Ocorreu um erro neste dispositivo

Translate

Follow by Email

02 junho, 2007

Contos da Mata dos Medos ou a essência do pueril



Ontem foi o aniversário de um dia bem especial: o Dia Mundial da Criança, talvez por isso, voltei ao ponto de encontro neste nosso blog de partilha para poder, de uma outra forma, desejar imensos dias felizes, ao sabor do Dia Mundial da Criança, a todas as nossas crianças. Por continuar a acreditar que é na descoberta do livro que elas poderão perpetuar a grandiosidade desse dia, proponho-me solicitar a todos os responsáveis pelo seu adequado crescimento que ele se festeje, não apenas de forma festiva como é habitual e uma vez por ano, mas diariamente no simples compromisso da leitura, para que elas se sintam sempre maravilhadas na descoberta do novo e do entusiasmante.






(2003; 1ª ed. Assírio & Alvim)
Texto: Álvaro Magalhães
Ilustração: Cristina Valadas
Colecção: Assirinha
ISBN 978-972-37-0856-1
ACONSELHADO para uma leitura de PARTILHA, onde a vontade de continuar está assegurada!

Apeteceu-me iniciar este texto com um convite bem pessoal e dizer: pegue nos seus filhos ou nas suas crianças, se puder hoje ou, então, num futuro muito próximo, e venha divertir-se e aprender na «Mata dos Medos», que fica lá para os lados de todo o lado, mas onde a vida se lê de uma outra forma.
Esta obra nasceu de um projecto de parceria, levado a cabo por Álvaro Magalhães e Cristina Valadas, e descreve o quotidiano de umas encantadoras criaturas que coabitam numa mata do concelho de Almada. Estas belíssimas criaturas, animais distintos no porte e na determinação, pertencem contudo, dada à mensagem veiculada na obra, não só à «Mata dos Medos», mas a todos os outros pedaços de terra que nos rodeiam e onde ainda se pode ouvir os sons da natureza.
Mais do que uma sugestão, tomarei em consideração o propósito desta leitura que deverá fazer-se de coração aberto e em parceria com os mais pequenos.
O encanto que nos seduz desde a primeira página prende-se com a consistência literária que este conto de contos (como aprendi a chamar-lhe) possui, e que aponta como principais responsáveis a capacidade que ele tem de criar, sistematicamente recriando, momentos de absoluta fruição, bem como a consistência de uma consciencialização face ao dever ecológico de cada um de nós.
Neste universo fascinante, onde a solidariedade e a permuta são verdades essenciais, o desconhecido apresenta-se numa aventura surpreendentemente calma, mas cativante, onde o tempo parece querer parar para uns e correr para outros, originando uma leitura plurissignificativa em valores e aprendizagens.
Criadas à moda dos contos tradicionais para crianças, as personagens dos Contos da Mata dos Medos primam por uma constante busca identitária, onde os valores que defendem – consoante a sua espécie, costumes ou simples vontade – têm um reflexo absolutamente positivo sobre o seu habitat natural. Neste lugar, onde a imagem da vida quotidiana se deixa ler de forma ajustada, tudo se faz à medida de cada um, mas num projecto de profunda partilha para o bem da colectividade. Se uns querem “ouriçar”, como o Ouriço ou a Lagarta (que se nega a fazer tudo o que as outras lagartas fazem habitualmente, e por isso foi baptizada pelo Ouriço de «Processionária-Não»); outros regem o seu modo de vida pelo empenho e pela persistência, como o Chapim que anda «sempre a correr de um lado para o outro e, por isso, nunca [está] em lado nenhum»; outros ainda, como o Coelho, preferem viver em contínuo sobressalto, desconfiando que o pior há-de vir; enquanto que outros como o Caracol optam viver na busca do sonho eterno. Por isso todos os anos, teima em ir ver o mar que nunca viu, o que o torna feliz por fazer «sempre uma grande viagem e tra[zer] muito que contar».
Contagiada pela deliciosa personagem Ouriço, que gosta de «ouriçar de barriga para o ar a apanhar sol (…)», mas que não deixa de interferir assertivamente na vida que se cria à sua volta, procuro apreender essa atitude serena e de absoluta auto-satisfação que a personagem tem para consigo e para com os outros habitantes da mata. Aconchegada na vontade de «ouriçar», deixo-me levar, tal criança curiosa, pelas páginas deste texto e descubro que afinal «ouriçar» não é, de modo algum, partilhar de uma indolência molenga e infrutuosa. «Ouriçar» obriga ao compromisso de realizar uma tarefa de suma importância: ter tempo.
Sugiro, agora, uma sucinta reflexão que nos permita compreender o que é isto de “realizar uma tarefa para ter tempo”. Ficaram admirados? Pois eu também fiquei. É que ter tempo significa estar «muito ocupado a ouriçar», como explica o Ouriço, e «ouriçar» é «o que calhar», ou seja, querer fazer algo, seja o que for, logo que nos satisfaça. Esta forma deliciosa de ser, criada pelo autor permite-nos subverter as normas do habitual e recorrer, em prol da nossa defesa (veja-se que nunca nos passou pela cabeça querer ouriçar!), à dicotomia existente entre o que significante e o significado pois, ter muito o que fazer afinal também pode significar não ter o que fazer, por isso «não fazer» isto ou aquilo, e ousar ter um «dia não». Um «dia não» que é apenas é um dia de não fazer, e não o dia não que costuma ser o responsável pelos nossos azares. É o tal dia que nos permite usufruir daquilo que nos aproxima da verdadeira essência da vida na partilha da própria felicidade, tal como o Ouriço, a Lagarta e, mais tarde, o Chapim que o fazem com agrado.
O jogo dialéctico, que se contemporiza entre as noções da denotação/conotação e na própria criação de expressões neologistas (criadas pelo Ouriço), ajusta-se às vivências e aventuras destes animais e concretiza, mais uma vez, o estilo literário do autor que adora brincar com as palavras, libertando-lhes o sentido. É pois na voz destas personagens que, na «Mata dos Medos», se constrói diariamente a recriação da própria ingenuidade e do estado puro das coisas. Parece-me inclusive que as ideias jovialmente inscritas no texto assistem a uma fluência absolutamente icástica das palavras que, quase soltas, porque libertas, se enfileiram, uma após a outra, na divulgação de uma mensagem plural: a da solidariedade descomprometida, típica dos puros de coração; a da compreensão de uma amizade enraizada no verdadeiro sentido do comunitário; a da partilha e da entreajuda sistemáticas entre os seres biologicamente diferentes, mas socialmente iguais.
Muitas são as ideias que constroem o fundamento desta obra criada à medida do essencial, e muito haveria a contar ainda sobre estes bichinhos irrepreensivelmente admiráveis porque tão puros e transparentes nas suas atitudes e desejos, contudo, ficar-me-ei, e já em jeito de conclusão, por uma questão (primordial ou não) que se prende com o ser-se ou não feliz e que perpassa as folhas deste livro. Esta é pois a «Pergunta Terrível» que todos evitam, mas que foi feita ao Chapim, que nem sabia se era feliz ou não, mas que desde então deixou de dormir e se sente, como afiança aos amigos, infeliz: ««O que se passa contigo?» perguntou a Toupeira. (…) o Chapim desatou a chorar. «É a maldita pergunta», disse, ele, entre soluços. «Não quero pensar nela, mas penso. Não me sai da cabeça. Por causa dela esqueço-me das horas, troco tudo, ando perdido no ar sem saber o que estou a fazer. É horrível»» (Magalhães, 2003: 40). O Caracol, por sua vez, julgando ter visto o mar, de regresso ao lar encontra-se dividido entre o estar feliz ou o já não poder estar feliz só porque já realizou o seu grande sonho: «Até que enfim, Caracol. E que tal é o mar?» Quis saber a Toupeira «É um mar como outro qualquer», respondeu ele sem entusiasmo. «Gostei mais do momento antes de o encontrar. Os momentos durante não são tão bons e o momento depois ainda é pior.» «Não estás contente?» «Estou. Porque vi o mar. Mas também estou triste.» «Porquê?» «Porque vi o mar. Agora que o encontrei, já não o posso procurar»» (2003: 53).
Esta reflexão, sobre algo tão difícil como o suposto conhecimento do que é afinal ser-se feliz, obrigar-me-ia a uma reflexão minuciosa sobre os hábitos, quantas vezes contrários à prosperidade do cosmos e da própria harmonia que defendemos como nossos e a uma avaliação pessoal, mas não é este o propósito deste texto. Desejo apenas que fiquemos a pensar e que pensemos, sobretudo, no tempo que dispensamos, de relógio em punho, às nossas crianças.
Num apego forte à mensagem aqui presente, quero apenas salientar que este texto, criado a partir do olhar atento e circundante, regista nos vários momentos em que se constrói, a preocupação autoral do belo, do simples, e do amor pelos animais, o que o transforma num pedaço de terra lavrada onde se cumprem a excelência do culto ao puro e ao natural. Acrescento ainda que o dom especial que particulariza a escrita de Álvaro Magalhães nos assegura que a certeza da satisfação plena se faz quando reconhecemos, que «apenas [estivemos] a ser», como aconteceu com o ansioso Chapim da «Mata dos Medos» que, por fim, aprendeu a estar «só a ver, a cheirar, a ouvir», o que lhe permitiu sentir algo que nunca tinha sentido: «respi[ar] profundamente, e a mata inteira respi[ar] com ele».
Gisela Silva