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31 janeiro, 2007

Música Portuguesa para a Infância

Música Portuguesa para a Infância
7 de Fevereiro (4ª feira) às 19h
Auditório 1
Escola de Música Nossa Senhora do Cabo
Coordenação: Sandra Barroso

Obras em estreia de jovens compositores para ainda mais jovens intérpretes

30 janeiro, 2007

Workshop "Vivo quando narro" - Projecto Escola Criativa - Serviço Cultural e Educativo - Centro Cultural de Cascais

Projecto Escola Criativa - CMC Serviço Cultural e Educativo - Fundação D. Luis I
O Serviço Cultural e Educativo da Fundação D. Luís I, a funcionar no Centro Cultural de Cascais (C.C.C.) desde Fevereiro de 2003, elabora e propõe um programa integrado de actividades lúdicas, artísticas e culturais que inclui um conjunto diversificado de propostas, dirigidas a crianças e jovens, bem como a adultos que desempenhem funções educativas tanto a nível familiar, como escolar e comunitário. (Percursos Lúdicos, Ateliers, Animações e Espectáculos, Espaço de Reflexão e Formação, Exposições, Para os Pais...).
Neste contexto, nos dias 8 e 9 de Fevereiro de 2007 está previsto um * Workshop* aberto a toda a comunidade denominado* "Vivo quando narro" - António Portillo *.
António Portillo (Lerma, Burgos, 1959) é professor do 1º ciclo e paralelamente tem vindo a desenvolver um conjunto de projectos que evidenciam o papel da narração como acto de escuta e como acto expressivo. O seu trabalho estende-se ao teatro e às artes plásticas. Em 2004 publicou "Artefactes", um livro que mereceu o Prémio Nacional do melhor livro Infanto-Juvenil. Inventa e recicla objectos para contar histórias… Preocupa-se com a importância do Desejo na Aprendizagem.
O número de participantes é limitado sendo necessário efectuar marcação até ao dia 5 de Fevereiro através dos telefones 21 484 89 02 / 21 483 64 20
Para qualquer esclarecimento:
Serviço Cultural e Educativo
Fundação D. Luis I Centro Cultural de Cascais
Telf. +351 21 483 64 20 / +351 21 484 89 02

25 janeiro, 2007

Os brinquedos da Oficina Criativa

23 janeiro, 2007

O fantástico e o maravilhoso em análise


Verónica de Araújo Pontes desenvolve, no Instituto de Estudos da Criança, uma pesquisa na qual procura averiguar as relações do mundo fantástico e maravilhoso encontrado na literatura de potencial recepção infantil e a prática do ensino de língua portuguesa no 3º e 4º ano do 1º ciclo, tanto no Brasil como em Portugal. A investigação dar-se-á no contexto da escola pública no início do ano de 2007, sob a orientação do Professor Doutor Fernando Azevedo, e procurará mostrar as possibilidades de um trabalho efectivo, em sala de aula, a partir dos contos e das narrativas com os alunos, na tentativa de sensibilizar os educadores para a formação do leitor.

19 janeiro, 2007

Um mundo feito de várias cores

Como se faz cor-de-laranja

Torrado, António (2002): Como se faz cor-de-laranja. Porto: Asa.
Ilustração: João Machado. ISBN: 972-41-0253-X


António Torrado
nasceu em Lisboa em 1939 e é poeta, ficcionista, dramaturgo, autor de obras de pedagogia e de investigação pediográfica e é por excelência um contador de histórias, estando muitos dos seus livros e contos traduzidos em várias línguas.
A sua bibliografia regista actualmente mais de 120 títulos, onde sobressai a produção literária para crianças, contemplada em 1988, com o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças.
João Machado nasceu em Coimbra em 1942 e é um dos nossos grandes ilustradores. Ao longo dos anos, João Machado tem sido premiado com prémios tais como, primeiro Prémio Nacional Gulbenkian para a melhor Ilustração de Livros para a Infância; primeiro Prémio Grafiporto e, entre outros, o primeiro Prémio Nacional de Design.

A história, Como se faz cor-de laranja, gira em torno de um menino anónimo, que faz um longo e desmotivante percurso para descobrir algo tão simples, e que se revela, ao mesmo tempo, tão “complexo” ao olhar dos adultos. No entanto, apesar dos obstáculos que enfrenta, mostra-se persistente e corajoso, seguindo em frente. Quando, finalmente, é vencido pelo cansaço é presenteado com uma explicação muito especial da cor, que ironicamente lhe é dada por uma pessoa que, apesar de não ver e de ser aquela que, a princípio, seria a mais imprevisível, consegue levar o menino, através de uma viagem pelo seu imaginário, a descobrir a resposta para aquilo que motivou a sua procura.
Assim sendo, a viagem do menino transporta-nos para a concepção de dois mundos distintos, o mundo percepcionado pelas crianças, à luz da simplicidade, da inocência e da transparência; e o mundo dos adultos, corrompido pela desesperança e pelas complexidades características do materialismo em que está envolto.
Uma história que, à partida, se mostra simples, revela, à medida que é feita a sua leitura, uma riqueza inesperada que se traduziu numa viagem que nos leva à compreensão de que esse “olhar ingénuo”, essa beleza pura de encarar o mundo, que nos é transmitida pelo menino, se vai, gradualmente, perdendo à medida que o ser humano cresce e entra num contacto mais objectivo e prático com o mundo (o carácter frenético do dia-a-dia, a rotina).
Na obra, as personagens que lhe dão vida, têm uma importância crucial na descodificação do que ela nos transmite, já que são elas que estabelecem a contraposição entre os dois mundos referidos.
À medida que vamos lendo a obra, deparámo-nos com várias estratégias que aproximam o leitor do livro, evidenciando-se o carácter fortemente apelativo das ilustrações e descrições, que fazem o leitor imaginar o que está a ler: “À volta do submarino havia algas azuis, verdes, roxas e vermelhas”. Através da maneira especial como o cego explica como se faz cor-de-laranja, o autor, consegue colocar o leitor no papel do menino, conduzindo-o também a uma viagem imaginária em busca da cor, devido à carga fortemente emotiva que o autor lhes imprime.
Deste modo, o leitor é seduzido pelas descrições (e pela carga emotiva que as caracterizam), que o levam a considerar especial aquilo que parece tão banal e simplista.
Susana Boaventura e Sílvia Salgueiro

16 janeiro, 2007

Une autre façon d'interroger la littérature, de la maternelle à l'université

Points de vue et débats
Mercredi 24 janvier 2007
Bibliothèque de l'INRP
Lyon 7e


Ce cycle de rencontres des Mercredis de la bibliothèque de l'INRP permet à des acteurs de la communauté éducative d'échanger en toute liberté sur les questions éducatives. Ces manifestations s'adressent à un large public : étudiants, enseignants, chercheurs, décideurs du monde de l'éducation, parents d‘élèves…
La 3e rencontre portera aura pour sujet :
Une autre façon d'interroger la littérature, de la maternelle à l'universitéLa question sera discutée à partir d'une expérience menée à l'INRP par l'équipe « Littérature et enseignement » : la lecture d'un même conte, La petite sirène d'Andersen, en France et dans plusieurs pays étrangers, à divers niveaux de classe. La mise en dialogue des pratiques autour de ce texte, qui a opéré des déplacements chez les enseignants et leurs élèves, a permis de distinguer des conceptions variées de la littérature, mais aussi des nuances entre une « lecture littéraire » et une « lecture du texte littéraire ».
Quelles conclusions tirer de ce travail, au moment où un « domaine de la littérature de jeunesse » est officialisé à l'école élémentaire ?
Invités:
Danielle Dubois - Marcoin
Responsable de l'équipe sur projet Littérature et enseignement à l'INRP, auteure de divers travaux sur la littérature de jeunesse et l'enseignement de la littérature.
Jean Jordy
Inspecteur général de l'éducation nationale, auteur de différents ouvrages sur l'enseignement de la littérature.
Informations pratiques:
24 janvier 2007
de 18 h 30 à 20 h 00

Entrée libre et gratuite

Bibliothèque Denis Diderot5 parvis René-Descartes – Lyon 7e04 72 76 61 12

Responsable : Institut national de recherche pédagogique

Informations: http://www.inrp.fr/lesmercredis

Adresse :
INRP - Service communication
19 allée de Fontenay
69007 Lyon
France

Informação recebida via Fabula

Concurso de Contos 'Gabriel Miró'

Está aberto o prazo para o concurso de contos "Gabriel Miró".

Programa:
1. Podrán concurrir al Concurso CAM de Cuentos 'Gabriel Miró' escritores de cualquier nacionalidad, con excepción de los que hubieran obtenido el primer premio en ediciones anteriores de este certamen. Las obras presentadas deberán estar escritas en lengua castellana.
2. Las obras de tema libre deberán ser inéditas y no haber sido premiadas en ningún otro concurso, certamen literario o actividad literaria; no solamente en la fecha de su admisión al concurso, sino también en el momento de la proclamación del fallo, pudiendo enviar cada concursante cuantos originales desee.
3. Dichos originales, con una extensión máxima de ocho folios, - formato DIN A4- mecanografiados a doble espacio, por una sola cara, en cuerpo de letra de 12 puntos, y un máximo de 30 líneas por folio. Se presentarán por triplicado, numerados y grapados por su margen izquierdo. No se admitirán envíos por correo electrónico, que sí serán solicitados a los autores de los cuentos premiados.
4. Obligatoriamente, los cuentos se presentarán a concurso bajo lema o seudónimo acompañados de plica o sobre cerrado, en cuyo interior deberá figurar la ficha de participación adjunta debidamente cumplimentada. Ésta también se puede obtener en www.obrasocial.cam.es.
5. Las obras pueden presentarse en cualquier oficina CAM o enviarse por correo a:
CAJA DE AHORROS DEL MEDITERRÁNEO Biblioteca Gabriel Miró Av. Ramón y Cajal, 5 03003 - ALICANTE
Indicando en el sobre:
'PARA EL CONCURSO DE CUENTOS GABRIEL MIRÓ'
Aquellos concursantes que deseen acuse de recibo deberán acogerse a la modalidad postal 'Certificado con acuse de recibo'
6. El plazo de admisión quedará abierto en la fecha de publicación de la presente convocatoria y finalizará el 31 de enero de 2007. Con posterioridad a dicho día sólo serán admitidos a concurso aquellos envíos postales cuyo matasellos evidencie que fueron depositados en el buzón dentro del plazo.
7. La Entidad patrocinadora del Concurso designará la composición de los jurados de selección previa y de calificación. Los cuentos que, a juicio de los miembros de estos jurados, reúnan mayor calidad literaria, participarán en una votación final, tras cuya celebración serán proclamados los premios que establece la siguiente base.
8. Primer Premio: dotación 6.000 euros
Segundo Premio: dotación 3.000 euros
El primer premio no podrá ser declarado desierto.
9. El fallo del Jurado, que será inapelable, se hará público durante el mes de junio de 2007.
10. Al objeto de comprobar el carácter inédito de las obras premiadas, la dotación metálica de estos premios se hará efectiva cuando transcurran 30 días desde la publicación del fallo.
11. Los cuentos premiados pasarán a ser propiedad de la Caja de Ahorros del Mediterráneo, que podrá editarlos. Los originales de los restantes serán destruidos, no admitiéndose peticiones de devolución.
Informação enviada por Gonzalo García "Darabuc"

Quando não se olha com olhos de ver...

SOARES, L.D., (2003). Quem Está Aí?.Barcelos: Civilização Editora.

Autora: Luísa Ducla Soares
Ilustrador: Maria João Lopes
ISBN: 972-26-2112-2

Quem Está Aí? é uma narrativa escrita por Luísa Ducla Soares que, tal como sugere o título, se reveste de um grande mistério. Esta autora, nascida em Lisboa, em 1939, é licenciada em Filologia Germânica. Após ter estado ligada ao grupo “Poesia 61”, publicou, em 1970, o seu primeiro livro, uma obra poética intitulada Contrato, tendo vindo a dedicar-se à literatura infanto-juvenil. História da Papoila (1973), a primeira das suas 45 publicações para crianças, foi galardoada com o Grande Prémio de Literatura Infantil Maria Amália Vaz de Carvalho, o qual foi recusado por motivos de ordem política. Para além deste, destacam-se o Prémio Calouste Gulbenkian para o melhor livro de literatura infantil no biénio 1984-1985, 6 Histórias de Encantar, o Grande Prémio Calouste Gulbenkian (1996) por toda a sua obra e, em 2004, foi candidata ao prémio Hans Christian Andersen. Para além disto, Luísa Ducla Soares assumiu funções de tradutora literária, directora da revista Vida (1971-2), adjunta do Gabinete do Ministro da Educação (1976-8), colaboradora em alguns periódicos e no programa Rua Sésamo, tendo escrito 26 guiões televisivos para a série Alhos e Bogalhos, ocupando actualmente a função de assessora principal da Biblioteca Nacional e desenvolvendo acções de incentivo à leitura junto de escolas e bibliotecas. Das suas obras, várias foram adaptadas para teatro e traduzidas para vários idiomas.
Esta é uma obra que reflecte a curiosidade natural das crianças para quem a experiência dos outros não basta, pois há a necessidade de ir, de ver com os seus próprios olhos e que fala da vontade de permanecer acordado para além da hora de “lavar os dentes, chichi, cama!” (Soares, 2003: 2). Espelha muitas situações do quotidiano em que, face a um mesmo acontecimento, são múltiplas as interpretações possíveis, visto que os olhos de cada um se encontram despertos para ver uma parte da realidade, como acontece com os cinco primos, aos quais se juntam os olhos mitigados do leitor que partilham com as personagens uma mesma vontade, a de descobrir “Quem está aí?”.
Ambos, texto icónico e texto verbal, concorrem para a construção de um sentido e é, a partir da junção de cada um dos elementos da componente pictórica, que se pode aceder ao desvendar do mistério da obra e à mensagem de que se nos centramos apenas num aspecto da realidade, isto impedir-nos-á de vislumbrá-la, tal como é realmente, ou seja, como um todo. Assim, quando não se olha com olhos de ver, não chegamos à essência, ficando pelo parecer…

Recensão realizada por Mª La-Salete Teixeira e Virginie Gomes

A volta ao Mundo num Dinossauro...

BACELAR, M. (1990). O Dinossauro. Porto: Edições Afrontamento.
Autor/ Ilustrador: Manuela Bacelar
ISBN: 972-36-0248-2



Das mãos de Manuela Bacelar “nasceu”, em 1990, O Dinossauro, uma obra incluída no Plano Nacional de Leitura, escrita e ilustrada por esta autora e que retrata a história humorada de “um monte com árvores e algumas casas” no qual “moram também pessoas e animais” que é, afinal, um dinossauro adormecido que, ao acordar, os transporta numa viagem inigualável ao mundo.
Autora de mais de 50 obras, como O Meu Avô (1990) e a colecção de álbuns «Tobias», da Porto Editora, publicadas não só em Portugal como também, algumas, no estrangeiro (Dinamarca, França, Japão, Marrocos, Líbano), Manuela Bacelar nasceu em Coimbra, em 1943 e fez os seus estudos secundários na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, no Porto, frequentando também a Escola Superior de Artes Aplicadas, em Praga, durante sete anos (1963-1970) sob o estatuto de bolseira, tendo terminado o curso de ilustração. Residente no Porto desde 1971, tem-se dedicado à ilustração, à escrita e à pintura, contando já com muitas exposições individuais e colectivas, assim como grandes distinções, das quais são exemplo o Prémio Maçã de Ouro da Bienal de Bratislava (1989), o Prémio Gulbenkian da Ilustração (1990), a nomeação para o Prémio Octogónes (França, 1992), o facto de se encontrar na lista de honra do Prémio Pier Paolo Verggero em Pádua (Itália, 1993), a obtenção do Prémio Octogónes por Mon Grand Pire, um dos melhores livros estrangeiros publicados em França, entre outras.
Este é um álbum narrativo, claramente destinado aos mais pequenos, cuja componente icónica apresenta um papel determinante, dado que esta vive por si só, daí que o facto de a extensão desta componente relativamente à parte textual seja intencional para prender o leitor à história e à viagem do dinossauro, viagem esta que permitiu ver “gente igual, gente diferente”, “casas de todos os tamanhos” e que termina no mesmo lugar em que teve início, sendo que “tudo ficou como antes”, tal como nos sonhos, uma vez que após o despertar, não resta nenhuma recordação nem prova concreta a não ser a memória dessa viagem. Impossível é, ainda, ficar indiferente ao desfecho inesperado, perante o qual é inevitável sorrir ou, na versão actual, emitir um sonoro “daaah”!.

Recensão realizada por Mª La-Salete Teixeira e Virginie Gomes

“Agora sim, temos quase tudo para haver história.”


COTRIM, João Paulo, (2003). História de um Segredo. Porto: Afrontamento. Ilustrações de André Letria.
ISBN 972-36-0636-4
A partir dos 8 anos.

No espaço de um intervalo, um menino e uma menina partilham um segredo. O leitor assiste e até participa, mas afinal qual é exactamente o segredo? Esta é a pergunta que fazemos antes e depois de ler o álbum que nos apresentam João Paulo Cotrim e André Letria.


Cotrim com 41 anos, jornalista, cronista no Expresso, guionista de filmes, autor de bandas desenhadas e de vários livros para a infância, onde se destaca além da obra em questão, A Cor Instável, apresenta-nos uma narrativa curta em palavras mas gigante na essência.
Por sua vez, André Letria com 33 anos, dois Prémios Nacionais de Ilustração (1998 e 1999), um Prémio Gulbenkian – Álbum Ilustrado – e trinta livros publicados expõe em História de um Segredo mais uma (a)mostra do seu talento. Com pinceladas precisas conta-nos a história para além das palavras, habilmente suscitando o imaginário do leitor. O texto verbal vai explicando quais os ingredientes necessários para se fazer uma história e as imagens vão fazendo da palavra a acção; o texto e a imagem fundem-se de um modo em que é impossível dizer se é o texto que ilumina o desenho ou se é a ilustração que desperta a palavra.
História de um Segredo acontece dentro de uma caixa, que, como todas as caixas, guarda coisas secretas e valiosas. Este livro convida-nos a abri-lo e a descobrir o seu segredo; mantém-nos num estado de suspense durante toda a narrativa.
De qualidade reconhecida História de um Segredo consta no Plano Nacional de Leitura pelo seu carácter enquanto obra literária. Encerra em si um potencial formativo, contribuindo para a integração cultural do seu leitor, assim como para o desenvolvimento da sua competência literária.

Margarida Sousa

15 janeiro, 2007

A procura da Liberdade



PINA, Manuel (2005). O Tesouro. Ilustrações de Evelina Oliveira. Porto: Campo das Letras.
ISBN: 972-610-929-9
Idade Recomendada: A partir dos 8 anos

Manuel António Pina, escritor do livro O Tesouro, nasceu em Sabugal, Beira Alta, em 18 de Novembro de 1943, mas vive no Porto desde criança e é hoje portuense pela honra e pelo coração. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Foi jornalista, durante 3 décadas, na redacção do "Jornal de Notícias".
O autor é umas das vozes mais singulares do universo da escrita para crianças em Portugal. Diga-se, em abandono da verdade, que a singularidade da escrita de Manuel António Pina não se restringe ao campo da literatura infantil, alargando-se à produção literária destinada aos adultos, designadamente à poesia, à crónica e à novela.
A obra de Manuel António Pina consegue uma forte coesão, mantendo em ambos os registos — o da poesia e o da literatura infantil — aquilo que já foi classificado como "um discurso de invulgar criatividade e de constante desafio à inteligência do leitor", qualquer que seja a sua idade.
Evelina Oliveira, a ilustradora deste livro, é uma jovem artista portuguesa com um já extenso curriculum de exposições individuais e colectivas. Nasceu em Abrantes em 1961. Frequentou o curso de Desenho na ESAP, o curso de História da Arte no Museu Soares dos Reis e o curso de Litografia da Árvore. A artista, como ilustradora, tem trabalhado com Manuel António Pina, Alice Vieira, João Pedro Messéder e outros escritores, principalmente em livros infantis.
O Tesouro é uma história que nos fala da liberdade, esta que apenas possuímos desde o dia 25 de Abril de 1974, o Dia da Liberdade.
Na verdade, marco crucial da História colectiva e de muitas histórias individuais dos Portugueses, essa data, bem como todo o contexto que lhe é inerente, tem assumido particular relevância no âmbito da produção editorial de recepção infanto-juvenil.
A história relata-nos como era o nosso país antes desse dia, o Pais das Pessoas Tristes. Quem vivia neste país não podia fazer o que queria, nem podia dizer o que pensava ou o que sentia. As pessoas viviam com o medo constante dos polícias que os vigiavam e impediam que falassem entre si, polícias estes que abriam a sua própria correspondência para descobrir a maneira como pensavam ou o que diziam. As crianças deste país não podiam ouvir música, nem ver filmes, nem ler os livros que gostavam. Nem mesmo beber Coca-Cola, porque também era proibido.
No Dia da Liberdade, tudo isto acabou. As pessoas decidiram reconquistar este tesouro tão precioso que hoje temos e não podemos perder de modo algum, a liberdade.
O texto icónico deste livro ajuda a criança/adulto a expandir o sentido do texto verbal. As ilustrações assumem um papel muito importante nesta história pois a diferença de sentimentos nos olhares dos visitantes, em comparação com os olhares das pessoas de Portugal, apenas é totalmente visível através das imagens.
O Tesouro é um livro diferente que oferece um testemunho original acerca desse acontecimento fundamental do século XX.
E porque importa sempre reescrever a História, O Tesouro, de Manuel António Pina, representa, assim, trinta anos depois do 25 de Abril, uma homenagem muito especial a todos aqueles (filhos) que, nesse dia, viram os pais, de novo, com um sorriso de felicidade.
Paula Gonçalves

A vila tem pernas!


BACELAR, Manuela (2000). O Dinossauro. Porto: Edições Afrontamento.
ISBN: 972-36-0248-2
Idade Recomendada: Entre os 3 e os 5 anos

Manuela Bacelar, escritora e ilustradora do álbum O Dinossauro nasceu em Coimbra a 1943. Frequentou a Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis no Porto e na Checoslováquia frequentou, durante seis anos, a Escola Superior de Artes Aplicadas, tendo terminado o Curso de Ilustração. Actualmente, dedica-se à ilustração, à escrita e à pintura, contando já com muitas exposições individuais e colectivas.

O Dinossauro é um livro claramente vocacionado para os mais pequenos, destinatário extratextual cuja competência leitora é compreensivelmente mais reduzida. É uma história simples, contada com uma articulação harmoniosa entre o texto e as imagens e também com uma forte carga de humor.
Uma vila onde as pessoas vivem e fazem a sua vida, não é mais do que dorso de um dinossauro; este, que após um longo sono, desperta e resolve dar um passeio, o que permitiu que as pessoas que lá viviam conhecessem o mundo e a diversidade de culturas que ele concede.
O facto de o texto possuir uma boa dose de humor, de ser contado na primeira pessoa e de a componente pictórica ser muito forte, são estratégias para facilitar a aproximação do leitor infantil à mensagem que o livro não mostra à partida.
É importante focar que o texto icónico é quase sempre maior que a mancha vocabular o que permite ao leitor não só antecipar, mas também expandir, de modo evidente, o sentido do texto verbal. A riqueza das figuras prende assim o leitor que acaba por querer seguir com muito entusiasmo as linhas do texto. As ilustrações assumem nesta obra um papel muito importante, uma vez que a diversidade de pessoas e das habitações dos diferentes povos, por exemplo, apenas é totalmente visível através das imagens.
O álbum O Dinossauro representa, sem dúvida, um álbum de qualidade, na medida em que possui uma perfeita articulação entre o texto verbal e o texto icónico e é uma história de extrema originalidade que permite ao leitor ir longe com a sua imaginação.

08 janeiro, 2007

Call for Papers

LIBEC Line
Revista em Literacia & Bem-Estar da Criança

Prazo limite de submissão dos artigos – 28 de Fevereiro de 2007
Os artigos podem ser submetidos em português ou em inglês
Está aberta a 2º chamada para artigos para a LIBEC Line - Revista em Literacia & Bem-Estar da Criança. Esta revista on-line, de natureza científica, destina-se a dar a conhecer a investigação do campo interdisciplinar dos estudos da infância. A revista publicará dois números por ano.
Esta revista tem como destinatários especialmente investigadores(as), professores(as), educadores(as), psicólogos(as), sociólogos(as), profissionais da saúde e estudantes de pós-graduação, que intervêm junto da infância.
Para todos os artigos submetidos em português ou em inglês, é obrigatório o envio, na 2ª página, do título, resumo e palavras-chave numa segunda língua. 1ª página – título, resumo e palavras-chave - endereço 2ª página – Title, abstract and key-words
Normas para a apresentação dos originais
1) Os originais propostos para publicação na revista devem ter uma extensão entre 3500 e 6500 palavras, que se apresentarão numeradas, em formato A-4, escritas a espaço 1/2, em Times New Roman, tamanho 12. Os originais devem ser acompanhados de um resumo com um máximo de 250 palavras, em português e em inglês, com indicação de palavras-chave. Os trabalhos propostos devem ser originais; não devem ter sido publicados em nenhuma outra revista ou livro, na mesma língua, nem estar em processo de revisão para outra revista.
A bibliografia deve surgir no final, sob a designação de referências bibliográficas; os livros ou artigos incluídos nela serão ordenados alfabeticamente por apelido do autor ou dos autores, seguindo as normas da APA (http://www.apastyle.org/):
Livros:
Potter, J. (1996). Representing reality. Discourse, rhetoric and social construction. London: Sage.
Capítulos de livros: Valriu, C. (2000). Els personatges fantàstics: les bruxes, els mags, les fades. In Gemma Lluch (ed.), De la narrativa oral a la literatura per a infants. Invenció d’una tradició literária (pp.95-131). Alzira: Bromera.
2) Os trabalhos apresentar-se-ão da seguinte forma: a. Título (corpo 14, centrado, negrito) b. Autor(es) (corpo 14, sem negrito) c. Resumo em inglês d. Keywords e. Resumo em português f. Palavras-chave g. Trabalho h. Referências bibliográficas i. Direcção completa de um dos autores 3) Os trabalhos que façam parte ou sejam fruto de projectos de investigação deverão fazer referência à metodologia empregada.
4) Os autores remeterão os seus trabalhos ao ou aos coordenadores da edição, por correio electrónico para o endereço electrónico do LIBEC libec@iec.uminho.pt
5) Os trabalhos serão examinados, numa primeira instância, pelo ou pelos coordenadores da edição, que verificarão os seus aspectos formais; posteriormente serão avaliados, com carácter anónimo, por dois especialistas.
6) A revista terá uma periodicidade semestral, com publicações em Fevereiro e Julho de cada ano.
7) A Direcção definirá em que número se editarão os trabalhos aceites.
8) Cada 5º número da revista será integralmente editado em língua inglesa.
9) Os diversos números da revista terão um dossier temático, sendo igualmente aceites para publicação recensões críticas.
10) A publicação de trabalhos nesta revista não dá direito a alguma remuneração. Os direitos editoriais são propriedade da revista e é necessária a sua autorização escrita para qualquer reprodução.
11) A revista poderá ser consultada em ambiente aberto, via webpage. O autor compromete-se a corrigir as primeiras provas de imprensa num prazo não superior a 15 dias a partir da sua recepção, não podendo incluir nas mesmas nem texto, nem materiais novos ou modificações importantes.
12) A responsabilidade do conteúdo dos artigos é dos seus autores, que deverão obter autorizações correspondentes para a reprodução de qualquer ilustração, quadro, tabela ou figura, retirados de outros autores e/ou fontes.

LIBEC Line Journal on Literacy & Children’s Welfare
Deadline for submissions – February, 28, 2007
Papers can be submitted either in English or in Portuguese.
The author(s) must include an abstract in English. Title and abstract of accepted papers will be locally translated to Portuguese or can be included in the original paper by the author. Journal’s basic description This journal is an electronic publication of a scientific nature in the area of research of childhood studies. It will be published twice every year.
The electronic Journal LIBEC Line – Journal will have as potential readers, those working closely with childhood issues, such as teachers, educators, psychologists, sociologists, health professionals and research students.
Rules for the presentation of papers:
1) The papers proposed must have a size between 3500 and 6500 words, with all the pages numbered, in A4 size, with 1.5 spaces between lines, Times New Roman font, size 12. An abstract of no more than 250 words should be included, as well as the keywords. The papers proposed have to be original and never published on another journal or book in English, nor being analysed by another journal. References should be at the end, ordered alphabetically according to the norms of APA (American Psychological Association):
Books:
Potter, J. (1996). Representing reality – Discourse, rhetoric and social construction. London: SAGE.
Book chapters:
Valriu, Caterina (2000). Els personatges fantàstics: les bruxes, els mags, les fades. In Gemma Lluch (ed.), De la narrativa oral a la literatura per a infants. Invenció d’una tradició literária (pp.95-131). Alzira: Bromera.
2) Specific format: a. Title (Body 14, centred, bold) b. Author(s) (Body 14) c. Abstract in English d. Keywords e. Text f. Bibliographic references g. Complete address of one of the authors
3) The papers that are the result of a research should have the methodology clarified.
4) Authors should send their works to the editorial board, through e-mail, to the address libec@iec.uminho.pt 5) Papers submitted will be examined at first, by the editorial board, to check formal aspects; later two referees will evaluate them, anonymously.
6) The journal will have two numbers per year, in February and July.
7) The Editorial board will decide in which number the accepted papers will be published.
8) Every fifth number will be completely English-based.
9) All numbers will have a thematic dossier; Book reviews will also be considered.
10) Published papers will give no right to any payment; the publishing rights will be property of the journal and reproduction will need written agreement.
11) The journal can be consulted on its webpage; authors will have 15 days to correct their paper before being published on-line and cannot introduce nor new text nor new materials that are not required.
12) Responsibility for the paper’s content rests with the authors, who will have to obtain authorization for the inclusion of any illustration, table or figure, taken from other authors or sources.
Editor libec@iec.uminho.pt LIBEC, Universidade do Minho, Av. Central nº 100, 4710-229 Braga, Portugal

Eragon



PAOLINI, Cristopher (2004). Eragon. Vila Nova de Gaia: Edições Gailivro.

Ao escrever e publicar o primeiro livro da Trilogia da Herança, Eragon, Cristopher Paolini estava longe de imaginar, que este se iria tornar num best-seller ao nível mundial. Eragon seduziu e continua a fascinar pequenos e graúdos através da sua viagem em busca da identidade como Cavaleiro do Dragão, da sua coragem e pela doce amizade que mantém com o dragão Saphira.
Quando Eragon encontra uma pedra azul polida na floresta, acredita que poderá ser uma descoberta bendita para um simples rapaz do campo: talvez sirva para comprar carne para manter a família durante o Inverno. Mas quando descobre que a pedra transporta uma cria de dragão, Eragon depressa se apercebe de que está perante um legado tão antigo como o próprio Império. De um dia para o outro, a sua vida muda radicalmente, e ele é atirado para um perigoso mundo novo de destino, de magia e de poder. Empunhando apenas uma espada legendária e levando os conselhos dum velho contador de histórias como guia, Eragon e o jovem dragão Saphira terão de se aventurar por terras perigosas e enfrentar inimigos obscuros, dum Império governado por um rei cuja maldade não conhece fronteiras. Conseguirá Eragon alcançar a glória dos lendários heróis da Ordem dos Cavaleiros do Dragão? O destino do Império pode estar nas suas mãos...
Esta brilhante narrativa de aventura e romance, assumidamente influenciada pela saga O Senhor dos Anéis de J.R.R Tolkien, envolve o leitor no mundo mágico dos dragões, elfos, anões, reis, batalhas, espectros e, naturalmente, os humanos. A obra encanta pela sua estrutura e história pois, esta, contém a essência e a vivacidade necessárias para levar o leitor a embrenhar-se na leitura das venturas e desventuras da jovem personagem querendo virar sempre “só mais uma página”. O livro em si está adequado tanto para leitores mais jovens, como para os mais crescidos, pois a história atrai pela simplicidade com que flúi e se desenrola, mostrando ao receptor não só a viagem do personagem, mas também conteúdos sobre a Algalesia, ou seja, a terra de Eragon, sua história desde a fundação, suas cidades e leis, o nascimento dos Cavaleiros do Dragão e as guerras entre as várias raças.
É, sem dúvida alguma, um épico da literatura fantástica que mistura elementos mágicos com o real numa teia intrincada. A estrutura narrativa, o rigor da descrição, a dimensão humana dos seres imaginários, que potencia a identificação do leitor com os heróis e, desejavelmente, a qualidade poética aliada a uma capacidade imaginativa imensa, tudo isto contribui para tornar o fantástico verosímil. Nas crianças esta obra poderá despertar o gosto pela leitura através do fantástico e da magia, aliada a um enredo apelativo que sem dúvida fará as delícias dos mais novos, sendo que possuí uma vertente que exalta os valores da amizade, do amor, da bondade, da honestidade e acima de tudo da justiça.


Ângela Gonçalves
Cátia Prazeres

O elefante cor-de-rosa



DACOSTA, Luísa (2005). O Elefante cor-de-rosa. Colecção “Obras completas de Luísa Dacosta”. Ilustrações de Armando Alves. Porto: Edições ASA
ISBN: 972-41-4184-5



Esta é a obra reeditada de um pequeno conto de Luísa Dacosta – porventura um dos mais emblemáticos da sua obra no domínio da literatura infantil –, que conserva as ilustrações originais da primeira edição (de 1974), da autoria de Armando Alves.
Luísa Dacosta nasceu em 1927, em Vila Real de Trás-os-Montes. Formou-se na Faculdade de Letras de Lisboa, em Histórico-Filosóficas. Foi professora do ciclo preparatório e alguma coisa deve também aos alunos: o ter ficado do lado do sonho. É isto que a motiva a escrever para crianças.
Armando Alves nasceu em Estremoz, em 1935, formou-se na ESBAP com vinte valores e aqui foi professor entre 1962 e 1973.
O Elefante cor-de-rosa faz parte do Plano Nacional de Leitura, para alunos do 4º Ano. No entanto, este livro é recomendado para crianças a partir dos 6 anos. Neste livro conhecemos um maravilhoso e gracioso elefante, da cor dos sonhos das crianças, que habita junto com outros elefantes, num mundo perfeito «fora da nossa galáxia, mundo pequenino, forjado no bafo de outras estrelas e aquecido por outro sol» (Dacosta, 1996: s/p). Este mundo vai-se desmoronando, ficando um pequeno elefante cor-de-rosa «só no sozinho» (idem, ibidem: s/p). Com a ajuda de um pequeno cometa, vai aterrar na imaginação de uma criança, onde nunca mais sentirá solidão.
Assim, neste livro, num primeiro momento, verifica-se a existência do elefante cor-de-rosa e do “mundo amável” em que ele vivia, juntamente com outros elefantes cor-de-rosa. Era um mundo de paz e de alegria, onde não havia sofrimento. Confrontado, num segundo momento, com a morte inesperada deste seu mundo, o elefante vê-se obrigado a partir e acaba por ir viver para a imaginação de uma criança.
Uma história de sonho e fantasia, que aborda, porém, ainda que de forma subtil, valores tão importantes como a amizade, a solidariedade e a entreajuda. Aparentemente simples, na forma e no conteúdo, este pequeno conto revela-se, afinal, fortemente cativante, seduzindo tanto pela riqueza das emoções que desperta como dos simbolismos que encerra.

Ângela Gonçalves e Cátia Prazeres

07 janeiro, 2007

Nas asas da Poesia...

INFANTE, Luís (2004). Poemas Pequeninos para Meninas e Meninos, V. N. de Gaia: Gailivro (Ilustrações de Carla Pott)
ISBN: 989-557-050-3








O título e a capa da obra Poemas pequeninos para meninas e meninos deslindam, à partida, algo do que será a mesma: um conjunto delicioso de textos poéticos breves, largamente ilustrados e dedicados às crianças.

Esta obra de Luís Infante, autor sobre o qual não nos foi possível obter quaisquer informações, apresenta ilustrações deveras expressivas, o que valoriza grandemente o texto linguístico. Carla Pott, ilustradora deste livro, nasceu em África. Aos quatro anos veio para Cascais e cedo começou a dar sinais do que queria ser quando fosse grande. Licenciada pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, a partir de 2000 começou a ilustrar livros para crianças, dos quais onze já se encontram publicados.

«Os poemas que lemos ou que podemos dar a ler desta colectânea editada pela Gailivro evidenciam diversas propriedades ideotemáticas e técnico-compositivas comuns à poesia de destinatário explícito infantil.» (Sara Silva)
Luís Infante atribui, assim, um cuidado especial no que concerne à linguagem usada nos poemas, empregando-a de uma forma eloquente, de modo a criar quadros poéticos carregados das mais diversas sensações, como se pode observar, por exemplo, no poema «Tudo menos Tristeza»: «…porque no seu pêlo macio/que lembra café e baunilha…» (Infante, 2004: 18). No decorrer dos poemas o leitor é envolvido por um mundo maravilhoso criado pela oposição entre o sonho e o real, e pela constante valorização de elementos fantásticos como fadas, duendes, bruxas… «Uma fada bailarina/saiu de uma lamparina/ com um cortejo de duendes…» (Idem, ibidem: 28).

Nesta obra prepondera, não raras vezes, a memória activada pela adoração de um retrato, como forma de se evadir no tempo e no espaço, como no caso do poema «Um retrato antigo» (Idem, ibidem: 8). Ao longo do livro, e para deleite de qualquer criança, vamos descobrindo cenários naturais e uma constante presença de animais, como é o caso das galinholas (idem, ibidem: 12), dos gatos (idem, ibidem: 16), do grilo (idem, ibidem: 40), ou dos rouxinóis (idem, ibidem: 54), entre outros.

Uma outra característica de grande relevância prende-se com a existência de marcas de narratividade, como podemos constatar pela presença de uma fórmula hipercodificada que, regra geral, é utilizada como frase de abertura dos contos tradicionais «Era uma vez um grilo» (idem, ibidem: 40).

Esta obra é, pois, claramente alcançável pelas crianças em tenra idade, tanto ao nível cognitivo como linguístico, favorecendo o desenvolvimento de competências literárias e linguísticas, ao mesmo tempo que desperta o gosto pelo texto poético.

Poemas pequeninos para meninas e meninos, repleto de boa disposição, é, então, uma porta aberta para o mundo mágico da poesia.

Andreia Lomba, Benvinda Pinheiro e Susana Barbosa

PINA, Manuel António (2002) Histórias que me contaste tu. Lisboa: Assírio & Alvim. (Ilustrações de João Botelho).

ISBN 972-37-0554-0


Descobre o escaravelho que há em ti

Poeta, jornalista, professor, tradutor e autor de muitos livros de propensão infantil, são alguns dos atributos de Manuel António Pina. Licenciado em Direito na Universidade de Coimbra, galardoado nos últimos anos com os mais importantes prémios literários de Portugal, brinda-nos com os seus registos de “discurso de invulgar criatividade e de constante desafio à inteligência do leitor”, já várias vezes assim classificado.

Entre as suas obras mais conhecidas, de propensão infantil, destaca-se o Inventão, O livro de desmatemática, Perguntem aos vossos gatos e aos vossos cães, Os dois Ladrões e Histórias que me contaste tu. Estes dois últimos ilustrados por João Botelho, que imprime ao texto visual uma relação de solidariedade semiótica e realça a expressividade do mesmo, desenvolvendo a dimensão estética do texto.

Manuel António Pina leva-nos, através da figura do escaravelho nas Histórias que me contaste tu, a um encontro familiar e, até mesmo íntimo, com esta personagem por quem, desde o primeiro contacto - quer na capa e contra-capa, acompanhado por um menino e uma menina respectivamente bem como nas guardas, se impõe uma presença constante e direccional e durante todo o texto - se estabelece empatia. Todo o livro é uma apoteose à figura do contador de histórias e, por isso, prende o leitor mais impenetrável, independentemente da faixa etária em que se encontre.

Poderíamos ter escolhido uma qualquer história deste livro, que todas elas causariam o mesmo – um sorriso esboçando o pensamento “é mesmo assim…incrível!”, contudo, vamos centrar-nos naquela que começa pelo fim, e para situar, Uma História que começa pelo fim. Nesta, o escaravelho reporta-nos para um reinado onde os protagonistas, rei e rainha, questionam a felicidade, recordando nostalgicamente o passado em que um era guardador de patos e o outro esperava pelo beijo que lhe quebrasse o feitiço, concluindo que “eram felizes há tanto tempo que já nem sabiam bem o que era a felicidade”, desejando, por isso, viver uma situação de tristeza para que pudessem, novamente, aperceber-se de como eram felizes. Este desejo vai envolvê-los numa série de peripécias que só poderão ser desvendadas se partires já para a leitura e descobrires o escaravelho que há em ti!

Andreia Lomba, Benvinda Pinheiro e Susana Barbosa

O mal amado

Mota, A. (2002). O Galo da Velha Luciana. Vila Nova de Gaia: Gailivro. (Ilustrações de Elsa Navarro).
ISBN 972-8723-65-2

O Galo da Velha Luciana é uma obra da autoria do escritor António Mota que, desde 1979, tem vindo a publicar regularmente para crianças e jovens. Tem cerca de quatro dezenas de títulos publicados. Recebeu em 1983 um prémio da Associação Portuguesa de Escritores por O Rapaz de Louredo, em 1990 o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para crianças por Pedro Alecrim e em 1996, o Prémio António Botto por A Casa das Bengalas. Desde 1980, tem sido solicitado a visitar escolas do Ensino Básico e Secundário, assim como bibliotecas públicas, em diferentes pontos do país e do estrangeiro, fomentando, deste modo, o gosto pela leitura entre crianças e jovens. Colaborou com vários jornais e participou em diversas acções organizadas por Bibliotecas e Escolas Superiores de Educação. Os seus livros estão antologiados em volumes de ensino do Português e tem obras traduzidas em Espanha e Alemanha.
O presente livro com apelativas ilustrações de Elsa Navarro, diverte e ensina, indo, assim, ao encontro dos gostos literários dos leitores mais novos. Nesta pequena obra são contadas as peripécias vividas por um galo, um “bicho” que a velha Luciana muito estimava. Apesar deste ser ignorado por todos, tentou salvar a velha Luciana das chamas. Será que o conseguiu?
Esta é uma história marcada por uma coloração maravilhosa, muito ao sabor de uma certa escrita dedicada a um público infantil, faceta para a qual contribuem, também, as divertidas ilustrações de Elsa Navarro. Como não podia deixar de ser, esta obra tem um final positivo, muito do agrado, aliás, dos pequenos leitores.
De referir também que, na nossa opinião, o pequeno livro de António Mota deixa escapar, ainda que subtilmente, uma valiosa mensagem – devemos sempre fazer os possíveis e os impossíveis para ajudar outras pessoas, mesmo que para isso tenhamos que ultrapassar a indiferença dos outros.
Lúcia Simões e Maria José Cunha

O Ressuscitado

Meireles, M. J. (2003). A Lenda do Galo de Barcelos. Porto: Campo das Letras. (Ilustrações de Joana Quental).
ISBN 972-610-719-9
A Lenda do Galo de Barcelos é uma obra da autoria de Maria José Meireles, escritora portuguesa, licenciada em História e professora efectiva na escola EB 2,3 João de Meira em Guimarães, onde exerce intensa actividade pedagógica. Para além disso, Maria José Meireles é co-fundadora da Cooperativa de Ensino Árvore, em Guimarães. Nos últimos anos tem-se dedicado à escrita para crianças e jovens.
Joana Quental, designer, ilustradora e docente, obteve, em 1992, a licenciatura em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas-Artes do Porto, tendo em 2001 concluído o Mestrado em Arte Multimédia. Estagiou no Atelier de João Machado e é desde 1997 Assistente de Design de Comunicação na Universidade de Aveiro. A sua actividade profissional tem-se repartido pelo desenho animado, multimédia, produção de material escolar, genéricos de televisão e ilustração de livros, nomeadamente didácticos e literatura infantil. Em 1997 recebeu a Menção Honrosa no Concurso Nacional de Ilustração Infantil promovido pelo IPLB e IBBY.
A Lenda do Galo de Barcelos reporta-nos para o mundo do imaginário e do maravilhoso, reunindo e materializando o mundo amplo dos desejos: um galo, pronto a ser consumido, mostra-se capaz de cantar! Para além disso, é um livro que retrata uma lenda ligada a um local concreto, no qual a História está bem patente.
Profusamente ilustrado, dá-nos a possibilidade de o explorar em qualquer uma das etapas do 1º ciclo, nomeadamente quando se abordam as lendas. A partir destas, as crianças podem ser convidadas a descobrir e a combinar os factos reais e históricos que aconteceram com os factos irreais que são meramente produto da imaginação aventuresca humana. Neste sentido, os elementos do imaginário ou do maravilhoso sobrepõem-se aos factos reais, em que a lenda é a explicação para um fenómeno histórico e transfigurado pela imaginação popular.
Lúcia Simões e Maria José Cunha

06 janeiro, 2007

Um mundo onde reina a paz!


Soares, Luísa Ducla.O Soldado João. Estúdios Cor.

Ilustrações: Zé Manel



O Soldado João

Considerada uma das mais importante escritoras portuguesas na área da Literatura Infantil, Luísa Ducla Soares nasceu em Lisboa a 20 de Julho de 1939 e estreou-se em 1970 com o volume de poesia Contrato. É de salientar que em 1973 recusou, por razões políticas, o Grande Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, atribuído ao seu primeiro livro para crianças, A História da Papoila (1972). Saliente-se ainda a participação da autora no suplemento infantil do Diário Popular (1972-1976), período onde surgiram diversos contos seus, tendo vários outros sido completamente cortados pela Censura. Foi este o caso de O soldado João, no qual a autora abordava o problema da guerra colonial; o conto seria editado mais tarde, em volume autónomo. Luísa Ducla Soares participou, também, na revista didáctica Rua Sésamo (1990-1995).
Autora muito apreciada pelo público e pela crítica, Luísa Ducla Soares viu, em 1986, o seu livro 6 histórias de encantar receber o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças pelo Melhor Texto do Biénio 1984-1985. Dez anos mais tarde foi-lhe atribuído o Prémio Calouste Gulbenkian pelo conjunto da sua multifacetada obra. Em 2004 foi nomeada para o Prémio Hans Christian Andersen da IBBY (International Board on Books for Young People), geralmente considerado o Prémio Nobel da Literatura para a Infância.

José Manuel Domingues Alves Mendes, conhecido por Zé Manel, começou a revelar a sua aptidão para o desenho aos seis anos de idade, e apenas com dezassete anos estreava-se, profissionalmente, como ilustrador de cartoons em Parada da Paródia. É um artista de traço elegante e cores de arco-íris, com uma longa carreira a deslumbrar gerações.

A obra O Soldado João foi publicada pela primeira vez em 1973 numa época histórica portuguesa da Guerra Colonial, sendo este um aspecto de uma ousadia invulgar nesta altura. Apesar disto, o livro mantém aspectos actuais. De facto, se se tiver em conta o que se tem evidenciado no mundo ultimamente com os conflitos de guerra, a configuração ideotemática e o enquadramento ético-moral que, facilmente se identificam nesta obra, representam, obviamente, um factor determinante para a importância da divulgação desta narrativa, nomeadamente aos mais pequenos.
Esta obra, O Soldado João, gira em torno de uma personagem, um soldado, uma figura-tipo construída a partir da subversão de um conjunto de aspectos delineares que pertencem a uma situação de conflito, de guerra, como se pode verificar a partir da seguinte secção textual: "Pelos campos fora, o soldado João era a vergonha dos batalhões. Trazia uma flor ao peito, punha as mãos nas algibeiras, coçava o nariz, não acertava o passo." (Soares: 3).
Este texto, para além de se desenrolar em volta de um conflito, demonstra, ainda, uma estrutura baseada num antagonismo de forte tonalidade antitética, pois o narrador recorda o sítio de origem do herói, opondo-o "à terra da guerra" (Soares: 7) em que se vê obrigado a deslocar-se, mas sem nunca esquecer a terra de origem: "O soldado João continuava a marchar, feliz e desengonçado como se fosse à feira comprar gado ou ao mercado vender feijão" (Soares: 5).
É também importante referir o papel da autora, já que consegue abordar de modo original e simples, o que habitualmente se apelida como tema difícil da literatura para crianças e jovens, a guerra. De facto, trata-se de uma obra muito acessível e de linguagem clara, permitindo, assim, abordar uma temática complicada sem chocar os leitores mais novos. Considerámos, igualmente, que a obra guarda uma mensagem muito importante, terminando a sua narração de forma feliz, já que João, o soldado, depois de receber uma condecoração "com duas luzentes medalhas de ouro" e de assistir à comemoração da paz, regressa feliz à sua terra de origem "onde de novo sacha milho, rega cravos, semeia couves e manjericos" (Soares: 9), atribuíndo, deste modo uma importância aos trabalhos do campo. Desta forma, é de nosso entender que este livro é um clássico da literatura de recepção infantil, um livro de exemplo para dar aos pequenos leitores para quando se quiser abordar esta temática tão complicada com as crianças (e não só), mas que felizmente acaba em bem.
Susana Boaventura e Sílvia Salgueiro

Ele há bruxas muito modernas!

Texto: Valerie Thomas A Bruxa Mimi Vai à Praia (2005)

Ilustrações: Korky Paul

Tradução: Gonçalo Terra

Lisboa: Gradiva 2006

ISBN:989-616-090-2

A Bruxa Mimi Vai à Praia é um livro que faz parte de uma série escrita por Valerie Thomas e ilustrada por Korky Paul, sobre uma bruxa muito especial, a bruxa Mimi.

Valerie Thomas é uma escritora australiana que foi professora do ensino primário e secundário, em Inglaterra e na Austrália. Valerie foi, durante muitos anos, consultora curricular do ensino, tendo trabalhado também em França e na Noruega. Retirou-se do ensino a tempo inteiro, trabalhando com crianças com necessidades educativas especiais em part-time.

Korky Paul nasceu no Zimbabué, em 1951, e frequentou a Durban School of Arts. Já na Europa, trabalhou na Grécia como ilustrador de manuais escolares e iniciou a carreira como ilustrador de livros infantis. Em 1996, foi convidado pela Oxford University Press para fazer a ilustração do livro A Bruxa Mimi, que recebeu o prémio Children Book Award e foi traduzido para 10 línguas.

A Mimi é uma bruxa com hábitos muito modernos e cosmopolitas, é desses hábitos que falam as diversas histórias da série como são os casos dos livros: O Novo Computador da Bruxa Mimi e A Bruxa Mimi Voa Outra Vez.

Neste livro, Mimi está com tanto calor que não consegue ficar em casa e decide partir com o seu gato Rogério rumo à beira-mar. Depois de chegar a uma praia congestionada, Mimi estende a toalha na areia e corre para o mar para dar um mergulho – ao contrário de Rogério, que odeia água. Mas, à medida que a maré vai subindo, arrasta Mimi para o areal e leva-lhe a vassoura. Ela bem tenta que a vassoura responda ao seu «Abracadabra», mas nem tudo corre como previsto.

Esta obra brinca constantemente com a figura típica da bruxa, ora associando-a a símbolos característicos desta figura ora desconstruindo determinadas imagens que as comunidades interpretativas a que pertencemos usualmente atribuem a estas representações ficcionais. Apesar de viver num castelo negro, a bruxa Mimi utiliza cores garridas na sua indumentária. Esta assume o papel de pessoa comum que, num dia de calor, vai para a praia, mantendo ao mesmo tempo atitudes própria de um bruxa, como, por exemplo, voar numa vassoura.

O texto é divertido, contando-nos mais uma das desventuras de Mimi de uma forma criativa e humorística.

A co-fusão do mundo real e do maravilhoso está presente no riquíssimo texto icónico que mistura personagens dos dois na mesma imagem. As ilustrações são cheias de vida e colorido transmitindo-nos um mundo bizarro cheio de simbolismo. Estas contam sozinhas uma história divertida, enriquecendo muito o texto escrito.

E se os sonhos tivessem sentimentos


Mimoso, Anabela (2002), Um Sonho à Procura de Uma Bailarina

Ilustrações João Caetano. Porto: Editora Âmbar 2002

ISBN: 972-43-0594-5

Idade recomendada 7 anos

O que acontece aos sonhos quando são abandonados é o que Anabela Mimoso nos conta neste original livro com ilustrações de João Caetano.

Anabela Mimoso é licenciada em História e doutorada em Cultura Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Actualmente, faz parte dos corpos directivos da Associação de Escritores de Gaia e é presidente do Clube Queirosiano.

Como escritora de literatura infantil escreveu entre outros: Era um Azul tão Verde, Quando Matam os Sonhos e Dona Bruxa Gorducha, distinguido em 1996 pela revista Whiteravens.

João Caetano é natural de Moçambique e tem o curso de pintura da Escola de Belas Artes do Porto. Desenvolve profissionalmente a actividade de ilustrador de manuais escolares e fez a ilustração de vários livros de literatura infanto-juvenil. Em 2001 recebeu o Prémio Nacional de Ilustração com o livro a A Maior Flor do Mundo, de José Saramago.

Introduzindo-nos no mundo dos sonhos, o livro de Anabela Mimoso apresenta-nos a história de um insólito encontro de uma escritora, à procura de inspiração, com um sonho.

Este era um sonho que uma menina tinha tido de vir a ser bailarina. Mas, quando esta entra para o colégio, esquece-o, colocando o tutu dentro de um baú. O sonho fica assim aprisionado até ao dia em que alguém abre o baú e o sonho foge e passa a visitar os sonhos das meninas à procura de uma em que pudesse viver.

É um livro cheio de magia que nos transporta para o imaginário dos sonhos, fazendo-nos relembrar os nossos sonhos perdidos e interrogar-nos acerca do que foi feito deles. Para as crianças é um livro muito interessante porque as transporta para o mundo do maravilhoso onde tudo parece ser possível.

A escrita de Anabela Mimoso está repleta de encanto, sendo capaz de prender o leitor na sua imaginativa história. A escrita consegue transmitir-nos a imagem de uma noite onde, apesar das actividades mundanas, aqueles que conseguem sonhar são capazes de ter encontros com ser fantasiosos, embalando-nos e conduzindo-os para o mundo do maravilhoso.

Este texto está acompanhado de belíssimas ilustrações de João Caetano que, em larga medida, reforçam a informação partilhada pelo texto escrito. A noite, espaço temporal onde os sonhos podem viver, está também muito bem recriada nas suas ilustrações, cheias de movimento e simbolismo.

Em conjunto, ilustrações e texto criam no leitor a imagem de um mundo maravilhoso onde os sonhos parecem poder ganhar vida.

É um livro cuja leitura se recomenda vivamente pela sua capacidade de cativar o leitor e o prender à história.

05 janeiro, 2007

Não me cortem as raízes…



Losa, Ilse (1996). Beatriz e o Plátano. Rio Tinto: Edições ASA.
ISBN: 972-41-0242-4
Ilse Lieblich Losa, escritora portuguesa de origem alemã e de ascendência judaica, nasceu a 20 de Março de 1913, em Bauer, uma cidade perto de Hanover. Frequentou o liceu em Osnabrük e Hildesheim e o Instituto Comercial em Hanover. Em 1930 tomou conta de crianças durante um ano, em Londres. De regresso à Alemanha e devido à sua condição de judia é perseguida pela Gestapo e é forçada a abandonar o seu país, refugiando-se em Portugal onde chega em 1934, radicando-se no Porto, casando com um arquitecto português e adquirindo, assim, a nacionalidade portuguesa.
Da sua vasta obra fazem parte romances, contos, crónicas, trabalhos pedagógicos e literatura infantil. Em 1984 recebe o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra para crianças e, em 1998 recebe o Grande Prémio de Crónica, da APE (Associação portuguesa de Escritores) com À Flor do Tempo.
Beatriz e o Plátano (com ilustração de Lisa Couwenbergh) é um livro que retrata a amizade verdadeira (para o bem e para o mal) entre Beatriz, uma menina corajosa e determinada, e uma árvore (um plátano) e as aventuras pelas quais Beatriz tem de passar para conseguir salvar essa árvore, que as autoridades decidem deitar abaixo para se conseguir um alargamento da praça, podendo, deste modo, obter-se um visionamento mais amplo do remodelado edifício dos Correios. Esta obra cativa o leitor, levando-o a querer descobrir o resto da história, página a página! Assim, ele está implicado na história, pois pretende-se, também, que este se sinta sensibilizado para a questão da protecção da natureza. No que diz respeito às ilustrações, estas acompanham o decorrer da acção, sendo esclarecedoras do que se passa na história.
Esta obra é, sem dúvida, um bom auxiliar para alertar/sensibilizar as crianças (e por que não adultos também…) para a necessidade da preservação da natureza, bem como para a importância e necessidade de uma grande amizade, capaz de enfrentar tudo e todos em defesa da sua amiga árvore, um verdadeiro monumento naquela praça! Uma árvore é um fiel amigo que devemos cultivar e, depois, ir regando com muito carinho e amizade! O exemplo da Beatriz devia ser seguido por todos nós, não vos parece?
Gabriela Silva e Olga Martins

Estão todos convidados!!


Saldanha, Ana (2002). Ninguém dá prendas ao Pai Natal. Ilustrações de Joana Quental. Porto: Campo das Letras (2.ª Edição). ISBN 972-8146-85-X

Ana Saldanha nasceu no Porto, em 1959. Licenciou-se em Estudos Portugueses e Ingleses, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tirou o mestrado em Literatura Inglesa, pela Universidade de Birmingham e o Doutoramento na Universidade de Warwick, no Reino Unido. Actualmente, é professora de Inglês no Ensino Superior Politécnico. Pelas suas obras, recebeu inúmeros prémios, entre eles a menção honrosa do Prémio Adolfo Simões Müller e o Prémio Cidade de Almada, ambos em 1994.
A ilustradora da obra, Joana Quental, é licenciada em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas-Artes do Porto, tendo obtido também um mestrado em Arte Multimédia. Em 1997, recebeu a Menção Honrosa no Concurso Nacional de Ilustração Infantil.
Uma vez que os leitores alvo desta obra são, preferencialmente, as crianças, a autora faz alusão a figuras muito familiares do universo infantil, do mundo imaginário e ficcional do qual faz parte o Pai Natal. Com efeito, as personagens que surgem são colhidas no mundo literário infantil, que tem como base os contos maravilhosos e tradicionais. Nesta obra, o Pai Natal, que se assume como a personagem central de todo o desenvolvimento da história (ocupando, deste modo, maior espaço textual) convive com as personagens de uma forma agradável.
O título desta obra suscita a curiosidade do leitor, pois esta é uma questão que raramente se debate. As crianças (à partida, o leitor alvo), salvo raras excepções, não pensam em oferecer prendas ao Pai Natal. No entanto, também é um título controverso pois, ao longo da história, o Pai Natal recebe não só presentes materiais, mas também a visita dos seus amigos. Ora, é neste sentido que, através de uma estratégia inovadora, a autora apresenta o Pai Natal como uma figura sensível e triste porque as pessoas só exigem e não retribuem os presentes por ele oferecidos no dia de Natal.
O facto de a linguagem ser informal, de carácter descritivo mas, sobretudo, divertido, pareceu-nos ser um ponto relevante. Na verdade, o narrador consegue envolver os leitores até à última linha, sendo capaz de penetrar no íntimo das personagens, revelando os seus pensamentos e as suas emoções.
Um livro que nos faz acreditar no Pai Natal...

Gabriela Silva e Olga Martins

A amizade acontece por acaso


Mota, António (2004). As andanças do senhor Fortes – N.º8. Colec. «Obras de António Mota». Ilustrações Teresa Lima. V. N. de Gaia: Gailivro

ISBN: 989-557-146-1.
Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura (4.º ano).


António Mota nasceu em Vilarelho, Ovil, concelho de Baião, distrito do Porto em 1957. É professor do Ensino Básico desde 1975. Em 1979 publicou o seu primeiro livro: A Aldeia das Flores. É considerado um dos mais importantes autores portugueses da literatura infanto-juvenil. Ao longo da sua vida já escreveu mais de cinquenta obras, algumas delas galardoadas com alguns prémios literários a destacar o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores em 1983 com O Rapaz de Louredo, em 1990 o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil com Pedro Alecrim, em 1996 recebeu o prémio António Botto, com A Casa das Bengalas e mais recentemente foi presenteado com o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil, modalidade ilustração, com Se eu fosse muito magrinho em 2004.
Teresa Lima nasceu em Lisboa no ano de 1962 e iniciou a sua actividade como ilustradora em 1990. Em 1998 ganhou o Prémio Nacional de Ilustração pelo conjunto de ilustrações de uma versão de Alice no País das Maravilhas de Lewis Caroll.
Publicada recentemente, esta obra retrata a história do senhor Fortes, um comerciante que transporta consigo uma mala cheia de coisas finas e delicadas que pretende vender nas ruas da sua cidade. No entanto, farto da correria da cidade e do mau negócio, decide partir para a província. Com a mala na mão, apanha uma camioneta que o leva até à aldeia de Loivos, onde encontra o pastor Arnaldo e a sua inseparável amiga, a cabra Ricardina.
Entre os três nasce uma verdadeira amizade que os leva a uma fantástica aventura.
Esta obra, além de retratar bastante bem as diferenças entre dois universos distintos, o campo e a cidade, enaltece o valor da amizade, aqui demonstrado pela relação existente entre o senhor Fortes, o pastor Arnaldo e a cabra Ricardina. É em prol dessa amizade que o pastor Arnaldo e a cabra Ricardina partem com o protagonista. “Gosto de Loivos, do meu rebanho. Mas também não te quero perder. Nem me posso lembrar que te vais embora e eu volto a ficar sozinho”.
Esta é uma obra de leitura fácil, com uma linguagem bastante acessível, capaz de agradar qualitativamente quer à criança quer ao adulto.

Ana Andrade e Susana Mota

O Poder dos Sonhos

Letria, José Jorge (2005). A Ilha das Palavras. Ilustração de Madalena Ghira. Lisboa: Oficina do Livro.

ISBN 989-555-103-4


A Ilha das Palavras, cuja ilustração ficou a cargo de Madalena Ghira, é uma obra de José Jorge Letria. Este autor, que nasceu em Cascais, a 8 de Junho de 1951, é o mais premiado escritor português da actualidade. Como escritor, distingue-se na poesia, no conto, no teatro e, sobretudo, na literatura para a infância e juventude. É também conhecido como jornalista e político dedicado à cultura, professor e dirigente associativo.

Esta obra conta, na primeira pessoa, a história de um menino que procura o lugar aonde os grandes escritores vão buscar as palavras para a sua inspiração, procura por todo o lado mas não consegue encontrar a ilha das palavras. Um dia, enquanto dormia, um papagaio diz-lhe onde fica a tão desejada ilha e o rapaz parte à sua procura, passando por alguns contratempos. Tendo-a encontrado, vê-se rodeado pelos grandes vultos da literatura e vive momentos magníficos. Vencido pelo sono, adormece e, ao acordar, encontra-se em sua casa na sua cama. Depois resolve passar para o papel a história da sua viagem.

No livro são notórias determinadas marcas de intertextualidade, quer através do texto icónico quer através do texto verbal. A nível do texto icónico, há expressões que activam a memória de leitor: “Ser poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens”, “armas, barões, assinalados” e “amar-te assim perdidamente; a nível do texto escrito, há menções a Ulisses, Bocage, Camilo Pessanha, Luís de Camões, Alexandre O’Neil, Cesário Verde ou Sophia.

Neste sentido, esta é uma obra muito rica, uma vez que faz bastantes referências a escritores, obras e mesmo à história do nosso país.

O texto e a imagem podem levar-nos ainda a considerar uma certa alusão à obra de Antoine de Saint–Exúpery, O Principezinho, pois, tal como em O Principezinho, o protagonista parte à procura de aventura e de um objectivo concreto.

As imagens, muito coloridas, sem um limite bem definido, ajudam a perceber que no sonho não há limites, e, misturando-se com o texto, completam-no.

O texto verbal e o texto icónico estão muito bem relacionados, o que desperta ainda mais a atenção do leitor e/ou ouvinte da história.


Mais Vale Só...

Soares, Luísa Ducla (2001). Todos no Sofá.

Ilustração de Leitão, Pedro. Lisboa: Livros Horizonte ISBN 978-24-1170-5

Todos no Sofá, com ilustrações de Pedro Leitão, é uma obra de uma das mais relevantes escritoras portuguesas na área da Literatura Infantil, Maria Luísa Bliebernicht Ducla Soares de Sottomayor Cardia. Esta autora nasceu em Lisboa, a 20 de Julho de 1939, e licenciou-se nessa cidade em Filologia Germânica. Publicou o seu primeiro livro de poesia em 1970 com o título Contrato. Esta autora tem-se dedicado, como estudiosa e autora, à literatura infanto-juvenil, tendo já publicado cerca de quarenta e cinco obras infanto-juvenis. Recebeu o "Prémio Calouste Gulbenkian para o melhor livro de literatura infantil no biénio 1984-1985" e o "Grande Prémio Calouste Gulbenkian" pelo conjunto da sua obra em 1996. Colaborou na página infantil do Diário Popular e na revista Rua Sésamo. As suas obras encontram-se traduzidas em diversos línguas, nomeadamente francês, catalão, basco e galego.

O livro Todos no Sofá é um álbum que conta a história de João Preguição e os seus nove amigos: um rato, um coelho, um gato, um pato, um porco, um burro, uma vaca, uma girafa e um elefante. Os dez amigos estão todos num sofá, mas, como é de prever, estão muito apertados. Ao folhearmos as páginas do livro, vão surgindo pequenas quadras sobre cada animal que, no texto icónico, salta do sofá. Depois do último animal sair do sofá, apenas o João lá fica, mas, ao contrário dos seus amigos, ele deita-se a dormir.

O livro termina com a seguinte quadra “Que bom é estar no sofá! Mas se nove amigos, entre eles um elefante, resolverem sentar-se ao nosso lado, o que acontecerá?” A pergunta cria um espaço em branco, ajudando a perceber que é bom ter amigos, mas, por vezes, é preciso estar sozinho.

O universo ficcional em que os animais são inseridos, quer pela autora quer pelo ilustrador, ajuda as crianças a perceber as diferenças entre os animais e a celebre frase “os animais são nossos amigos” é facilmente recuperada pelos leitores.


Quem ficará com a Égua Branca?


Andrade, Eugénio (2000). História da Égua Branca. Colec. «Palmo e Meio». Ilustrações Joana Quental. Porto: Campo das Letras (7.ª edição).
ISBN 972-610-352-5.
Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura (3.º ano).

Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas, nasceu a 19 de Janeiro de 1923, na Póvoa de Atalaia (Fundão). Escreveu os seus primeiros poemas em 1936, o primeiro dos quais intitulado de Narciso. Em 1947 torna-se funcionário público e, durante 35 anos, exerce as funções de inspector administrativo do Ministério da Saúde. Afirma-se como poeta em 1948 com a publicação de As Mãos e os Frutos. As suas obras são maioritariamente poéticas, tendo escrito apenas duas obras de literatura infantil (História da Égua Branca e Aquela Nuvem). Eugénio de Andrade foi galardoado com inúmeras distinções, entre as quais o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários em 1986, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores em 1989 e o Prémio Camões em 2001.
Faleceu a 13 de Junho de 2005, no Porto.

Joana Quental nasceu em 1969. Licenciou-se em Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes do Porto em 1992 e em 2001 concluiu o Mestrado em Arte Multimédia.
A sua actividade profissional tem-se repartido pelo desenho animado, multimédia, produção de material escolar, genéricos de televisão e ilustração de livros didácticos e de literatura infantil. Em 1997 recebeu a Menção Honrosa no Concurso Nacional de Ilustração Infantil.
A História da Égua Branca é uma narrativa, cuja protagonista, a Égua Branca, funciona como uma espécie de herança que o Cristóvão deixará a um dos três filhos. No entanto, como todos os filhos desejam a Égua Branca e como esta não pode ser repartida pelos três, o velho Cristóvão decide pedir ajuda ao seu amigo boticário. Este aconselha Cristóvão a pôr à prova os seus filhos. E assim o fez, confiou a Égua Branca durante três semanas a cada filho. E a partir daqui surgem três episódios distintos, dois com um final de carácter mais humorístico e um com um final mais dramático.
Quer as ilustrações, que aqui se apresentam como um forte apoio para a compreensão do texto, quer a simplicidade da linguagem, permitem ao leitor captar, de forma mais eficaz, as mensagens que o texto potencia.
Carregada de elementos simbólicos, a cor branca (símbolo da pureza) e o número três, esta obra faz um verdadeiro apelo à dedicação e ao afecto.
Apesar de todos os filhos do Cristóvão demonstrarem amor pela Égua Branca, nenhum soube tratá-la da melhor forma. Todavia, apesar de todas as aventuras, menos felizes, vividas pela protagonista, esta teve um final feliz.
É caso para dizer “Ninguém estima o bem que tem até que o perde".

Ana Andrade e Susana Mota

A Menina do Mar

A MENINA DO MAR

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu a 6 de Novembro de 1919 no Porto, e sempre viveu “envolvida pela literatura”, mesmo antes de aprender a ler, o avô ensinou-a a recitar Camões e Antero de Quental. A maternidade motivou-a a enveredar pela literatura infantil e assim surgiram para além da obra citada (1958): “O Rapaz de Bronze” (1956), “A Fada Oriana” (1958), “Noite de Natal” (1960), “O Cavaleiro da Dinamarca” (1964), “A Floresta” (1968) e “Árvore” (1985). Foi distinguida com vários prémios, entre os quais, em 1994, o Prémio Vida Literária, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores; no ano de 1999, o Prémio Camões, considerado hoje o reconhecimento maior e mais nobre que um escritor de língua portuguesa pode receber na sua área linguística, e mais recentemente com o Prémio Max Jacob.
Nos seus textos e particularmente no citado, evidencia-se um forte apelo às sensações visuais, tácteis e auditivas, através das quais se estabelece relação com a realidade criada pelas palavras. Percorrendo a sua obra, quer poética quer ficcional, encontramos sempre presentes os quatro elementos primordiais do Universo: a Terra (jardim, flor e árvore), a Água (rio, fonte, mar), o Ar (vento e brisa) e o Fogo (factor de transformação).
O mar, a imensidão do mar, o “mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim”, assume uma presença genesíaca e purificadora no presente texto, e, de um modo geral, em toda a obra de Sophia. Além do mar há a praia, a casa e os jardins que suportam e fazem a estrutura da sua procura de perfeição, pureza e harmonia (Elvira Moreira, 2002) e da difusão dos seus valores, sonhos, mistério, justiça.
O ilustrador do livro em análise, Luís Noronha da Costa, realizou uma manipulação sábia do texto icónico e demonstrou estar ciente das características da autora, optando pelas parcas ilustrações, o que dá à criança uma muito maior liberdade de imaginar e criar as personagens e os espaços, o que é suscitado fortemente pelo texto escrito, pela expressividade que a autora lhe imprime (forte apelo às sensações).
A obra em análise emerge da “paixão” pela natureza, particularmente, marítima da autora sendo muitos dos seus temas literários marcados por esta característica, como já foi mencionado: metade da minha alma é feita de maresia. Trata-se de uma narrativa que gira em torno da amizade que se cria entre o rapaz e a Menina do Mar e de todo o percurso que realizam até ficarem juntos para sempre. Os valores que imediatamente ressaltam desta obra são os da amizade, do amor, da pureza dos sentimentos, que se efectivam particularmente entre as duas personagens principais da narrativa (o menina e a menina do mar) e os seus amigos e protectores (caranguejo, peixe e polvo). E é a interiorização da importância desses valores que, na nossa perspectiva, a autora pretende difundir através da leitura da obra, para a vivência com o Outro em harmonia, contribuindo para o restabelecer do equilíbrio (valores tão enfatizado pela autora).
Trata-se de uma narrativa curta, pautada pela acção e aventura, pela contínua descoberta, pelo envolvimento puro das personagens principais, e pela atracção das descrições, que são feitas recorrendo-se essencialmente a substantivos, embora Sophia use também a adjectivação, que pode ser simples ou múltipla. Quer os substantivos quer os adjectivos possuem sempre significação simples, clara, quase sem transposição metafórica, e estão organizados de tal forma que nos parece estar a vivenciar a realidade por eles retratada, em que, para além de vermos, sentimos, tacteamos, cheiramos. Há nesta narrativa um apelo fortíssimo a todas as nossas sensações: “A praia estava coberta de espumas deixadas pelas ondas da tempestade. Eram fileiras e fileiras de espuma que tremiam à menor aragem. Pareciam castelos fantásticos, brancos mas cheios de reflexos de mil cores. O rapaz quis tocar-lhes, mas mal punha neles as suas mãos os castelos trémulos desfaziam-se.” A autora emprega portanto uma linguagem, ao mesmo tempo que envolvente e expressiva, clara e compreensível para as crianças, o que as cativa, estimulando-as continuamente para a leitura da obra. No entanto, Sophia retira ainda partido de outros “dispositivos” para cativar a atenção da criança, e são eles a constante referência àquilo que esta prefere e lhe dá prazer: os animais, os alimentos, os enfeites, as brincadeiras, que estimulam continuamente o seu imaginário. Animais que são humanizados pelas suas “funções” domésticas, familiares para com a menina: o polvo maternal que lhe pega ao colo, embala e alimenta e lhe “faz a cama com algas muito verdes e macias”; o caranguejo que é o seu fantástico ourives; o peixe o seu melhor amigo, enfim a menina é rodeada pela protecção e amizade de um conjunto de animais que são quase como sua família. Também, o recurso ao maravilhoso, que está sempre presente ao longo da história mas, mais claramente, nas figuras da menina e da Grande Raia, que “É enorme, tão grande que é capaz de engolir um barco com dez homens lá dentro”. E ainda, a narração, que embora seja feita muitas vezes na terceira pessoa, é também apresentada na primeira, quando cada personagem assume o discurso narrativo o que, na nossa perspectiva, acaba por, igualmente, constituir-se numa estratégia de aproximação do leitor. Repare-se que é nestes momentos de diálogo e narração na primeira pessoa que se percebe, com maior profundidade, as relações entre as personagens. Sobressai ainda o facto de as personagens não possuírem nomes próprios, como é o caso do rapaz: esta situação leva-nos a considerar que a autora faz destas personagens, personagens-tipo, relacionando-as com a infância. Esta realidade funciona, a nosso ver, igualmente como um apelo à imaginação da criança, visto que esta se pode perspectivar no papel das personagens. É ainda de salientar que este conto constitui uma narrativa aberta, susceptível de ser continuada pelas crianças, não só o seu final como cada um dos seus capítulos, pelo apelo sensorial que faz à sua imaginação, levando o leitor a recriar continuamente a história.
Por tudo o que foi apresentado, na nossa óptica, a autora, com a visão literária que difunde, desperta o leitor para a riqueza do texto literário, para a “magia” da palavra, sendo uma obra de incontornável preponderância, particularmente, no 1º ciclo do Ensino Básico.


Patrícia Almeida & Daniela Silva

O ELEFANTE COR DE ROSA



A obra em análise pertence ao Plano Nacional de Leitura, sendo direccionada para o 4º ano do Ensino Básico do 1º ciclo. Trata-se de um texto de Luísa Dacosta, que iniciou a sua vida literária em 1955, participando em numerosos periódicos e dedicando-se igualmente à tradução. O trabalho com crianças, enquanto professora do ciclo preparatório, desperta-a, dezassete anos mais tarde, para a literatura infantil, referindo que deve aos seus alunos o ficar ao lado do sonho, característica profundamente marcante nesta obra. As ilustrações, nesta segunda edição do livro, devem a sua originalidade e apelabilidade a Francisco Santarém, que cria uma envolvência icónica que em muito enriquece a história.
Os aspectos que, na nossa óptica, ressaltam, com maior evidência e significatividade, na obra, e que portanto serão objecto da presente recensão, dizem respeito à sua componente gráfica e icónica, às estratégias de aproximação texto-leitor que utiliza, à forte presença do maravilhoso que evidencia, ao universo de contrastes que apresenta, e, por fim, aos valores que vincula.
Podemos desde já incluir a componente gráfica e icónica no seio das estratégias de aproximação texto-leitor, um elemento paratextual de crucial relevância na obra captando a atenção do narratário bem como estimulando continuamente a sua curiosidade, em cada página que este esfolha. Este feito não é apenas conseguido através da originalidade e apelabilidade das ilustrações que, para além de acompanharem fidedignamente o texto, lhe atribuem uma maior expressividade, mas ainda pelo próprio grafismo do texto escrito, marcado por uma alternância do tamanho dos caracteres. Todas estas “situações” paratextuais lançam pistas ao leitor, onde este se poderá ancorar para uma melhor e mais fácil interpretação e compreensão dos sentidos implícitos inerentes ao texto. Repare-se que no decorrer do livro, a alternância de cores e de caracteres que se evidencia parece dar a entender diferentes e contraditórios “estados de coisas”. O livro inicia com a frase "no sonho, a liberdade...", o que conduz imediatamente o leitor para um mundo imaginário onde tudo é possível, situação que é alimentada pelas páginas seguintes: "Era uma vez um elefante cor de rosa…" De repente vira-se mais uma página e desconstrói-se imediatamente esta alusão ao sonho, mudam-se as cores, muda-se o cenário, quebra-se o encanto, “aterram-se os pés no chão” num mundo real onde "…não existem elefantes cor de rosa!! À distância de uma página o leitor reencontra a fantasia, na qual foi embebido numa fase inicial, volta-se a alimentar do sonho, da imaginação. Esta abordagem, alicerçada não só pelo texto escrito como por todos os elementos paratextuais, na nossa perspectiva, intrigam o leitor, envolvendo-o num estranhamento que o prende e leva, continuamente, a virar de página para se aperceber do desafio que o autor lhe impõe em cada segmento do texto. O próprio título do texto contribui para o apelo ao sonho, para o estímulo à imaginação do leitor, à curiosidade, constituindo, desde já, um convite à leitura da obra. O próprio discurso verbal utilizado é marcado por um forte carácter simbólico e sinestésico, recorrendo a expressões sensoriais e metafóricas que lhe atribuem uma expressividade que alicia à leitura, e ainda que transporta o leitor para o próprio imaginário que é evidenciado na história, onde este quase que pode experienciar na primeira pessoa tudo o que ali é retratado e vivido: "todos os dias, em águas límpidas os elefantezinhos bebiam o arco-íris e as estrelas, quando vinham banhar-se e matar a sede".
O recurso ao maravilhoso, desde já reflectido na citação anterior, está aqui profundamente demarcado não só na descrição das personagens, entre as quais o nosso elefantezinho, mas dos próprios mundos, onde emerge uma nítida contraposição entre o do protagonista da história e o planeta terra. No entanto outros contrastes se apresentam, nomeadamente entre a vida/morte; amizade, companheirismo/solidão. A história desenvolve-se portanto à volta destes sentimentos contrastantes, visto que o elefantezinho vai, progressivamente, descobrindo a oposição aos sentimentos “bons” que experienciara até ao momento, a partir da morte de uma simples, e ao mesmo tempo tão essencial, flor. Este percurso fará com que descubra o que é o sofrimento: "o elefantezinho deu pela primeira vez conta de que tinha coração e que nele havia um espinho". E aqui se dá o ponto de viragem da história, o conflito, o início da trajectória.
A história encontra igualmente o seu valor didáctico ao nível dos valores que promete, onde, envoltos no sonho e na imaginação, a entreajuda e a solidariedade prevalecem. Repare-se na essencialidade destes valores na actualidade, onde muitas vezes se vive e sobrevive num ambiente de frieza de sentimentos, onde a dureza da realidade não permite às pessoas sonharem e deixarem-se conduzir pela imaginação. E é muitas vezes nesse universo alternativo, de que fala o texto, que residem os melhores e mais sinceros sentimentos.

Patrícia Almeida & Daniela Silva