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29 dezembro, 2006

Leitura colorida

Soares, Luísa Ducla (2004). A festa de anos. Obra completa de Luísa Ducla Soares. 1ª Edição – 2004. Editora Civilização.
Ilustração: Chico
ISBN 972-26-2123-8

Luísa Ducla Soares nasceu em Lisboa a 20 de Julho de 1939, onde se licenciou em Filologia Germânica. O seu primeiro livro de poesia data de 1970 e intitula-se Contrato. Esta autora tem-se dedicado como estudiosa e autora à literatura infanto-juvenil, tendo já publicado cerca de quarenta e cinco obras infanto-juvenis. Recebeu o "Prémio Calouste Gulbenkian para o melhor livro de literatura infantil no biénio 1984-1985" e o "Grande Prémio Calouste Gulbenkian" pelo conjunto da sua obra em 1996. Colaborou na página infantil do Diário Popular e na revista Rua Sésamo. As suas obras encontram-se traduzidas em diversos línguas, nomeadamente francês, catalão, basco e galego.
O livro A festa de anos é uma fábula em forma de conto, com diálogo, no qual a autora conta a história de uma avestruz chamada Catrapuz que decide comemorar o seu aniversário na companhia dos seus amigos: a gatita Tita, o cão Sultão, o rapaz Tomás e a foca Pinoca.
Esta obra é uma história fantástica, que aborda valores tão importantes como a amizade e a cumplicidade. Apesar de simples, a história revela-se fortemente cativante seduzindo os seus leitores pelas emoções que se vão desenrolando até ao final. Além disto, proporciona ao leitor um contacto feliz com a literatura, pois pode servir como um eficaz instrumento de promoção do gosto pelos livros e pela leitura em contexto pré-escolar.
Olhando para o livro pode-se ver uma avestruz e umas fitas coloridas alusivas ao título da obra, captando muito a atenção do leitor não só pelas imagens, mas sim pelo jogo de cores. Folheadas as primeiras páginas, ainda nos prendemos mais à história devido à quantidade de cores ilustradas bem como o tamanho das figuras, o que apela à festividade.
Os elementos paratextuais deste livro fornecem ao leitor um mundo de animais, muito colorido, onde todos são felizes e amigos. Por outro lado, o leitor criança, ao ter o primeiro contacto visual com o livro, depreende logo que vai ser um momento de festa, de alegria não com crianças, mas sim com animais. A autora dá um papel especial à actuação de animais, figuras que, na linha fabulística tradicional, acabam por representar, com subtileza, comportamentos humanos. Este é um universo ficcional muito risonho e adequado às preferências das crianças. Para miúdos com dois, três anos, este livro ajuda a aprender as cores e a identificar objectos de tons semelhantes. É nisto que Luísa Ducla Soares mantém a clareza e o ritmo da linguagem que se espera para que os mais novos se mantenham atentos.
Ao ler e interagir com a obra pude reparar que a única marca de estranhamento visível na mesma são os animais personificados, pois ao longo do texto não foram encontradas marcas de estranhamento, para além desta, porque, por ser um livro destinado a crianças pequenas, a linguagem deve ser, e neste caso é, acessível para que elas não percam “o fio à meada” e o interesse pela mesma. Porém, a forma como termina a história, com uma adivinha, talvez possa ser considerada uma marca de estranhamento, mas que se torna interessante pois o leitor tão cedo não esquecerá esta “festa de anos”, tentando concluir que bicho é que sairá daquele grande ovo.
Quanto aos espaços em branco constatei que não existem, ou seja, o leitor não pode imaginar nem fantasiar o que acontece, como são os animais, à medida que lê a história. “A festa de anos” tem como cenário expressivas ilustrações, com um jogo de cores fantástico e animais grandes e coloridos. E por esta obra ser muito infantil, a falta de espaços em branco cativa e prende a criança à história pois se esta se perder da narrativa tem sempre uma bonita imagem que apela à sua atenção.
A pluri-isotopia na obra está presente no texto icónico e não na narrativa. Por exemplo, a imagem da gata a voar com os convites para a festa de anos da avestruz Catrapuz. Um leitor mais adulto pode interpretar esta imagem como um acontecimento muito importante, ou seja, as estrelas são cintilantes e brilhantes o que pode levar a crer que a avestruz Catrapuz, por fazer anos, quer-se sentir uma estrela e este dia é tão importante que a gata até voa para poder entregar os convites. Penso que esta é uma imagem que pode suscitar várias interpretações.
Além disto, as perguntas retóricas, como por exemplo a adivinha final, deixam qualquer pessoa a pensar. Pois a sua ligação com a última imagem mostra-nos que a avestruz choca o ovo, mas que olha para o céu o que pode levar a crer que a avestruz está em pensar em qualquer coisa, mas esse pensamento já fica ao critério dos leitores, à sua imaginação, criatividade e interpretação.

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