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31 maio, 2008

A Coragem do General Sem Medo


Autor: José Jorge Letria
Ilustradora: Evelina Oliveira
Ano: 2008
Editora: Campo das Letras



Esta narrativa constrói-se através da actuação de uma teia genealógica que, sustentando-se nos pilares fortíssimos da memória, se movimenta num espaço naturalmente edificado, que afasta intencional e deliberadamente esta ficção biográfica do lugar-comum da expressividade, corroborando a iconografia pictórica para expandir, junto dos seus leitores, as dimensões plurissignificativa e polissémica suscitada pelo texto, que faz emergir um dos “temas e figuras da História portuguesa” (2008:36).
A capacidade retrospectiva de um dos intervenientes desta ficção historiográfica – o Avô - contextualiza o enredo, aproximando-o o mais possível de aspectos factuais onde o Conhecimento surge como um capital simbólico que tende a tornar-se absoluto devido a ter sido presenciado e vivido com a “curiosidade infinita de quem quer descobrir o mundo” (2008:9), assumindo-se nesse papel o “neto Gonçalo” (2008:8).
A dinâmica coloquial intergeracional vai construindo o percurso de Humberto Delgado – o General sem Medo – assim designado devido à “coragem que (…), sempre demonstrou (…) sabendo que iria pôr a sua liberdade e até a sua vida em risco” (2008:15), apontando o narrador, nas datas e nos locais, as conexões ao real com o rigor que se exige nos relatos históricos.
Por outro lado, as vozes ficcionais demarcam os registos ideológicos de todos os intervenientes, assinalando os medos, os anseios, os sentimentos negativos, as crenças e as dúvidas, induzindo ao exercício de uma cidadania crítica construída através do saber pensar, questionar e agir.
Se “Gonçalo ficou a pensar no relato feito pelo avô” (2008:18), encontramo-lo no instante da interioridade por excelência – o espaço do sonho – a assimilar os paradigmas simbólicos que o General sem Medo representa em todo o enredo e a liderar o processo de construção da sua aprendizagem numa Escola enunciadora dos tempos mudados, onde a pedagogia colaborativa está representada nas acções dos alunos, na mediação da professora e na atitude participativa da família.
Os componentes emotivos gerados pela interlocução que a criança efectua com a professora (2008:22-25) acentuam mudanças significativas na atitude do adulto que medeia o Saber, sendo visíveis os ensinamentos que anunciam um interior motivado para o exterior real.
Tal facto, incrementa a valorização de Humberto Delgado que, mesmo “tendo em conta as dificuldades e fracassos da fase inicial da sua vida” (2008:36), encetou a busca por um ideário de Liberdade, chegando “até onde ninguém fora antes” (2008:36), surgindo nesta ficção biográfica como um herói que os mais novos tomarão como símbolo da condição do Homem que trespassa as barreiras do real, posicionando-se no lugar “muito distante e luminoso onde se devem sentar todas as pessoas de bem” (2008:39).

Teresa Macedo

22 maio, 2008

Ciclo das Fadas(3) - A Fada Atribulada

"Como pode uma fada tão pequena criar confusões tão grandes? A sua varinha está torta, as suas asas estão cheias de fita-cola e os seus truques causam sempre confusão! Mas é a fada mais querida de que há memória!" lê-se na capa do livro "A Fada atribulada - Uma Competição Mágica".
E aqui temos nós mais um livro, em que a personagem principal é uma fada! Mas esta, ainda anda na escola, onde a professora Asafirme dirige as suas alunas com amor, sem as deixar desviar, um segundo que seja, das suas obrigações. Contudo, a Fada Atribulada nem sempre está disposta a fazer as actividades da escola das fadas com diligência: " enquanto vestia o uniforme cor-de-rosa e calçava os seus sapatinhos de fada" pensava como "agora as aulas difíceis iam recomeçar!"
As histórias de fadas lembram-me sempre Nietzsche (1872) e a sua relação entre ciência e mito. Ele diz-nos que o aniquilamento do mito determina a expulsão dos poetas da República. Por poetas ele queria dizer os sonhadores, os criadores de utopias, e todos aqueles que carregam a chama do reencantamento. Reencantamento não como uma volta a um passado, mas como uma restauração ideal que reaproprie o presente, naquilo que o presente ofereçe como possibilidade de encanto. As fadas e as suas histórias são isto mesmo! Uma restauração da inocência perdida que todos buscamos e nem sempre sabemos encontrar!
O que queremos dizer com isto? Que muitas vezes o sentido que enunciamos ficou vazio, razão pela qual é necessário reencontrar a verdade da palavra: a união da palavra com a coisa enunciada. Daí a plenitude da poesia e do poder da palavra que as fadas, com a sua varinha de condão, tão bem sabem usar para fazer acontecer os nossos mais ínfimos desejos! Mas para isso, é necessário virar o mundo de cabeça para baixo. ..para podermos encontrar, outra vez, a sensação mágica das coisas.
Quanto à Fada Atribulada, da nossa história, ela ganhou as Olímpiadas das Fadas, que moravam na casa da árvore! Ela teve que saltar, pular, andar a cavalo, trepar pela corda, sempre com a Fada Arrepiada no seu encalço, a pregar partidas de toda a ordem! Os obstáculos vivenciados fizeram contudo da Fada Atribulada uma verdadeira FADA , que usava a sua arte como um exercício sensitivo e intuitivo, para uma nova forma de perceber, estar e pertencer ao mundo, tudo isto ligado a uma busca de soluções para os problemas que nos atropelam e ameaçam a nossa própria sobrevivência.
Termino este pequeno texto, sobre esta fada, que nos remete, como todas as fadas, para os mundos imaginários, apoiados nas raízes do passado e na criatividade do presente e que resgatam poéticas que dão um sentido à vida pela alegria, pelo lúdico e pela imaginação.

20 maio, 2008

Como se fazem as histórias?

Decorrem, na 6ª feira, dia 23 de Maio, pelas 15h00, na Sala de Actos do Conselho Académico (campus de Gualtar, Braga), as provas de Mestrado em Estudos da Criança - Análise Textual e Literatura Infantil, requeridas pela Lic. Rita Simões, subordinadas ao tema Como se fazem as Histórias? Os Exercícios de Metaficcionalidade em Obras Narrativas de Literatura Infantil Portuguesa Publicadas entre 2000 e 2006.

O Capuchinho Vermelho em debate

Decorreram, no dia 13 de Maio passado, com pleno sucesso, as provas de Mestrado em Estudos da Criança - Análise Textual e Literatura Infantil, apresentadas pela Lic. Mariana Couto, subordinadas ao tema O Capuchinho Vermelho: os Novos Sentidos de uma Velha História.

14 maio, 2008

Ciclo das Fadas (2) - As fadas do vento de Anna Dale

Alguém já se imaginou numa história voando pelos céus, em Londres do século 20? Bom, a história desta escritora britânica conta-nos como Joe, um rapazinho normal, surpreende todos quando conhece e convive com Twiggy, a sua amiga inseparável. Juntos vão resolver o mistério do desaparecimento de uma página do livro mágico e, nessa sua demanda, tornam-se inseparáveis e verdadeiros amigos.
Contudo, muitas vezes, Joe deixa a sua amiga em perigo, embora ela nutra por ele verdadeiros sentimentos de lealdade. Empurrado por impulsos destrutivos do seu inconsciente, Joe não percebe que, frequentemente, o perigo é real e verdadeiro, vindo ora do mundo empírico-histórico factual ora do mundo imaginário.
Mas, Joe reconsidera e ao compreender que deixou Twiggy realmente em perigo volta a correr para a salvar.
Neste livro, as fadas do vento têm um papel leve como a brisa. A sua presença, sempre suave e subtil, percorre o texto para nos lembrar que as suas palavras mágicas são sempre escutadas por quem tem ouvidos de criança. São elas também que nos dão “os nossos poderes mágicos” (2004:190) que são as nossas capacidades de lutar sempre o bom combate, pelo lado da verdade do bem e do belo.
Contudo, as palavras mágicas são apenas “murmuradas …aos poucos escolhidos…”.
Os que não fazem parte deste mundo, do outro lado do espelho, pensam que “… o poder de um grande intelecto… “ pode suplantar “a magia das fadas do vento e silenciá-las para sempre e libertando o mundo da magia”. (2004:191)

13 maio, 2008

Meu Portugal Brasileiro


Título: Meu Portugal Brasileiro
Autor: José Jorge Letria
Editora: Oficina do Livro
Ano: 2008

O romance histórico, recentemente editado, do escritor José Jorge Letria, autor que nos habituou a uma publicação regular de obras destinadas ao público infanto-juvenil, vem preencher um lugar de relevante importância no contexto da sua abundante produção literária, onde o destinatário adulto poderá encontrar conteúdos onde o Real e o Ficcional se entrecruzam, promovendo a compreensão de factos que, devido à sua complexidade e distanciamento temporal, doutra maneira estariam mais arredados da maioria dos leitores.
O Eu narrador, interveniente e espectador, toma a seu cargo a fidelização da factual transferência da Corte Portuguesa para o Brasil, em 1807, tecendo a trama de um enredo povoado por múltiplos rostos, onde a representação da infância não passa despercebida.
Com efeito, no meio da turbulência da partida, “nessas horas de aflição e de incerteza” (2008:37), encontramos as crianças “excitadas pela emoção do embarque (…), entusiasmadas com a possibilidade de irem conhecer por dentro navios de guerra” (2008:37) e, durante a viagem, “a brincar no convés com pedaço de cordame e inventando jogos com coisa nenhuma, usando apenas esse verdadeiro tesouro humano que é a imaginação” (2008:48).
Esta referência à Criança enquanto ser construtor e imaginante, inserida num contexto disfórico, acentuam o vínculo afectivo doado pela focalização narrativa onde os mais novos se destacam na sua capacidade de adaptação às contrariedades da vida, opondo-se aos representantes do mundo adulto menos receptivos a “lidar com a dureza da realidade” (2008:65).
De facto, no meio de uma agitada turbulência social e política inscrita na historicidade de Portugal e do Brasil, o porta-voz da narrativa deixa emergir um afecto especial por todos aqueles que ficaram mais arredados dos registos históricos, mas que não deixaram de participar, sofrer, agir e interferir nas transformações factuais e ficcionais, actuando junto dos principais intervenientes. O papel desempenhado pelas mulheres comuns que, por oposição às representantes da Corte, assume um estatuto de respeito, de abnegação e de orientação espiritual é disso um exemplo. Leonor, “amante das letras e das ideias novas” (2008:20), Marília que gostava de “ler e de ouvir música e tinha um gosto requintado e exigente” (2008:147), espírito antiesclavagista e partidário da independência do Brasil e Jandira com o seu “dom feiticeiro de enxergar o que os olhos não conseguem ver” (2008:111) são presença e grandes pilares de referência, representantes de um movimento de abertura ao Conhecimento quando se temia este poder nas mãos das mulheres.
O Povo é o rosto colectivo da eficácia simbólica, pois nomeado na degradante situação doada pelo abandono político, representa um Portugal de “espectros e de lamúrias” (2008:125) que só encontra eco da sua condição na histeria e na loucura de D. Maria, que entendia aquela viagem “uma traição à pátria” (2008: 25).
Desta forma, todos aqueles que, não sendo detentores de uma voz poderosa, ganham na ficcionalização um novo estatuto, onde se corporizam os valores emergentes de sempre, apoderando-se de condições que os incluem nos lugares de destaque e de grande observação discursiva, tal como acontece com os escravos, “portadores de saberes muito antigos, vindos do interior da África tribal, onde aprendiam, praticamente desde a hora do nascimento, a ler os sinais que a Natureza tinha para lhes transmitir” (2008:120).
Todos estes rostos são moldados por um artífice hábil em manusear a palavra, que tem o poder de descrever o ínfimo comportamento e de definir os múltiplos sentidos em domínios onde a poeticidade, a ironia e a cientificidade andam entrelaçados.
Se a estratégia de corporizar num narrador a vivência e a percepção de uma realidade multifacetada exerce um efeito dominante nesta ficção historiográfica, estas personagens conferem à narrativa um carácter integrador e valorizador dos que socialmente não são tão destacados e reflectem um acto de criação onde todos os aspectos da mundivivência humana são observados.
A circularidade da demanda do Eu da narração e o contorno das provações que põem termo ao distanciamento de um filho que nunca viu, encontra na exaltação do onírico a força cósmica capaz de doar o equilíbrio à sua interioridade, balizada por princípios axiológicos de permanente abertura à Alteridade, à Liberdade e ao Afecto dedicado a D. Pedro que “ se tornaria imperador de um país soberano” (2008:206).
Sem dúvida que José Jorge Letria ostenta, neste romance, a mestria de quem já percorreu múltiplos géneros literários, traçando as constelações semânticas que vinculam o mundo ficcional e o histórico-factual numa construção de excelente qualidade literária, da qual se deixam aqui alguns registos como convite a umas horas de fruição e de leitura.

Teresa Macedo