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01 junho, 2007


“A sabedoria da infância”

LETRIA, José Jorge (1994) O Menino Eterno (1ª ed.).
Ilustrações de Henrique Cayatte, Porto: Livraria Civilização Editora.
ISBN 972-26-1032-5.


José Jorge Alves Letria nasceu em Cascais, a 8 de Junho de 1951,é um jornalista e escritor português. Como escritor distingue-se na poesia, no conto, no teatro e, sobretudo, na literatura para a infância e juventude. E segundo ele, a sua poesia «é muito marcada pelo amor e pela tentação da felicidade que integra o amor. Uma espécie de sede de absoluto que o amor representa enquanto horizonte.».
O Menino Eterno é um conto maravilhoso, retratado como uma lenda oriental. O narrador apresenta-nos esta obra dividida em quatro capítulos sequenciais bem delimitados, onde a história de Pi Wang, Um Camponês Sábio (Letria, 1994: 3), nos transporta através de uma viagem fantástica ao mundo do “eterno”.
Os paratextos com que nos deparamos no nosso primeiro contacto com esta obra contemporânea da literatura infanto-juvenil, são os que estão presentes na capa, contracapa, lombada e badanas.
Mas é na capa e na contracapa do livro aberto, que se forma uma só imagem, de onde se realçam indivíduos que aparentam ser orientais e uma árvore que preenche metade da contracapa.
A capa dura e as folhas espessas, asseguram a transição a um leitor que está a chegar à faixa etária dos 9 anos. O leitor adulto, ao contactar com este livro, tem desde logo a percepção de que está a ser “apresentado” a uma obra de um autor reconhecido.
Na óptica do imaginário e do fantástico, o título ao iniciar-se com o artigo definido “o” deixa de ser um menino eterno para ser “O Menino Eterno”, aludindo à sua autenticidade, a que ele é único. As ilustrações de Henrique Cayette remetem o leitor infanto-juvenil para o mundo do fantástico, associado às lendas do oriente, onde tudo é passível de acontecer.
Este livro conta-nos a história de Pi Wang, um velho camponês que afirmava que as crianças têm nos olhos "toda a sabedoria do mundo" (idem, ibidem: 5). Desiludido com o rumo dos acontecimentos, Pi Wang, apenas com a companhia de um falcão, refugia-se no cimo de uma montanha deserta, onde por intermédio de um segredo bem guardado, vai proferindo as palavras mágicas que um peregrino lhe ensinou. Ingere o preparado e torna-se de novo menino. Só então desce a montanha e encontra um mundo que, apesar de ser o seu, lhe é estranho.
A obra infanto-juvenil Os Olhos de Ana Marta, tem uma forte presença intertextual com O Menino Eterno. O sonho, obsessivo, que povoa O Menino Eterno, à semelhança dos Olhos de Ana Marta está simbolizado na infância que transfigura a morte e nunca parte. A eterna infância em Os olhos de Ana Marta, é personificada na presença “viva” de Ana Marta em toda a narração, em todos os personagens, passeando-se por toda a casa, vigiando com os seus “olhos” os passos da irmã e votando a uma solidão e isolamento, quase total da vida, a Flávia, sua mãe.
A importância das pequenas coisas, quer elas sejam do âmbito humano ou da Natureza, é o valor primordial que sobressai da leitura e interpretação desta obra. A importância da criança, referida como quem tem “nos olhos – explicava ele – toda a sabedoria do mundo” (Letria, 1994: 5) e a renovação da Natureza, o ciclo onde nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma, desde que a saibamos respeitar.
O menino eterno, o menino que nos acompanha com a sua omnipresença no dia-a-dia, o menino da obra literária mais lida em todo o mundo, está também presente em O Menino Eterno. Se analisarmos a capa e contracapa como um único elemento, notamos toda uma significação de um momento Bíblico impregnada na ilustração. Um monte, os pastores e os reis magos com as prendas para o menino que os aguarda nas palhas “sentado”. Sentado, porque este Menino Eterno está representado por um sábio ancião, nesta obra, no lugar de Jesus Cristo que nasceu menino, mas predestinado a ser o Messias, a voz de Deus Pai todo-poderoso e a sua voz na terra, afinal a voz de toda a sabedoria.
Enquanto decorre a nossa leitura da obra, somos transportados por quatro capítulos que correspondem às quatro estações do ano. A analogia deste facto remete-nos para quando Pi Wang responde aos camponeses, dizendo-lhes que “-A Natureza tem desta coisas. Tem as suas regras e as suas leis. Porque não havemos de lhe dar um pouco mais de tempo?”(idem, ibidem: 5-6). Desta forma, ele remete toda a sua sabedoria para a Natureza e para o tempo.
Da mesma forma, se analisarmos as alterações icónicas na mudança de capítulos, somos confrontados com a passagem das estações através de uma árvore (simbolizando a Natureza) em que a queda e renovação da folha se alia ao passar do tempo (que tudo cura) e nos convida a todas as vezes que acabamos a obra, a reiniciar o ciclo, voltando à Primavera.
Em síntese, a imagem do eterno está bem presente nesta obra, quer na capacidade da natureza se renovar mas também de nela se desabrochar, sempre, uma vida nova.

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