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19 março, 2007

Recensão crítica


“Os três presentes” de Álvaro Magalhães


A obra “Os três presentes” de Álvaro Magalhães é uma comovente narrativa, na medida em que nos é contada uma verdadeira história de amizade entre três crianças e um senhor já de idade, o senhor Martins.
Os três presentes, pela sua capa com cores bastante claras, subtis e com a imagem, transmitindo a alegria e o sonho da juventude, convida desde logo à sua leitura. Por seu lado, o título desta obra é algo que poderá atrair e abrir um mundo desconhecido, pois este parece que não coincide com a imagem que ilustra a capa, despertando assim a curiosidade do leitor. Este poderá levantar determinadas questões, como por exemplo: “Quais serão estes presentes?”, “ Qual o motivo para o número de presentes ser três?”, “ Para quem serão os presentes?”. Estas e muitas outras perguntas poderão ser levantadas pela leitura do título da obra, o que, seguramente, levará o leitor à descoberta das respostas que mesmo suscitou. O leitor irá, então, preencher os espaços em branco que o título do livro lhe “propôs”, sendo que a partir daqui entrará em contacto com o texto, havendo uma interacção com o mesmo, criando um mundo imaginário no qual quer participar.
Mesmo a imagem que a capa do livro contém poderá atrair o interesse do leitor, na medida em que esta transmite uma sensação de ternura e felicidade.
“Os três presentes” é um conto camuflado de Natal, onde é narrado a história de amizade entre três amigos, que no dia de Natal resolvem dar um presente muito especial (amor, alegria e silêncio colocados dentro de três frascos de vidro) a um pobre senhor que já tinha desistido de viver. Deste modo, poder-se-á estabelecer uma relação de natureza intertextual com a história dos três Reis Magos que no dia de Natal ofereceram ao menino Jesus três presentes: ouro, incenso e mirra. Tal como os três Reis Magos que viajaram durante dias, seguindo a estrela guia, oferecendo presentes ao menino Jesus: ouro, incenso e mirra, estas três crianças ofereceram, igualmente, três presentes ao seu amigo que estava a deixar-se levar pela solidão e pela doença. Nesta obra verifica-se um diálogo, um intercâmbio discursivo com a história dos Três Reis Magos, pois tal como estes, os três amigos levaram ao senhor Martins três valiosos presentes que lhe permitiu o renascimento para a vida, no dia “mais diferente de todos os dias diferentes. Era o dia de Natal.” (Magalhães, 2003:34).
Esta obra deixa transparecer nas suas entrelinhas vários valores que são experimentados e vividos pelas personagens da história, o João, a Teresa, o Pedro, o senhor Martins e o senhor Afonso. A amizade é o valor que mais sobressai quando se entra no mundo destas cinco personagens. A verdadeira amizade entre três amigos que ao verem o senhor Martins desiludido com a vida, desistindo de lutar, decidem fazer alguma coisa para não deixar que o seu velho amigo abdique de viver e de apreciar a verdadeira beleza da vida.
A magia e o sonho também fazem parte desta história, pois à medida que lemos o livro vamos entrando no mundo de sonho e fantasia de três crianças que pretendiam colocar dentro de três garrafas, amor, silêncio e alegria para oferecer ao seu amigo. Estas três crianças colocaram dentro de três garrafas estes três presentes, mas como é que isto pode ser possível? De facto, para o leitor compreender o texto no seu verdadeiro sentido, terá que interagir com ele, entrar no jogo e criar um pacto ficcional, fazendo, assim, gerar os efeitos perlocutivos. Somente criando e aceitando este mundo imaginário no qual tem que participar, o leitor irá compreender como é possível colocar dentro de três simples garrafas algo que não é palpável, ou seja, amor, alegria e silêncio.
Ao longo da obra o leitor terá que entrar no jogo e no desafio interpretativo, promovendo, assim, os efeitos perlocutivos, aumentando o grau de perceptibilidade dos objectos e proporcionando uma visão cuidada dos objectos em si. O leitor encontra-se, frequentemente, perante marcas de estranhamento quando se depara com expressões que “exigem” que interprete e interaja com o texto, como por exemplo: “Nessa noite adormeceram com os olhos abertos e tiveram sonhos de todas as cores”. (idem, ibidem, p:10).
Toda a obra está repleta de múltiplas significações, de significados plurais que são construídos no âmbito de uma cooperação interpretativa que envolve o próprio leitor e o texto em si.
“Os três presentes” é bastante rico em ambiguidade, plurissignificação ou conotação, sendo que muitas das suas palavras apresentam vários sentidos figurados.
Durante a leitura desta obra verifica-se a existência de vários convites para o preenchimento dos “espaços em branco”, dos “elementos não-ditos”. Este texto é bastante rico em “espaços em branco”, solicitando assim uma cooperação activa e empenhada por parte dos seus leitores. Esta obra dá ao leitor um espaço de liberdade para o preenchimento destes “espaços em branco”, dos “elementos não-ditos”. Ao longo da leitura desta comovente história de amizade o leitor é convidado, frequentemente, pelo texto para uma interpretação livre e pessoal dos seus vários elementos. Os três amigos decidiram colocar amor, silêncio e alegria dentro de três frascos de vidro, sendo a imagem que representa estas três garrafas a verdadeira alma do livro. Os presentes que os amigos decidiram oferecer ao amigo doente foram presentes completamente diferentes de todos que o leitor está habituado a ver, principalmente o leitor/criança, provocando este facto admiração e estranheza. O leitor terá que pactuar e aceitar este mundo maravilhoso criado pelo texto, não poderá contestar e duvidar que o amor, o silêncio e a alegria couberam dentro de três simples garrafas, desenvolvendo assim os efeitos perlocutivos.


Grupo do 3. º ano de Ensino Básico - 1.º Ciclo:

Lia Ferreira

Marta Abreu

Patrícia Silva




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