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01 junho, 2007




“Mais vale uma égua na mão do que duas a galopar”

Andrade, Eugénio (2000). História da Égua Branca. Caminho.
Ilustração: Joana Quental
ISBN: 9726103525


Eugénio de Andrade, o autor deste livro após algumas tentativas juvenis que mais tarde repudiou, impôs-se definitivamente no panorama da actual poesia portuguesa com As Mãos e os Frutos (1948). Contemporâneo dos movimentos neo-realista e surrealista, quase não acusa influência de quaisquer escolas literárias, propondo uma poesia elementar, cuja musicalidade só encontra precedentes na nossa lírica medieval, ou num poeta como Camilo Pessanha.
O livro História da Égua Branca tem como ilustradora Joana Quental que, em 1992 obteve a licenciatura em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas-Artes do Porto, tendo em 2001 concluído o Mestrado em Arte Multimédia. A sua actividade profissional tem-se repartido pelo desenho animado, multimédia, produção de material escolar, genéricos de televisão e ilustração de livros, nomeadamente didácticos e literatura infantil. Em 1997 recebeu a Menção Honrosa no Concurso Nacional de Ilustração Infantil promovido pelo IPLB e IBBY.
O título da obra em análise, remete-nos desde logo para um texto narrativo, no qual Égua Branca é a personagem principal. Juntamente com o título, a ilustração presente na capa apresenta a protagonista, bem como os principais intervenientes na acção.
Quanto às ilustrações é de realçar o seu carácter apelativo, capaz de reter a atenção do leitor, devido às cores alegres e vivas que o induzem para uma narrativa voltada para a natureza, para a amizade e adequada ao público-alvo. Estas fornecem ainda, uma pista relacionada com as categorias temporais (estação do ano, Inverno), através da observação da indumentária dos jovens (casacos + carros); o que não coincide com o texto: “Era Agosto…”.
Esta obra é destinada aos leitores dos 5 aos 8 anos de idade, devido à grande simplicidade e acessibilidade quer no estilo, quer na linguagem, em termos de compreensão. E nesta, como na maioria das narrativas infantis, de fundo pedagógico, prevalece o real e o bem sobre o artificial e o mal.
A acção deste livro desenrola-se no sentido de um único fim e em volta de um problema do qual o narrador relata três episódios, cada um concluído com uma peripécia, as duas primeiras de fundo humorístico e a ultima de fundo sério e moralizante.
Cristóvão tinha três filhos, e como forma de agradecimento por não se terem esquecido do seu aniversário decidiu dar-lhes algo que eles quisessem. É nesta altura que se inicia a acção principal pois todos os filhos queriam a égua. Cristóvão pede ao boticário que o aconselhe e assim confia a égua ao seu filho mais velho, António (primeiro momento), depois deixa a égua com o seu outro filho, Joaquim (segundo momento), e por fim ao seu filho mais novo, João (terceiro momento), com quem a égua acaba por ficar.
Tendo em conta tudo isto, podemos encontrar relações de natureza intertextual entre a obra História da Égua Branca e a história Os Três Porquinhos, pois em ambas a acção desenrola-se em três momentos. Tal como a égua passou pelos três irmãos (três momentos importantes mas distintos), também o “lobo mau” passou pelas casas dos três porquinhos. No entanto o desenlace de cada um destes contos é diferente assim como a moral da história.
Quanto às marcas de estranhamento nesta obra não existem, pois toda a acção decorre dentro da normalidade e do que é real. Além disto, não existe muita possibilidade para o preenchimento de espaços em branco, visto ser um texto que contém bastantes imagens que ajudam a completar a leitura e interpretação do texto. No entanto, esta obra, pode levar-nos a imaginar sons em determinados momentos da história de forma a enriquecê-la.
Segundo a Teoria da Cooperação Interpretativa de Umberto Eco, o receptor tem uma importância crucial na descodificação do texto, logo, a leitura é uma modalidade de interacção entre o texto e o receptor. E isto verifica-se nesta história, pois é estabelecida uma relação de proximidade entre o narrador e o narratário através do recurso à ironia, situações humorísticas, segmentos textuais inacabados.
Em suma, esta obra é uma obra que retrata uma lição de vida apelando à fidelidade e à sinceridade. Pois o verdadeiro interesse de João pela égua prevaleceu devido ao facto deste a aceitar e gostar dela pelo o que ela é e não pelo que ele desejava que fosse, ao contrário dos seus irmãos.

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