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13 abril, 2008

Mozart, o menino mágico


Autor: José Jorge Letria
Ilustrador: Gabriela Sotto Mayor
Ano: 2006
Editora: Ambar
ISBN: 972-43-1102-3



Associo à leitura desta narrativa o poema “O essencial está na música” do mesmo autor, pois a correlação intertextual que se estabelece é íntima no conteúdo e no poder metafórico da linguagem que neles se patenteia, revelando um poeta/narrador conhecedor profundo do “horizonte da música ( 2006:12) e com uma sensibilidade rara à “matéria cantante de que é feita” (2003:397), matéria que se evoca e regista na ficcionalização biográfica de “Mozart, o menino mágico”.
Enunciaria, ainda, a subtileza com que esta narrativa define o destinatário preferencial que, longe de o perspectivar sob um prisma de reduzida competência hermenêutica, dá-lhe mecanismos para decompor a polissemia de alguns termos que são apresentados no espaço cénico da casa, ou seja, o lugar do devaneio (Bachelard, 2003), que a leitura desta obra poderá realizar.
Com efeito, uma “janela” voltada para a “rua” anuncia a “lonjura dos caminhos” (2006:14), que demarcará o percurso predestinado e ascensional de “Amadeu”, menino detentor de uma existência bipolarizada entre o prodigioso e precoce domínio “da música que nasce, irrequieta, dos seus dedos” (2006:14) e um desenvolvimento psico-emocional que o inclui ao longo de todo o acto narrativo na permanência na infância. O facto de ser “sempre menino” (2006:18) confere-lhe um sentido Divino associado à mitologia poética, que observa a infância como uma idade sagrada, miraculosa e sublime, potente e misteriosa, pois encerra o segredo de uma capacidade que o faz “mestre”, instintivamente apaixonado pela música que “abraça o corpo esquivo da palavra” (2003) e é “balanço subtil da alma dentro do texto” (2003).
Ele corporiza um plano imanente que se vai revelando na afirmação das forças que movem a encarnação individual e as directrizes mítico-simbólicas que se lhe associam, configurando-o como um guia imbuído de qualidades superiores, capaz de edificar o cosmos onde se integra: “ele é o único habitante capaz de pôr ordem nesse universo, de lhe dar harmonia, sentido e voz” (2006:30).
Mozart simboliza o “si-mesmo” da harmonia psíquica pois, tal como os deuses criadores do mundo, é capaz de reunir os opostos com total autonomia e liberdade. Concretiza a vivência infantil no acto de tocar, desvinculando-se dos objectos tradicionalmente usados na infância, reactualiza a sua condição de criança ocupante de um mundo adulto, não deixando, porém, de exercer, através da mimese, a ligação a esse mundo: “às vezes, lembra-se que ainda é menino e em vez de música deixa uma pirueta, uma careta na lembrança dos cardeais e duques” (2006.18).
Perante este deambular interior por universos distintos, só no onírico é que concretiza a percepção do real, observando que o triunfo “é um tapete de espantos e vénias que se desenrola a seus pés” (2006:22), porque o milagre da criação não lhe deixa tempo senão para compor “sempre, com uma pressa só igual à de quem corre contra o tempo” (2006:29). Sem dúvida que a vida plena e exaltante encontra no limite temporal a grande barreira que “lhe magoa o peito” (2006:37), porque uma “vida inteira (…) seria breve para toda a música que tem dentro da sua cabeça” (2006:37).
Ambos os textos assinalam a “dimensão trágica do Requiem” (2003) e nos dois há um “pássaro”, símbolo dos ambientes sombrios, nictomorfos, acolhedores do sofrimento e da resistência à Morte. Desta forma, Mozart, a “eterna criança” prepara a sua desencarnação da matéria e a ascensão ao lugar da perenidade da memória. Aqui, e no registo deixado na construção ficcional desta biografia, encontrará o território onde, por excelência, a redenção se efectiva e que, tal como a música, “ninguém a verá cativa/de um ofício de escrita que a ignore” (2003).
Teresa Macedo
Bibliografia:
Bachelard, Gaston (2003 [1ª Ed. 1989]). A poética do espaço. S. Paulo. Martins Fontes.
Letria, José Jorge (2003). O Livro branco da melancolia in O Fantasma da Obra II. Lisboa. Hugin, 397-398.

2 comentários:

manuel disse...

Ao não passar esta obra pelas nossas mãos não podemos dizer muito ou pouco do livro só basear-nos nas palavras analiticas ou hermeneuticas de quem isto analisa.Podemos dizer que ambos JJ Letria e M Teresa M dsifrutan desse lugar comum, o mar.Este livro é uma pequena obra treatal que fu estreada no final do 2007, podemos afirmar que a metade das obras de JJ Letria quase duzentas, a metade estan dedicadas ao mundo da infância e mole juventude, mas de meio século entre peito e costas tem muito que dizer. A polissemia que a professora Teresa menciona pode dar lugar , na vida real, e os dá, lugar à interpretacion de diferentes significados, mas ela experta no trabalho de JJ Letria sabe mergulhar nesse mar das palavras para discernir umas de outras.Quando? este polifacetico portugues , beira seu nome en uma rua da velha Cascais ou a enamoradiza Lisboa, 200 obras e mas de 40 prêmios lhe abalan

Teresa disse...

Agradeço o comentário. Não sei responder à pergunta final. Só sei dizer que esse nome (per)corre várias ruas, caminhos, aldeias e cidades nas palavras que enchem os livros e as memórias dos leitores. E isso, para já, vai-me tranquilizando.