Ocorreu um erro neste dispositivo

Translate

Follow by Email

29 novembro, 2007

Contar Historias

SANTOS, Margarida Fonseca (2006). Histórias de Cantar.
Lisboa: Juventude Musical Portuguesa, 72 págs.
ISBN 972-99892-2-2

Histórias de Cantar é um livro de canções para crianças – constituído por “um leque de canções já ‘testadas’, ou seja, ensinadas e corrigidas, quando foi o caso, [e] cantadas por vários grupos de crianças, sabendo-se de antemão que a reacção é favorável” (p. 56) – da autoria de Margarida Fonseca Santos – diplomada com o Curso Superior de Piano, foi professora na Escola Superior de Música de Lisboa (ESML); tem vários livros publicados. As canções são ilustradas por Carla Nazareth – licenciada em Design e Comunicação pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa – e publicadas através da partitura para voz e piano, cuja orquestração é de Francisco Cardoso – licenciado em Formação Musical pela ESML; pós-graduado em Psychology for Musicians na Universidade de Sheffield; lecciona na Escola de Música do Conservatório Nacional e na ESML. O livro traz um CD, com duas versões para cada canção: uma cantada e outra sem voz. Contém ainda um texto pedagógico e três relatos de experiências pedagógicas nas quais a autora participou.
O objectivo de Margarida Fonseca Santos “será sempre o de conseguir que todas as artes possam ser interligadas num mesmo projecto […], porque será por projectos multidisciplinares e abrangentes que vamos conquistar as crianças, seja para a música, para o teatro, para a dança, para a escrita, para as expressões plásticas” (p. 58-59). Na opinião da autora, “quanto mais se interligarem as artes, mais a aprendizagem e o crescimento emocional e artístico serão sólidos” (p. 5). Não admira então que, através deste livro (e não só!), nos incentive a desenvolver “projectos multidisciplinares e abrangentes, […] encarando sempre a passibilidade de alterar [os] caminhos e partir para novas experiências.” (p. 59).
É um livro destinado a um vasto público, pois tem diversos motivos de interesse. Poderá ser muito útil aos professores, aos educadores e até aos encarregados de educação, pois compreende “material passível de ser usado por qualquer pessoa, independentemente do seu conhecimento da escrita musical” (p. 5). Através das canções e do desenvolvimento de projectos, conforme sugerido, é possível trabalhar imensos conteúdos artísticos (musicais, literários, teatrais, …). Porém, as crianças são o seu principal destinatário. As palavras da autora são elucidativas, quando diz que “gostaria de contribuir para que as aulas de música dos mais pequenos (porque á dessa faixa etária que estamos a falar, embora esta afirmação seja verdadeira para todas) sejam cada vez mais preenchidas com música” (p. 56). Como cada escola, cada turma, cada criança é diferente das outras – e deve ter-se em conta a individualidade de cada uma – torna-se difícil dizer até que idade é sensato ensinar estas canções. Porém, a minha experiência lectiva diz-me que crianças até aos 11/12 anos de idade as cantam com bastante agrado.
Tive a sorte de ter sido aluno da Profª Margarida, na disciplina de Pedagogia da Formação Musical I, quando frequentei a ESML. Na minha opinião, a Profª Margarida, além de outras qualidades, sabe analisar e compreender as necessidades dos alunos. Estas canções foram fruto do seu prazer em ser professora e da sua dedicação aos alunos. Por outro lado, tendo uma vasta e rica experiência lectiva, particularmente no ensino artístico, soube avaliar o seu trabalho como docente e tirar conclusões. Talvez seja por isso que tem uma forte convicção e um objectivo – atrás explicado – que tem vindo a divulgar, transmitindo ideias organizadas e claras. Histórias de Cantar é mais um exemplo dessa divulgação.
Na introdução, a autora conta que “este é um livro de canções escritas para meninos especiais, os meninos com quem fui trabalhando ao longo dos anos e que me inspiraram a ‘brincar’ às composições” (p. 5). Demonstrou-lhes, assim, todo o seu carinho e dedicação. De imediato lança um desafio, ao exprimir que “gostaria muito que os professores, pais e educadores o encarassem como o contar da história de alguns caminhos que experimentei e que, espero!, experimentem também” (idem). As canções são anunciadas por uma ilustração e pela letra, nas duas páginas anteriores. Segue-se, então, a partitura para canto e piano, com os acordes para acompanhamento à guitarra. O CD tem uma faixa sem canto, “para que qualquer profissional, não especializado em música, possa utilizar [este] material de uma forma satisfatória. Ficam assim de lado os problemas da dificuldade de leitura da escrita musical ou do acompanhamento harmónico das canções” (p. 55). Porém, Margarida Fonseca Santos não se limita a disponibilizar estas canções. Aborda as estratégias “que [lhe] parecem mais importantes para o desenvolvimento musical da criança” (p. 57), dá “algumas pistas para fugir da rotina” (p.56) e exprime a sua opinião – fruto da sua experiência e reflexão. Reafirma e fundamenta a sua convicção e o seu objectivo, afirmando pensar “que é da interligação entre as artes que se chegará à verdadeira educação artística. Projectos que englobem a música, a dança, a escrita, o teatro, as artes plásticas são muito ricos em aprendizagens e permitem que cada criança envolvida dê o seu contributo numa ou mais áreas, não deixando de se envolver em todo o processo” (idem). Não se cansa de aconselhar, visando ajudar os professores e educadores a obter resultados mais consistentes. Por exemplo, “podemos – e devemos! –, sempre que possível, variar as harmonizações ou mesmo construir novas harmonizações com a ajuda das crianças” (p. 57). A interligação das artes que Margarida Fonseca Santos defende é muito coerente com a sua vida de professora, na qual, a dado momento, “a música e a escrita começam a coexistir” (p. 58). Assim, estimulou a integração de todas as artes num só projecto, “trazendo as mais-valias de cada uma para o resultado final” (p.58-59). Seguem-se as descrições de experiências “bem sucedidas!” (p. 59). No âmbito do Projecto MUS-E Portugal, a ideia foi “construir com os alunos as canções de Natal” (idem). Em termos musicais, partiu-se “do vocabulário e do conhecimento prático daquelas crianças (baseados no trabalho sensorial e nunca teórico) […], em termos de construção de texto, já tinham ouvido, lido e experimentado muitas formas de o construir.” (p.59-60). Na turma A, começou-se pelo texto, na turma B pela música. “O resultado? Uma sucessão de aulas extraordinariamente divertidas!” (p. 60). Relativamente ao Projecto sobre O descobrimento do Brasil, “a proposta era falar sobre o acontecimento. Parti assim para a escrita de uma peça de teatro […]” (p. 63). Após ter reunido com a turma para que sugerissem mudanças, passou-se à fase seguinte – as canções. Depois dos ensaios, o espectáculo foi apresentado. “E calculo que nenhum deles se tenha esquecido de como foi a chegada dos portugueses ao Brasil…” (p. 63-64). Quanto ao Atelier de Escrita Criativa integrado na aula, pretendeu-se “construir um conto musicado, ou seja, construir uma trama que seria narrada ao mesmo tempo que a orquestra fazia a ilustração musical” (p. 64). A autora descreve as várias etapas até à apresentação em palco. “Pena foi só se ter feito uma única apresentação… Isso sim” (p. 68).
Trata-se de um livro de uma professora com uma boa formação humana, musical e humanística, experiente e entusiasta, que também se tem dedicado a orientar acções de formação, cujo principal objectivo é ajudar a melhorar o desempenho dos professores. Na minha opinião, este é um livro que fazia falta. Em Portugal não há muitos livros e/ou CD’s para crianças com tão boa qualidade como este (qualidade das canções – melodia, letra, harmonização, orquestração, interpretação; cuidado tido na apresentação do livro – ilustrações, tipo de letra, tipo de papel, …), notando-se, até nos pormenores, um grande respeito pelo público mais jovem. Deve salientar-se igualmente as propostas pedagógicas que a autora sugere, que são sustentadas pelos relatos de algumas das suas experiências lectivas. Um livro de canções para crianças é, ou deveria ser, também um livro para os adultos. As propostas pedagógicas e os relatos presentes neste livro reforçam essa tese. Este é, portanto, um livro adequado a pessoas de todas as faixas etárias.
Identifico-me com as concepções pedagógicas narradas, pois é também minha opinião de que, regra geral, a vivência dos fenómenos facilita a sua apreensão – particularmente nas crianças. Por outras palavras, a vivência sensorial deve preceder o conhecimento consciente. E, após ter lido e reflectido sobre este livro, fiquei ainda mais convencido… Não pude, no entanto, deixar de reparar que todas as canções são tonais e estão no modo maior. Além disso, em quase todas elas a divisão do tempo é binária. Fazem falta, creio, canções tonais em modo menor – e até canções modais, ou escritas noutra organização sonora – e mais canções com divisão ternária do tempo – e até, porque não, com outro tipo de escrita rítmica. Além disso, pese embora a boa qualidade do piano electrónico, penso que seria preferível o uso de um piano acústico. Porém, creio que estes factos – que não tiram qualquer mérito a esta publicação –, não foram deliberadamente planeados pela autora. Foram, possivelmente, apenas fruto das circunstâncias.
Aconselho todos os professores – mesmo de outras disciplinas –, educadores e até encarregados de educação, a lerem e a reflectirem no conteúdo escrito de Histórias de Cantar. Penso que este é um livro essencial, nesta época em que tanto se fala de interdisciplinaridade e de articulação entre disciplinas, pois contém uma proposta pedagógica testada com sucesso, logo, na minha opinião, muito oportuna. Assim, pela qualidade das canções, das interpretações e da gravação – além, claro está, da proposta pedagógica –, recomendo esta obra a todos os que pretender presentear as crianças (ou os adultos!).