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25 dezembro, 2007

Territórios Identitários Europeus

Muitas vezes, os textos ligam-se simbióticamente com o mundo empírico histórico factual e são mais permeáveis às realidades sociais e extratextuais.No livro “O mundo em que vivi” de Ilse Lose, escritora nascida na Alemanha, que por força da sua ascendência judia teve que fugir do seu país e refugiar-se em Portugal, acabando por adquirir a nacionalidade portuguesa, neste livro, dizíamos nós a assumpção de um território identitário remete para Berlin dos anos 30, época pouco gloriosa da Alemanha.À medida que o texto nos conduz da infância à idade adulta da personagem Rose, de uma Alemanha saída da 1ª guerra mundial até ao avolumar das crises de inflação, desemprego e vitória dos nazistas, há uma felicíssima viagem simbólica que é dada pela associação da aproximação de uma trovoada à catástrofe iminente que iria acontecer:

"(…) ao evocar-nos assim, de coração oprimido, não posso deixar de pensar nas grandes tempestades que abalavam a minha terra. Era como se alguém começasse a medir a distância da trovoada, o tempo entre o relâmpago e o trovão. Cada quilómetro significava um ano. (…) Um estrondo medonho faz estremecer a terra, e uma voz cheia de horror exclama: Agora está mesmo por cima de nós!”
Lose, 1997
Neste contexto, a reprodução de características do mundo empírico-histórico factual “ (…) serves to highlight purposes, intentions, and aims that are decidedly not part of the realities reproduced” como diz Iser, (1997.3), e permite, também converter essa mesma realidade “(…) into a sign for something other than themselves.”, que neste caso é a construção da realidade europeia que teve as suas origens depois da terrível experiência do holocausto, constituindo a sua consolidação, que neste texto se antevê, num desafio para todos os países, um apelo à tolerância activa e à solidariedade responsável.

23 dezembro, 2007

Versos com Gatos


Autor: José Jorge Letria
Ilustrador: Octavia Monaco
Editora: Livros Horizonte
Ano: 2005


Há livros que nos pegam ao colo com as asas do encantamento. E é esta descolagem que nos faz observar tudo o que contêm para além do comummente dito à luz do literário dizer ou das recorrentes observações psicanalíticas sempre que de animais se fala nos textos. Estes Gatos que se exibem em cada linha poética são detentores do melhor que tem a humanidade e, na linguagem plástica que os acompanha no cenário de cada página, provocam no leitor momentos de grande fruição.
Desfilando em quadras convidativas a uma leitura rápida, os símbolos que ostentam rompem com a métrica matemática de cada verso. O sujeito poético sabe-o. É ele que constrói a máscara que antropormofiza cada Gato enfabulado, convocando à reflexão dos leitores a metáfora da consciencialização do mundo povoado, onde o Ser se constrói com os rostos de “mil gatos”(Letria, 2005).
É em certos instantes de trocadilho poético que encontramos o domínio destes animais como fonte de inspiração e de subversão da norma. São sombras, reis, escritores, artistas, caçadores, navegantes, “gatos feitos soldados/com o seu jeito subtil/ espalhando cravos nas ruas/quando um dia se fez Abril”(Letria, 2005). Tal como afirma Campbell (2000:300), estes heróis-guerreiros não são campeões das coisas feitas, mas sim das coisas por fazer. Quando estátuas têm “porte imperial” (Letria, 2005) e emergem como guardiões do passado. Enquanto povoadores deste texto ostentam na fugacidade dos gestos e na metamorfose dos corpos a liberdade absoluta da dissolução pessoal, construtora dos sentidos dos valores emergentes de todos os tempos.

Teresa Macedo

Bibliografia:
Campbell, Joseph (2000 [1ª ed. 1949]). El Héroe de las Mil Caras-Psicoanálisis del mito. Fondo de Cultura Económica. México.

21 dezembro, 2007

Práticas Colectivas: pedi-paper entre livros

Título da actividade: “Na Rota das Palavras”

Local: Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva

Data da actividade: 11 de Janeiro, às 14:30h e 22 de Fevereiro, às 15:00h.

Público-alvo: Crianças em idade do 1º ciclo do ensino básico.

Objectivo: Fomentar o interesse pela leitura e descoberta de livros através de actividades atraentes.

Descrição: Esta actividade pretende estimular a troca de impressões e dificuldades de cariz lúdico através do trabalho de grupo – as crianças, cerca de 25, estarão divididas em 4 pequenos grupos, cada um acompanhado por uma estudante da Universidade do Minho que canalizará a actividade e transmitirá os cuidados a ter com os livros. Percorrerão as estantes em busca de pistas que as conduzirão a um objectivo final. Este consiste em criar uma história original com excertos de outras, utilizando também a criatividade.

O grupo de trabalho (quatro alunas do 2º ano) convida os interessados a assistir à actividade. Em princípio, poderão encontrá-la anunciada nas agendas culturais dos meses de Janeiro e de Fevereiro e na revista "Pais&Filhos" do mês de Fevereiro.

Boas Festas.

19 dezembro, 2007

Literatura Infantil e valores ético-sociais em análise

Decorrem amanhã, dia 20 de Dezembro, pelas 11h, na Sala de Actos do Departamento de Ciências Integradas e Língua Materna (sala CE 2142), do Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho (campus de Gualtar, Braga), as provas de Mestrado em Estudos da Criança - Especialização de Análise Textual e Literatura Infantil de Teresa Maria Peres de Oliveira, subordinadas ao tema: Histórias Portuguesas Contadas de Novo por António Torrado e o fomento da competência literária e dos valores ético-sociais.
O júri é composto pelos seguintes elementos:
Prof. Doutor Armindo Mesquita - Departamento de Letras/Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Prof. Doutor Carlos Cunha - Instituto de Letras e Ciências Humanas/Universidade do Minho
Prof. Doutor Fernando Azevedo - Instituto de Estudos da Criança/Universidade do Minho
A entrada é livre.

12 dezembro, 2007

As estações


Se a literatura pode ser uma mentira, como Iser refere, ela também é um modo operacional que abre caminhos para diferentes versões da nossa própria casa, do nosso próprio mundo. Nesta abertura de caminhos tem um papel preponderante, segundo a teoria da estética da recepção, o observador, que no processo de leitura analisa a interacção texto/leitor, não como acontecimento produzido apenas pela imaginação do leitor, mas pela intersecção de normas históricas, sociais e linguísticas. O autor e o leitor perdem assim a subjectividade. O autor abandona toda a intenção e o leitor torna-se dotado de competência semiótica e intertextual.Assim, a indeterminação ou os espaços em branco (Eco, 1971:36) proposta pelos textos, não são uma fraqueza do sistema literário, mas uma qualidade essencial que permite o compromisso criativo. Na obra da escritora italiana Iela Mari “L’Albero” publicada em castelhano pela kalandraka com o nome “As Estacións” é dada ao leitor quase todo o poder para fazer as significações desejadas consubstanciando-se no que Eco chama de obra aberta que tende “ (…) a promover no interprete (actos de liberdade consciente), a pô-lo como centro activo de uma rede de relações inesgotáveis (…)”. Desta forma a ficção torna-se um acto de ultrapassar fronteiras – reais e ficcionadas. Por virtude da celebração da plasticidade da literatura e num discurso pictórico em que as cores vão revelando as vozes enunciadoras da problemática em causa porque “ (…) A arte, enquanto estruturação de formas, tem modos próprios de falar sobre o mundo e sobre o homem” (Eco, 1971:36), poderá acontecer que ao falarmos da passagem das estações por esta árvore, o L‘Albero, o leitor vá recordando a necessidade da protecção da floresta, tema tão contemporâneo, a par das inferências possíveis ao tema da preservação da nossa casa comum, a terra, num quadro de uma visão não cartesiana da natureza onde todas as criaturas vivas têm direito ao seu espaço vivencial. Esta obra poderá também recepcionar-se pelo sentimento da paisagem, sentimento intelectual e afectivo que se consubstancia pela necessidade de construção de habitats ecologicamente seguros. O esquilo, que tem que mudar de casa consoante as estações, responde a variáveis antropológicas das valências do lugar, indiciando diferentes formas de viver num espaço – tempo – movimento, mas sempre pugnando por encontrar nele um lugar reconhecível, como lugar destinado aos seres humanos e aos animais. Mais uma vez, a literatura tornou-se um modelo operatório que abriu caminho para diferentes versões do mundo que se consubstanciam em diferentes identidades intimamente ligadas à relação entre texto e leitor pois, implicaram uma troca contínua de pedidos e ofertas entre ambos, onde o objecto literário ganhou uma carga simbólica pela importância da mente do leitor na atribuição do sentido do mesmo. (Fish, 1984:50)

10 dezembro, 2007

João Sardento e o Espírito da Televisão


Autor: José Jorge Letria
Ilustrador: Eunice Rosado
Ano: 2007
Editora: Âmbar
ISBN: 978-972-43-1218-7


João Sardento, personagem actuante nesta narrativa, corporiza o ideário infantil na busca e satisfação do impulso interior que o conduz aos universos do imaginário. Actualizado no espaço cénico da modernidade, adapta-se às mudanças do nome, facto que é aceite pela personagem e por um narrador interveniente que assume a Palavra como realidade que reflecte a osmose que se opera permanentemente entre o mundo empírico e o da aquisição da identidade, inscrito no mundo da interioridade.
O espaço da construção narrativa identifica algumas problemáticas dos tempos modernos e a acção desenrola-se sob o domínio de uma avó “contadora de histórias” (Letria, 2007:11), remetendo-nos para aspectos tradicionalmente correlacionados com certo estatuto dos mais velhos. No entanto, demarcam-se elementos desviantes das matrizes encontradas nas narrativas tradicionais através do pincelar satírico ao comportamento desse membro da família que, embora zele “pela ocupação do neto” (Letria, 2007:12), vê telenovelas com “enredos de fazer chorar” (Letria, 2007:12), interagindo activamente com os seus pares e evidenciando uma forma mais liberta de estar no mundo.
A história assume o seu auge na focalização do fantástico reencontro com um objecto mágico, abandonado, mas detentor de grande sabedoria – um aparelho de televisão. É através de “uma voz estranha vinda de dentro do aparelho” (Letria, 2007:18) que a atenção do leitor é captada para que se processe a informação essencial sobre o surgimento deste meio de comunicação. Então o sótão passa a ser o laboratório onde João Sardento assiste à viagem libertadora do “Espírito da Televisão” (Letria, 2007:20), “criatura serpenteante, que não tinha boca visível e mostrava apenas dois olhinhos brilhantes” (Letria, 2007:24), podendo-se conectar perfeitamente com a ideia preconizada por Bachelard (2001:25) de que “memória e imaginação não se deixam dissociar”. Assim, o tempo do sono é o instante de aprofundamento mútuo destas duas variáveis onde a intencionalidade narrativa articula de forma hábil, engenhosa e lúdica aspectos que visam promover o alargamento dos saberes acerca do conhecimento da evolução do meio de comunicação que revolucionou o mundo, adequando a informação ao destinatário preferencial, denotando uma preocupação que procura contrariar a rotinização na transmissão de certos conhecimentos aos jovens leitores. Assim, o recurso à espectacularidade do estranho, a evocação das “ palavras mágicas” (Letria, 2007:20) e a negociação que se efectiva entre o João Sardento e o velho televisor falante mais não são do que formas de processar informações relevantes, mobilizando quadros de referência intertextuais, revalorizando nas temáticas do incompreensível os desafios à assimilação das grandes transmutações operadas pelo surgimento da Televisão.

Teresa Macedo
Bibliografia
Bachelard, Gaston (2oo3-6ªEd). A Poética do Espaço. São Paulo. Martins Fontes.

Direitos das Crianças

lTítulo: Direitos da Criança, 2006
Autora: Maria João Carvalho
Ilustração: Carla Nazareth
Colecção Montanha Encantada
Everest Editora
ISBN 972-750-739-5


Todos diferentes, mas iguais!


Direitos da Criança aborda o tema dos direitos da criança, com base nos princípios da Declaração Universal dos Direitos das Crianças, aprovada em 1959 pela Assembleia Geral das Nações Unidas.
A ilustração da capa diz tudo: ainda antes de ler o livro relacionamos de imediato essa imagem com os princípios mais elementares a que todos temos direito, nomeadamente o direito a uma educação e à convivência com os outros, seja qual for a cor da pele ou o aspecto.
As imagens interiores levam-nos igualmente a reflectir acerca do direito à igualdade e à convivência entre todos. As ilustrações das páginas 4 e 5, por exemplo, sugerem que podemos, com imaginação, deixar as diferenças para trás e encontrar meios de comunicação. Mas é a cor que mais predomina enquanto meio para explicitar que a diferença entre as pessoas – de raça, meio cultural ou geográfico – é uma riqueza e não um problema, através da riqueza da própria cor, usada em grandes massas nas ilustrações. Texto e iconografia encontram assim uma simbiose perfeita, e de forma subtil ligam o mundo do imaginário à realidade dos direitos das crianças, recorrendo frequentemente também a elementos da Natureza – o mar, o deserto, a selva, o céu – e até mesmo a elementos do meio familiar, para mostrar como cada dimensão do mundo, da vida e do interesse da criança é muito diferente de outra qualquer, mas igualmente bela. O livro está repleto de elementos simbólicos como, por exemplo, a ponte e o sol, remetendo-nos para o maravilhoso: “passagem secreta para o reino da harmonia e do bem-estar” (Carvalho, 2006: 13), “unem-se numa ponte feita de harmonia” (Carvalho, 2006: 12).
Direitos da Criança é uma referência para as crianças, mas poderá sê-lo também para os adultos, principalmente pela forma como o texto é usado: um mundo da imaginação para as crianças, mas que vai apresentando em letras mais pequenas e em locais da página menos destacados os direitos, tal como constam da Declaração. Direitos da Criança é pois um texto muito actual e explica de uma forma muito simples aquilo que se defende na Declaração Universal do Direitos da Criança. É um livro que deveria ser lido por todos, pois a envolvência do texto e da imagem poderá sensibilizar-nos ainda mais para a importância e actualidade da Declaração.

08 dezembro, 2007

André no Reino das Palavras Falantes - Os Caçadores de Gramatífagos



Este é o primeiro livro da Colecção: Os Caçadores de Gramatífagos, lançado no
Fórum Cultural de Alcochete no dia 24 de Novembro de 2007, da autoria de Natália Augusto e Fernanda Azevedo e que irá constar do PNL a partir de 2008.

Este é um convite especial dirigido a todos aqueles que não gostam nem se identificam com as aulas de Língua Portuguesa, e muito menos com aquele livro intitulado de Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa ou outros títulos que tais.



Texto: Natália Augusto
Ilustração: Fernanda Azevedo
Designer: Niels Fischer
Edição de Autor
ISBN: 978-989-95455-0-2


Em 1989, Álvaro Magalhães surpreendeu-nos com o livro Maldita matemática! cuja dedicatória revela a simplicidade do propósito de um livro desta natureza: «Este texto (…) é dedicado a todas as pessoas que têm problemas, ou seja, a todas as pessoas» (Magalhães, 2ª ed. Asa Edições, 2000). Atenta a todos, Natália Augusto também me sensibilizou pela sua ousadia na medida em que se interessou em construir, com amor e dedicação, uma narrativa especial que contasse, desta vez, uma outra grande história: a história das palavras.
A aventura chega-nos pela mão do André, um menino como tantos outros meninos, que vê no estudo da gramática algo de terrivelmente aborrecido, desagradável e complicado. A curiosidade e reflexão da autora sobre a rejeição desse bicho-papão que, repousa tranquilamente em várias das prateleiras de meninos como o André, marcam a forma isotópica da obra. O desvendar da funcionalidade da língua portuguesa, bem como a consequente compreensão dos meandros gramaticais e linguísticos que a compõem, e, sobretudo, o convite ao estudo pela curiosidade e descoberta são a pedra basilar desta história das palavras.
Claro, que não esteve nos propósitos autorais referir o resultado final de uma análise relativa a conteúdos gramaticais, mas efectivar uma outra perspectiva relativa ao estudo da gramática, tão repudiada pelos mais novos. Assim, a perspectiva que, em André no Reino das Palavras Falantes, a associa a noções reais de convivência, aventura e partilha deixa-nos perceber o elevado grau de complexidade que se estabelece entre a personagem principal, a sua gramática e todos os seus habitantes, como o Sr. Verbo ou o dedicadíssimo Sr. 86, por exemplo.
Uma das particularidades desta história define-se na vontade de mesclar a aventura de André e, por sua vez, a das palavras com um sentido pedagógico-didáctico prático bem ao gosto da autora. Surgem-nos como núcleos organizativos da obra: a temática abordada, o discurso simples e o imaginário humorístico, pincelado de um agradável nonsense, que fazem da história de André uma história de convite à leitura e à própria reflexão. Atentos às investidas empreendedoras do Sr. Verbo, em educar André no gosto pelo estudo das palavras, sentimos uma vontade crescente de, a cada página virada, permanecer presentes em todo o processo de crescimento da personagem.
Natália Augusto sugere, assim, novos caminhos inferenciais e oferece a todos os curiosos uma outra noção – a divulgar por todos os educadores e mediadores da leitura deste país – sobre a importância do estudo da língua portuguesa. Bruno Bettelheim diz assertivamente que o conto de fadas tem um efeito terapêutico e que assegura à criança uma solução para as suas dúvidas e conflitos internos, pois neles se encontra a riqueza simbólica. Em André no Reino das Palavras Falantes tudo acontece como se de um conto de fadas se tratasse, onde a certeza da tomada de consciência fica bem situada entre o histórico e empírico-factual, e a imaginação.
Saibamos, pois, reler na história do André e das suas palavras falantes ou mágicas os episódios do nosso dia a dia, onde pais, professores e alunos se debatem com a preocupação do estudo da gramática que a Sôtora de Língua Portuguesa mandou consultar.

Gisela Silva, in André no Reino das Palavras Falantes

Eis-nos presenteados com alguns excertos e ilustrações da obra. Parabéns pelo excelente trabalho!


«[O André] preparava-se para regressar ao computador quando ouviu uma vozinha: — André! André! Anda cá! Nem me deste uma oportunidade para te ajudar.
O André no momento em que ouviu a voz ficou imóvel, no centro da divisão, sem conseguir perceber de onde vinha aquela voz abafada. A voz continuou.
— Deixa-me explicar-te quem eu sou. Pega novamente em mim e abre-me na página oitenta e seis.
O André dando-se conta que era a sua gramática que assim falava, voltou a sentar-se e observou o livro. Não compreendia lá muito bem como é que este podia falar como uma pessoa.
— Não devias ter desistido tão facilmente... — recriminou-o a voz.
— Podes explicar-me primeiro como é que falas ou estarei a sonhar, meu?
— Não, não estás, André. Agora abre-me depressa que me sinto sufocar.
O André, entre o incrédulo e o fascinado, abriu o livro novamente na página oitenta e seis e, para sua grande surpresa, todas as palavras dessa página tinham desaparecido, excepto uma. E não era a gramática que assim falava, era aquela palavrinha de cinco letras que o fazia. Como podia ser?
— Então és tu que falas? Para onde foram as outras palavras? Que lhes aconteceu? Como te chamas?
— Uma pergunta de cada vez senão deixas-me confuso — disse a palavrinha. — Vamos por etapas. Eu falo como as pessoas e, para te dizer a verdade, todas as palavras falam ainda que de forma silenciosa, mas a maioria dos seres humanos não é capaz de as ouvir, nem lhe presta atenção. Quanto às outras palavras, mandei-as descansar por estarem exaustas de serem lidas sem serem compreendidas.»
In André no Reino das Palavras Falantes


«Naquele momento, ouviram-se uns passos e uma manchinha negra apareceu. Era o senhor 86 do cantinho inferior direito, da página da gramática do André. Era um número simpático, redondinho, amoroso e muito afável. Trazia vestido um lindo fato engomado, de um bonito cetim preto, camisa aos quadradinhos cujo drapeado era deslumbrante, lacinho “à papillon” de bolinhas pretas, calças de um xadrez sumptuoso. A sua toilette era de um primor inexplicável, que rematava num lindo sapatinho preto do estilo carocha. Avançava num ritmo bamboleante e os seus passinhos curtos tornavam-no inimitável. Esta estranha e inusitada personagem usava na cabeça um lindo chapéu preto, onde trazia dois copos de leite, de um branco extraordinariamente branco, como o lugar que os rodeava, e um prato com bolachas.
— Perdoem-me a interrupção — disse o senhor 86. — No relógio da página anterior, bateram as cinco horas e eu tomei a liberdade de vos trazer o lanche.»
In André no Reino das Palavras Falantes
Nota: para mais informações ver site: Caixa Vermelha - Artes e Letras em http://caixavermelha.com/