num “mundo disputado”, suscitador de inveja provocada pela submissão ao “escrutínio del juicio público” (Gil Calvo, 1996:47), no qual se distingue por estar na posse dessas competências originais que o fazem evidenciar-se “sem esforço” (Letria, 2006:14) entre os seus. Por isso, privilegia a lentidão temporal como condição necessária para proceder ao constructo da obra perfeita. Cada tela que pinta “é um cântico, é um hino/composto com as notas/ da sinfonia do destino” (Letria, 2006:13).
De facto, toda a poesia enuncia o cumprimento de um percurso delineado com antecipação, inscrevendo esta personagem no universo dos mundos alternativos ao mundo factual e terreno. Só nesses universos é possível justificar a excepcionalidade deste homem “feito mito ainda em vida” (Letria, 2006:39), podendo-se afirmar que Leonardo personaliza o designado “fantástico transcendental” (Durand, 1993:435-491), pois a sua existência é uma trajectória plena de substrato da vida mental que, partindo de si, dos seus inventos na mecânica, na ciência e na pintura, estende-se ao nível cultural, delineado por uma verticalidade singular. Por isso, as damas e as madonas que pinta com a sua talentosa habilidade hasteiam as marcas do enigma, do mistério e do secreto poder de manipular a cor em linguagem.
Esta biografia inicia-se com a auréola da “estrela” (Letria, 2006:6) anunciadora de um ser único, que oferece à humanidade uma herança de “luz em testamento” (Letria, 2006:45) e encerra, vinculando-se a uma encenação mítica da morte. Desta forma, o sujeito poético sugere ao leitor/receptor a reconstrução modelizante da sua própria existência em torno das múltiplas dimensões simbólicas em que a biografia de Leonardo Da Vinci é também o pretexto para a reflexão pretendida.


Teresa Macedo

Bibliografia:
Durand, Gilbert (1993 [11ªed]). Les Structures Anthropologiques de l´Imaginaire. Paris. Dunod.
Gil Calvo, Enrique (1996). «Parque Público, Jardin Fictício» in Mundos de Ficcion, I. (Actas del VI Congresso Internacional de la Asociación Española de Semiótica, Investigaciones Semióticas VI).Murcia. Universidad de Murcia.

08 janeiro, 2008

EL ESPANTAPÁJAROS - I Certamen Internacional de Relato Breve Fantástico

El espantapájaros es una figura que todos conocemos, pero que, al igual que muchos recursos naturales y especies de animales, hoy en día está al borde de la extinción. Ha sido sustituido por emisores de ultrasonidos y otras tecnologías más avanzadas y eficaces. Sin embargo, el espantapájaros, con su constante y silenciosa lucha por preservar las fuerzas vitales de la tierra, es más que un artilugio pasado de moda. De hecho, representa una actitud que necesitamos más que nunca – una actitud firme pero pacífica a favor de todo lo que crece a nuestro alrededor, independientemente de su utilidad como objeto de consumo. Es, en efecto, una celebración de la vida y de la creatividad; un espíritu que puede enseñarnos – si escuchamos su silencio con atención – mundos fantásticos donde todavía somos parte de aquellas aventuras que antaño nos emocionaban. Porque esos mundos y esas aventuras no han sido borrados ni por la desaparición de los mitos, ni por la idea del progreso y la verdad empírica, ni tampoco por las constantes campañas comerciales que pretenden reducirnos a mercenarios teledirigidos en la feroz lucha por el mercado. No, esos mundos siguen ahí, esperando que alguien los encuentre. Por eso queremos darle voz al espantapájaros, y queremos que tú nos ayudes a hacerlo. En otras palabras, te invitamos a saltarte las barreras y escribir un relato breve fantástico con el tema que la figura del Espantapájaros sugiera a tu imaginación. Que su fuerza te acompañe.


Bases del concurso:
1. Podrán participar en este certamen todas aquellas personas físicas que lo deseen, con originales inéditos, escritos en inglés o en castellano.
2. Se otorgarán los siguientes premios: Menores de 16 años: 100 euros, uno para el ganador o ganadora en inglés y otro para el ganador o ganadora en castellano. De 16 a 18 años: 150 euros, uno para el ganador o ganadora en inglés y otro para el ganador o ganadora en castellano. Mayores de 18 años: 350 euros, uno para el ganador o ganadora en inglés y otro para el ganador o ganadora en castellano. Todos los premios estarán sujetos a las retenciones fiscales conforme a la legislación vigente.
3. El relato breve será de tema fantástico y se presentará en DIN-A4 mecanografiado, por una cara a doble espacio, con un límite de 14 folios. El plazo de entrega de los originales finalizará el 14 de marzo de 2008.
4. Los relatos se entregarán o enviarán por duplicado, en sobre cerrado bajo seudónimo, indicando en la parte externa "Para El Espantapájaros, I Certamen Internacional de Relato Breve Fantástico" e irán acompañados de otro sobre con el mismo seudónimo cuyo interior contendrá: nombre y apellidos del autor o autora, edad, dirección, código postal y teléfono de contacto y dirección de correo electrónico. Se enviará a la siguiente dirección: I Certamen Internacional de Relato Breve Fantástico, at. Raúl Montero Gilete, Departamento de Filología Inglesa y Alemana (despacho 1.40), Universidad del País Vasco, Paseo de la Universidad 5, 01006 Vitoria Gasteiz, (España).
5. El jurado estará compuesto por doctores, profesores, investigadores y escritores de la Universidad del País Vasco, Universitat de València y Universidad de Essex (Inglaterra) –Dr. Simonson, Dr. R. M. Gilete, Garikoitz Knörr, Elin Simonson y Juan Ramón Montero-. El fallo se hará público el día 5 de junio de 2008 y será enviado a los medios de comunicación. A su criterio, los premios podrán declararse desiertos, siendo su decisión inapelable.
6. Los tres trabajos finalistas de cada categoría serán publicados en la página web: www.funnyandeasy.com. Los manuscritos quedarán en posesión de Funny and Easy Summer Courses S.L., pudiendo hacer uso de ellos a todos los efectos. No se procederá a la devolución de los originales no premiados.
7. Los autores o autoras premiados no podrán presentarse a las tres ediciones siguientes.
8. La participación en este Certamen supone la aceptación de las presentes bases.
Entidades colaboradoras: www.funnyandeasy.com & www.lasalle.es/lliria
Informação recebida via ANILIJ

05 janeiro, 2008

A que sabe a Lua

Quando, no livro de Eric Carle (2006) “Papa, please get the moon for me”, traduzida para castelhano por “Papa achega-me a lua”, da editora Kalandraka, a menina pede ao pai que lhe chegue a lua, pois ela, ao vê-la ali tão perto e tão bonita, apetece-lhe colhê-la. Porém a tarefa não é fácil e o pai necessita de uma escada muito comprida para conseguir satisfazer os desejos da filha.O texto verbal e icónico, aqui apresentado, poderá referir um sistema de equivalências de sentidos infinitesimais que podem ser estabelecidos no processo de leitura porque “ (…) meaning is imagistic” diz Iser (1997:2) e “ (…) os níveis de realidade que a escrita suscita, a sucessão de véus e de escudos talvez se afaste até ao infinito, talvez apareça sobre o nada.”, acrescenta Calvino. (1995:391) Se o significado de um texto é imaginável e pode aparecer sobre o nada, então, poderemos imaginar também que alguns pequenos e jovens leitores, depois de estudarem o processo que levou à constituição da União Europeia, considerariam que a lua, desta história, poderia transformar-se na bandeira da união europeia. Aliás o céu azul e as estrelas amarelas das ilustrações levan-nos directamente para esse quadro. Por outro lado, a escada interminável, utilizada pela personagem pai na história, poderá representar os cinquenta anos que mediaram desde a assinatura do primeiro Tratado, no longínquo ano de 1957, até à aprovação do Tratado Reformador assinado no passado mês de Outubro, em Lisboa."Criando desordens significativas, ou inúmeras possibilidades interpretativas este texto assumiu-se assim, na sua relação com o leitor e restituiu-lhe o seu papel preponderante na continuidade do fenómeno literário"dizia Eco. (2004:177)
Esta preponderância do leitor contribuiu para a identidade desse mesmo texto, que neste caso foi conseguida pela atribuição de um quadro de referências do mundo empírico-histórico factual, não só relacionada com a problemática da integração europeia mas também (…) “from lexical meanings to the constellation of characters.” (ISER,1997:34). Ou seja, dos significados lexicais proporcionados pelos objectos reais, em cena, como sejam, a escada e a lua, à constelação de personagens, do pai e da menina, que poderiam, por outro lado, ser eles próprios objecto de análises poderosas.

04 janeiro, 2008

Harry Potter em Braga

Exposição Harry Potter – a ciência por detrás da magia ficcional, a partir de 5 de Janeiro, pelas 15h30, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. No âmbito desta exposição, será feita uma comunicação por Manuela Gama: “A saga continua” seguida de uma conferência “Do uno ao múltiplo. A transfiguração do quotidiano em Harry Potter”, proferida pelo Professor Doutor Moisés de Lemos Martins (Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho).

Participação musical: interpretação de músicas dos filmes do Harry Potter, pelo trio: flauta – Raquel Gama, violino – Vera Duque, piano – Joana Monteiro.
Entrada livre!

25 dezembro, 2007

Territórios Identitários Europeus

Muitas vezes, os textos ligam-se simbióticamente com o mundo empírico histórico factual e são mais permeáveis às realidades sociais e extratextuais.No livro “O mundo em que vivi” de Ilse Lose, escritora nascida na Alemanha, que por força da sua ascendência judia teve que fugir do seu país e refugiar-se em Portugal, acabando por adquirir a nacionalidade portuguesa, neste livro, dizíamos nós a assumpção de um território identitário remete para Berlin dos anos 30, época pouco gloriosa da Alemanha.À medida que o texto nos conduz da infância à idade adulta da personagem Rose, de uma Alemanha saída da 1ª guerra mundial até ao avolumar das crises de inflação, desemprego e vitória dos nazistas, há uma felicíssima viagem simbólica que é dada pela associação da aproximação de uma trovoada à catástrofe iminente que iria acontecer:

"(…) ao evocar-nos assim, de coração oprimido, não posso deixar de pensar nas grandes tempestades que abalavam a minha terra. Era como se alguém começasse a medir a distância da trovoada, o tempo entre o relâmpago e o trovão. Cada quilómetro significava um ano. (…) Um estrondo medonho faz estremecer a terra, e uma voz cheia de horror exclama: Agora está mesmo por cima de nós!”
Lose, 1997
Neste contexto, a reprodução de características do mundo empírico-histórico factual “ (…) serves to highlight purposes, intentions, and aims that are decidedly not part of the realities reproduced” como diz Iser, (1997.3), e permite, também converter essa mesma realidade “(…) into a sign for something other than themselves.”, que neste caso é a construção da realidade europeia que teve as suas origens depois da terrível experiência do holocausto, constituindo a sua consolidação, que neste texto se antevê, num desafio para todos os países, um apelo à tolerância activa e à solidariedade responsável.

23 dezembro, 2007

Versos com Gatos


Autor: José Jorge Letria
Ilustrador: Octavia Monaco
Editora: Livros Horizonte
Ano: 2005


Há livros que nos pegam ao colo com as asas do encantamento. E é esta descolagem que nos faz observar tudo o que contêm para além do comummente dito à luz do literário dizer ou das recorrentes observações psicanalíticas sempre que de animais se fala nos textos. Estes Gatos que se exibem em cada linha poética são detentores do melhor que tem a humanidade e, na linguagem plástica que os acompanha no cenário de cada página, provocam no leitor momentos de grande fruição.
Desfilando em quadras convidativas a uma leitura rápida, os símbolos que ostentam rompem com a métrica matemática de cada verso. O sujeito poético sabe-o. É ele que constrói a máscara que antropormofiza cada Gato enfabulado, convocando à reflexão dos leitores a metáfora da consciencialização do mundo povoado, onde o Ser se constrói com os rostos de “mil gatos”(Letria, 2005).
É em certos instantes de trocadilho poético que encontramos o domínio destes animais como fonte de inspiração e de subversão da norma. São sombras, reis, escritores, artistas, caçadores, navegantes, “gatos feitos soldados/com o seu jeito subtil/ espalhando cravos nas ruas/quando um dia se fez Abril”(Letria, 2005). Tal como afirma Campbell (2000:300), estes heróis-guerreiros não são campeões das coisas feitas, mas sim das coisas por fazer. Quando estátuas têm “porte imperial” (Letria, 2005) e emergem como guardiões do passado. Enquanto povoadores deste texto ostentam na fugacidade dos gestos e na metamorfose dos corpos a liberdade absoluta da dissolução pessoal, construtora dos sentidos dos valores emergentes de todos os tempos.

Teresa Macedo

Bibliografia:
Campbell, Joseph (2000 [1ª ed. 1949]). El Héroe de las Mil Caras-Psicoanálisis del mito. Fondo de Cultura Económica. México.

21 dezembro, 2007

Práticas Colectivas: pedi-paper entre livros

Título da actividade: “Na Rota das Palavras”

Local: Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva

Data da actividade: 11 de Janeiro, às 14:30h e 22 de Fevereiro, às 15:00h.

Público-alvo: Crianças em idade do 1º ciclo do ensino básico.

Objectivo: Fomentar o interesse pela leitura e descoberta de livros através de actividades atraentes.

Descrição: Esta actividade pretende estimular a troca de impressões e dificuldades de cariz lúdico através do trabalho de grupo – as crianças, cerca de 25, estarão divididas em 4 pequenos grupos, cada um acompanhado por uma estudante da Universidade do Minho que canalizará a actividade e transmitirá os cuidados a ter com os livros. Percorrerão as estantes em busca de pistas que as conduzirão a um objectivo final. Este consiste em criar uma história original com excertos de outras, utilizando também a criatividade.

O grupo de trabalho (quatro alunas do 2º ano) convida os interessados a assistir à actividade. Em princípio, poderão encontrá-la anunciada nas agendas culturais dos meses de Janeiro e de Fevereiro e na revista "Pais&Filhos" do mês de Fevereiro.

Boas Festas.

19 dezembro, 2007

Literatura Infantil e valores ético-sociais em análise

Decorrem amanhã, dia 20 de Dezembro, pelas 11h, na Sala de Actos do Departamento de Ciências Integradas e Língua Materna (sala CE 2142), do Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho (campus de Gualtar, Braga), as provas de Mestrado em Estudos da Criança - Especialização de Análise Textual e Literatura Infantil de Teresa Maria Peres de Oliveira, subordinadas ao tema: Histórias Portuguesas Contadas de Novo por António Torrado e o fomento da competência literária e dos valores ético-sociais.
O júri é composto pelos seguintes elementos:
Prof. Doutor Armindo Mesquita - Departamento de Letras/Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Prof. Doutor Carlos Cunha - Instituto de Letras e Ciências Humanas/Universidade do Minho
Prof. Doutor Fernando Azevedo - Instituto de Estudos da Criança/Universidade do Minho
A entrada é livre.

12 dezembro, 2007

As estações


Se a literatura pode ser uma mentira, como Iser refere, ela também é um modo operacional que abre caminhos para diferentes versões da nossa própria casa, do nosso próprio mundo. Nesta abertura de caminhos tem um papel preponderante, segundo a teoria da estética da recepção, o observador, que no processo de leitura analisa a interacção texto/leitor, não como acontecimento produzido apenas pela imaginação do leitor, mas pela intersecção de normas históricas, sociais e linguísticas. O autor e o leitor perdem assim a subjectividade. O autor abandona toda a intenção e o leitor torna-se dotado de competência semiótica e intertextual.Assim, a indeterminação ou os espaços em branco (Eco, 1971:36) proposta pelos textos, não são uma fraqueza do sistema literário, mas uma qualidade essencial que permite o compromisso criativo. Na obra da escritora italiana Iela Mari “L’Albero” publicada em castelhano pela kalandraka com o nome “As Estacións” é dada ao leitor quase todo o poder para fazer as significações desejadas consubstanciando-se no que Eco chama de obra aberta que tende “ (…) a promover no interprete (actos de liberdade consciente), a pô-lo como centro activo de uma rede de relações inesgotáveis (…)”. Desta forma a ficção torna-se um acto de ultrapassar fronteiras – reais e ficcionadas. Por virtude da celebração da plasticidade da literatura e num discurso pictórico em que as cores vão revelando as vozes enunciadoras da problemática em causa porque “ (…) A arte, enquanto estruturação de formas, tem modos próprios de falar sobre o mundo e sobre o homem” (Eco, 1971:36), poderá acontecer que ao falarmos da passagem das estações por esta árvore, o L‘Albero, o leitor vá recordando a necessidade da protecção da floresta, tema tão contemporâneo, a par das inferências possíveis ao tema da preservação da nossa casa comum, a terra, num quadro de uma visão não cartesiana da natureza onde todas as criaturas vivas têm direito ao seu espaço vivencial. Esta obra poderá também recepcionar-se pelo sentimento da paisagem, sentimento intelectual e afectivo que se consubstancia pela necessidade de construção de habitats ecologicamente seguros. O esquilo, que tem que mudar de casa consoante as estações, responde a variáveis antropológicas das valências do lugar, indiciando diferentes formas de viver num espaço – tempo – movimento, mas sempre pugnando por encontrar nele um lugar reconhecível, como lugar destinado aos seres humanos e aos animais. Mais uma vez, a literatura tornou-se um modelo operatório que abriu caminho para diferentes versões do mundo que se consubstanciam em diferentes identidades intimamente ligadas à relação entre texto e leitor pois, implicaram uma troca contínua de pedidos e ofertas entre ambos, onde o objecto literário ganhou uma carga simbólica pela importância da mente do leitor na atribuição do sentido do mesmo. (Fish, 1984:50)

10 dezembro, 2007

João Sardento e o Espírito da Televisão


Autor: José Jorge Letria
Ilustrador: Eunice Rosado
Ano: 2007
Editora: Âmbar
ISBN: 978-972-43-1218-7


João Sardento, personagem actuante nesta narrativa, corporiza o ideário infantil na busca e satisfação do impulso interior que o conduz aos universos do imaginário. Actualizado no espaço cénico da modernidade, adapta-se às mudanças do nome, facto que é aceite pela personagem e por um narrador interveniente que assume a Palavra como realidade que reflecte a osmose que se opera permanentemente entre o mundo empírico e o da aquisição da identidade, inscrito no mundo da interioridade.
O espaço da construção narrativa identifica algumas problemáticas dos tempos modernos e a acção desenrola-se sob o domínio de uma avó “contadora de histórias” (Letria, 2007:11), remetendo-nos para aspectos tradicionalmente correlacionados com certo estatuto dos mais velhos. No entanto, demarcam-se elementos desviantes das matrizes encontradas nas narrativas tradicionais através do pincelar satírico ao comportamento desse membro da família que, embora zele “pela ocupação do neto” (Letria, 2007:12), vê telenovelas com “enredos de fazer chorar” (Letria, 2007:12), interagindo activamente com os seus pares e evidenciando uma forma mais liberta de estar no mundo.
A história assume o seu auge na focalização do fantástico reencontro com um objecto mágico, abandonado, mas detentor de grande sabedoria – um aparelho de televisão. É através de “uma voz estranha vinda de dentro do aparelho” (Letria, 2007:18) que a atenção do leitor é captada para que se processe a informação essencial sobre o surgimento deste meio de comunicação. Então o sótão passa a ser o laboratório onde João Sardento assiste à viagem libertadora do “Espírito da Televisão” (Letria, 2007:20), “criatura serpenteante, que não tinha boca visível e mostrava apenas dois olhinhos brilhantes” (Letria, 2007:24), podendo-se conectar perfeitamente com a ideia preconizada por Bachelard (2001:25) de que “memória e imaginação não se deixam dissociar”. Assim, o tempo do sono é o instante de aprofundamento mútuo destas duas variáveis onde a intencionalidade narrativa articula de forma hábil, engenhosa e lúdica aspectos que visam promover o alargamento dos saberes acerca do conhecimento da evolução do meio de comunicação que revolucionou o mundo, adequando a informação ao destinatário preferencial, denotando uma preocupação que procura contrariar a rotinização na transmissão de certos conhecimentos aos jovens leitores. Assim, o recurso à espectacularidade do estranho, a evocação das “ palavras mágicas” (Letria, 2007:20) e a negociação que se efectiva entre o João Sardento e o velho televisor falante mais não são do que formas de processar informações relevantes, mobilizando quadros de referência intertextuais, revalorizando nas temáticas do incompreensível os desafios à assimilação das grandes transmutações operadas pelo surgimento da Televisão.

Teresa Macedo
Bibliografia
Bachelard, Gaston (2oo3-6ªEd). A Poética do Espaço. São Paulo. Martins Fontes.

Direitos das Crianças

lTítulo: Direitos da Criança, 2006
Autora: Maria João Carvalho
Ilustração: Carla Nazareth
Colecção Montanha Encantada
Everest Editora
ISBN 972-750-739-5


Todos diferentes, mas iguais!


Direitos da Criança aborda o tema dos direitos da criança, com base nos princípios da Declaração Universal dos Direitos das Crianças, aprovada em 1959 pela Assembleia Geral das Nações Unidas.
A ilustração da capa diz tudo: ainda antes de ler o livro relacionamos de imediato essa imagem com os princípios mais elementares a que todos temos direito, nomeadamente o direito a uma educação e à convivência com os outros, seja qual for a cor da pele ou o aspecto.
As imagens interiores levam-nos igualmente a reflectir acerca do direito à igualdade e à convivência entre todos. As ilustrações das páginas 4 e 5, por exemplo, sugerem que podemos, com imaginação, deixar as diferenças para trás e encontrar meios de comunicação. Mas é a cor que mais predomina enquanto meio para explicitar que a diferença entre as pessoas – de raça, meio cultural ou geográfico – é uma riqueza e não um problema, através da riqueza da própria cor, usada em grandes massas nas ilustrações. Texto e iconografia encontram assim uma simbiose perfeita, e de forma subtil ligam o mundo do imaginário à realidade dos direitos das crianças, recorrendo frequentemente também a elementos da Natureza – o mar, o deserto, a selva, o céu – e até mesmo a elementos do meio familiar, para mostrar como cada dimensão do mundo, da vida e do interesse da criança é muito diferente de outra qualquer, mas igualmente bela. O livro está repleto de elementos simbólicos como, por exemplo, a ponte e o sol, remetendo-nos para o maravilhoso: “passagem secreta para o reino da harmonia e do bem-estar” (Carvalho, 2006: 13), “unem-se numa ponte feita de harmonia” (Carvalho, 2006: 12).
Direitos da Criança é uma referência para as crianças, mas poderá sê-lo também para os adultos, principalmente pela forma como o texto é usado: um mundo da imaginação para as crianças, mas que vai apresentando em letras mais pequenas e em locais da página menos destacados os direitos, tal como constam da Declaração. Direitos da Criança é pois um texto muito actual e explica de uma forma muito simples aquilo que se defende na Declaração Universal do Direitos da Criança. É um livro que deveria ser lido por todos, pois a envolvência do texto e da imagem poderá sensibilizar-nos ainda mais para a importância e actualidade da Declaração.

08 dezembro, 2007

André no Reino das Palavras Falantes - Os Caçadores de Gramatífagos



Este é o primeiro livro da Colecção: Os Caçadores de Gramatífagos, lançado no
Fórum Cultural de Alcochete no dia 24 de Novembro de 2007, da autoria de Natália Augusto e Fernanda Azevedo e que irá constar do PNL a partir de 2008.

Este é um convite especial dirigido a todos aqueles que não gostam nem se identificam com as aulas de Língua Portuguesa, e muito menos com aquele livro intitulado de Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa ou outros títulos que tais.



Texto: Natália Augusto
Ilustração: Fernanda Azevedo
Designer: Niels Fischer
Edição de Autor
ISBN: 978-989-95455-0-2


Em 1989, Álvaro Magalhães surpreendeu-nos com o livro Maldita matemática! cuja dedicatória revela a simplicidade do propósito de um livro desta natureza: «Este texto (…) é dedicado a todas as pessoas que têm problemas, ou seja, a todas as pessoas» (Magalhães, 2ª ed. Asa Edições, 2000). Atenta a todos, Natália Augusto também me sensibilizou pela sua ousadia na medida em que se interessou em construir, com amor e dedicação, uma narrativa especial que contasse, desta vez, uma outra grande história: a história das palavras.
A aventura chega-nos pela mão do André, um menino como tantos outros meninos, que vê no estudo da gramática algo de terrivelmente aborrecido, desagradável e complicado. A curiosidade e reflexão da autora sobre a rejeição desse bicho-papão que, repousa tranquilamente em várias das prateleiras de meninos como o André, marcam a forma isotópica da obra. O desvendar da funcionalidade da língua portuguesa, bem como a consequente compreensão dos meandros gramaticais e linguísticos que a compõem, e, sobretudo, o convite ao estudo pela curiosidade e descoberta são a pedra basilar desta história das palavras.
Claro, que não esteve nos propósitos autorais referir o resultado final de uma análise relativa a conteúdos gramaticais, mas efectivar uma outra perspectiva relativa ao estudo da gramática, tão repudiada pelos mais novos. Assim, a perspectiva que, em André no Reino das Palavras Falantes, a associa a noções reais de convivência, aventura e partilha deixa-nos perceber o elevado grau de complexidade que se estabelece entre a personagem principal, a sua gramática e todos os seus habitantes, como o Sr. Verbo ou o dedicadíssimo Sr. 86, por exemplo.
Uma das particularidades desta história define-se na vontade de mesclar a aventura de André e, por sua vez, a das palavras com um sentido pedagógico-didáctico prático bem ao gosto da autora. Surgem-nos como núcleos organizativos da obra: a temática abordada, o discurso simples e o imaginário humorístico, pincelado de um agradável nonsense, que fazem da história de André uma história de convite à leitura e à própria reflexão. Atentos às investidas empreendedoras do Sr. Verbo, em educar André no gosto pelo estudo das palavras, sentimos uma vontade crescente de, a cada página virada, permanecer presentes em todo o processo de crescimento da personagem.
Natália Augusto sugere, assim, novos caminhos inferenciais e oferece a todos os curiosos uma outra noção – a divulgar por todos os educadores e mediadores da leitura deste país – sobre a importância do estudo da língua portuguesa. Bruno Bettelheim diz assertivamente que o conto de fadas tem um efeito terapêutico e que assegura à criança uma solução para as suas dúvidas e conflitos internos, pois neles se encontra a riqueza simbólica. Em André no Reino das Palavras Falantes tudo acontece como se de um conto de fadas se tratasse, onde a certeza da tomada de consciência fica bem situada entre o histórico e empírico-factual, e a imaginação.
Saibamos, pois, reler na história do André e das suas palavras falantes ou mágicas os episódios do nosso dia a dia, onde pais, professores e alunos se debatem com a preocupação do estudo da gramática que a Sôtora de Língua Portuguesa mandou consultar.

Gisela Silva, in André no Reino das Palavras Falantes

Eis-nos presenteados com alguns excertos e ilustrações da obra. Parabéns pelo excelente trabalho!


«[O André] preparava-se para regressar ao computador quando ouviu uma vozinha: — André! André! Anda cá! Nem me deste uma oportunidade para te ajudar.
O André no momento em que ouviu a voz ficou imóvel, no centro da divisão, sem conseguir perceber de onde vinha aquela voz abafada. A voz continuou.
— Deixa-me explicar-te quem eu sou. Pega novamente em mim e abre-me na página oitenta e seis.
O André dando-se conta que era a sua gramática que assim falava, voltou a sentar-se e observou o livro. Não compreendia lá muito bem como é que este podia falar como uma pessoa.
— Não devias ter desistido tão facilmente... — recriminou-o a voz.
— Podes explicar-me primeiro como é que falas ou estarei a sonhar, meu?
— Não, não estás, André. Agora abre-me depressa que me sinto sufocar.
O André, entre o incrédulo e o fascinado, abriu o livro novamente na página oitenta e seis e, para sua grande surpresa, todas as palavras dessa página tinham desaparecido, excepto uma. E não era a gramática que assim falava, era aquela palavrinha de cinco letras que o fazia. Como podia ser?
— Então és tu que falas? Para onde foram as outras palavras? Que lhes aconteceu? Como te chamas?
— Uma pergunta de cada vez senão deixas-me confuso — disse a palavrinha. — Vamos por etapas. Eu falo como as pessoas e, para te dizer a verdade, todas as palavras falam ainda que de forma silenciosa, mas a maioria dos seres humanos não é capaz de as ouvir, nem lhe presta atenção. Quanto às outras palavras, mandei-as descansar por estarem exaustas de serem lidas sem serem compreendidas.»
In André no Reino das Palavras Falantes


«Naquele momento, ouviram-se uns passos e uma manchinha negra apareceu. Era o senhor 86 do cantinho inferior direito, da página da gramática do André. Era um número simpático, redondinho, amoroso e muito afável. Trazia vestido um lindo fato engomado, de um bonito cetim preto, camisa aos quadradinhos cujo drapeado era deslumbrante, lacinho “à papillon” de bolinhas pretas, calças de um xadrez sumptuoso. A sua toilette era de um primor inexplicável, que rematava num lindo sapatinho preto do estilo carocha. Avançava num ritmo bamboleante e os seus passinhos curtos tornavam-no inimitável. Esta estranha e inusitada personagem usava na cabeça um lindo chapéu preto, onde trazia dois copos de leite, de um branco extraordinariamente branco, como o lugar que os rodeava, e um prato com bolachas.
— Perdoem-me a interrupção — disse o senhor 86. — No relógio da página anterior, bateram as cinco horas e eu tomei a liberdade de vos trazer o lanche.»
In André no Reino das Palavras Falantes
Nota: para mais informações ver site: Caixa Vermelha - Artes e Letras em http://caixavermelha.com/