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22 março, 2008

Percursos Leitores, Bibliotecas Escolares, Qualidade Educativa

O VI Seminário Internacional THEKA “Percursos Leitores, Bibliotecas Escolares, Qualidade Educativa” irá decorrer na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, no dia 28 de Março de 2008.

Este Seminário, de frequência gratuita, insere-se no IV Curso THEKA (2007/2008) e destina-se a professores, educadores, bibliotecários e investigadores interessados no desenvolvimento das Bibliotecas Escolares / Centros de Recursos Educativos.

16 março, 2008

O pardal de Espinosa


Autor: José Jorge Letria
Ilustrador: Daniel Silvestre da Silva
Ano: 2007
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-71896-9



Este texto, obedecendo ao princípio da ficcionalidade, executa a construção biográfica de Espinosa, filósofo de “muitas ideias” (Letria, 2007:5) e polidor de lentes, potenciando a compreensão de um conjunto de valores que, subtilmente, emergem através dos matizes semióticos que vão elaborando uma “grande vida”, levando as crianças a ter oportunidade de contactar com um dos grandes vultos da modelização da humanidade.
Atendendo aos destinatários preferenciais, o enfoque projectado no pardal enunciado no título da obra atende aos ambientes cognitivos dos seus leitores, preparando-os para a observação atenta que este mediador gnoseológico delineará. Com efeito, encontramo-lo no decurso de toda a narrativa, tomando a seu cargo o desenho do perfil de Bento Espinosa, dando conta da sua trajectória existencial e das rotinas simples que compõem o quotidiano deste pensador. O dialogismo que se efectua entre estes dois seres, em muitos momentos, demarca a compatibilidade entre os representantes de universos diferentes que se entrecruzam, complementam, solidarizam na necessidade introspectiva e comunhão ideológica que preenche as diversas situações de solidão e de rejeição vividas pela personagem principal. “Espinosa não gostava da rigidez e da intolerância dos chefes espirituais daquela comunidade e nunca o escondeu” (Letria, 2007:18); o pardal era “livre, rebelde e incapaz de ter dono” (Letria, 2007:8).
O carácter lúdico associado à construção ficcional desta biografia importa substancialmente, pois permite que as crianças possam alicerçar o gosto pela cultura e pela filosofia reflexiva, fundamentando um saber inscrito na observação crítica da realidade onde o lugar para exercitar as questões que circunscrevem o entendimento do mundo se faz com graciosidade. Os vectores ideológicos deste herói que nunca “parava de pensar em Deus, na Natureza e no Homem” (Letria, 2007:24) e que entendia que “a compreensão do mundo é um problema de geometria” (Letria, 2007:28) são traçados nesta interlocução harmoniosa.
O espírito abnegado, a vida misteriosa e intuitiva constroem o herói que por meio de severas austeridades e meditação atinge a sabedoria que o faz receber “a visita de figuras ilustres do seu tempo, desde filósofos de outros países” (Letria, 2007:30) e pressentir que a hora da “fama e da imortalidade iria chegar, embora ele já não estivesse vivo para a desfrutar” (Letria, 2007:30).
Se houve pessoas que temeram “os ventos de liberdade e de mudança” (Letria, 2007:37) preconizados na obra filosófica de Espinosa, creio que a construção ficcional desta biografia destinada aos mais novos é a garantia de que essa “nova forma de pensar o mundo, a religião e a vida” (Letria, 2007:37) se perpetuará.

Teresa Macedo

15 março, 2008

Sonhos na Palma da Mão ou o Sonho do Poeta?


Eis um tempo de férias para os mais pequenos e mais jovens também. Aqui deixo uma sugestão de leitura feita do apelo ao sonho, à serenidade, à reflexão. Usem e abusem deste Sonhos na Palma da Mão, pois sonhar é um alimento vital e a nossa mão, quantas vezes apenas oca, não sabe o quanto é possível agarrar um sonho!
Texto: Luísa DaCosta
Ilustração: Cristina Valadas
(2007; 2ª ed. Asa Editores)
ISBN: 978-972-41-3654-7




A propósito da narrativa Sonhos na Palma da Mão (1ª Ed. 1990 pela Porto Editora; reeditada pela Asa Editores em 2004, 1ª Ed., e em 2007, 2ª Ed.), e por este ser um dos factos que a torna uma das minhas predilectas, direi que neste conto de polifonias várias o que nos encanta é, sobretudo, e tomando emprestadas as palavras de Cláudia Sousa Pereira o poder respirar «o tempo antigo da tradição» (2002: 24), cunhado na sensibilidade estética de um convite à leitura quieta mas cheia de murmúrios de onde se desprende um Imaginário profundo em sensações.
As palavras introdutórias assumidas em forma de prólogo justificam a temática poético-simbólica escolhida, bem como um título que em tudo lembra a noção do aconchego e do trato delicado. Tratar-se-á de uma dádiva talvez, ou apenas de um agradecimento sincero àqueles que, tal como Andersen, usando da palavra sábia e cristalina, nos deixaram um registo literário vasto na arte de encantar que, ainda hoje, povoa as muitas bibliotecas particulares e públicas dos vários continentes.
A abertura espontânea da narrativa convida o leitor a entrar numa atmosfera de frescura e delicadeza, onde parece ouvir-se o chilrear de um rouxinol vindo do outro lado do mundo, lá dos lados do Oriente. A sinestesia da cor, que irrompe do apelo ao sentido da visão, povoa, por inteiro, a página que nos fala da China e do seu rio Amarelo. Importa apenas aqui perceber o momento da absoluta resolução poético-literária, que é entregue à narradora enquanto momento de criação ao qual todo o leitor deve aspirar. O rio Amarelo é comparado a «um guache espesso de sol derretido, a correr entre as montanhas azuis (…)» adornadas por um verde bambu (2007). E de repente, surge-nos, trazida pela memória de uma menina, uma das mais belas histórias de Christian Andersen, onde a simplicidade se retrata na beleza do canto de um desbotado rouxinol que era bem superior a todas as outras incontestáveis belezas do maravilhoso palácio do imperador.
Era capaz de jurar que todo o conto de Andersen se encontra espraiado nesta narrativa na sua mais pura essência, adoptando, pela voz de uma narradora sensível, a postura de um conto buliçoso, irrequieto, e promotor na arte de se (re)criar num conto contínuo de reconto. E surgem, assim, as demais versões da menina que, confiante na bondade do rouxinol – poder-se-ia quase afirmar, ali, conotativamente reproduzido à luz do rouxinol de Andersen – imóvel, pousado no arranjo floral da avó que mais parecia feito por mãos sábias e delicadas no uso das agulhas e dos fios também eles mágicos, colocava no seu ninho árido e sem vida sonhos para ela sonhar, na promessa de os ver chocar (Cf. 2007).
Sonhos na palma da mão é mais uma narrativa da imaginação, lugar esse de entrega para a criança e de excelência para o inexistente, para a fuga, ou para o sonho perpetuado até ao infinito. O apelo quase diário ao sonho, dirigido mudamente ao pássaro calado, e encantado, sempre que a narradora dormia em casa da avó e naquele quarto: «– Passarinho, querido passarinho, pousa um sonho na minha mão!» (Cf, 2007) retrata, sem dúvida, o apelo multiplicado pelas várias vozes de meninos e meninas que querem ter o privilegio de sonhar e de saber fazer, tal como esta menina, crescer várias histórias a partir de uma valiosa outra história já ouvida.
A dicotomia entre conceitos é imensa e retrata a pequenez que também se dá a ler sem qualquer constrangimento, o que provoca na menina a resposta típica de um ouvinte atento e curioso, pois se a China é espantosamente enorme como pode dar pássaros tão pequeninos? Queira ler-se, por favor, a grandiosidade simbólica de um pássaro que não era maior que a falange do dedo polegar comparativamente a um país de tão grande dimensão. Seria normal que algo tão grande pudesse produzir seres tão pequenos? A questão é legítima, mas a narradora é perspicaz e, pela sua constante insistência na demanda do sonho, cria histórias, que vai pondo a chocar não sem antes preparar a cena no palco da representação da narração.
Apelando à reflexão do leitor, Luísa DaCosta manifesta-se, nesta obra de sonhos ao alcance de qualquer mão, sobre a importância de um imaginário feito à medida dos contos de fadas, onde o maravilhoso-feérico permite a ascensão da metafísica e do predomínio do “Era um vez”. Surgem, então, as histórias do crescimento, da metamorfose e da identidade, como as daquelas mulheres retratadas nas três histórias que o rouxinol ajudou a tecer na mente daquela fazedora de histórias, sempre que esta ia dormir na casa da sua avó.
Perguntam-me se é essencialmente uma obra de potencial recepção infanto-juvenil? A resposta parece óbvia. Para mim, contudo, ela afigura-se absolutamente dúbia pois, a escrita desta narrativa concretiza-se, não na indicação de uma faixa etária pré-estabelecida, mas, a meu ver, na compreensão do que é a verdadeira riqueza do pluri-isotópico configurado numa leitura individual ou partilhada.



Referências bibliográficas:

PEREIRA, Cláudia (2002). «Dar palavras, trazer memórias, soltar sonhos» – Os livros que Luísa DaCosta escreveu para a infância. In malasartes [cadernos de literatura para a infância e a juventude], pp.13-26.

Gisela Silva