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06 setembro, 2007

O Sonhador: uma leitura de apelo à Imaginação




Texto: Ian McEwan
Ilustração: Anthony Browne
Editora: Gradiva – Publicações, Lda (2007 [1ª Ed. 1995)]
ISBN: 978-972-662-408-0
Aconselhado: A todos os que sabem observar, reflectir e abrir os braços ao sonho!


Este é um livro que me chegou pela mão querida de quem sabe o que significa ler o Imaginário na sua essência mais pura. O Sonhador (2007 [1ª ed. 1995]) é uma narrativa do já reconhecido escritor Ian McEwan, prestigiado por vários e importantes prémios literários britânicos e que se estreia, assim, de forma espectacular na literatura de potencial recepção leitora juvenil.

Abre-se o livro e a epígrafe reclama, de imediato, a nossa atenção para a noção da metamorfose que, de forma mais ou menos evidente, ou mais ou menos consciente nos faz seres sociais. E certo é que a intenção autoral que se lê por detrás das palavras do poeta Ovídio: «“O meu objectivo é falar de corpos que se transformam em formas de outro tipo”, Metamorfoses, Livro I» in O Sonhador, se dá a ler de forma absolutamente completa. McEwan parece propor um livro de contos feito de um conto só: o da metáfora da vida enquanto espaço cosmogónico do Ser em crescimento e da aprendizagem, mas, essencialmente, da curiosidade e experiência premeditadas.

Ousaria afirmar que O Sonhador reclama, no avançar da leitura, a consciência do sujeito-leitor para as diferentes formas do querer existir num estado de co-existencia diária obrigatória. Ousaria ainda dizer que esta narrativa, onde a metamorfose poderia adjectivar-se de psicológica, física, metafísica, familiar, e de outras tantas, se transforma numa macro-metamorfose: a do indivíduo social, responsável (na sua essência vivencial) pela força da imagem da identidade do Eu, que por si só nos reporta para a temática da mutação, quer pela dupla corporalização dos seres, quer pela antropomorfização dos objectos.

Pela voz de um narrador hábil no trato com as personagens, Peter é-nos apresentado logo no primeiro capítulo como uma «criança difícil» mas que nunca reconheceu ou entendeu tal caracterização. Afinal «não despejava Ketchup por cima da cabeça a fingir que era sangue, nem sequer dava com a espada nos tornozelos da avó (…), comia tudo» e não era nem mais nem menos do que os meninos da sua idade. O que haveria então em Peter que o tornava assim tão difícil? Peter, segundo os adultos, «era difícil por ser tão calado, e gostar de estar sozinho» (2007: 9)!

Como invejo (não se compreenda aqui a carga negativa da expressão) a sabedoria desse menino de dez anos que, por querer, sabia viver à margem de determinadas condicionantes sócio-familiares às quais nos subjugamos usando, quantas vezes, de um mau estar que nos torna tão iguais a todos aqueles que ousamos criticar. É pois esta falta de resignação de Peter Fortune, que gostava de estar sozinho para «poder pensar à vontade», que me cativa. Sereno, tranquilo e alheio à forma estupidamente rotineira dos adultos, a personagem do conto representa o Ser Simbólico, que pela evasão cria o seu próprio real empírico.

O quotidiano de Peter é narrado num equilíbrio que nada revela de precário, como se da consciência individual da personagem se tratasse, onde realidade e fantasia se cruzam, deixando que o leitor possa aceder a uma das mais espectaculares situações de literariedade: a do verosímil vs inverosímil enquanto marco preponderante no rompimento com ideologias pré-estabelecidas.

É pois o acto de saber compactuar com o autor que gostaria de destacar nesta obra absolutamente literária, e remeter para a poeticidade do Imaginário que dela emerge. Apelando sistematicamente à participação do leitor, que pode experimentar de um todo a partir das várias aventuras levadas a cabo pela personagem principal, somos levados por este “sonhador” convicto, à primeira grande metamorfose do Ser consciente, o que nos permite conhecer Peter (num dos episódios da obra) enquanto o sujeito activo da participação. Assim, este é induzido pelo seu próprio gato William a participar no jogo da permuta, o que o leva a ousar trocar de identidade com este.

O episódio relatado é de uma intensidade descritiva tal que não nos é sequer possível questionar o estado ficcional retratado, e a mimésis estética torna-se efectivamente completa: gato-rapaz e rapaz-gato transformam-se num só ser identitário. A morte de William fecha o capítulo com chave de ouro, sentindo-se na imagem da morte a imagem da própria cumplicidade estabelecida entre este narrador particularmente consciente, o Eu, e o objecto da sua identificação versus alteridade.

O leitor não se deixa contudo ficar e entra de rompante na mais inverosímil das histórias: a do «Creme de desaparecer». O mini-conto inicia-se com uma observação absolutamente trivial, que nos remete para a imagem do lar. Os Fortune, como qualquer outra família, têm também aquela típica «gaveta da cozinha», que, quando indicada, se distingue de todas as outras gavetas.

As considerações tecidas pelo narrador, sobre a respectiva gaveta, levar-nos-iam para outras tantas considerações sobre a noção de pertença, contudo, o que mais importa é a noção de descoberta realizada pela presença de um «pequeno frasco azul-escuro com uma tampa preta» (2007: 51) que contem o creme de desaparecer, e que Peter irá usar intencionalmente para apagar toda a sua família. Descuidado, o leitor poderia deixar-se pensar que o narrador quis transformar a personagem principal num psicopata assassino, capaz de matar a própria família, usando de um método eficaz e limpo. Bem, não me parece que o nosso leitor se deixe enganar por uma preguiça qualquer. Dado que este se mantém em diálogo literário com o escritor, o leitor sabe que a intenção autoral foi apenas a de suscitar reflexões plurais sobre as noções de identidade / alteridade que em cada um de nós marcam a diferença ou a similitude com o outro, e que são, hoje mais do que nunca, tema de debate para muitos dos mais jovens.

O Sonhador faz-se, assim, de sete pequenos contos, onde se deixam ler as mais diversas experiências de vida que se balizam entre os momentos do sonho, os da realidade empírica e os da realidade sonhada. Caso assim não fosse, este magnífico ensaio sobre a vida de todos os dias não terminaria com o reforço das imagens da liberdade e do sonho, que parecem estar ao alcance de cada um de nós quando nos convidam a olhar o mar e a participar da descoberta de um tesouro: «– Descobrimos um tesouro, Peter! – Vou já – respondeu Peter. – Vou já! – E começou a correr em direcção `a beira-mar. Sentiu-se ágil e leve ao deslizar sobre a areia. «Vou descolar», pensou. Estaria a sonhar ou a voar?» (2007: 115). Eu já vou indo. E vocês? Venham. Voar é saber ir para além do sonho!


Gisela Silva

1 comentário:

Natália Augusto disse...

Minha querida Gi

Este livro é efectivamente delicioso. Cativante! O teu texto reflecte a magia da obra e o poder que esta exerce no leitor.
Ian McEwan consegue cativar o seu público-alvo: os jovens. Assevero-te que os jovens que o lêem se identificam com Peter Fortune e se isso não acontece na íntegra, porque nem todos são tão sonhadores, as sucessivas metamorfoses ou acontecimentos inusitados fazem-nos entrar nesse universo simultaneamente onírico e poético.
Os autores que escrevem para o público juvenil conhecem bem os seus gostos, as suas angústias, as questões que se colocam numa fase das suas vidas em que tudo muda: o seu corpo, o seu sentir, a sua necessidade de afirmação. Ainda estão entre o paraíso da infância e o mundo real do adolescente, por oposição ao do adulto.

Adoro ler-te, amiga.

Continuação de bom trabalho.