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19 fevereiro, 2008

Grandes Clássicos contados às crianças


Do teatro ao cinema e à banda desenhada os grandes clássicos da literatura têm sido profusamente adaptados, recriados e traduzidos. Figuras nascidas nas letras, como Dom Quixote, Vasco da Gama, Bewolf e Gulliver, entre outros, encontram-se hoje nas prateleiras de qualquer livraria e ganham novos rostos reinventadas por cartonistas, cineastas, ilustradores e escritores. Enquanto que, a maioria das vezes, tendemos a considerar as adaptações cinematográficas e de banda desenhada como novas produções estéticas, porque implicam uma nova linguagem utilizada (o filme e o desenho) já com as adaptações que utilizam o mesmo suporte (a escrita) somos mais comedidos nas apreciações, mais convencionais e tendemos a considerá-las, à priori, de menor qualidade.
A possibilidade de recriar textos numa tentativa de os tornar mais agradáveis sem que eles percam a sua essência é portanto o grande dilema das adaptações. Ninguém, hoje em dia, fora dos círculos académicos lê por exemplo, o “Bewolf”, escrito em inglês medieval com incidências germânicas nem o “ Paraíso Perdido “ de Milton com os seu versos brancos muito complicados sintacticamente, diz Sophii Gee, crítica literária do New Tork Times.
Sendo assim, será preferível encontrar novos formas de difusão, novos suportes, novas formas de ver, olhar ou mesmo escutar os clássicos da literatura?
Na nossa modesta opinião, as reescritas, criando um produto completo, não precisam ser um caminho para se chegar ao original que as inspirou, elas podem valer por si próprias. Tudo depende da qualidade de quem escreve a história, de quem ilustra a história, de quem dirige o filme ou de quem cria a banda desenhada. A arte é sempre apreciada por si própria e ela também é, ela própria, fruto de influências, intertextualidades, reescritas, memórias, ligações que se foram entrecruzando através dos tempos…
No caso das adaptações de grandes clássicos para Literatura Infantil e Juvenil as premissas são as mesmas no que respeita às perdas e ganhos. Perde-se agora o contacto com o autor original mas ganha-se o contacto com a essência da história. Esta, se foi bem recriada, proporcionará uma nova experiência estética através dos paratextos, estrutura, pontos de vista e personagens que, por sua vez, encaminhará o leitor para novos efeitos perlocutivos, para novas respostas pessoais e colectivas perante esta nova leitura.
A memória dos antigos é assim tirada dos alfarrabistas e é mantida viva, pois a reconstrução das suas histórias baseou-se certamente numa lealdade para com o novo leitor, mas também, sem dúvida, para com eles próprios.

18 fevereiro, 2008


Se identidade implica, um processo de diálogo com vista à recriação e reconstrução, através do texto, também poderá ser entendida como um processo de manutenção de determinados traços culturais e das relações que eles estabelecem com outras características culturais diferentes.Em “Making Sense” de Nadia Marks, escritora de origem cipriota criada em Londres, retrata-se a vida de uma adolescente que como ela teve que viver num país diferente: “Up until I moved to England, just three months ago, I knew exactly who I was, Julia Lemonides, fourteen years old, confident, popular, artistic, lively (…).” Em Chipre, Júlia tinha tudo: amigos, confiança, gloriosos dias de sol… agora em Londres teve que começar tudo de novo, sentindo-se uma outsider. O seu carácter fortemente determinado e o sentido de humor fizeram-na, aos poucos, recriar a sua identidade e adaptar-se ao novo clima e cultura, daquele país tão diferente e que ela tinha que abraçar por força das circunstâncias. Desta forma, podemos pensar o ensino da arte/literatura como um poderoso instrumento para revitalizar e resgatar a identidade, a diversidade e as singularidades culturais, na medida em que através destes percursos narrativos, se podem ultrapassar e romper barreiras ao mesmo tempo que se reflecte em torno dos princípios axiológicos fundamentais ao reconhecimento da alteridade, imprescindíveis ao constructo humano.Se a literatura como dizem Austin (1962), Searl (1983) e Iser (1978) se assemelha ao modo do acto ilocutório, “ (…) It takes on an illocutionary force, and the potential effectiveness of this not only arouses attention but also guides the reader’s approach to the text and elicits responses to it.” então, poderemos dizer que, a literatura infantil e juvenil tem uma ponderosa força perlocutória, impelindo à acção, apesar da manutenção do seu carácter ficcional. Assim, a leitura faz-nos reexaminar, por vezes, as convenções sociais e individuais perspectivando novas formas de estar e de sentir o mundo.

04 fevereiro, 2008

A Criatura Medonha – Novos Contos da Mata dos Medos, uma leitura de reverência e de reconciliação

Texto: Álvaro Magalhães
Ilustração: Cristina Valadas
(2007; 1ª ed. Texto Editores)
ISBN: 978-972-47-3686-0

ACONSELHADO a todos os que querem participar da verdadeira literatura para crianças e jovens

A propósito do 1º Congresso Internacional em Estudos daCriança: Infâncias Possíveis, Mundos Reais, que termina hoje, surgiu-me, e a propósito de uma simpática colega, que seria importante divulgar também no nosso blogue um texto que já foi publicado no jornal O Primeiro de Janeiro, no dossier "Das Artes, Das Letras. Afinal, é nossa obrigação divulgar sempre e cada vez mais o que de tão bom se faz para as crianças e jovens. E adultos também!
A Criatura Medonha – Novos Contos da Mata dos Medos (2007, Texto Editores) é mais uma belíssima narrativa «simples (sem ser pobre) que trata de uma recuperação da beleza do insignificante e do banal», como o afirmou recentemente o autor numa entrevista ao Jornal de Notícias, conduzida por Agostinho Santos.
De braço dado com o singelo, somos levados por uma espécie de torpor, em tudo semelhante a um estado de enleio que nos sugere, o que Gilbert Bosetti (Cf., 1987) refere como um retorno à infância do indivíduo e, por conseguinte, da própria Humanidade. O arquétipo da infância pura, contemplado nos vários diálogos levados a cabo pelo Ouriço, que não abdica de «ouriçar de barriga para o ar», mas desta vez a rimar porque é uma coisa que acontece em «dias extraordinários»; pelo Coelho que continua a recear o dia em que o mar poderá engolir a Mata dos Medos pois, e como ele bem afirma: «– Isto já não é como outrora» (Magalhães, 2007:8); pela Toupeira, desta vez menos preocupada em cavar túneis devido à queda de uma pinha que lhe acertou prontamente na cabeça e lhe apagou parte das memórias, inclusive, o significado de palavras como «outrora»; pelo Chapim, companheiro titular das preocupações e da vontade de trabalhar; pelo Caracol que continua a querer viajar seja «para Onde for» «seja lá onde for» (2007:17) mesmo depois de ter visto o mar, remete o leitor para um diálogo universal cuja transversalidade é assumida por todos os seres.
Talvez por isso o desejo de satisfação e bem-estar que sentimos ao entrarmos, de novo, no recanto daquele pedaço de terra nos permita, sem qualquer esforço, aceder à própria temática da união cósmica através da apreensão da imagem da reconciliação universal entre o Eu individual e pessoal, o Eu colectivo e social, e o mundo ao qual pertencem. Imbuída numa teia de significados alheios ao que de mais belo possa haver, esta é uma das imagens que se vê, quantas vezes, contraída nas malhas apertadas de uma consciencialização forçada, logo, ausente do verdadeiro sentido da metamorfose reflectida e da reconciliação desejada entre o mundo animal, humano e até vegetal.
O amor pelo belo, e o culto pelo rigor estilístico-formal de palavras sabiamente alinhadas num contínuo reajustamento do exercício literário, onde a ambiguidade semântica permite uma polifonia constante, levam-me à redundância no que diz respeito à obra de Álvaro Magalhães. Vejo-me, pois, e de forma aprazível (entenda-se), obrigada a tecer novos elogios ao autor que sempre soube indicar-nos o caminho «para a Ilha do Tesouro (…) seja ela onde for» (Magalhães, 2005. 21), fazendo da sua arte uma nova arte na arte de encantar. A tónica dominante, à qual o autor já nos habituou, espraia-se, mais uma vez, em todas as páginas desta deliciosa narrativa e deparamo-nos – não direi surpreendidos, mas antes agradecidos – com a capacidade de deslumbramento que A. M. causa no uso da palavra registada com dedicação. Ousarei, contudo, reconhecer nesta obra relativamente à obra inaugural Contos da Mata dos Medos (2003; Assírio & Alvim), um tom ainda mais afeito ao pueril e ao plácido. E, o namoro com esta obra (de continuidade, se assim lhe podemos chamar), igualmente ilustrada pelas mãos cuidadosas de Cristina Valadas, está, deste modo, assegurado, prevendo-se uma relação duradoura entre os leitores da descoberta (como gosto de os apelidar) e a obra em si.
Ora, parece-me ser este o momento para afirmar que, depois de alargadas as malhas, elevavam-se vozes de união, num apelo claro, ao sentido crítico do dever cívico, da responsabilização e da esperança. Ausente de quaisquer pretensões demagógicas, A Criatura Medonha – Novos Contos da Mata dos Medos, tal como a sua antecessora, propõe, num tom absolutamente onírico, uma recriação do mundo, construída à luz da imagem de um espaço geograficamente mítico – relembre-se, a propósito, a geografia mítica e o espaço de Centro de Mircea Eliade que sustentam a imagem arquetípica da criação perfeita (Eliade, 200:24-37) –, onde o dia a dia destes animais, puros na alma, engenhosos na permuta e fortes nas decisões, se faz através de uma aposta certeira no verdadeiro sentido da Vida: o da interiorização e resolução dos conflitos na demanda de um sentido colectivo, portador de valores como o da liberdade, da identidade e da alteridade. Então, certo será também afirmar que, mais uma vez, reconhecemos em A.M. a preocupação sentida em abordar as atitudes sociais de carácter colectivo, como as do desrespeito, do descomprometimento, e da desmistificação do Homem face à pureza fascinante do ser animal.
Se, e como já o referi num texto a propósito de Contos da Mata dos Medos, em A Criatura Medonha – Novos Contos da Mata dos Medos as personagens, criadas à moda dos contos tradicionais para crianças, continuam a primar por «uma constante busca identitária, onde os valores que defendem (…) têm um reflexo absolutamente positivo sobre o seu habitat natural» (Silva:2007), o convívio consciencioso, solidamente alicerçado nos sentidos da partilha, dos deveres/direitos, é a força axiológica desta narrativa. A reivindicação ao sonho e à posse do belo surge-nos impulsionada pela imagem do livre arbítrio, objecto da constante demanda do Homem que não se quer desintegrar de um espaço cosmogónico como, por exemplo, o da Mata dos Medos, onde a ideia da desumanização e da desintegração não pode coabitar com as pretensões dos animais da mata que usam de um contínuo relacionamento simbiótico com os seus semelhante e o espaço que integram.
A nota valorativa desta segunda obra, em consonância com a anterior, acresce, por um lado, de um sentido ainda mais aprofundado ao nível de uma leitura epicurista, onde até a presença dos conflitos é solucionada de uma forma colectiva e pensada para a reposição da ordem cósmica; por outro, de um inconfundível trabalho sobre a linguagem poética, marcada pelos típicos e autorais neologismos e brincadeiras sonoras que surgem na musicalidade das frases ditas para rimar quando o dia é «um dia extraordinário.» É, ainda, junto ao «Pinheiro das Ideias Brilhantes» que se imortaliza a recriação da própria harmonia do grupo na luta contra as adversidades vindas do exterior caótico.
Facilmente comparável à imagem mítica do Jardim e/ou da Ilha, como espaços edificados na pretensão do estado puro das coisas, a Mata dos Medos, especialmente o «Largo do Pinheiro Alto», onde cresceu o «Pinheiro das Ideias Brilhantes», efectiva as ideias da ordem e do «Cosmos Perfeito» (Eliade, 2001:43). As imagens da ancestralidade do homem mítico e da «Árvore Cósmica», referidas por Eliade (1999:55), reforçam a simbólica do espaço sagrado ao qual se conectam outras imagens arquetípicas, tais como as do nascimento ou (re)nascimento e da reconciliação com a própria natureza. Ora, o «Pinheiro das Ideias Brilhantes», deixa perceber o estado de maturação próprio ao acto de nascer e/ou renascer que se constrói pelo desejo mimético do Homem perante a imagem da união, que é a imagem ideal com a qual ele se quer identificar. Tal desejo de aproximação identitária permite entrever, aqui, o narcisismo cósmico de que fala Bachelard (1998:190), através do qual é realçada a dialéctica da imensidão e da profundidade, engrandecida pelo momento da contemplação que coloca o indivíduo em harmonia com o seu circundante, afastando-o do seu narcisismo individual de eremita, quantas vezes, dissocial.
Muitas são as ideias que constroem o fundamento desta segunda obra, criada à medida do essencial, e muito mais haveria a contar sobre estas personagens absolutamente admiráveis porque insubordináveis. Contudo, e para terminar, chamo à presença a última parte da narrativa que, por si só, dispensa qualquer tipo de asserção. Oiçam, pois
«– Hoje é um dia extraordinário para o Largo do Pinheiro Alto – repetiu o Coelho ainda mais alto. E continuou (…). Enquanto o Coelho discursava, os seus ouvintes foram fechando os olhos, um a um. Estava um calorzinho muito agradável e eles deixaram de ouvir o discurso e começaram a pensar em coisas cheias de calor.
Num instante, adormeceram. (…) O próprio Coelho adormeceu a meio do discurso, sem dar por nada, e ficou a ressonar encostado à primeira pedra que também era a última do muro que também era um dique e uma barricada. E uma calma extraordinária caiu sobre o Largo do Pinheiro Alto, algures no coração da Mata dos Medos» (Magalhães, 2007:63).


Referência bibliográfica:
BACHELARD, Gaston (1998). La poétique de l´espace. Paris: PUF. [1ª Edição: 1957];
BOSETTI, Gilbert (1987). Le Mythe de l’Enfance. Grenoble: Editons Littéraires et Linguistiques de l'Université de Grenoble;
ELIADE, Mircea (1999). La nostalgie des origines. Paris: Gallimard. [1ª Edição : 1971];
(2001). Le mythe de l´éternel retour. Paris: Gallimard. [1ª Edição: 1949];
MAGALHÃES, Álvaro (2005). O Brincador. Porto: Edições ASA;
SANTOS, Agostinho dos (2007). «Palavras que erguem mundos». [em linha], [consultado em 8 Out. 2007], disponível em http://jn.sapo.pt/2007/10/08/cultura/palavras_erguem_mundos.html;
SILVA, Gisela. «Contos da Mata dos Medos ou a Essência do Pueril». In Dossier Cultura. Braga: Diário do Minho, p. VII, 11 de Julho de 07.