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29 dezembro, 2006

Porque as histórias não terminam no instante em que as acabamos de ler…


Saramago, José (2001). A maior flor do mundo. Ilustrações de João Caetano. Lisboa: Caminho.
ISBN 972–21–1437–9
Idade recomendada: 8/9 anos

José Saramago publicou o seu primeiro livro, o romance Terra do Pecado, em 1947 e desde esse primórdio ganho, até aos dias de hoje, é vasto o espólio de livros que comprazem o público leitor. O seu livro Memorial do Convento confiou-lhe o Prémio Nobel da Literatura em 1998, facto que nos pode levar a reportar para as suas obras uma legitimidade “quase” óbvia. Por conseguinte, atrevo-me a falar dos seus livros como obras que, de utópico ou ignoto parecem não ter “muito”, navegando sim rumo ao soberbo.
Envolvidos nesta atmosfera encontramos obras como: Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira
A Maior Flor do Mundo foi o primeiro “passo” de José Saramago num mundo que parece não deixar antever a ideia de quimera, um passo num mundo que é das crianças e no qual me parece que devemos caminhar para percebermos, como ele, que essa utopia pode ser uma realidade colorida e cheia de histórias como esta.
As ilustrações da obra couberam a João Caetano, ilustrador que recebeu Menções Honrosas do Prémio Nacional de Ilustração pelas ilustrações dos livros Os Mais Belos Contos Tradicionais - Ed. Civilização, em 1998, e Conto Estrelas em Ti - Ed. Campo das Letras, em 2000. No ano de 2001, o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e a Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil atribuem o prémio de ilustração a João Caetano pelas ilustrações do livro A maior flor do mundo.
Neste livro as ilustrações contribuem para confirmar a pluri-isotopia do texto e dão-nos a sensação de que estão ali a enriquecer o pitoresco das palavras.
Vemos que a realidade e a ficção continuam a caminhar lado a lado, tanto no texto verbal como no texto icónico. O narrador continua a abrir parêntesis para falar da realidade escrita e na ilustração vemos a realidade do autor que escreve a história e a ficção, que é a própria história. Somos da opinião de que, à luz das comunidades interpretativas, este binómio ficção/realidade apresenta um cariz metatextual que está presente na obra.
O livro inicia-se com uma reflexão do autor textual, que se pronuncia acerca da dificuldade que “tem” em escrever livros para crianças, mas que chegou a imaginar que, se tivesse as qualidades necessárias para colocar a ideia no papel, ela resultaria verdadeiramente extraordinária: "seria a mais linda de todas as que se escreveram desde o tempo dos contos de fadas e princesas encantadas..." (Saramago, 2001: 41).
E assim, mergulhado num cosmo metatextual, acerca das técnicas da escrita literária para crianças, o leitor conhece a história que “queria ser contada”, uma história em que o herói menino, uma criança que, no seio da natureza, vive inúmeras “aventuras aprazadas”, alcança a fronteira entre a Terra e Marte e salva uma flor que permanecia caída e murcha. Para tal, atravessou o mundo todo, foi “vinte vezes cá e lá” e fez “cem mil viagens à lua” (Saramago, 2001: 17). Depois deste acto de coragem o menino é levado para casa “rodeado de todo o respeito, como obra de milagre” (Saramago, 2001: 22).
“Este era o conto que eu queria contar. (…) Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?...” (Saramago, 2001: 26). E assim se dá o desfecho da história que parece deixar antever a ideia de ter ficado em aberto um ou vários caminhos. Caminhos que podem ser propícios àquela “velha ideia” de darmos “asas à nossa imaginação”, à ideia de pormos as “cordinhas do nosso relógio a trabalhar” para podermos continuar as histórias que os “nossos” escritores nos oferecem…

Vânia Dias

Conversas para Sonhar


MOURA, Maria Isabel e COSTA, Matos [il] (2004) Vou Dar Pontapés Na Lua.Porto: Edições Afrontamento
ISBN: 972-36-0731-X

Vou Dar Pontapés Na Lua é um livro de sonhos para todas as idades, escrito por Maria Isabel Moura e ilustrado por Matos Costa.
Maria Isabel Moura nasceu na Covilhã, em 1955. Ganhou em 1998 o prémio Manuel da Fonseca pela autoria do livro Vinte Maneiras Diferentes de Contar a Mesma História.
Vou Dar Pontapés Na Lua consiste num conjunto de contos juvenis, ricamente ilustrados, onde o onírico e o fantástico se cruzam, proporcionando uma leitura solta divertida e instrutiva. Traz-nos vinte e quatro pequenas histórias para sonhar, vinte e quatro pequenas reflexões sobre aquilo que esteve sempre ali e ninguém se tinha lembrado de questionar.
Todo o livro se constrói a partir de um diálogo entre duas crianças, que vêem o mundo pela primeira vez e se dedicam às questões realmente importantes: “E os sonhos que sonhamos para onde vão?” “Porque será que os adultos fazem perguntas estúpidas?” ou “E o escuro, escuro como é?”(Moura, 2004: 5,21, 23). O olhar, o ponto de vista destas crianças serve para pequenos e graúdos pensarem a verdade das coisas, olharem para o que os rodeia e para o que está dentro de cada um.
Esta obra gira à volta do sonho, da natureza, daquilo que todos conhecem, mas ninguém sabe explicar, transportando o leitor para o “País das Fadas” onde moram Fadas, Bruxas, Duendes e Dragões. Cada breve história tem uma moral, um propósito, uma lição, um pensamento extraído; e cada uma das vinte e quatro histórias está acompanhada por ilustrações dinâmicas, expressivas e coloridas que traduzem o texto. Matos Costa ilustra o livro com figuras feéricas e fantásticas que traduzem a magia contida em cada palavra no mundo do maravilhoso que Maria Isabel Moura traz até nós.

Clara Pinto

Leitores Gigantes


MARMELO, Manuel Jorge e MARMELO, Maria Miguel (2003) A Menina Gigante. Porto: Campo das Letras (ilustrações de Simona Traina)· I
SBN – 972-610-741-5
Idade recomendada – 7 aos 10 anos

A publicação de A Menina Gigante é mais um bom exemplo da vivacidade e da importância que a literatura infantil portuguesa tem conhecido ultimamente.
Reconhecendo um conjunto cada vez mais alargado de autores que se têm debruçado numa escrita infanto-juvenil, chega a vez de Manuel Jorge Marmelo, conhecido jornalista e escritor de obras como Português Guapo y Matador ou As mulheres deviam vir com livro de Instruções (1997 e 1999, Campo das Letras), que recebeu o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco 2004 com o livro Silêncio de um homem só. Porém, nesta obra reparte a autoria com a sua filha Maria Miguel Marmelo.
A intriga gira em torno de uma criança que intitula o conto – Ana Grande, a menina gigante – e dos seus complexos e dificuldades de adaptações ao meio, causados por um traço físico invulgar, a altura excessiva. Assim, a obra retrata uma situação de desequilíbrio/conflito por si vivida e em relação aos que a rodeiam. Desta forma, a história revela grande pertinência ao tocar na problemática da diferença do outro e da sua aceitação. É um conto que “começa mal, mas acaba bem”, que, de uma forma simples, acessível e com o testemunho desta menina, se estabelece uma relação de proximidade com o destinatário preferencial do texto “ (…) ser ainda uma menina como tu. Percebes? (…)”.
Para esta proximidade com o receptor contribui igualmente a idade da protagonista e a possibilidade do destinatário se poder identificar com os seus comportamentos “Ana grande era uma menina como tu que talvez tivesse a tua idade. Que ia à escola com tu (…)” e desenvolver sentimentos de solidariedade.
É de notar que o narrador apresenta a situação e o “problema” de uma forma cómica através de exemplos concretos “(…) como de costume dormiu com os pés de fora da cama (…)” e de analogias.
A resolução do seu problema surge no desenlace, “(…) quando sentiu que alguém lhe tocava no ombro… era uma senhora que lhe sorria e que, de repente, lhe pareceu muito alta” , oferecendo-lhe uma perspectiva positiva da sua diferença na qual Ana jamais tinha pensado e abrindo-lhe caminho à prática de um desporto onde é valorizada – o basquetebol.
Outro factor que nos leva à adesão da obra são as coloridas e pormenorizadas ilustrações de Simona Traina, que promovem a identificação das crianças leitoras com o universo da protagonista e representações visuais do seu estado de espírito através do traço fino e bem definido, tal como a justificação gráfica da metáfora intitulada A menina Gigante, que ocupa a capa e a contracapa.
Assim sendo, após a leitura deste livro conclui-se que é possível tornar factos verosímeis num corpus literário que nos faça reflectir sobre o universo que nos circunda, mas que, muitas vezes, nos passa ao lado. A necessidade que todos têm de ser aceites e de se integrarem parece estar aqui explícito num discurso pedagógico conduzindo-nos a uma visão optimista e positiva da vida onde os defeitos podem-se tornar em virtudes.
A história de Ana Grande torna-nos leitores gigantes e solidários num mundo sempre em mudança.

Joana Lima

A Transformação


MAGALHÃES, Álvaro (2001) Hipopóptimos – Uma História de Amor, Porto: Asa Editores (ilustrações de Danuta Wojciechowska).
ISBN 972-41-2641-2
Idade Recomendada: a partir dos 8 anos

«A quem, como tu, está a crescer, tudo ou quase tudo pode acontecer.» (Magalhães, 2001: 16)
Álvaro Magalhães nasceu no Porto em 1951. Em 1982 publicou o seu primeiro livro para crianças, Historias com Muitas Letras. A sua escrita adopta particular importância no domínio da literatura juvenil, as suas obras apelam permanentemente à imaginação e ao sonho. Em 2002, o seu livro Hipopótimos – Uma história de amor recebeu o Grande Premio Calouste Gulbekian de Literatura para Crianças e Jovens. Possuidor de uma originalidade e inimitável irreverência, este autor já adquiriu vários prémios da Associação Portuguesa de Escritores e do Ministério da Cultura. A série "Triângulo Jota", narrativas de mistério e acção, é uma das colecções que tem vindo a alcançar um enorme sucesso junto dos jovens.
O conto Hipopóptimos – Uma História de Amor, aparece-nos como sendo um bom exemplo para um leitor jovem contactar com um conjunto de valores considerados essenciais. São eles, entre outros, os da amizade, da bondade, da solidariedade, do cumprimento da palavra dada, do respeito pela natureza, do amor a vida.
Como podemos reparar no primeiro capítulo, a evocação, a descoberta, a revelação, a aprendizagem e a reflexão sobre a existência são características muito próprias deste conto, que pode ser visionado como “veículo” para o conhecimento da complexidade do ser humano. O pensamento e as condições da existência desenvolvem-se através de um conjunto de acontecimentos que envolvem o rapaz ao longo do conto.
A adolescência e o profundo conhecimento do seu universo são narradas por um jovem, «rapaz franzino que escreve versos e histórias» (Magalhães, 2001: 9).
A sua preocupação acrescida com uma borbulha que nasceu durante a noite no seu nariz, a discussão matinal com a mãe sobre a presença do homem no Mundo e a sua condição trágica no Mundo, são partes que nos mostram que se trata de um rapaz adolescente na fase complicada, a da adaptação. Devido à sua incapacidade de adaptação ao real, eleva o seu espírito buscando o que para ele seria ideal através do sonho, atenuando assim o sofrimento, acerca da rapariga «Era um belo sonho, mas era apenas um sonho ou mais uma imaginação das minhas.» (Magalhães, 2001: 10). É certo que esse rapaz nasceu com uma erva no coração e tem um destino especial, mas nem ele imagina o que o espera. Algures entre a realidade e o sonho há um lugar poético. É aí que decorre esta insólita história de amor, que opera uma delicada união entre o humano e o mundo natural. Se um rapaz ou uma rapariga estão a crescer, tudo lhes pode acontecer. Até se transformarem em hipopótimos!
A questão social presente transmite-nos a imagem do homem esmagado pela cidade no quotidiano e como isso pode influenciar o comportamento e até a própria personalidade das pessoas: «As pessoas, quando vão dentro dos seus automóveis, tratam-se por tu como se tivessem tomado banho na mesma banheira quando eram pequenos. É como se se conhecessem desde sempre e, sobretudo, como se sempre se tivessem odiado.» (Magalhães, 2001: 21).
Este livro é ilustrado por Danuta Wojciechowska, que nasceu no Québec (Canadá), em 1960. Licenciada em Design de Comunicação (Zurique), com pós-graduação em Educação obtida em Inglaterra, vive e trabalha em Lisboa desde 1984. Em 1992 fundou o atelier Lupa Design, onde se dedica ao design, ilustração e cenografia. Dedica-se às áreas da educação, social, ambiente e cultura, mas sobretudo à ilustração infantil.
Recebeu diversas Menções Honrosas no "Prémio Nacional de Ilustração": em 1999, pelas ilustrações do livro Fala Bicho, de Violeta Figueiredo; no ano de 2000 foi distinguida pelo livro O Limpa-Palavras e outros poemas, de Álvaro Magalhães; em 2001 com livro O Gato e o Escuro, de Mia Couto, e em 2002 pelas suas ilustrações na obra Mouschi, o Gato de Anne Frank, de José Jorge Letria.
Dos vários livros que ilustrou, além dos mencionados, destacamos ainda À Procura do Ó-Ó Perdido, de Pascal Sanvic; Fiz das Pernas Coração, Contos Tradicionais Portugueses, de J.A. Gomes; Hipopótimos - Uma História de Amor, de Álvaro Magalhães e Em Branco, de Teresa Guedes.
Neste livro cartonado, que tem como imagem principal um hipopótamo, as suas ilustrações, transmitem-nos cor e personalidade. As imagens dão identidade e expressões próprias às ideias do texto, são de tal forma transformadas que parecem ser capazes de falar. São ilustrações que, em muito, contribuem para expandir a pluri-isotopia do texto, possuindo a palavra e a imagem uma relação de complementaridade. Transmitem-nos uma festa de cores harmoniosamente combinadas.
Esta é uma história para miúdos e graúdos se deliciarem.

Deolinda Gomes

Sonhos made in China


DACOSTA, Luísa (2004) Sonhos na Palma da Mão. Porto: ASA Editores. Ilustrações de Cristina Valadas
ISBN 972-41-3654-X

Sonhos na Palma da Mão constitui uma obra literária destinada a crianças a partir dos 9 anos

Luísa Dacosta (pseudónimo de Maria Luísa Saraiva Pinto dos Santos), nascida a 16 de Fevereiro de 1927 e formada na Faculdade de Letras de Lisboa em Histórico-Filosóficas, conta em Sonhos na Palma da Mão a história de uma menina “atenta e curiosa” (Dacosta, 2004: 7) que costuma visitar a avó. Um dia, inteirou-se da existência de um pequeno passarinho vermelho “espetado no raminho seco da estante de livros do quarto da avó” (Dacosta, 2004: 7), cuja origem era chinesa. Este passarinho suscitou de imediato o seu interesse e parecia ter muito para contar, passando “a chocar os sonhos da menina” (Dacosta, 2004: 11). E sempre que dormia na casa da avó, pedia: “- Passarinho, querido passarinho, pousa um sonho na palma da minha mão” (Dacosta, 2004: 13). Assim fez o passarinho, e, da abertura do seu coração e da sua leve imaginação, se soltam, então, três sonhos encenados na China, sonhos que se abriam e fechavam “como o abrir e o fechar de um leque” (Dacosta, 2004: 38). Este pequeno passarinho vermelho passou a oferecer a liberdade da fantasia, dando asas à imaginação da menina e permitindo-lhe viajar numa “China de sonho” (Dacosta, 2004: 30).
Estes Sonhos na Palma da Mão, como esclarece, em nota prévia, a autora, “pagam, de certa maneira, o encanto que [lhe] deram «A Rapariga dos Fósforos», a «Sereiazinha», «O Patinho Feio», «O Rouxinol».” Isto porque “Longe, na infância. Com as suas sombras e claridades – Andersen nunca mentiu a vida e soube sempre aliar beleza e sofrimento – rolavam sobre mim, como berlindes mágicos, percorriam-me os cinco cantinhos da alma, abriam portas secretas, permitiam-me respirações, outras, que nem sabia. Uma dimensão, cujo bafo tento, aqui, passar a corações com olhinhos interiores” (Dacosta, 2004: 5).
Evidencia-se, portanto, uma relação de natureza intertextual com as obras de Hans Christian Andersen, especialmente com o «Rouxinol» que trata da história de um rouxinol, o mais estranho pássaro cantor da China que suscitou o interesse do Imperador, tornando-se um êxito na corte real. As semelhanças entre o passarinho vermelho que pousa sonhos na palma da mão e o rouxinol são muitas, parecendo o primeiro ter surgido devido a uma patenteada influência deste conto.
Luísa Dacosta não perde o sentido ou a magia da liberdade e do sonho, que podemos descobrir em muitos dos seus textos escritos para a infância, como O Príncipe que Guardava Ovelhas, O Elefante Cor-de-rosa e A Rapariga e o Sonho.
Recebeu em 1992 o Prémio Máxima de Literatura, pelo seu livro Na Água do Tempo – Diário e em 2002 o Prémio Uma vida, Uma Obra, instituído pela Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, com o apoio da Delegação Regional de Cultura do Norte.
Os seus livros situam-se num registo em que um sabor autobiográfico se mistura à crónica e ao conto.
A narrativa de Sonhos na Palma da Mão é acompanhada de belíssimas ilustrações de Cristina Valadas que se assumem criativamente como uma forma de produzir ou de concretizar a recriação da quimera que Luísa Dacosta nos oferece. Os meios como as formas, as cores e as diferenças territoriais parecem ser, no espaço da página, estrategicamente exploradas conferem uma magia aprazível e um encanto que nos suscita um interesse imediato.
Assim, da fusão da escrita de Luísa Dacosta com as ilustrações de Cristina Valadas resulta um universo especial em que, de forma muito singular e delicada, somos convidados a libertar a emoção e a acordar a imaginação, que, rapidamente, passa a andar de mãos dadas com o sonho.

Ana Grave

“Encantador de sonhos”


Letria, J. (2004). Versos para os Pais lerem aos Filhos em Noites de Luar. (2ª edição). Porto: Âmbar.
ISBN: 972-43-0627-5

José Jorge Letria, o mais premiado escritor português da actualidade e André Letria, um dos grandes ilustradores infantis com mais de 30 livros ilustrados, reúnem-se para ensinar aos pais o modo de adormecerem os filhos, proporcionando-lhes um soninho descansado e recheado de sonhos bons.
Este interessante livro é constituído por vinte e sete poemas que apelam ao gosto pela leitura, escrita e “conversam” com o leitor sobre a beleza das palavras. É a obra que fala dos sentimentos, como se o livro fosse o lugar onde se guarda “o tesouro dos afectos”. Em cada verso há uma mensagem que deve ser descoberta, concedendo, por isso, ao leitor um papel activo na leitura da obra.
Portadora de carga fortemente afectiva, esta obra traduz-se numa viagem pelo sonho e pelo imaginário infantil repleto de seres mágicos e misteriosos que zelam pelo sono da criança “ Dorme, menina, dorme/ No meu colo descansada/ Que a noite já vai alta/ Com mil estrelas enfeitada./ Dorme, menino, dorme/ E deixa-me o teu feitiço/ Para os diabos do sono/ De vez levarem sumiço.” (Letria, 2004)
Numa leitura cativante, a sonoridade e a dinâmica das palavras, que parecem ser contadas como se de uma canção de embalar se tratasse, guiam a criança pela noite até ao mundo dos sonhos, através da sua sensibilidade.
Esta tão fascinante obra deve ser lida por todos os que amam a leitura e a escrita. “Estes versos que ensaias/ O gosto que tens de ler/ São os troncos em flor/ Da alegria de aprender./ A leitura é uma escada/ Feita à tua medida:/ Cada palavra sonhada / Cada palavra aprendida/ Será parente chegada/ Da secreta melodia/ Que na boca de quem lê/ Tem nome de Poesia.” (Letria, 2004)
Versos para os pais lerem aos filhos em noites de luar, é, pois, uma obra muito singular que procura partilhar com as crianças o gosto pela leitura, principalmente o prazer pela Poesia. Assim, o autor fala-nos de ternura, afectos, gosto pelas palavras e a importância de nunca deixar de sonhar seja em que idade for. Mas acima de tudo este é “Um livro em que Poesia é vivida como um acto de amor entre quem lê e quem ouve” (Letria, 2004).


Andreia Fernandes

“El Pirata Garrapata"

Juan Muñoz Martín.

Recomendado a partir de 9 años



Juan Muñoz Martín estudió Filología Francesa y ejerce como profesor de Instituto en Bachillerato y Educación Secundaria.

Ha conseguido el Premio Doncel de cuento infantil con Las tres piedras en 1966 y el primero premio "Barco de Vapor" de la Fundación Santa María de novela infantil en 1979 con Fray Perico y su borrico.

De la misma fundación recibió el tercer premio "Gran Angular" de novela juvenil en 1984 por su obra El hombre mecánico, y en ese mismo año, con Algún día seré consiguió el segundo accésit de cuento corto "Nueva Acrópolis". Primer Premio Complutense "Cervantes chico" de Literatura Infantil y Juvenil en 1992 como el escritor más leído por los niños.

Desde hace años aparece en los primeros puestos de las listas de libros más vendidos, con sus personajes "Fray Perico" y "El Pirata Garrapata". Premio de Teatro Guiñol del F. Juventudes 1966 y de Coros Infantiles del Ayuntamiento de Madrid en diversos años. Obtuvo dos años consecutivos el premio "Mantenga limpia España", convocado por el Ministerio de Información y Turismo con la presentación al concurso del Quijote romanceado.

Entre sus obras más famosas esta la saga del Pirata Garrapata, saga por la cual hace que muchos niños sonrían y se interesen por la lectura.

Esta obra es la primera de la saga y narra la historia de un forajido llamado Garrapata; el más terrorífico, pendenciero y feo de Londres. Pero en el fondo es una buena persona.

Un día que estaba en la taberna del Sapo recibe la visita de Lord Chaparrete, jefe de policías y ladrones, quien le propone secuestrar un barco, el Salmonete, y hacerse pirata. Garrapata, que no tiene ni idea de navegación, acepta encantado y se lleva con él a su fiel amigo Carafoca. Los tres se hacen con el barco y con una tripulación "recolectada" por las calles de Londres.

El día en que estaba fijada la partida reciben una pasajera imprevista, Miss Florinpondia, la hija del almirante Pescadilla, lo que les obliga a huir perseguidos por toda la flota de guerra inglesa. Les esperan todo tipo de aventuras disparatadas, grotescas y divertidísimas, que harán reír a cualquier lector.

Es una novela humorística que pienso que es muy interesante, ya que es capaz de hacer reír a niños y adultos, al mismo tiempo que con el paso de las hojas, el lector se interesa más por saber como continúan las aventuras de este peculiar y la vez divertido personaje.

Recomiendo este libro, para tratarlo con niños de a partir 9 años, porque es una manera de que ellos se interesen por la lectura, visto el ejemplo de otras sagas de libros, que la actualidad se han puesto de moda entre los adolescentes, pienso que esta saga es un comienzo para la lectura infantil, y con esto obtener gente que le interese la lectura.

desconstrução paródica

Desconstrução paródica

Soares, D. Luísa (1986). A vassoura mágica. Ilustração de Paula Oliveira. 5ª Edição (2001). Edições ASA. ISBN: 972 – 41 – 2122 – 4. A partir dos 10 anos.


O livro A vassoura mágica é uma obra da autora Luísa Ducla Soares, que nasceu em Lisboa, a 20 de Julho de 1939, onde se licenciou em Filologia Germânica. O seu primeiro livro de poesia data de 1970 e intitula-se Contrato. Desde então a escritora tem-se dedicado como estudiosa e autora à literatura infanto-juvenil. Recebeu o "Prémio Calouste Gulbenkian para o melhor livro de literatura infantil no biénio 1984-1985" e o "Grande Prémio Calouste Gulbenkian" pelo conjunto da sua obra em 1996. As suas obras encontram-se traduzidas em diversos línguas, nomeadamente francês, catalão, basco e galego.
O título da obra envolve o leitor num ambiente ficcional, no domínio do maravilhoso. A associação do substantivo vassoura e do adjectivo mágica fazem com que o leitor active os quadros de referência intertextuais, onde a vassoura surgirá por hipótese ligada a uma bruxa que interfira na vida de outras personagens.
A vassoura representa o instrumento utilizado pela mulher nas tarefas domésticas porém, esta não será a uma vassoura qualquer uma vez que lhe é atribuída a qualidade de ser mágica.
A narrativa inicia-se com uma expressão hipercodificada que nos liga logo ao mundo ficcional. A fim de obter cooperação interpretativa com o leitor, o narrador apela, por meio da anáfora, e insiste na especificidade da vassoura: “Era uma vez uma vassoura que não era uma vassoura que não era como as outras vassouras…Não era uma vassoura de jardim…Não era uma vassoura de sala…Era uma vassoura mágica”(Soares, 2001: 1).
A segunda personagem da obra é a bruxa Rabucha, dona da vassoura. Mais uma vez, se supõe a activação de quadros de referência intertextual por parte do leitor por causa de determinados elementos estereotipados, como os adereços e a casa onde ela vive; a vassoura é descrita como capaz de voar “E a vassoura voava, como um cavalo de asas.” (Soares, 2001). Há uma desconstrução da bruxa, que é apresentada como sendo capaz de experimentar sensações como o frio, donde se deduz a sua fragilidade. E se as marcas como o vestuário e a habitação levam o leitor a activar a sua bagagem cultural, a desconstrução paródica é notável na perda da capacidade divinatória, na percepção de que a profissão de bruxa esta em vias de extinção, e até no facto de a própria vassoura envelhecer.
Depois da perda da vassoura, a bruxa recorre a anúncios a fim de encontrar emprego. Mais tarde, apercebe-se que o entrave para arranjar emprego era a sua aparência. Até que decide participar num baile de máscaras onde ganhou o primeiro prémio, com o dinheiro mudou o aspecto físico e conseguiu um novo ofício: vender lotarias na Casa da Sorte. Nesta obra, o texto icónico é apenas um complemento do texto verbal, que é o mais realçado.
Pode concluir-se que a autora, recriando o maravilhoso num contexto moderno, focou problemáticas sociais, como a questão da emancipação da mulher, tendo recorrido, para isso, ao cómico das situações e das personagens.




um olhar sobre o imaginário

Um olhar sobre o imaginário

Dacosta, Luísa (1974). A menina coração de pássaro. Obras completas de Luísa Dacosta para a infância 2ªedição (2002). Edições ASA. ISBN: 972 – 41- 3181- 5.
A partir dos 6 anos.

O livro A menina coração de pássaro é uma das obras da escritora Luísa Dacosta que nasceu em 1927, em Vila Real de Trás-os-Montes. Formou-se na Faculdade de Letras de Lisboa, em Histórico-Filosóficas. Mas as suas "Universidades" foram as mulheres de A-Ver-O-Mar. Foi professora do ciclo preparatório e alguma coisa deve também aos alunos: o ter ficado do lado do sonho e isso tem motivado a autora a escrever para crianças.
Antes de referir qualquer outro tipo de elemento é essencial analisar os paratextos da obra. A capa é apelativa essencialmente pela cor azul e pelo pássaro muito semelhante a uma pomba em tom verde, mas é necessário folhear as primeiras páginas para encontrar algo que prenda o leitor. Folheadas estas, também azuis, deparamo-nos com a conhecida característica da autora, a expressão “no sonho, a liberdade…” que nos clarifica quanto ao tema do livro: o sonho, o mundo imaginário onde tudo é possível, o mundo onde cada um pode vivenciar o que deseja, o mundo que é só nosso. É um texto narrativo em forma de conto, uma vez que é narrada a história de uma menina “sonhadora e solitária, que falava com as flores e sabia o coração das coisas” (Dacosta, 2002) que, recuperando um velho enfeite de Natal, um pássaro “branco, prateado e vidrento” consegue entrar, à noite, nesse objecto e voar até junto de uma estrela com quem conversa e a quem fica afectivamente ligada. Do diálogo com a estrela, que está “cansada de ser estrela” (Dacosta, 2002:7), e que no céu, há milhares de anos, já aprendeu que mais vasto do que o oceano é o sofrimento dos homens”, surge uma amizade e ternura verdadeiras.
Ao longo da obra, o leitor pode activar os seus quadros de referência intertextuais reconhecendo valores como a amizade, o afecto e a vida. Todas as histórias de sonho, de fantasia, de tudo o que apela à imaginação da criança, podem ter uma relação intertextual com este conto. Porém podemos assemelhar o percurso desta história à famosa obra O Principezinho, de Antoine de Saint – Exúpery: “só se vê bem com o coração; O essencial é invisível aos olhos”, pois há coisas que não se vêem, sentem-se: “(…) precisa de olhos interiores para ser visto e sentido (…)” “o que se vê com os olhos interiores , é o fogo da ternura e da amizade”(Dacosta, 2002).
Em ambas as histórias mostra-se o verdadeiro valor da amizade e do afecto, valores que não se vêem, mas que se sentem e que são verdadeiros. Tanto o principezinho como a menina coração de pássaro partem em busca da felicidade, da aventura e ambos aprendem que nem tudo é perfeito, nem tudo é o que parece, e principalmente valores importantes, verdadeiros e sinceros são esquecidos, já ninguém vê as coisas com o coração, com os olhos interiores.
Para concluir, pode ainda salientar-se que a ausência de texto icónico é um grande contributo, uma vez que pode levar a diversas interpretações do texto. São deixados espaços em branco para que o leitor se torne crítico e possa dar asas à sua imaginação, ficando assim, como que “preso” ao livro.

“Salvadores da Realidade: Os Óculos”

Soares, L.(2001). Uns Óculos para a Rita. Porto: Civilização Editora.
ISBN – 972-261908-9
Idade recomendada – 6 a 8 anos
Ilustrador – Olé Design

Uns óculos para a Rita constitui um dos títulos reeditados pela editora Civilização no âmbito da colecção “Obra completa de Luísa Ducla Soares”. Luísa Ducla Soares participa frequentemente em Colóquios e Encontros, apresentando conferências e comunicações sobre a problemática relacionada com os jovens, a leitura, sobre literatura para os mais novos. Recusou, por motivos políticos, o Grande prémio de Literatura Infantil que o SNI pretendeu atribuir-lhe pelo livro História da Papoila em 1973. Recebeu o Prémio Calouste Gulbenkian para o melhor livro do biénio 1984-5 por 6 Histórias de Encantar e foi galardoada com o Grande Prémio Calouste Gulbenkian pelo conjunto da sua obra em 1996. Em 2004 foi seleccionada como candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen.
Em toda a obra, ilustrada por Olé Design, podemos verificar que o texto icónico funciona como um complemento daquilo que nos é dito no texto verbal, funcionando ambos como um todo.
Tal como nos é sugerido logo no próprio título, Uns Óculos para a Rita, este álbum trata de um facto muito vulgar do nosso quotidiano, o uso de óculos, sobretudo pelos mais pequenos, que não encaram esta realidade com muito agrado. É-nos pois dada uma outra visão daquilo que é usar óculos. Procura-se fazer uma espécie de desmistificação, pois ao contrário do que se possa pensar, os óculos são uma mais valia na vida de quem os usa, conclusão à qual também a Rita chega (“…porque com eles tudo é mais bonito”, Soares, 2001:28), podendo, desta forma, levar o pequeno leitor a identificar-se com a Rita e encarar esta questão com outros olhos.
A nível estrutural, podemos referir que este álbum apresenta dois momentos: um primeiro momento, em que a Rita não consegue ver as formigas e as pisa, não vê as pintinhas nos «is», não vê a perninha do “a” nem do “o”, não encontra o botão que caiu do seu casaco, ou seja, refere-se à altura anterior à descoberta da necessidade da Rita usar óculos. Segue-se um segundo momento, que tem início com a ida da Rita ao oftalmologista e ao oculista, sendo a partir desta etapa que a Rita se apercebe dos factos que anteriormente não via. É também neste momento que a Rita, brincando com a situação e, querendo sobretudo recordar as suas dificuldades, tira os óculos e compara os dois momentos: antes e depois de usar óculos, no entanto, rapidamente os volta a colocar pois apercebe-se da sua utilidade (“De vez em quando tira os óculos para se lembrar como o mundo era antes, mas por pouco tempo, porque com eles tudo é mais bonito”, Soares, 2001:28).
Esta obra apresenta um número de personagens muito reduzido, a Rita, que é a personagem principal e a heroína da história, e todos aqueles que giram em seu torno, a professora que conversa com o seu pai e, em conjunto se apercebem do problema da Rita, o oftalmologista e o oculista que resolvem o problema da Rita.
Relativamente à linguagem, podemos dizer que apresenta vocábulos extremamente simples, susceptíveis de serem entendidos sem dificuldade pelo seu público-alvo, crianças com idades compreendidas entre os seis e os oito anos.
Em suma, podemos dizer que esta é uma obra muito interessante, capaz de promover a leitura entre os mais novos, para além de contribuir com uma espécie de conselho para os mais novos, acerca das vantagens que pode trazer o uso dos óculos, e por isso vai de encontro ao que nos é disponibilizado pela literatura tradicional, transmitindo um facto que está presente no nosso mundo, e também no das crianças.


Sara Cunha

Testemunho do gato que passou com Anne Frank os seus últimos dias


LETRIA, José (2002). Mouschi, o gato de Anne Frank. Ilustração de Danuta Wojciechoska. Lisboa: Asa.
ISBN: 972-41-2882-9
Idade Recomendada: a partir dos 10 anos.

Mouschi, o gato de Anne Frank é mais um livro de José Jorge Letria, um dos mais profícuos escritores portugueses e o mais premiado da actualidade. Como escritor distingue-se sobretudo na literatura para a infância e juventude.
Este livro recebeu em 2002 uma Menção Especial, assim como a sua ilustradora, Danuta Wojciechowska, recebeu o Prémio Nacional da Ilustração. Esta distinção foi concedida pela criatividade, bem como pela valorização que as imagens conferem ao texto.
Mouschi existiu realmente e foi levado para o anexo por Peter van Pels, um jovem companheiro de cativeiro de Anne Frank. O dia-a-dia no anexo, a rotina de um grupo de pessoas refugiadas do terror nazi e a esperança numa libertação que acabou por não chegar, são assim contados neste livro por um animal de estimação que se transformou em testemunha singular de uma tragédia humana.
Este é um livro que me parece ser pautado pela emotividade e pelo dramatismo, é como se, ao lermos, recuássemos a um tempo de grande agitação, a Segunda Guerra Mundial, é como se sentíssemos o desespero das pessoas que, por infelicidade do destino, estavam no lugar errado à hora errada.
“Se eu soubesse chorar, mesmo transformado em personagem deste livrinho de memórias, teria sempre duas lágrimas guardadas: uma para Anne e outra para o meu amor por ela. Quem matou esta menina merece ser castigado eternamente por todas as estrelas que há no céu.” ( LETRIA, 2002:44). Este é o último desabafo de Mouschi, o gato de Anne Frank, a menina que representará sempre aqueles que, de modo trágico e cruel, perderam as suas vidas durante o holocausto nazi.
Parece-nos, assim, encontrar neste livro um cruzamento intertextual com o Diário de Anne Frank, onde assistimos ao relato, na primeira pessoa, de uma menina que foi obrigada a crescer fora do mundo. Neste livro, porém, a mesma história é contada na perspectiva de um gato, factor esse que parece constituir uma maior aproximação com o público-alvo.
Mouschi, o gato de Anne Frank parece ser, deste modo, um texto bastante rico principalmente do ponto de vista ideológico.

Ser tudo de todas as maneiras


Letria, José Jorge (2001). O que eu quero ser…. Colecção José Jorge Letria. 2ª Edição – 2001. Editora Ambar.
Ilustração: Chico
ISBN 972-26-2123-8

José Jorge Alves Letria nasceu em Cascais, a 8 de Junho de 1951,é um jornalista e escritor português. Estudou Direito, História e História de Arte na Universidade de Lisboa, sendo pós-graduado em Jornalismo Internacional pela Universidade Autónoma de Lisboa. Como escritor distingue-se na poesia, no conto, no teatro e, sobretudo, na literatura para a infância e juventude. Autor de quase duas centenas de títulos publicados em cerca de 50 editoras diferentes, metade dos quais na área literatura infanto-juvenil. E segundo ele, a sua poesia «é muito marcada pelo amor e pela tentação da felicidade que integra o amor. Uma espécie de sede de absoluto que o amor representa enquanto horizonte.» Tem poemas traduzidos em espanhol, francês, italiano, checo, russo, búlgaro e alemão.
O livro O que eu quero ser…, ilustrado por Joana Quental, insere-se na literatura infanto-juvenil e todo ele é constituído por um texto de composições curtas. O autor neste livro fala daquilo que todas as crianças pensam quando ainda são muito pequeninas, que é o “O que eu quero ser…”. Sendo as respostas das mais variadas e imprevisíveis, o autor retrata no livro isso mesmo, muitas profissões, raças e tudo aquilo que lhes passa pela mente nessa idade.
O autor neste livro vai buscar algumas das características das rimas infantis de tradição oral, sendo as mais evidentes, por um lado a falta de sentido, por outro o encadeamento de repetições paralelísticas, ora de palavras e expressões, ora de sons rimados. Já as composições em verso, à primeira vista, parecem um mero aglomerado de frases rimadas sem qualquer ligação lógica e semântica entre si. No entanto, as crianças têm um grande fascínio não só por uma imagística aparentemente desprovida de lógica, mas também, pelo jogo poético e pelo ritmo. São aspectos particularmente apelativos como estes, que permitem à criança familiarizar-se, de uma forma lúdica, com ritmos, palavras ou movimentos simples. São poemas cuja "evidência sonora" se sobrepõe claramente ao plano da significação, provocando, assim, aparentes faltas de lógica.
Do encadeamento de repetições de palavras, expressões e sons rimados se inferem efeitos de musicalidade e de comicidade. A comicidade é conseguida através da junção de significantes oriundos de contextos aparentemente inconciliáveis. É assim que as composições deste livro são todas elas divertidas, remetendo por vezes para o riso.
As ilustrações também contribuem para um melhor entendimento do livro, porque caracterizam bem a profissão, se for o caso, e as imagens em volta levam as crianças a imaginarem um pouco sobre o que ela é. Mas o texto verbal é, sem dúvida mais rico, porque além de demonstrar aquilo que é ser polícia, por exemplo, demonstra também que não o basta ser, mas é também fundamental respeitar os outros e não abusar da autoridade.
Ou seja, o livro, mais que uma função lúdica, tem uma função moralista, pois leva a que as crianças tenham a noção do que é bom, do que é mau, mas também do que é ser diferente e respeitar isso.
Concluindo, José Jorge Letria, mais que um escritor de literatura infanto-juvenil, é um homem que, através das palavras, retrata aquilo que ainda se vive nos dias de hoje, a discriminação de outras culturas, profissões e raças, não fosse ele antes do 25 de Abril um dos cantores de intervenção da sua geração, mas com este livro apela às crianças para saberem o que é a diferença, que não é mau o ser e que, no fundo, somos todos iguais.

Leitura colorida

Soares, Luísa Ducla (2004). A festa de anos. Obra completa de Luísa Ducla Soares. 1ª Edição – 2004. Editora Civilização.
Ilustração: Chico
ISBN 972-26-2123-8

Luísa Ducla Soares nasceu em Lisboa a 20 de Julho de 1939, onde se licenciou em Filologia Germânica. O seu primeiro livro de poesia data de 1970 e intitula-se Contrato. Esta autora tem-se dedicado como estudiosa e autora à literatura infanto-juvenil, tendo já publicado cerca de quarenta e cinco obras infanto-juvenis. Recebeu o "Prémio Calouste Gulbenkian para o melhor livro de literatura infantil no biénio 1984-1985" e o "Grande Prémio Calouste Gulbenkian" pelo conjunto da sua obra em 1996. Colaborou na página infantil do Diário Popular e na revista Rua Sésamo. As suas obras encontram-se traduzidas em diversos línguas, nomeadamente francês, catalão, basco e galego.
O livro A festa de anos é uma fábula em forma de conto, com diálogo, no qual a autora conta a história de uma avestruz chamada Catrapuz que decide comemorar o seu aniversário na companhia dos seus amigos: a gatita Tita, o cão Sultão, o rapaz Tomás e a foca Pinoca.
Esta obra é uma história fantástica, que aborda valores tão importantes como a amizade e a cumplicidade. Apesar de simples, a história revela-se fortemente cativante seduzindo os seus leitores pelas emoções que se vão desenrolando até ao final. Além disto, proporciona ao leitor um contacto feliz com a literatura, pois pode servir como um eficaz instrumento de promoção do gosto pelos livros e pela leitura em contexto pré-escolar.
Olhando para o livro pode-se ver uma avestruz e umas fitas coloridas alusivas ao título da obra, captando muito a atenção do leitor não só pelas imagens, mas sim pelo jogo de cores. Folheadas as primeiras páginas, ainda nos prendemos mais à história devido à quantidade de cores ilustradas bem como o tamanho das figuras, o que apela à festividade.
Os elementos paratextuais deste livro fornecem ao leitor um mundo de animais, muito colorido, onde todos são felizes e amigos. Por outro lado, o leitor criança, ao ter o primeiro contacto visual com o livro, depreende logo que vai ser um momento de festa, de alegria não com crianças, mas sim com animais. A autora dá um papel especial à actuação de animais, figuras que, na linha fabulística tradicional, acabam por representar, com subtileza, comportamentos humanos. Este é um universo ficcional muito risonho e adequado às preferências das crianças. Para miúdos com dois, três anos, este livro ajuda a aprender as cores e a identificar objectos de tons semelhantes. É nisto que Luísa Ducla Soares mantém a clareza e o ritmo da linguagem que se espera para que os mais novos se mantenham atentos.
Ao ler e interagir com a obra pude reparar que a única marca de estranhamento visível na mesma são os animais personificados, pois ao longo do texto não foram encontradas marcas de estranhamento, para além desta, porque, por ser um livro destinado a crianças pequenas, a linguagem deve ser, e neste caso é, acessível para que elas não percam “o fio à meada” e o interesse pela mesma. Porém, a forma como termina a história, com uma adivinha, talvez possa ser considerada uma marca de estranhamento, mas que se torna interessante pois o leitor tão cedo não esquecerá esta “festa de anos”, tentando concluir que bicho é que sairá daquele grande ovo.
Quanto aos espaços em branco constatei que não existem, ou seja, o leitor não pode imaginar nem fantasiar o que acontece, como são os animais, à medida que lê a história. “A festa de anos” tem como cenário expressivas ilustrações, com um jogo de cores fantástico e animais grandes e coloridos. E por esta obra ser muito infantil, a falta de espaços em branco cativa e prende a criança à história pois se esta se perder da narrativa tem sempre uma bonita imagem que apela à sua atenção.
A pluri-isotopia na obra está presente no texto icónico e não na narrativa. Por exemplo, a imagem da gata a voar com os convites para a festa de anos da avestruz Catrapuz. Um leitor mais adulto pode interpretar esta imagem como um acontecimento muito importante, ou seja, as estrelas são cintilantes e brilhantes o que pode levar a crer que a avestruz Catrapuz, por fazer anos, quer-se sentir uma estrela e este dia é tão importante que a gata até voa para poder entregar os convites. Penso que esta é uma imagem que pode suscitar várias interpretações.
Além disto, as perguntas retóricas, como por exemplo a adivinha final, deixam qualquer pessoa a pensar. Pois a sua ligação com a última imagem mostra-nos que a avestruz choca o ovo, mas que olha para o céu o que pode levar a crer que a avestruz está em pensar em qualquer coisa, mas esse pensamento já fica ao critério dos leitores, à sua imaginação, criatividade e interpretação.

"El Secreto de Papa"

Jürgen Banscherus, JB (2000).
Título original “Papasgeheimnis”.

Traducido de Alemám: Jesús Larriba.
ED. Barco de Vapor. Würzburg.

A partir de 9 años.



Jürgen Banscherus nació en Alemania en 1.949 y vive con su familia en la Cuenca del Ruhr. En la actualidad, el autor se dedica plenamente a la literatura, habiendo escrito muchos libros por los que ha obtenido numerosos premios en su país.
Os cuento a Jürgen Banscherus siempre le ha gustado leer. Según él cuenta de pequeño le gustaba irse a la cama con Tom Sawyer y se levantaba con Robinson Crusoe. Sin embargo nunca soño con ser escritor. En todo caso policia, conductor de taxi o vendedor como la mayoria de miembros de su familia. Pero a los 16 años de edad, se enamoró perdidamente de una francesa, lo que le hizo componer su primer poema.
Desde entonce él no ha dejado de escribir: cuentos, novelas, poemas, relatos, y por su puesto novelas infatiles. Y en ello sigue, ya que le gusta escribir para los niños, porque así es una manera de perpetuar su juventud y no crecer nunca, ya que reparte felicidad y sonrisas entre los niños.
Este libro es una novela humorística que narra la relación entrañable que existe entre un padre y un hijo que viven solos, ya que la madre de Pablito los abandono cuanto eran pequeño. Este hecho, hizo que la relación entre padre-hijo se fortaleciera mucho.Pero de pronto, Pablito nota raro a su padre no come como de costumbre, hace mucho ejercicio, y le preocupa mucho su aspecto físico ¿Qué secreto tendrá su padre? ¿Se habra enamorado? ¿Le sucederá algo a padre de pablito? ¿Cómo reaccionara Pablito?

28 dezembro, 2006

“Boa Noite…”


«Versos para os Pais lerem aos Filhos em Noites de Luar» de José Jorge Letria e ilustrações de André Letria; 2003; Porto: Ambar; destinado a crianças a partir dos seis anos.

José Jorge Letria nasceu em Cascais em 1951 e é conhecido como poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e autor de literatura infanto-juvenil. André Letria, nascido em Lisboa em 1973, é hoje um nome consolidado entre os ilustradores portugueses e a sua assinatura é garantia de qualidade. Funcionam muitas vezes em parceria escritor/ilustrador; pai/filho, obtendo sempre um óptimo resultado.
Abrir o livro «Versos para os Pais lerem aos Filhos em Noites de Luar» significa viajar até a um mundo envolvente, profundamente terno e repleto de emoções, um convite que a simples contemplação da capa e da contracapa acaba inevitavelmente por sugerir. A união dos dois textos – literário e icónico – faz deste livro uma verdadeira obra de arte. É um álbum muito cuidado que guarda em si, à espera de ser desvendado por pequenos e grandes, um valioso «tesouro dos afectos».
O objectivo da obra e a sua finalidade estão explícitos. É um livro de versos que pretende criar melhores laços entre familiares de todas as idades e transporta-los para o mundo da infância, através do gosto da leitura. A poesia e a ilustração servem, antes de tudo, como pretexto para celebrar uma intimidade ou uma familiaridade protegida pela noite, a caminho do sono e do sonho, um espaço partilhado por pais e filhos – contexto que o próprio título anuncia.
Além das palavras poéticas e das imagens plenas de sensibilidade que podemos encontrar nesta obra literária, estão também escondidos muitos seres maravilhosos – como bruxas, fadas, duendes, feiticeiras, unicórnios ou dragões, entre outros –, algumas viagens através de lugares longínquos ou exóticos – Tóquio ou uma ilha – e, ainda, a partir da literatura ou da leitura – pelas referências a «Alice no País das Maravilhas», ao «Pinóquio» e a «Histórias de um Segredo».
Mas estes versos, evidenciando marcas típicas das canções de embalar, como sejam a brevidade, os elementos repetitivos, o ritmo cadenciado ou o tom apelativo, não representam simplesmente uma forma de adormecer os mais novos. Na verdade, estes servem, ainda, como um passaporte para a interminável viagem do despertar face aos encantos das palavras, da leitura e, até, da escrita, porque «cada palavra que aprendes / tem o gosto da aventura / e a magia secreta / que há no acto da leitura».

“Qual Futebol, qual quê!!”


Histórias de ir à bola” de José Jorge Letria e ilustrações de Joana Quental; 2000; Porto: Ambar; destinado a crianças a partir dos três anos.

Os contos que podemos ler em “Histórias de ir à bola”, escritos por José Jorge Letria – nascido em Cascais em 1951 e conhecido como poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e autor de literatura infanto-juvenil – e ilustrados por Joana Quental – nascida em 1969, designer, ilustradora e docente – evidenciam um fundo temático comum – o Futebol.
Trata-se de um conjunto de nove textos narrativos, de índole caricatural e, até satírica, que exige o envolvimento do pequeno leitor desde a primeira página, já que a este se sugere que cole a sua fotografia do dia em que foi à bola.
Depois, em pequenos quadros narrativos, construídos a partir de um discurso muito acessível, repleto de vocábulos resgatados à gíria futebolística e com uma forte tonalidade cómica e, por vezes, a tocar o anedótico, as surpresas sucedem-se: um árbitro que engole um apito; um cão chamado Pelé que marca um golo; um torneio organizado por Anjos e Diabos; um pombo, solidário com o dono, que demonstra a sua razão; uma equipa muito pobre que, por essa razão, só tinha um campo com metade do comprimento para jogar; ou outra que não marcava golos, porque a rede da baliza tinha um buraco e, assim, perderia a única bola que possuía; ou, ainda, um célebre almoço entre uma Águia, um Leão e um Dragão, indignados com a forma abusiva como eram usados nos emblemas de três clubes.
São textos pouco extensos, onde predomina o humor da actualidade com a presença do maravilhoso (os animais conversam) e com óptima relação entre o texto literário e o icónico.
Quase todas as histórias possuem um fundo simultaneamente crítico e moralizante, cumprindo, assim, a ideia de que a rir também se aprende.
“Histórias de ir à bola” talvez seja um livro que, pela temática, pelo humor que dele emana e pelas multicoloridas e caricaturais ilustrações, cativará, sem dificuldades, pequenos e grandes, até porque fala de futebol, tema sempre actual e cativante.

Queres Voltar a Sonhar?


MILHÕES, Mafalda; GALINDRO, Paulo (2006). Chiu!
Ilustração de Paulo Galindro. Lisboa: O Bichinho de Conto.
ISBN-10: 972-99401-1-8
ISBN-13: 978-972-99401-1-8

     Quando um pai ou uma mãe contam uma história, o tempo pára, as palavras ganham forma e o conto serve de poiso ao sonho.
     Este álbum, destinado tanto às crianças como aos adultos, da autoria de Mafalda Milhões e Paulo Galindro, é o resultado de uma mistura de texto e cor, onde uma história real dá lugar à história imaginada. Mafalda Milhões é uma escritora e ilustradora de livros infantis que quis trazer para a capital “A Tradição dos Contadores de Histórias”. Tem como principal objectivo contar histórias a crianças que nunca abriram um livro. É também responsável pela introdução da Hora do Conto na maior parte das bibliotecas de Oeiras.
     Dentro deste livro branco mora um menino chamado João, que numa determinada noite deixou de sonhar tal como todos os outros meninos da sua escola. Após seguidas noites sem sonhar, parte em viagem juntamente com o pai à descoberta do “porquê” de ter deixado de sonhar. É então que entra a ficção: a galáxia do Grand’ÓÓ, ovelhas “Que-saltam-a-cerca-e-chamam-o-Sono”, os Fazedores-de-Sonhos tal como muitos outros elementos do mundo imaginário.
     É uma obra bastante criativa e ousada, que contém também rimas, jogos de palavras e com o seu sentido cómico, onde o texto se funde com a ilustração. Pois a grafia do texto faz parte do conjunto das ilustrações construindo assim formas engraçadas, esquemas, por vezes colorido, outras vezes demonstrado o seu próprio significado. É bem visível a existência de uma sintonia a nível gráfico entre o texto e a ilustração.
     A ilustração, ao encargo de Paulo Galindro, é suficientemente interessante e apelativa com as suas cores fortes ao ponto de atrair qualquer pessoa. É uma ilustração fiel ao texto, mas que vai também para além deste, com páginas onde a imagem por si só diz tudo. Há também uma curiosidade que acho interessante revelar, que é o facto de o co-autor e também ilustrador Paulo Galindro se inspirar na sua própria família para a realização das personagens deste livro. É o exemplo do João, seu próprio filho; do Pai, ele mesmo; da Mãe, sua esposa; e da cadela Ruth, sua própria cadela também com um olho azul e o outro castanho.
     Este é um livro que vale mesmo a pena ler, que demonstra, subtilmente, o vazio existente na vida dos adultos, e a necessidade de estes voltarem a sonhar.
     Nesta obra, as ovelhas contam histórias, os pais são os primeiros a levantar da cama quando os filhos dão sinal de alarme e as mães são capazes de adormecer gigantes.

Há Males Que Vêm Para o Bem!


SOARES, Luísa Ducla (2005). A Princesa da Chuva.
Ilustração de Fátima Afonso. Porto: Civilização.
ISBN: 972-26-2260-9
A partir dos 6 anos.

Luísa Ducla Soares nasceu em Lisboa a 20 de Julho de 1939, onde se licenciou em Filologia Germânica. Recebeu o "Prémio Calouste Gulbenkian para o melhor livro de literatura infantil no biénio 1984-1985" e o "Grande Prémio Calouste Gulbenkian" pelo conjunto da sua obra em 1996. Publicou já, até à data, 45 obras infanto-juvenis.
«“Não há bela sem senão” diz a antiga expressão! Mas o que acontece quando não há azar que a coragem não enfrente? Será possível transformar uma maldição em bênção?» O breve texto que acabámos de citar encontra-se na contracapa de A Princesa da Chuva, servindo de apresentação e de convite à leitura deste novo conto.
Ilustrado por Fátima Afonso, este livro conta a história de Princelinda, «a princesa do Reino dos Reinetas» (Soares, 2005: 3), que vê a sua vida fadada desde o nascimento. Nesta obra a ilustração acompanha o texto com a função de o exemplificar/explicar. Ao mesmo apela à criança para uma leitura mais interessante e divertida com o seu toque humorístico. Num discurso cativante, do qual não se encontram ausentes os jogos fonéticos, as repetições, as metáforas e os diálogos muito vivos entre as personagens, a narrativa vai envolvendo o leitor, que acompanha as peripécias de uma pequena princesa cujo destino é marcado por um imprevisto e pelo insólito génio de uma fada, que a fada de Princesa da Chuva. Em qualquer sítio que a Princesa estivesse, havia de chover. Isto porque a pequena princesa fez chichi no colo da fada. Mas esta, ao contrário das suas congéneres tradicionais, age sobre o próprio destino e transforma a sua maldição numa dádiva. Parte para fazer o bem, descobre a sua vocação operária e finta o próprio destino.
A narrativa desenvolve-se, deste modo, a partir de uma situação de desequilíbrio, de um acontecimento aparentemente negativo, que, depois, acaba por se transformar num dado muito valioso.
Com todo o delicioso fino humor que caracteriza a sua escrita, Luísa Ducla Soares consegue aliar tradição e inovação, trazendo aos nossos miúdos o mundo maravilhoso de príncipes e de princesas, pintado com traços sociais que estes reconhecem do seu dia a dia.





Para Além do Medo

O carocho-pirilampo que tinha medo de voar
Conto de Mafalda Veiga, Ilustrações de Joana Quental
2005, 1ª edição
Colecção: O tempo dos mais novos
ISBN: 989-552-175-8


O carocho-pirilampo que tinha medo de voar é o título da estreia de Mafalda Veiga na literatura. A publicação deste seu primeiro livro está a cargo da Quasi Edições que, em parceria com o Jornal de Notícias, lançou uma fabulosa colecção intitulada Tempo dos Mais Novos. A ilustração foi elaborada com toda a graça que caracteriza Joana Quental e vem realçar a sua capacidade para preencher os espaços em branco do conto com imagens.
Este conto tem como principal personagem um menino chamado João que, com a sua imaginação e sentido de oportunidade, cria um mundo mágico dentro do seu próprio mundo para fugir ao escuro do seu quarto, ou seja, sempre que fechava os olhos tinha acesso a um novo mundo imaginário, a uma nova dimensão do escuro, onde dá vida à sua personagem fictícia com o seu amigo pirilampo, ambos carregados de belas caracterizações. O objectivo do menino ficou claro quando compreendeu que o seu sonho podia ser controlado por ele, ajudando dessa forma os seus amigos imaginários a superarem o medo e, sem dar conta, acaba por vencer no seu próprio mundo, acordando feliz e capaz.
Ao folhear a mágica história é possível compreender que existe uma intenção de captar a atenção da criança através do imaginário e maravilhoso mundo não inteligível dos sonhos, com uma elevada carga afectiva que despoleta emoções de apetência e capacidade para entender e singrar num mundo que, de certa forma, foi feito para os adultos. O medo do escuro, característico das crianças, é moldado e refeito para que estes, em vez de se encolherem e se sentirem pequenos, consigam construir outra realidade, mesmo que esta seja feita dentro dos seus próprios mundos, nas suas cabeças, tal como acontece com Peter Pan na Terra do Nunca.
Ler o conto faz-nos querer sonhar, talvez a verdadeira intenção seja a de acabar com o mito dos monstros e pesadelos que, de certa forma, são imagens retorcidas do nosso subconsciente sobre o mundo real, obtendo, assim, capacidade de controlo sobre eles e por consequência, conseguindo superar os problemas.

Giotto - A Lenda de Encontro com a Realidade

Um Rapaz Chamado Giotto
Guarnieri, Paolo; Landmann, Bimba
2003, 2.ª edição

Colecção: Álbuns
ISBN: 972-24-1049-0
Tema: Literatura Infantil, Pintura
Código: 58011


Um rapaz chamado Giotto é, de facto, um livro exuberante que, de um modo extraordinário, aproveitando com sensibilidade e inteligência cada pormenor, a dupla de italianos enredou texto e imagem numa luxuosa obra literária que inventa sonhos e infância para Giotto di Bondone (1267-1337), o revolucionário pintor florentino.
A história apresenta um pequeno pastorinho descontente com a vida que leva, já que vê-se forçado a pastar um rebanho deixando para trás todos os seus desejos e aspirações de fazer o que realmente gosta, mas a sorte sorri-lhe quando encontra um mestre pintor: Cimabue que, desde cedo, reconhece a capacidade de Giotto e lhe revela o mundo fantástico da arte da pintura. Desta forma, Giotto (a lenda de encontro com a realidade) descobre a sua vocação, tornando-se um dos pintores mais soberbos de todos os tempos.
A arte de reinventar e inovar uma personagem importante da história da pintura, dando-lhe uma imponência absoluta, fazendo com que os sonhos, a perspectiva da vida triste e sem graça dê lugar a um final feliz e bem sucedido, escrito para uma criança de forma simples, limpa e sucinta, é contudo esbatida pela grandiosidade das ilustrações de Bimba Landmann.
São sobretudo as imagens que falam por si, é difícil não nos hipnotizarmos pelas ilustrações carregadas de simbolismo histórico e beleza estética, o texto fluído interagindo com as imagens constroem inevitavelmente um ponto de partida para a criação de hábitos de leitura tanto da criança pequena como do adulto que se esqueceu da beleza de entrar numa história, participando activamente com a sua imaginação.
Mesmo sendo de carácter lúdico, este conto consegue contar desejos e talentos, falar de pintura e representar uma época, estimulando uma verdadeira competência literária do leitor, criando um saber cultural histórico, auxiliado pela lenda fantástica e libertadora, tornando o trabalho fruto do prazer e não da obrigação.

27 dezembro, 2006

Quando chega o João Pestana!



LETRIA, José Jorge (1999) Versos de fazer ó-ó, ilustrações de André Letria, Lisboa: Terramar, ISBN: 972-710-248-4


O livro em análise, Versos de fazer ó-ó, é do autor José Jorge Letria, escritor português nascido em Cascais no ano de 1951. Estudou Direito e História, mas obteve uma pós-graduação em Jornalismo Internacional. Jornalista desde 1970, foi redactor e editor de vários jornais diários e não-diários, na rádio e na televisão. Iniciou a sua actividade literária no suplemento “Juvenil” do Diário de Lisboa. Autor de poesia, ficção e teatro. Na área infanto-juvenil publicou três dezenas de títulos, tendo obtido diversos prémios.

As ilustrações, que respeitam, de modo agradável, a dimensão mágica do texto em verso são do ilustrador André Letria, ganhando um prémio nacional de ilustração em 1999. Assim, parece evidente a intenção de despoletar, pela combinação palavras-ilustrações, um fascínio quase hipnótico, uma sensação ilusória de embalo para adormecer. As palavras estão articuladas com os desenhos, desenvolvendo-se ambos desde um “estado de olhos bem abertos”, como surgem na capa, até um conclusivo estado de olhos bem adormecidos ou fechados, como se encontram pintados na contracapa do livro.

Ao longo da leitura, saltam à vista “uma fada azul-marinho”, gnomos, fadas e anões, um rei, e um Faraó. Do ambiente propício ao sono, ao devaneio e ao sonho participam também, de forma determinante, os diversos carneirinhos, desenhados sobre “um fundo azul-nocturno”, que podem ser encarados como uma metáfora da tentativa de superação de uma insónia ou uma forma eficaz de adormecer. Alem disso, desta aventura, repleta de possíveis e imaginários, fazem também parte o “velho João Pestana”, que vem “em pezinhos de lã”, “um nariz de Pinóquio”, “papões e outros medos” e “a mais bela cinderela”.

José Letria joga, de forma sensível, com inúmeros elementos, objectos e gestos associados ao sono, congregando-os original e imaginativamente.

O importante é que este álbum, livro memorável, feito de uma escrita vivaz, melodiosa e embaladora, faça parte do sono e do sonho de muitos pequenos leitores.

Deste modo, a minha escolha deveu-se, essencialmente às ilustrações fantásticas, que remetem ao imaginário da criança e ao estímulo a uma maior adesão à poesia.


“A Magia da simplicidade”

A Bruxa Esbrenhuxa
Margarida Castel- Branco (autora)
Carla Antunes (ilustradora)
1º Edição, Editorial Verbo, Abril de 2004
ISBN: 972-22-2317-8



Recentemente editado, o álbum narrativo A Bruxa Esbrenhuxa, retrata-nos, de forma humorística e parodicamente desconstrutora, o mundo de uma bruxa.
Numa ida ao cabeleireiro, com o seu gato Fagotes, a Bruxa Esbrenhuxa fica a saber que o Rei vai organizar um baile em honra do Príncipe Lindo, que tem andado muito triste. “- Saiba a Doutora Bruxa, que veio no jornal que o Príncipe Lindo, o Príncipe mais formoso deste Mundo, anda melancólico e desinteressado de tudo o que o rodeia.
- Então, o nosso Rei, pai das princesas, resolveu dar um baile esta noite em honra do Príncipe.” (Castel- Branco, 2004:s/p).
Com o decorrer do dia, as duas princesas mais velhas foram aparecendo na casa da bruxa, uma de cada vez, a fim de ficarem mais belas para poderem casar com o Príncipe. Ao final do dia, apareceu a última das irmãs, contudo esta não pediu nada para ela, mas sim para o Príncipe Lindo. Com muitas peripécias, a bruxa conseguiu concretizar o desejo da Princesa, e o Príncipe voltou a sorrir.
A ilustração é de Carla Antunes, nascida em Lisboa, em 1974. Exerce esta profissão desde 1997; retrata e completa a narrativa da autora Margarida Castel-Branco, nascida em Lisboa, a 19 de Outubro de 1931. Aos 12 anos entrou para a Escola de Artes Decorativas António Arroio. Em 1964 regressou à Escola António Arroio, mas como professora de História de Arte Decorativa e Geometria Descritiva. Actualmente é professora de Desenho na Universidade Nova de Lisboa no curso de Conservação e Restauro.
Trata-se de uma obra que, evidenciando claras marcas de humor, parece ter como destinatário preferencial o público infantil, visto possuir elementos animados, que o leva a entrar no mundo da fantasia e do irreal.

“A pobre Rena Rodolfa”

O Pai Natal Preguiçoso e a Rena Rodolfa
Ana Saldanha (autora)
Alain Cordel (ilustradora)
1º Edição, Caminho, Outubro de 2004
ISBN: 972-21-1653-3




É a última obra editada pela autora Ana Saldanha, nascida no Porto, onde se licenciou em Línguas e Literatura Moderna (Português e Inglês). Anos depois doutorou-se na Universidade de Glasgow com uma tese sobre Rudyard Kipling e a sua obra infantil. É conhecida como sendo das melhores escritoras portuguesas para jovens. O ilustrador desta obra, Alain Corbel, nasceu na Bretanha (França) e reside desde há alguns anos em Portugal.
Esta nova narrativa retrata a vida agitada do Pai Natal e da sua inseparável amiga, a rena Rodolfa, nos últimos vinte e quatro dias antes do Natal. “ Faltam vinte e quatro dias para o Natal.” (Saldanha, 2004:s/p). Ao longo do conto ficamos a conhecer uma nova faceta do surpreendente Pai Natal. Este é caracterizado como sendo um homem preguiçoso e descontraído; o que o salva é poder contar com a sua amiga, a Rena Rodolfa, que trata de todos os preparativos até ao último pormenor. “Nem quatro dias! Três e meio. E o Pai Natal, em vez de ler as cartas e apartar os presentes, põe-se a ver televisão e a jogar no computador e a dormir sonecas.” (Saldanha, 2004:s/p).
Além de sublinhar os aspectos mais importantes do texto, é também de salientar o trabalho do ilustrador, já que cada imagem corresponde pormenorizadamente ao texto retratado.
Trata-se de uma obra que parece possuir como destinatários preferenciais não só a criança, mas também o mediador adulto, uma vez que este é frequentemente o adjuvante principal na relação da criança com o livro. Deste modo, a criança pode entrar no Mundo do Pai Natal e em todo o seu encanto.

Uma Bruxa diferente


Marlow, Layn (2005) Carlota Barbosa a bruxa medrosa. Ilustração de Joelle Dreidemy. Bélgica: Dinalivro. ISBN: 972-576-362-9


Este livro de Layn Marlow conta a história de uma bruxa chamada Carlota Barbosa, que «não era uma bruxa igual às outras», era uma bruxa que «tremia ao ver sapos. À noite, o escuro punha-lhe os nervos em franja e, se encontrasse uma aranha, saltava com medo». Ela tinha um gato chamado Espinosa que era gozado pela irmandade dos gatos pela dona que tinha. Então ele decide abandoná-la e perder-se no mar. Quando Barbosa repara que Espinosa tinha ido embora, vai à sua procura, mas quando o encontra no mar aparece uma baleia gigante. Barbosa, perdendo os seus medos, salva o seu gato e leva-o para casa, onde o trata carinhosamente. A partir de então nunca mais teve medo de nada.
Neste sentido, nesta obra é quase impossível o leitor não esboçar um sorriso quando é confrontado com esta desconstrução da imagem da bruxa através da paródia. Esta desconstrução detecta-se desde a sua capa, particularmente do título, que denota uma certa sonoridade, até ao fim do livro. Esta obra obriga o leitor a reorganizar o seu horizonte de expectativas, uma vez que nos revela, parodicamente, uma bruxa medrosa, sensível, preocupada com os outros, fiel amiga e carinhosa. Mas nem tudo é desconstrução, ainda existem marcas que possibilitam ao leitor activar certos quadros de referência intertextuais, levando-o a considerá-la, mesmo assim, uma bruxa. O facto de usar um chapéu pontiagudo, possuir uma vassoura mágica e usar poções mágicas.
Trata-se, assim, de um conto que, através do humor desconstrutor e paródico, leva os leitores a «questionarem determinadas visões do mundo, a activar os hipotextos respectivos, a expandirem a sua competência enciclopédica e, por fim, permite-lhes adquirir ferramentas para leituras subquentes de outros textos». Esta obra não é a única onde se verifica esta desconstrução paródica da imagem da bruxa, a qual também está presente, por exemplo, em obras de Nicha Alvim ou na obra a A vassoura mágica de Luísa Ducla Soares.
Ao mesmo tempo, verificamos que nesta obra existe uma grande colaboração e complementaridade entre o texto verbal e o texto icónico para construir o significado da história, de tal maneira que para contá-la temos que recorrer tanto ao que dizem as palavras como ao que dizem as ilustrações. No fundo, as imagens e a sua organização gráfica não estão apenas a confirmar e ilustrar o que diz o texto. Dão-nos informações, que, não sendo fundamentais para a compreensão da história, nos desafiam a jogar com os seus significados num palco mais alargado de possibilidades de interpretação. Por exemplo, o tamanho e o tipo de letra não é sempre igual, existem palavras integradas no texto icónico que não estão no verbal. Por outro lado, só tomamos conhecimento das características físicas da bruxa através do texto icónico, pois o texto verbal só faz alusão às suas características psicológicas. Deste modo, à luz das comunidades interpretativas de que fazemos parte, verificamos, mais uma vez, que esta parece ser uma bruxa diferente da imagem mental estereotipada que formamos quando falamos ou ouvimos falar de bruxas, pois veste uma roupa simples e com cores vivas.
Também, de uma forma indirecta, esta personagem chama a atenção para a utilidade do livro. O facto de a bruxa, através dos livros, ter resolvido a situação de saúde do Espinosa mostra como estes constituem arquivos do saber e que quem os lê resolve mais rapidamente os seus problemas.
Este livro permite-nos, de certa forma, detectar uma certa moral: que os medos podem-nos dificultar muito a vida e colocar-nos em situações complicadas, mas que existem momentos decisivos em que o medo é ultrapassado por valores mais “altos”, como, amizade.
Por fim, observa-se que este conto não é uma caixa silenciosa, fechada sobre si mesma, totalmente surda às vozes de outros textos (Silva, 2003: 386). Encontramos nele, com efeito, uma alusão a um episódio do conto do Pinóquio. Esta situação pode ser inferida na parte final da história, no momento que a bruxa Barbosa encontra Espinosa no mar e aparece uma baleia gigante que afunda o barco e coloca Espinosa em risco de ser levado pelas correntes marítimas. O mesmo se verifica, de modo semelhante, no conto do Pinóquio.

História das histórias


Letria, José Jorge (2004). Ler doce ler. Ilustração de Rui Castro. Lisboa: Terramar.
ISBN: 972-710-383-9



Ler doce ler é uma obra metaficcional de José Letria, que é o escritor português mais premiado da actualidade. Letria nasceu em Cascais, a 8 de Junho de 1951 e, como escritor, distinguiu-se na poesia, no conto, no teatro e, sobretudo, na literatura para a infância e juventude.
A obra é ilustrada por Rui Castro, um jovem que despertou para a poesia através das sessões de «Poesia Vadia» no Café com Letras.
Neste livro, a ficção reflecte sobre si própria e sobre os mecanismos que a potenciam. Dá-nos a conhecer como os livros são compostos, quais os seus gostos, os seus medos, a sua “idade”, o que é ser escritor e o que ele faz, entre outras coisas que serviram para que o leitor conheça e aprofunde mais o seu saber sobre o verdadeiro mundo dos livros.
Na verdade, esta obra ensina-nos algo acerca da literatura e do seu funcionamento. Ajuda ao mesmo tempo os leitores a construírem quadros de referência e a estabelecer protocolos de leitura. Ou seja, mostra-nos que aquilo que o texto literário diz não é necessariamente verdade nem necessariamente mentira, que é difícil separar entre realidade e ficção. Também nos demonstra que toda a informação apresentada no livro, desde os paratextos, incluindo o texto verbal e o texto icónico, não é um apêndice do texto verbal mas algo relevante que o completa e ajuda o leitor a encontrar os vários sentidos, significados e interpretações que o texto potencia. Neste sentido, mostra-nos que, muitas vezes, os próprios paratextos condicionam o leitor na escolha de um livro e o levam a ler ou não esse livro.
Por outro lado, esta obra demonstra que a vida da obra literária é inconcebível sem a participação activa dos leitores. Os livros querem que o leitor se “entregue” a eles, faça parte da sua história, dialogue com eles, tente dar respostas às várias questões, que o próprio texto levanta, e seja capaz de preencher os “espaços em branco” que o próprio texto cria. Ou seja que se mostre como um leitor activo e interveniente, cujos comportamentos interpretativos não passam por uma mera leitura passiva, “gastronómica” ou inocente, mas uma leitura que procura as respostas em todos os policódigos do texto. Os livros dão-se completamente aos seus leitores, dirigem-se directamente a eles, vivem em função dos leitores e sem eles não têm utilidade.
Por outro lado, esta obra destabiliza as expectativas do leitor, cria um certo estranhamento quando diz, por exemplo, que «os livros vêm do tempo em que não havia livros. O livro em si são as palavras, as histórias, as emoções, as vivências, a partilha da memória colectiva. Deste modo, para existir um livro não é preciso papel ou caneta, o que interessa é que esteja presente, a imaginação e a criatividade.
Podemos concluir que esta obra permite exercitar uma função lúdica, na medida em que envolve o leitor no jogo com as convenções do texto, mostrando-lhe como funcionam as histórias através da descoberta dos mecanismos que nelas operam. Mas também uma função didáctica porque demanda a implicação do leitor na produção de sentido da narração (Meck, 1999), possibilitando uma aprendizagem literácita, visto que se apresenta como um jogo relacionado com a aquisição de competências linguísticas e cognitivas (Mackey, 1990). E por fim, porque possui um potencial instrutivo, envolvendo os leitores na produção de significados textuais (Hutchen, 1980).

Descoberta da verdadeira vocação

MAGALHÃES, Ana Maria, ALÇADA, Isabel (2001): O crocodilo Nini, ilustrações de Nuno Feijão, Lisboa: Caminho.
O livro infantil, o crocodilo Nini, é da autoria de duas consideradas autoras de obras infanto-juvenis, são elas Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. A primeira, nascida em Lisboa a 14 de Abril de 1946, licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo acumulado, durante os três primeiros anos, a frequência do curso superior de Psicologia aplicada no ISPA. Estreou-se como escritora de livros infanto-juvenis em parceria com Isabel Alçada em 1982.
A segunda, Isabel Alçada, nasceu em Lisboa a 29 de Maio de 1950. Licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa e fez o mestrado em Ciências da Educação nos Estados Unidos da América, Universidade de Bóston.
O álbum em análise conta a breve história de um pequeno crocodilo chamado Nini que aporta um dia a um cais do rio Tejo, num barco carregado com animais selvagens, destinados ao Jardim Zoológico de Lisboa. O pequeno sáurio, embora tenha gostado muito das casas, das avenidas, dos jardins que foi avistando ao longo da viagem até Sete Rios, ao chegar ao seu destino sentiu-se deveras infeliz, uma vez que tanto os seus camaradas de cativeiro como os visitantes do Zoo, ou não lhe ligavam importância ou tinha medo dele. Até que um belo dia apareceram dois rapazinhos, um dos quais declarou que adorava ter medo de crocodilos e por isso o ia visitar. A partir daí o pequeno Nini, tomando consciência de si próprio e das suas características, passou a aceitar-se tal como era.
O livro apresenta na última página uma frase que pode indiciar uma certa moral: “E quem cumpre bem o papel que lhe compete neste mundo torna-se um verdadeiro herói”, o que apela para o bom comportamento da criança e também a consciencializa para o papel dos animais, mostrando que estes são seres que também podem exprimir sentimentos.
Este é um álbum recomendável para os mais pequenos que se iniciam na leitura, tanto mais que as ilustrações, da autoria de Nuno Feijão, são deveras apelativas.

23 dezembro, 2006

Sonhos de natal, sonhos de ontem e de hoje


Apenas porque quero desejar a todos um feliz Natal e porque tenho saudade de ver o brilho nos olhos das crianças. Sejam felizes e façam a todos felizes, sobretudo aqueles que fazem o nosso sorriso e que esperam, ansiosos, pelo Pai-Natal. Nós, os mais velhos, ainda podemos esperar pelo Menino Jesus!






António Mota (texto)
Júlio Vanzeler (Coordenação e Ilustração)
Gailivro Editores, 2003
A partir dos seis anos


A dedicatória à mãe é de uma ternura e de um apego que só o amor e a saudade podem ditar. Abrir o livro Sonhos de Natal (Mota, 2003) é sentir o passado, o adro da igreja cheio de gente, e ouvir o crepitar da lenha na lareira, onde cozem as batatas, o bacalhau e a tronchuda, lá da horta.
O «Menino Jesus», colocado na manjedoura de forma solene pelo senhor Afonso (Cf., 2003: 40), relembra-me o tempo em que a minha avó contava as histórias de Natal enquanto o Menino Jesus era esperado por todos nós e vinha, embrulhado em paninhos, ao colo da minha mãe para ser colocado nas palhinhas ao tocar da meia-noite.
A saudade perdura ao longo das páginas e a memória da terra, inscrita num discurso que dita a simplicidade estético-discursiva do autor, coloca-nos a par com um passado tornado presente: A Ana, que sonhava com «uma boneca muito grande» (2003: 26) é, hoje, uma mãe esmerada; a Joana que, para além de querer uma boneca, também queria «um trem de cozinha» (2003: 26) é «cozinheira num restaurante» (2003: 27); o Pedro que, ainda menino, queria «um carro de corrida e uma carroça puxada por um burrinho», é taxista lá na terra; o Ricardo que queria «um avião e um barco» (2003: 26), trabalha «no aeroporto de Lisboa» (2003: 28); e o Manuel, que só desejava «Livros que tivessem muitas figuras coloridas e contassem histórias com aventuras extraordinárias e uma gravata vermelha» (2003: 26), transformou-se no homem que nos presenteou com este maravilhoso livro e, que em momentos mais importantes ainda usa, com certeza, a desejada gravata vermelha.
O percurso de cada um de nós poderia inscrever-se nestas páginas e misturar-se devagar com os sentimentos e as sensações que acontecem quando deixamos fluir o nosso pensamento ao sabor da leitura empreendida.
Que saudade me fica daqueles brinquedos desejados há meses e que eu desembrulhava, ávida pelo desejo antecipado da descoberta. Que saudade me fica daquele Natal em que a minha mãe, depois de pousar o menino a sorrir, nos deixou abrir os embrulhos coloridos. Jamais me esquecerei daquela caixa alta e esguia que se destacava entre as duas outras prendas e cujo laço não se desfazia. Sei que o abri de forma solene, com o coração aos saltos. Lá dentro, amarrada por uns elásticos toscos, estava a minha primeira Barbie, com uns cabelos maravilhosamente dourados, que encurtavam ou cresciam consoante eu quisesse (bastava fazer rodar uma alavanca que encaixava na barriga daquela linda mulher). Tinham-na feito vir de França por um tio. Idolatrei-a.
Fi-la princesa, professora, médica, enfermeira, namorada (mais tarde esse mesmo tio mandou-me o Ken) e, claro, casei-a e tornei-a mãe. Nunca mais me esquecerei da minha primeira Barbie que foi durante muito tempo a minha companheira de aventuras nesta aventura que é o próprio crescimento!
O cheiro a canela paira hoje pela casa. Há rabanadas, sonhos de Natal, aletria e leite-creme. O Natal é mágico, pois fala de família, de amor, de ternura, de pais e de filhos, da casa onde nascemos e de todos aqueles que amamos. Sonhos de Natal é, pois um pequeno grande livro que fala de todos os que ainda querem viver o Natal!

Gisela Silva

A maior flor do Mundo por Vanessa Gonçalves

Saramago, José (2001). A Maior Flor do Mundo. Lisboa: Caminho. Ilustração: Caetano, João. ISBN: 9722114379 / 972-21-1437-9. EAN: 9789722114370.
Esta obra é direccionada principalmente aos leitores dos 6 aos 10 anos de idade. O autor permite aos pequenos leitores embarcar na aventura do “menino herói” ao longo de toda a narração. Os leitores são chamados para uma divertida brincadeira e podem aperceber-se que a literatura é um lugar do impossível, do sonho e da utopia, pois o menino desta historia deu vida a uma flor e fez com que ela crescesse e se tornasse “A Maior Flor do Mundo” e, como nos diz o autor, “é essa a moral da historia”.
Por outro lado, José Saramago quebra o clima da “mentira” e diz-nos que quer escrever um livro infantil, mas apesar de ter a história imaginada há muito tempo faltam-lhe o engenho e a arte para a escrever. Assim, Saramago fingiu que não sabia contar histórias infantis, embora a acabasse por contar.
É um conto dominado pela fantasia e pelo maravilhoso, possui uma linguagem acessível e assume-se como reflexão sobre a infância e a criança. É também importante referir o destaque dado à ilustração como elemento crucial e indispensável à narrativa, bem como a tentativa de criação de um diálogo aberto e franco com o leitor.
A história desta obra resume-se na aventura de um menino que sai da sua aldeia, atravessa o mundo, chega a Marte e aí encontra uma flor murcha. Decide então ajudá-la, dando-lhe de beber e acaba por se tornar num herói porque fez com que a flor crescesse tanto que ficou “a maior flor do mundo”, realizando assim algo maior que o seu próprio tamanho.
A nível de intertextualidade, esta obra remete-nos para a imaginação e para o mundo do faz-de-conta, essencial e importante na vida e desenvolvimento das crianças. Deste modo, podemos concluir que este texto estabelece relações de intertextualidade com a maioria dos textos de potencial recepção leitora infantil.
Embora seja um conto infantil, A Maior Flor do Mundo é uma história que pode, por vezes, provocar algumas dificuldades aos leitores mais pequenos, devido ao vocabulário complexo usado no conto. O narrador parece fundir-se com o autor para fazer saber que tem consciência da simplicidade linguística necessária para as histórias infantis “ As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples…” Esta ligação entre a narração da história do “menino herói” e a participação directa do narrador pode eventualmente ser fonte de alguma dificuldade pelo facto de se tornar numa sequência de textos intercalados que pode não ser totalmente compreensível face à idade a que esta obra está destinada. Isto porque a compreensão depende da competência do receptor (leitor), nomeadamente num plano sincrónico, pois este define-se como a variação da competência de cada receptor consoante o seu estatuto social e cultural, a sua visão do mundo, a sua ideologia e faixa etária.
Os elementos paratextuais presentes, como, o título e o texto icónico remetem-nos para a imaginação e ajudam a despertar no leitor a curiosidade para a leitura da obra.

22 dezembro, 2006

Incentivo à leitura

MANJUSHA PAWAGI nasceu na Índia, mas passou a infância e a juventude no Canadá, onde ainda habita. Vive em Toronto, cidade em que se dedica, enquanto advogada, à protecção de crianças. Este é o seu primeiro livro.
LEANNE FRANSON, ilustradora deste livro, foi sempre uma leitora entusiasta, apaixonada não só pelos livros em geral mas também pelo desenho e pela ilustração.
“EU DETESTO LIVROS!”. Era desta forma que Mina respondia sempre que alguém lhe falava em livros. O gato de Mina era como ela, também não gostava nada de livros, e como a sua cor está a anunciar, algo de terrível vai acontecer. Ao contrário destas duas personagens, os pais de Mina eram uns grandes entusiastas da leitura. Tinham o gosto de ler e, para desespero destas duas personagens, enchiam de livros toda a casa. Pior ainda: liam livros ao pequeno-almoço, ao almoço e ao jantar. Mina estava farta de toda aquela situação. Mas, um certo dia, algo de verdadeiramente espantoso aconteceu. Foi uma autêntica confusão na casa de Mina e que transformou toda a sua vida. Também ela começou a ganhar o gosto pela leitura e, a partir daí, nunca mais deixou de ler.
Neste livro há uma aproximação muito grande entre o texto icónico e o texto verbal, sendo possível perceber a história a partir das imagens.
Este é um livro muito interessante para ser lido e mostrado às crianças, pois dá-lhes a entender a importância da leitura. Desde cedo as crianças não criam “amizades” com os livros, o que as leva, depois de crescidas, a não gostar de ler. Este livro, se fosse trabalhado com crianças, seria muito interessante, pois elas perceberiam que os livros não contêm só palavras, mas também um conjunto de outras coisas que os vai tornar muito mais motivantes e prazerosos.
Na minha opinião, este é um livro muito bom e que se poderia ler tanto nos infantários como nas escolas primárias, para desenvolver nas crianças o gosto e o prazer pela leitura.
A história A menina que detestava livros está inserida no Plano Nacional de Leitura e é recomendado para todos aqueles que não gostam de ler…


PAWAGI, Manjusha (2005). A menina que detestava livros. Ilustrações de Leanne Franson. Lisboa: Terramar
ISBN: 972–710–398–7

Uma pitada de Realidade e Imaginário


Título: A menina que sorria a dormir
Autoria:Isabel Zambujal
Ilustrações: Helena Nogueira
Cruz Quebrada: Oficina do Livro, 2005 (1.ª edição)
Colecção da Fundação Gil


Esta é uma história para se ler de olhos fechados.
Assim começa a narrativa sobre uma menina chamada Glória, que precisava de ouvir histórias enquanto dormia. Por isso, a sua família e amigos ajudavam, um de cada vez, no sono da menina, contando um género literário diferente.
É uma história carregada de humor com uma marca irreverente, em que a autora reflecte um estilo inovador no começo e ao longo de toda a narração. Inicia-se sem a expressão hipercodificada «Era uma vez…» e contém elementos do código linguístico da criança.
Isabel Zambujal nasceu em Lisboa, em 1965, trabalhou como copywriter em várias agências de publicidade. Publicou a colecção "Um Saltinho" e ainda as Histórias do Panda, com as ilustrações de Helena Nogueira.
Em termos genéricos, esta história caracteriza-se pela presença da realidade e fantasia e abordagem de vários géneros literários que, ao virar da página, o leitor vai reencontrando. A menina que sorria a dormir facilita uma leitura projectiva do eu-leitor, ao permitir-lhe reencontrar personagens próximas do universo da criança. Toda a narrativa é acompanhada por um importante texto icónico que a complementa. Esta história exibe uma colectânea de vários géneros literários numa combinatória de elementos temáticos que se actualizam na organização de todos os textos. O desenlace deste macrotexto tem lugar através do maravilhoso que convida o leitor a um exercício da imaginação.
Este livro faz parte da colecção "Fundação Gil", que inclui também outros autores como José Jorge Letria ou Catarina Furtado.